Diariamente, após um dia de trabalho cansativo, servindo pratos de tortas e canecos de cerveja caseira aos clientes de sua loja, Mrs. Lovett, no intervalo entre o término de suas orações e o adormecer, colocava-se a pensar sobre diversas situações e pendências ocorridas durante o dia. Era-lhe natural utilizar deste momento de calmaria para refletir sobre sua vida. Porém, nos últimos dias, um assunto diferente surgiu, tornando-se frequente e tirando-lhe boas noites de sono tranquilo.

Desde quando seu velho amigo, Sweeney Todd, retornou do exílio e tornou-se seu inquilino, velhas lembranças e fortes sentimentos mal resolvidos despertaram na cozinheira. O seu amor não correspondido pelo barbeiro gritava em aflição dentro de si, ansiando por uma resposta, mas esta mostrou-se forte o suficiente para lutar contra essa afeição e dar por encerrada essa história, desistindo da tentativa de realizar um sonho de sua juventude.

Ela lutara bravamente, evitando encontrar nas ações de sr. Todd qualquer sinal que a desviasse de seu compromisso, até este tornar-se uma missão impossível.

Foi em uma quarta-feira, quando, deitada, preparando-se para dormir, Eleanor Lovett percebeu que seus únicos pensamentos se relacionavam ao sr. Todd. Fossem as roupas a lavar, as quais estavam suas camisas manchadas de sangue, sua produção de tortas utilizando dos cadáveres dos fregueses do barbeiro — "os de baixo servindo os de cima" — ou as idas à mercearia com o seu auxílio para carregar algumas sacas pesadas de compras; tudo parecia ter alguma ligação, fazendo-a, ao fim, sempre pensar sobre ele.

Mrs. Lovett questionava-se se estaria mesmo amando seu inquilino novamente ou se o mesmo não passaria disso, locatário do salão em cima de sua loja. E, quanto mais refletia sobre isso, ela percebeu, mais ela se imaginava ao lado dele.

Um pequeno sorriso, expontâneo, surgiu em seu rosto, seguido pela angústia e um aperto no peito. E se o seu sentimento, novamente, não fosse correspondido? E se Sweeney Todd viesse a superar a morte de Lucy e apaixonar-se por outra mulher que não fosse ela? O sorriso havia desaparecido. Tamanha era sua insegurança com relação ao barbeiro, desde quando era moça. Por mais apaixonada que estivesse e as ações do barbeiro demonstrassem esporadicamente a sua reciprocidade, seu medo insistia em mostrar-se presente.

Esta era uma coisa tão simples... O amor de uma mulher por um homem.

Mrs. Lovett, agora, sorria tristemente. Enquanto os dias se seguissem, o que poderia fazer era sonhar acordada, antes de verdadeiramente adormecer e tornar a sonhar com o barbeiro. Imaginá-lo abraçando-a expontaneamente; beijando-o, alegre, sabendo que ele retornaria o beijo ou caminhar sob o trapiche da praia com as mãos dadas.

Não existem sonhos impossíveis, afinal, nem costuras invisíveis. Ao fim do dia, durante a noite, diariamente, Lovett não pedia muito; ela apenas queria estar junto de seu amado.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!