Notas iniciais
Hello, my dears! I'm back! Finalmente me sinto de volta a civilização! Para compensar vocês, fiz esse capítulo enorme! e.e Eu até cheguei a pensar em dividi-lo em dois, mas acabei desistindo. Agradeço pelos comentários maravilhosos de vocês e espero que gostem! Good read!

Pov. da Lexi

Não fazia ideia de quanto tempo havia se passado. Ainda abalada de mais com os últimos acontecimentos, afastei-me dos braços acolhedores de Klaus lentamente, me dando conta do que estava fazendo. Recuei alguns passos, o fitando de forma vazia. Em meio ao bote salva vidas representado por seu abraço, tinha me esquecido da nossa atual situação.

— Lexi... – Começou ele dando um passo a frente, em minha direção.

— Não. Fique longe de mim. – Pedi com o máximo de firmeza que consegui reunir.

Klaus parou onde estava e eu passei por ele, esbarrando em seu ombro propositalmente ao sair. Precisava deixar aquele cemitério o quanto antes ou acabaria enlouquecendo.

Alguns metros depois, comecei uma corrida frenética em busca da saída, tropeçando inúmeras vezes, chegando a cair, em meio às lápides na escuridão. Aquele labirinto de túmulos parecia não ter fim. Sentindo as lágrimas voltarem a embaçar minha visão, suspirei de alívio quando finalmente avistei os portões principais do maldito cemitério. Apressei-me em dar o fora dali sem sequer olhar para trás. Enquanto voltava a chorar, senti raiva de mim mesma. Além de ser uma inútil, ainda era fraca e tola o bastante para permitir que Klaus me enganasse novamente.

Segui pelas ruas sem realmente saber para onde ia. As lembranças de Davina sendo morta bem na minha frente, sem que eu tivesse feito nada para impedir, preenchiam minha cabeça. Continuei andando a esmo pelas ruas relativamente vazias, com certeza devido ao dilúvio de horas atrás, até colidir com alguém que vinha em direção contrária a minha. Levantei o rosto para a pessoa somente por reflexo, e, para minha surpresa e alívio, vi Steve me encarando de volta, tão surpreso quanto eu.

— Lexi? O que aconteceu com você? – Perguntou preocupado ao se dar conta do estado em que eu me encontrava.

Não consegui dizer nada. Simplesmente joguei meus braços ao redor de seu pescoço, grata por tê-lo encontrado. Ainda confuso, ele demorou um pouco a corresponder meu abraço.

— Lexi, o que... – Indagou novamente, porém não o esperei terminar.

— Davina... Ela morreu... – Contei sentindo minha garganta se fechar. Steve automaticamente apertou mais seus braços ao meu redor, afagando meu cabelo.

— Eu sinto muito. – Sussurrou em meu ouvido tentando me consolar.

Não respondi. Apenas continuei abraçada a ele, tentando fazer com que as imagens perturbadoras da morte de Davina sumissem da minha mente. Depois de ficarmos tempo indeterminado naquela mesma posição, Steve me afastou delicadamente dele, me fazendo voltar a encará-lo.

— Eu sinto muito por Davina. Mas precisamos conversar. – Declarou sério. Limitei-me a assentir. – Ótimo, vamos para minha casa. Já está tarde e esse não é tipo de conversa que podemos ter na rua. – Emendou envolvendo minha cintura e começando andar. O segui sem protestar. Afinal, eu realmente lhe devia muitas explicações.

Andamos alguns quarteirões até Steve parar em frente a um pequeno prédio. Subimos uma escada que nos levou a um corredor, no segundo andar. Paramos em frente a uma porta e Steve revirou os bolsos a procura das chaves. Depois de encontra-las, ele abriu a porta revelando um apartamento.

O olhei meio incerta e ele acenou para que eu entrasse. Depois de obedece-lo, Steve me seguiu, fechando a porta atrás de si e acendendo a luz em seguida. Não consegui não avaliar o ambiente ao meu redor.

Embora não fosse muito grande, o apartamento era aconchegante e muito organizado, o que me surpreendeu. Definitivamente não era o que eu esperava de um solteiro como Steve.

— Sinta-se a vontade. – Disse ele tirando seu casaco e o pendurando em um cabideiro no hall de entrada. Avancei um pouco, parando na sala, atrás do sofá. – Vou preparar um café para nós. Fez um frio incomum hoje, com todo aquele vento e aquela chuva... – Comentou dirigindo-se a cozinha.

Depois que ele saiu do meu campo de visão, sentei no sofá de três lugares incrivelmente confortável e passei as mãos pelo rosto, tentando me recompor. Nunca pensei que minha primeira visita à casa de Steve seria sob essas circunstâncias. E para piorar, não tinha a menor ideia do que diria a ele.

Poucos minutos depois, Steve estava de volta com duas xícaras grandes em mãos. Ele me entregou uma e sentou-se ao meu lado no sofá. Dei um gole no café querendo ganhar tempo, porém ainda estava quente. Coloquei a xícara na mesinha de centro, como Steve havia feito com a sua há alguns instantes, e finalmente me virei para ele. Pronta, ou nem tanto assim, para responder suas perguntas.

— Você sumiu o dia inteiro ontem... Te liguei várias vezes, mas você não atendeu e nem retornou a nenhuma delas. Depois que aquele cara apareceu lá no Joe... Aliás, quem é ele? – Steve iniciou a conversa logo pelo assunto que eu queria evitar.

— Ele... Ele é apenas um conhecido, como já havia te dito. Na verdade... Éramos amigos, entretanto estamos brigados agora e foi por isso que ele me procurou... Para tentar fazer as pazes. – Confessei. Steve me encarou por alguns segundos.

— Amigo? Não gostei nem um pouco do jeito dele e principalmente da forma como ele olhava para você. Parecia... – Opinou, hesitando no final. – Isso não vem ao caso agora. Precisamos falar sobre nós dois. – Disse por fim, desistindo do assunto anterior, para meu alívio.

— Claro. Diga o que quiser. – Concordei o incentivando.

— Lexi... Eu estou apaixonado por você. De verdade. Eu me importo com você mais do que pode imaginar e esses seus sumiços e seu comportamento misterioso me deixam sem saber o que fazer. Eu sei que você esconde coisas de mim e eu sinceramente não me importaria com isso se eu não te sentisse cada vez mais distante. – Admitiu Steve me fazendo encará-lo emocionada. – Embora você negue, eu sei que você está triste e por mais que queira ajudar de alguma forma, eu não sei como. Você não me permite saber. – Prosseguiu sincero. Cheguei mais perto dele no sofá, segurando suas mãos entre as minhas.

— Você já me ajuda, Steve. Mesmo sem se dar conta. Só a sua presença é o suficiente para me acalmar e fazer com que eu me sinta melhor. Existem coisas sobre mim... Que para o seu próprio bem é melhor que você não saiba. Porém há algo que você pode e deve saber, e que eu quero que se lembre: você é muito importante para mim. Talvez eu nem sempre encontre a maneira certa de demostrar isso, mas... – Não consegui concluir a frase. Steve interrompeu o que eu dizia com um beijo de tirar o fôlego.

Entrelacei meus dedos em seu cabelo, o puxando para mais perto. Como resposta, Steve se inclinou sobre mim, obrigando-me a deitar no sofá. Senti suas mãos em minha cintura por debaixo da jaqueta que eu usava. Antes que ele seguisse caminho até minha blusa, cortei o beijo me afastando um pouco para respirar.

— Nossa... Acho que isso significa que estamos bem de novo. – Brinquei tentando normalizar a respiração. Steve sorriu.

— Quase lá. Quem sabe depois de mais alguns beijos como esse. – Gracejou ele fazendo menção de me beijar novamente, porém eu me esquivei.

— Espera. Tem algo que eu quero te dar. – Falei subitamente me lembrando da pulseira que eu havia comprado para ele. Eu a tinha colocado no bolso do casaco antes sair de casa e enfrentar um dos piores dias da minha vida até agora.

Steve assumiu uma expressão curiosa, afastando-se de mim e voltando a se sentar no sofá. O imitei. Remexi no bolso direito da minha jaqueta e peguei a pulseira, mostrando a ele.

— Achei que fosse gostar. – Comentei segurando seu braço e colocando a pulseira.

— Obrigado. Realmente não precisava... – Começou ele comovido, no entanto o interrompi.

— Só me prometa que nunca irá tirá-la. – Exigi gravemente. Protegê-lo contra hipnose era o mínimo que eu podia fazer. Percebendo que eu falava sério, Steve assentiu obediente.

— Eu prometo. – Afirmou comprometido. Me permitir sorrir mais aliviada, entretanto meu sorriso logo sumiu ao fitar o relógio no alto da parede.

—Já é muito tarde! – Exclamei finalmente percebendo que já passava de meia noite.

— Tem razão. Está tarde demais para você voltar para casa. Acha que teria problemas com a Cami se você ficasse aqui essa noite? – Perguntou Steve me fazendo encará-lo meio chocada.

Passar a noite ali? Com ele? Embora eu mais do que claramente estivesse apaixonada por ele, não me sentia pronta para avançar tanto nossa relação. Parecendo ler meus pensamentos, Steve abriu seu famoso sorriso torto.

— Não se preocupe. Eu vou dormir no sofá. Não me confiaria a dormir na mesma cama que você... A menos que você quisesse. – Informou assumindo um tom malicioso que eu conhecia bem.

Sorri, revirando os olhos e balançando a cabeça em negação. Era simplesmente impossível se sentir mal perto dele. Steve deu risada e levantou-se do sofá.

— Vou pegar uma toalha e uma camisa minha para você. – Comunicou deixando a sala.

Assim que ele saiu, resgatei meu celular no bolso esquerdo e vi que havia várias ligações de Cami. Disquei o número dela no mesmo instante, recebendo uma enorme bronca por meu sumiço assim que ela atendeu. Depois de informa-la onde estava e que passaria a noite na casa de Steve, minha tutora me fez uma série de recomendações vergonhosas, me obrigando a apressar o fim do telefonema lhe desejando uma boa noite e lhe garantindo que estaria em casa logo cedo no dia seguinte. Recusei-me a contar a ela sobre a morte de Davina por telefone.

Enquanto esperava por Steve, as lembranças dos acontecimentos sombrios daquela noite voltaram para me assombrar. Suspirei derrotada ao recordar que havia deixado meu carro em frente ao casarão e teria que retornar para busca-lo.

Quando Steve voltou, estava com uma toalha, uma camisa preta do time de futebol americano da cidade e uma cueca boxer nova, a julgar pela etiqueta, em mãos. Depois de me mostrar onde ficava o banheiro, ele me deixou sozinha enquanto preparava algo para comer. Entrei no banheiro, que para minha surpresa era bem limpo e arrumado, e aproveitei o momento sozinha para recomeçar a chorar. Após o banho, tentei me recompor o máximo possível, vestindo as roupas de Steve, cuja blusa chegava até a metade das minhas coxas, e penteando meu cabelo ainda molhado com os dedos.

Ao sair do banheiro, rejeitei seu convite de fazer um lanche com ele. Não tinha estômago para digerir mais nada. Atribuindo minha falta de apetite ao cansaço, Steve me levou ao seu quarto, onde eu lhe dei um beijo de boa noite, e me enrolei em meio aos seus lençóis, aproveitando o fato do seu cheiro estar impregnado no travesseiro e rezando para que isso fosse suficiente para espantar meus pesadelos.

Pov. do Klaus

Dois dias após a morte de Davina o casarão ainda permanecia em clima fúnebre. Apesar dos meus esforços em tentar consolá-lo, Marcel encontrava-se depressivo. Embora a morte da bruxinha tivesse afetado a todos de alguma maneira, ele, por motivos óbvios, era o que mais sofria com a perda. E eu, ainda que me preocupasse com a nova situação das bruxas da cidade, afinal sem Davina não tínhamos mais como controla-las, não conseguia deixar de pensar em Alexandra.

Mesmo contra minha vontade, ela não saía dos meus pensamentos desde o dia do festival em homenagem as Casket Girls quando ela apareceu, mesmo depois de eu tê-la compelido a se esquecer de mim e de todo resto e ir embora da cidade, completamente furiosa nesse mesmo pátio. Ainda me lembrava do choque que senti ao vê-la naquele momento, principalmente porque eu estava certo de que nunca mais a veria novamente. Admito que me senti contente com a ideia de tê-la por perto de novo, porém esse sentimento durou pouco. Toda a camaradagem e cumplicidade que havia entre nós sumiram e Alexandra passou a me odiar como todos os outros. Parecia que ela finalmente havia começado enxergar o monstro que todos viam em mim.

E o mais perturbador de tudo era que eu não conseguia trata-la como faria com qualquer outra pessoa que ousasse me desafiar do modo que ela me desafiava. Quantas vidas eu havia tirado por muito menos? Mas Lexi era diferente. Sua coragem e sua espontaneidade eram cativantes demais para eu simplesmente mata-la. Ao invés disso, eu buscava meios de me reaproximar dela, pois seus dons singulares a tornavam uma forte aliada e até mesmo uma potencial ameaça, ainda que sem se dar conta, caso passasse para o lado inimigo. E por mais que eu afirmasse para mim mesmo que meu interesse em Alexandra era puramente estratégico, no dia da morte de Davina não consegui me manter indiferente ao seu sofrimento. Vê-la tão abalada daquele jeito me fez me arrepender de ter permitido que ela nos acompanhasse no maldito ritual. Esse havia sido o motivo pelo qual eu tinha tentado manda-la embora. Lexi era frágil e sensível demais para conviver com o sobrenatural.

Quando ela saiu sem rumo pelo cemitério, a segui, recusando-me a deixa-la sozinha naquele estado. Outra vulnerabilidade de Alexandra era se apegar fácil demais as pessoas. Mesmo sem ter muita experiência, para não dizer quase nenhuma, na arte de confortar pessoas, apenas segui meu instinto. Embora tenha resistido a princípio, seu coração partido falou mais alto e ela acabou se rendendo, pelo menos por um tempo.

Depois da minha falha tentativa de consola-la, ela fugiu novamente, só que dessa vez obriguei-me a não segui-la. Não podia me permitir me importar tanto com uma simples humana. Ao invés disso, resolvi prestar minha solidariedade a Marcel, pois apesar dos pesares, eu o havia criado como um filho e no momento ele sofria tanto quanto Alexandra pela morte da bruxinha. E foi assim que eu passei esses últimos dias, tentando reanimar Marcel e esquecer Lexi.

Despejei outra dose de Bourbon em meu copo e coloquei a garrafa novamente sobre a mesa. Refletia sobre os últimos acontecimentos sentado no pátio vazio. Os vampiros estavam dispersos pelo Quarter. Marcel e Rebekah também se encontravam ausentes. E Elijah e Hayley estavam por aí, em algum lugar do casarão. Tomei um longo gole da bebida e suspirei ao sentir um cheiro terrivelmente familiar. Como que evocada pelos meus pensamentos, a figura de Lexi surgiu a minha frente, adentrando o portão. Levei um minuto inteiro para analisa-la enquanto ela caminhava até mim.

Seus fios loiros estavam presos em um rabo de cavalo semelhante ao do dia em que eu a convidei para almoçar, muito antes de nos conhecermos de fato. Porém essa era a única semelhança entre a garota daquele dia e a que se encontrava diante de mim agora. Somente um cego não enxergaria a tristeza estampada em seus olhos. Sua expressão abatida e as olheiras davam indícios de que ela tinha passado a noite em claro. Imediatamente me amaldiçoei por não tê-la procurado nesses últimos dias. Embora tivesse sido pego desprevenido por sua aparição repentina, eu de certa forma sabia que ela iria aparecer. Tinha reconhecido seu carro estacionado em frente ao casarão na volta do ritual. Sabia que ela voltaria para busca-lo, só não imaginei que levaria dois inteiros para isso acontecer.

Antes que eu pudesse me pronunciar, Lexi foi mais rápida, parando em frente à mesa e olhando-me com indiferença.

— Onde estão todos? – Perguntou mecanicamente.

Abri a boca para responder, porém Elijah se fez presente atraindo tanto a atenção dela quanto a minha para a escada.

— Lexi? Que agradável surpresa encontra-la aqui. – Disse ele com sua costumeira cortesia andando até nós.

Vi Alexandra sorrir minimamente para ele e acabei apertando o copo que eu segurava com força. Estava aí outra coisa que me incomodava ultimamente. A súbita proximidade entre os dois.

O inatingível e nobre Elijah sempre se mostrava excessivamente agradável na presença de Alexandra, que por sua vez, não nutria nem mesmo um centésimo da aversão que ela havia desenvolvido por mim pelo Original de terno. O que de certa forma me irritava profundamente.

— Para ser sincera não pretendia voltar aqui tão cedo, mas... Eu precisava alerta-los. – Respondeu Lexi, direta como sempre.

— Nos alertar? – Indaguei arqueando uma sobrancelha. Alexandra me olhou por míseros segundos antes de se voltar para Elijah novamente, ignorando minha presença.

— Na noite da morte da Davina eu tive um sonho. Um pesadelo na verdade. – Contou com a voz falha, certamente por causa das más lembranças. – Eu não sei explicar o que ele significa exatamente, mas eu sei que algo muito ruim se aproxima. É como se naquela noite... Um grande mal tivesse sido libertado. – Emendou estremecendo um pouco.

Troquei um olhar com Elijah. Já tínhamos discutido sobre isso. O poder gerado pelo ritual da Colheita não parecia ter chegado ao seu destino, o que nos levava a crer que ele tinha sido interceptado. Porém a pergunta que não queria calar era: Por quem? O aviso de Alexandra serviu apenas para me intrigar ainda mais. Já tinha tido provas suficientes para não duvidar de seus singulares “dons”.

— Tem certeza de que esse... Pesadelo não foi apenas resultado das coisas que você presenciou? – Sondou Elijah. Lexi balançou a cabeça em negação.

— Absoluta. Apesar de serem imprecisas, minhas premunições não costumam falhar. Infelizmente. – Afirmou ela com uma nota de melancolia que eu reconheci imediatamente.

— Se é assim... Obrigado por ter vindo nos avisar. Imagino o quanto deve estar sendo difícil para você... Lidar com tudo o que aconteceu. – Agradeceu Elijah condescendente e todo hesitante.

Ele sempre agia assim perto dela. Como se calculasse cada movimento para impressioná-la ou, quem sabe até, encanta-la com seu ar de bom samaritano. E eu odiava isso. Alexandra abriu a boca para dizer alguma coisa, mas se conteve ao olhar para o lado e ver Marcel chegando. Ele aparentou surpresa ao nota-la ali.

— Lexi? – Pronunciou parecendo confuso com a presença dela. A loira por sua vez, pareceu estranhamente emocionada, completando a distância entre eles com um abraço.

— Marcel... Eu sinto muito! Eu devia ter... – Sussurrou ela parecendo prestes a chorar.

Marcel suspirou retribuindo ao abraço da garota. Troquei outro olhar com Elijah, que assim como eu, observava a cena, e com o próprio Marcel, que me encarava com uma expressão indecifrável.

— Está tudo bem... Fizemos o que tínhamos que fazer. E eu sei que D. não gostaria de te ver assim. – Marcel falou numa tentativa de confortá-la. Lexi não disse nada, apenas afastou-se, o encarando por alguns segundos. Ali estavam as duas pessoas mais afetadas pela morte da bruxinha.

Por um momento, cheguei até a me animar com a postura de Marcel. Pensando que ele finalmente tinha começado a superar a perda e a sair da fossa na qual ele havia se enfiado, porém ao observá-lo com mais atenção, notei que tudo não passava de uma fachada. Ele estava apenas tentando não piorar a situação de Alexandra, que parecia estar tão arrasada quanto ele.

— Onde estão Rebekah e Hayley? – Questionou Lexi depois de um tempo. Como sempre preocupada com todos.

— Rebekah está em algum lugar por aí do Quarter e Hayley está lá em cima. – Respondeu Elijah. A garota pareceu ponderar por um tempo.

— Acha que teria problema se eu subisse para vê-la? – Indagou insegura.

— Absolutamente nenhum. Tenho certeza de que Hayley vai adorar ter sua companhia. – Garantiu Elijah. Lexi abriu um sorriso fraco. – Venha, eu te levo até ela. – Completou.

Lexi virou-se para Marcel, segurando sua mão, dando um leve aperto na mesma, com um sorriso reconfortante no rosto como despedida e sequer olhou na minha direção quando foi até Elijah. Assim que ela o alcançou, meu nobre irmão a guiou escada a cima. Já Marcel, lançou-me um último olhar antes deixar o pátio, saindo do casarão.

O observei ir embora e bati com força o copo, que eu até então segurava, contra a mesa, quase o quebrando. Para variar, eu era o vilão da história. E apesar disso me irritar bastante, não era exatamente esse o real motivo da minha raiva. Eu simplesmente não podia me deixar afetar tanto por uma adolescente que surgiu do nada na minha vida. Até porque, esse tipo de atitude tola e sentimental não era do meu feitio.

(...)

Alguns minutos depois, quando Elijah reapareceu na escada, coloquei-me de pé e andei até ele. Minha intenção era subir para o segundo andar, porém Elijah, que vinha na direção contrária a minha, interceptou meu caminho erguendo uma mão na altura do meu peito.

— Não as perturbe. Lexi já parece bastante abalada com os recentes acontecimentos e Hayley está tendo um raro momento de descontração. Não quero que estrague isso. – Advertiu ele.

Ergui meu olhar de sua mão até seu rosto, me limitando a encará-lo e fazendo o possível para manter o controle e não jogá-lo longe. Como se não bastasse achar que pode me dar ordens, ele ainda agia como se eu fosse uma ameaça à paz de espírito de suas preciosas protegidas. Sendo que uma delas carregava um filho meu e a outra, até pouco tempo atrás, era muito mais próxima a mim.

Vendo que a única resposta minha que ele teria era uma das minhas melhores expressões de descaso e ironia, Elijah enfim recolheu sua mão e eu segui em frente, trombando nele de propósito ao passar.

Cheguei ao corredor e me encaminhei para a sala de estar. Não iria interromper a conversa entre Hayley e Alexandra, não porque Elijah tinha mandado, mas sim por não possuir nenhum interesse nos assuntos que elas pudessem ter. No entanto, detive meus passos ao ouvir vozes femininas em um cômodo próximo.

Não tive tempo para reparar nisso quando nos vimos pela última vez, mas... Nossa! Como sua barriga cresceu!— Escutei Lexi exclamar.

Obrigada por me lembrar que eu pareço com alguém que engoliu uma melancia inteira.— Agradeceu Hayley com sarcasmo. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto quando ouvi uma risada familiar e contagiante.

Não seja exagerada! Ainda não está tão grande assim e tenho certeza de que você vai continuar linda durante toda a gravidez. – Retrucou Lexi. Fez-se silêncio por alguns segundos.

Sabe... É disso que eu tenho medo. Quer dizer, eu não faço a menor ideia de como vai ficar minha vida depois que o bebê nascer.— Desabafou Hayley.

Bom... Eu tenho. Você vai se tornar mãe e vai exercer muito bem esse papel.— Afirmou a loira.

Irei torcer para que esteja certa. De qualquer forma, nem imagino como será a dinâmica familiar dessa criança.— Comentou Hayley.

Ah... Mas eu com certeza posso imaginar! Será uma mistura bizarra de Família Addams com Full House.— Disse Lexi arrancando uma risada de Hayley e me fazendo sorrir novamente. Até a confiança da arisca lobinha ela tinha conseguido conquistar.

Só você mesmo... Por mais que eu não me veja ganhando o prêmio de mãe do ano, eu sou incapaz de visualizar o Klaus sendo pai.— Divagou Hayley. Meu sorriso sumiu completamente. Mais uma vez elas ficaram em silêncio por alguns instantes.

Embora eu não esteja nos melhores termos com ele... Eu sei que, assim como você, ele também vai ser um bom pai.— Manifestou-se Lexi. Senti o choque me percorrer ao ouvir essa declaração.

Você sempre espera o melhor das pessoas, não é? E já que entramos nesse assunto, o que o Klaus fez para que você passasse a detestá-lo? Ainda me lembro do dia no Bayou, o quanto você o defendeu.— Inquiriu Hayley. Instantaneamente prestei mais atenção na conversa, também me recordando daquele dia.

O que eu posso dizer? Você tinha razão. Ele não passa de um manipulador egoísta. Eu posso ter demorado a perceber isso, mas a ficha finalmente caiu. – A resposta de Alexandra me paralisou por alguns segundos enquanto eu me sentia como se tivesse levado um soco no estômago.

Sabe o que é mais engraçado nisso tudo? Por mais que eu consiga enxergar a mágoa em seus olhos, é como se estivesse falando da boca para fora. Você não me parecesse ser o tipo de pessoa que guarda ressentimentos. — Observou Hayley. Permitir-me soltar o ar que até então eu não tinha me dado conta de que havia prendido. O silêncio durou mais dessa vez.

Sinceramente? Não quero mais falar sobre isso. Até porque temos assuntos muito mais interessantes para discutir, como por exemplo... O que você e Rebekah costumam fazer para se divertir por aqui?— Perguntou Lexi. Franzi o cenho em confusão e ouvi Hayley dar risada de novo. – Só pela sua cara, eu suponho que seja algo bem interessante!— Completou Lexi também rindo e voltando ao seu bom humor de antes da conversa parar em meu nome.

Balancei a cabeça para tentar clarear meus pensamentos e dei meia volta no corredor, caminhando em direção à escada. Já tinha escutado o suficiente. Retornei ao pátio ainda vazio, a não ser por Elijah. Caminhei diretamente para saída ignorando o olhar intrigado dele. Eu precisava de ar puro. No momento eu me encontrava completamente desnorteado. As palavras de Alexandra ainda ecoando sem parar dentro da minha cabeça.

(...)

Não sabia dizer quando tempo fiquei vagando sem rumo pela cidade, mas para minha surpresa, quando finalmente resolvi voltar ao casarão encontrei Lexi saindo. Pelo visto, a conversa com a lobinha tinha rendido. Parei na entrada da rua, a observando ir até seu carro. Eu podia simplesmente deixa-la ir embora, mas... Não era isso que eu queria.

— Ainda por aqui? – Indaguei debochadamente aproximando-me dela com as mãos nos bolsos da jaqueta.

Lexi se surpreendeu ao me ver, mas logo assumiu uma expressão de desinteresse, me ignorando. Ela pegou um molho de chaves no bolso e num impulso, eu me vi tentando começar algum diálogo com ela novamente.

— Obrigado... Por... Ter vindo nos alertar. – Agradeci esperando alguma reação da parte dela. Mais uma vez ela fingiu não me ouvir. Simplesmente destrancou a porta do carro, sem se virar.

A encarei enfurecido. Não aguentava mais aquele tratamento frio e indiferente da parte dela. Por alguma razão completamente irracional e desconhecida, eu não suportava mais esse afastamento entre nós.

— O que eu preciso fazer para me redimir? – Perguntei numa tentativa desesperada de obter alguma resposta dela.

Lexi parou por um instante, finalmente me olhando. Apesar das minhas palavras a terem pego de surpresa, ela logo voltou à atitude fria de antes.

— Nada. Você sabe tão bem quanto eu que nada que você faça vai apagar tudo o que aconteceu. – Retrucou secamente virando-se para ir embora. Perdendo totalmente a paciência, aumentei o tom de voz.

— O que você quer de mim?! – Inquiri exasperado. Ela tornou a me olhar, só que dessa vez aparentando estar tão irritada quanto eu.

— Eu queria que você tivesse sido sincero! Que tivesse confiado em mim assim como eu confiei em você! Mas tudo o que você fez foi me manipular e mentir! – Vociferou.

— Isso não é verdade. Eu não menti sobre tudo. – Discordei recobrando a calma. Lexi me encarou por um tempo com uma expressão indecifrável.

— Eu não acredito mais em você. – Afirmou indiferente me dando as costas e entrando no carro.

Deixei um suspiro pesado escapar enquanto a via partir, amaldiçoando o dia em que a conheci num maldito desfile. E amaldiçoando mais ainda o dia em que eu a tinha compelido para deixar a cidade. Arrependimento era uma palavra praticamente inexistente no meu vocabulário, no entanto ao me recordar dos meus encontros com Lexi algumas semanas antes e da noite em que tudo mudou entre a gente, essa era a única palavra que me passava pela cabeça.


Notas finais
E então, o que acharam? Comentem! XOXOXOXOXOXO