I Just Wanna Stop
43 Infortúnio
Notas iniciais
Pov. da Lexi
Mais uma vez meu pressentimento se confirmou. Após o meu encontro com Davina e Josh, no qual o vampiro estava totalmente eufórico por causa do feitiço do anel do dia que Davina pretendia usar ainda hoje, e a bruxinha ainda estava intrigada não só com o presente, mas também com a atitude do Híbrido Original para com ela essa noite, os deixei no bar. Josh havia prometido levar Davina para casa e ela queria aproveitar que o local estava praticamente vazio para realizar o feitiço sem precisar dar satisfação às demais bruxas. Quase morri de susto quando Klaus se materializou a minha frente enquanto eu ia até o lugar onde havia deixado meu carro. Eu não esperava encontra-lo e muito menos esperava o que viria a seguir.
O Híbrido estava completamente fora de si. Primeiro, confessou friamente que havia destruído as chances de Genevive ajudar o padre Kieran. Só isso já foi o suficiente para me deixar em choque. Em seguida, sua acusação sobre Marcel ter estado lá em casa me pegou de surpresa. Me senti mais aturdida ainda ao me dar conta de que ele podia ter razão. Eu tinha me esquecido de questionar Cami sobre a garrafa vazia de uísque em cima da pia na noite da festa organizada por Elijah no casarão. Agora eu parecia ter encontrado a explicação para tal acontecimento. De qualquer forma, não pude deixar de me perguntar como Klaus tinha descoberto isso se nem eu sabia do ocorrido até aquele momento.
Não satisfeito, meu melhor amigo fez insinuações absurdas sobre mim e Elijah, e ainda me acusou de ter traído sua confiança ao contar para o Original mais velho sobre a sua aliança com os lobos. Obviamente não consegui me manter passiva diante das suas ofensas, não só a mim, mas também a nossa amizade. Logo, rebati suas afirmações inteiramente infundadas, porém a sua reação me surpreendeu novamente. Quando Klaus me prensou na parede, eu achei que meu coração fosse sair pela boca. Não de medo, pois mesmo descontrolado como ele estava eu sabia que o Híbrido jamais me machucaria. Naquele momento, além do choque causado pela sua atitude repentina, eu senti uma certa expectativa. Por um instante, eu pensei que Klaus... Interrompi meus pensamentos antes que eles tomassem um rumo que não deveriam. Fiquei tão atordoada com a situação que após me recuperar minimamente, praticamente corri assim que ele me libertou de seu aperto. Eu havia lhe dito que era melhor conversarmos outra hora e era exatamente isso que eu estava fazendo.
Depois de uma noite mal dormida, revivendo mentalmente tudo que tinha acontecido naquele beco e de ter confirmado com Cami a visita de Marcel a nossa casa, cá estava eu, adentrando o casarão. Não era nem dez da manhã ainda, mas eu não consegui esperar para procurar meu melhor amigo e ter a conversa que precisávamos. Me bati com Elijah no segundo andar. O cumprimentei de maneira breve e ele aproveitou para me alertar que o irmão estava com um humor particularmente desagradável hoje. Agradecendo ao aviso de Elijah e atribuindo o mau humor de Klaus ao nosso desentendimento de ontem, me dirigi ao quarto do Híbrido.
Ao adentrar o cômodo, o encontrei na sacada. Respirei fundo antes de seguir até ele. Klaus estava de costas para mim, observando a cidade abaixo de si. Ele me olhou brevemente antes de redirecionar sua atenção para a rua quando parei ao seu lado. Posicionei-me de forma que ficasse de frente para ele, ainda que o mesmo não estivesse voltado para mim. Não disse nada, apenas o encarei por um tempo.
— Eu não esperava vê-la tão cedo. Veio terminar o que começamos ontem? – Perguntou sem me olhar se referindo a nossa discussão, quebrando o silêncio.
Não pude conter um suspiro. Infelizmente o nosso bate papo não seria tão fácil quanto eu imaginei.
— Não. Eu vim entender o porquê de você ter agido daquele jeito e o porquê de você continuar assim até agora. – Respondi determinada.
Klaus direcionou seus olhos para mim, mas nosso contato visual não durou muito, uma vez que ele o desfez logo em seguida.
— Tudo bem, então. – Assenti vendo que eu que teria que tomar a iniciativa. – Acho que um bom começo é esclarecermos tudo o que foi dito na noite anterior. Antes de qualquer coisa, quero que saiba que você estava certo sobre Marcel. Eu confirmei ontem com Cami. Ele esteve lá em casa na noite da festa que aconteceu aqui há alguns dias. – Contei.
Embora Klaus permanecesse sem me olhar, pela sua expressão eu sabia que ele estava prestando atenção ao que eu dizia.
— Naquela noite quando eu cheguei em casa, fui até a cozinha tomar um copo d’água e encontrei uma garrafa vazia de uísque sobre a pia. Claro que eu estranhei, mas já era tarde e Cami estava dormindo, então eu deixei para questioná-la sobre isso no dia seguinte, porém acabei me esquecendo. Foi por isso que eu reagi daquela maneira quando você falou isso ontem. Porque eu me lembrei desse fato e percebi que havia grandes chances de você ter razão. E eu te garanto que até aquele momento, eu realmente não sabia que ele tinha estado lá em casa. – Expliquei. Eu não queria que restasse nenhum mal entendido sobre essa história.
Klaus manteve-se como estava e apesar da sua aparente frieza, eu o conhecia o suficiente para saber que boa parte de sua postura indiferente não passava de pose. E no que dependesse de mim, ele não demoraria a abandoná-la.
— Sobre o Elijah ter descoberto sua parceria com os lobisomens, eu te dou a minha palavra de que não fui eu que contei a ele. Eu não faço ideia de como ele ficou sabendo, mas eu posso te assegurar que não foi por mim. E eu não sei por que a minha proximidade com ele te incomoda tanto, mas... – Antes que eu pudesse concluir meu raciocínio, o Híbrido me interrompeu.
— Infelizmente o que eu disse ontem à noite sobre o padre Kieran é verdade. Eu meio que rompi com a Genevive e ela resolveu usar a situação do Kieran para me atingir, porque ela sabe isso afeta você. – Ele se pronunciou finalmente me olhando. – Genevive encheu minha cabeça com suas palavras insidiosas e eu acabei me deixando levar. Eu sei que você não traiu minha confiança em nenhum momento. Sei que você seria incapaz disso, sweetie. – Completou me deixando sem palavras.
Apesar da péssima notícia sobre o padre Kieran, eu não pude deixar sentir um imenso alívio e uma certa satisfação em saber que Klaus não tinha mais um caso com aquela vadia ruiva. Porém nada disso superou o que eu senti quando escutei a última parte da sua fala. A certeza com que ele expressou sua confiança em mim, me fez querer esquecer aquele desentendimento surreal o quanto antes.
— E então? Após essa emocionante cena de reconciliação, creio que estamos bem de novo, não é mesmo? – Indagou Klaus com o seu irresistível sorriso de covinhas, no seu típico tom debochado.
— Não. – Retruquei o pegando de surpresa. – Ainda está faltando uma coisa. – Emendei esforçando-me para parecer séria. Klaus franziu o cenho para mim nitidamente confuso.
— O quê? – Quis saber virando de frente para mim, assumindo uma postura mais sóbria. Não consegui conter o sorriso diante da sua expressão.
— Isso. – Afirmei jogando meus braços ao redor do seu pescoço, o abraçando.
Senti o corpo de Klaus tensionar junto do meu, provavelmente por causa da surpresa. Não demorou muito para que eu sentisse os braços fortes e protetores do meu melhor amigo ao meu redor. Estreitei ainda mais o abraço, suspirando ao sentir o rosto de Klaus em meu cabelo. A sensação era tão boa que eu não importaria nem um pouco de ficar assim para sempre.
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Nos dias que sucederam minha conciliação com Klaus, nossa amizade estava mais forte do que nunca. Principalmente sem a vadia ruiva para se meter entre nós. Josh estava feliz da vida com seu anel do dia e Davina também estava contente por ter conseguido prestar esse grande favor ao nosso tão querido amigo. As coisas na cidade estavam um pouco mais calmas e para minha total surpresa, Rebekah me enviou uma foto dela com a Torre Eiffel de fundo. Pelo que eu pude entender, a caçula dos Originais estava curtindo bastante Paris. Não pude deixar de me sentir radiante por ela. Rebekah, assim como Hayley e Davina, tinha um lugar especial no meu coração. Eu as considerava minhas melhores amigas e a felicidade delas me alegrava e muito. Infelizmente em meio a essas boas notícias tinha a trágica situação do padre Kieran.
O padre havia piorado muito. Seu estado era tão grave que eu temia que o feitiço tivesse chegado ao seu ápice. Neste exato momento, eu assistia impotente à falha tentativa de Cami de dar água ao tio enquanto o mesmo esbravejava e era segurado por Josh. Estávamos no sótão da igreja, onde Davina havia feito um feitiço de limite, impedindo que o padre saísse.
— Sei quem você é, sua megera detestável. – Proferiu o padre Kieran encarando Cami com ódio após ter derrubado o cálice com água que ela o tinha oferecido. – Sean, eu tentei te ajudar. Eu tentei te salvar, mas essa cidade... É cheia de monstros. – Prosseguiu se dirigindo a Josh.
— Acredite, eu sei. Lembre-me de nunca irritar uma bruxa. – Disse o vampiro voltando-se para gente.
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, o padre Kieran começou a convulsionar e caiu no chão. Corri até ele.
— Ajudem a deita-lo de lado. – Pediu Cami desesperada.
Fiz o que ela pediu, apesar de que se não fosse pela força sobrenatural de Josh, não teríamos conseguido. Quando o corpo do padre parou de tremer, ele olhou por um momento para a sobrinha.
— Cami. – Chamou aparentemente recuperando a consciência.
— Tio Kieran? – Respondeu minha tutora esperançosa.
Prendi a respiração. Talvez tudo não estivesse perdido, afinal. Entretanto minhas esperanças se foram quando o padre voltou a se debater.
— O que quer de mim? – Indagou arrastando-se para longe da gente, mais uma vez dominado pela insanidade.
— Vocês viram isso, certo? – Inquiriu Cami ansiosa. – Foi só por um segundo, mas era ele. – Insistiu.
Troquei um olhar com Josh. Por mais que eu quisesse, eu não sabia dizer se ela estava certa.
— Não sei, Cami. Talvez ele ainda esteja lá, por baixo da loucura, mas a loucura é uma camada bem grossa. – Opinou Josh.
— Talvez ele só precise de um choque no sistema, algo para limpar tudo. Eu acho que tive uma ideia de como curá-lo. – Afirmou ela.
Ao mesmo tempo em que senti esperança também me senti apreensiva. Eu não tinha noção do que se passava na cabeça dela, mas algo me dizia que não era uma coisa muito boa. De qualquer forma, tudo aquilo já estava começando a me fazer mal. Era terrível ver alguém naquela situação, principalmente sendo o padre Kieran. Ele sempre foi tão justo e sábio. Sem falar que o sofrimento de Cami partia o meu coração. Ainda mais quando eu não podia fazer nada para ajuda-la. Entretanto meus sentimentos eram a última coisa que importava no momento.
Respirei fundo e me propus a apoiar Cami no que ela quisesse. Para o meu alívio, ela apenas pediu para que Josh fosse buscar um médico psiquiátrico. Depois da saída do vampiro, ficamos sós com o padre Kieran. No momento, ele não representava uma ameaça. O padre continuava encolhido de costas para a janela fechada, de cabeça baixa e com um olhar psicótico que não lhe pertencia. O toque do celular de Cami me tirou dos meus pensamentos. Só após ela atender a ligação que eu me dei conta de que quem estava do outro lado da linha era Marcel.
— De jeito nenhum. – Cami negou com firmeza, seja lá o que ele tinha dito. – Como? Conseguindo ser morto? Você tem um alvo nas costas, Marcel. Não quero que se machuque por minha causa. – Justificou-se depois de um breve momento de silêncio. – Está tudo bem. Se vier aqui, eu mesma te boto para fora. Sério. – Completou encerrando a chamada.
Bem nessa hora, Josh apareceu com um homem vestido com roupas hospitalares.
— Que diabos? – Deixou escapar o recém chegado perplexo com o cenário a sua frente.
— Certo, é. Percebi que isso parece uma cena de crime. Só não surte, tudo bem? – Falou Josh. O homem o ignorou e passou por nós, indo até o padre Kieran.
— Olá. Sou o Dr. Sheski. – Apresentou-se para o padre. – Só vou checar os seus batimentos. – Informou aproximando seus dedos do pescoço do paciente, porém o padre rosnou e fez menção de mordê-lo. Automaticamente o doutor recuou assustado.
— Desculpe por isso. As coisas não são o que parecem... – Tentei amenizar a situação.
— Terei que avisar as autoridades do que está havendo aqui. – Assegurou o médico pronto para ir embora.
— Josh? – Chamou Cami.
— Certo. – Assentiu o vampiro segurando o braço do médico, o impedindo de continuar. – Cara, relaxe. É um padre enfeitiçado por uma bruxa por causa de vampiros. Aceite que isso é real e depois esqueça. – Ditou o compelindo. – Quer dizer, depois. Você esquece depois. Droga! Certo, deixe-me começar de novo. – Atrapalhou-se ele.
Se o momento não fosse tão desastroso, eu teria rido da sua confusão. Delicadamente puxei Josh para o meu lado, dando passagem para Cami.
— Dr. Sheski, meu tio precisa ser sedado. Algo forte. – Solicitou ela.
— Sedado? Parece que ele precisa estar na UTI! – Retrucou o médico.
— Outra bruxa fez um feitiço de limite. Então ele está preso aqui. – Explanou Josh.
— Ele está desnutrido e desidratado. – Garantiu o doutor.
— Por isso que você está aqui. Mas antes, doutor, o que sabe sobre terapia de choque? – Cami quis saber.
— ECT? – Questionou o médico incrédulo. – Primeiro, é incrivelmente perigoso. – Emendou sério.
— Mas é conhecida por ajudar em casos de psicose extrema. – Retrucou Cami. O médico hesitou em responder olhando para mim e Josh.
— Responda à senhorita. – Ordenou Josh.
— Não entendemos totalmente ainda, mas sim. Em alguns pacientes... Usar choques para induzir convulsões acaba com episódios psicóticos. Até reprograma o cérebro. Mas só em casos extremos consideramos... – Explicou o médico, porém Cami o interrompeu.
— Como meu amigo disse, é um padre enfeitiçado por uma bruxa. Não acho que fique mais extremo do que isso. – Atestou minha tutora.
Mais uma vez, troquei um olhar com Josh. Eu entendia que situações desesperadoras exigiam medidas desesperadas. Contudo eu temia que Cami estivesse indo longe demais. Meu conhecimento sobre terapia de choque era o mesmo que o de qualquer leigo no assunto. E assim como qualquer pessoa comum, eu também tinha uma péssima impressão desse tipo de tratamento. Eu o considerava muito radical. Entretanto apesar dos pesares, eu confiava em Cami. Se ela acreditava que isso poderia ajudar, não seria eu a dizer o contrário.
Não demorou muito para que Josh saísse novamente, só que dessa vez acompanhado pelo Dr. Sheski para providenciar os equipamentos necessários para a tal terapia. Depois do que me pareceu uma eternidade, quando eles finalmente retornaram, não perderam tempo em começar a arrumar as coisas. A cada minuto que passava eu me sentia mais inquieta. Definitivamente eu não tinha estômago para ver essa cena.
— Tem um lugar no inferno para a sua espécie. – Sentenciou o padre Kieran para Josh enquanto o mesmo se preparava para amordaça-lo.
O pobre padre encontrava-se sentando em uma cadeira, tendo suas mãos presas à mesma pelo Dr. Sheski.
— Não é a primeira vez que eu ouço isso. – Josh deu de ombros pondo a mordaça no padre Kieran.
Virei o rosto, agoniada. Eu não tinha certeza de que conseguiria ficar ali até o final.
— Essa não é uma cena horrível? – Klaus se fez presente, me dando um baita susto.
Assim como Cami, que também estava de costas para a porta, virei para olhá-lo. Ele era última pessoa que eu esperava que aparecesse agora.
— Klaus, o que faz aqui? – Interpelou Cami antes que eu o fizesse.
— Recebi uma chamada urgente em seu nome. Fui encarregado de fazer o que seu namorado covarde não pôde. O que, pelo jeito, é dissuadi-la da loucura que quer tentar. – Respondeu debochado dirigindo-se a Cami e analisando o cenário a sua frente.
Admito que fiquei completamente confusa. Pelo que eu entendi, Marcel o havia ligado para que ele viesse ajudar Cami e o mais impressionante é que ele realmente veio. Eu mesma não cogitei a hipótese de envolvê-lo nisso porque sua relação com Cami não se encontrava nos melhores termos. Mas mesmo sem entender muito bem o que estava acontecendo, eu estava feliz por tê-lo ali.
Cami ignorou totalmente a fala de Klaus e voltou-se para o médico.
— Você está pronto? – Perguntou ao doutor.
— Por favor, eu imploro, não me obrigue a fazer isso. – Suplicou o médico se levantando.
— Tudo bem. Eu mesma faço. – Afirmou Cami decidida.
Ela ocupou o lugar de Josh atrás da cadeira do padre Kieran enquanto o vampiro veio para o meu lado. Quando ela se preparou para começar, não consegui aguentar e escondi meu rosto no peito de Josh.
— Camille, será que podemos conversar em particular por um instante? – A voz de Klaus ecoou no ambiente silencioso.
Ergui o rosto para olhar os dois. Klaus estava com uma expressão séria. Já Cami parecia indecisa. Ela olhou para mim brevemente antes de acatar o pedido de Klaus. Os dois saíram e apesar da minha curiosidade para saber o que eles conversariam, eu estava aliviada por ter o momento do choque adiado. Poucos minutos depois, eles voltaram. Pela primeira vez desde que havia chegado, o Híbrido se dirigiu a mim.
— Lexi. – Me chamou se aproximando. Ele lançou um curto olhar a Josh, fazendo o vampiro se afastar. – Elijah está indo ao Bayou falar com os lobisomens. Você devia acompanha-lo, aproveitar para visitar Hayley. – Sugeriu me surpreendendo com sua proposta.
Antes tudo que o Híbrido menos queria era me ver com Elijah, por algum motivo que eu desconhecia. E agora me pedia para acompanha-lo numa ida ao Bayou. Eu realmente não estava entendendo nada. Mas apesar da sua oferta ser mais do que tentadora, eu infelizmente não podia aceita-la.
— Eu adoraria, mas eu não posso deixar Cami sozinha numa situação dessas. – Argumentei.
— Não se preocupe, eu cuidarei disso. – Garantiu-me ele.
— Klaus tem razão, Lexi. É melhor você ir. Eu ficarei bem. Nós ficaremos bem. – Concordou Cami, corrigindo-se no final.
Intercalei meu olhar entre os dois, em dúvida. Eu queria mesmo ir, porém eu também não queria deixar Cami e o padre Kieran. Klaus pareceu perceber meu debate interno.
— Vá. Confie em mim. – Ordenou com os olhos fixos nos meus. O encarei por alguns minutos. Após refletir por um tempo, resolvi obedecê-lo.
Com um imenso aperto no peito, olhei uma última vez para os presentes, em especial para o padre Kieran, e saí de lá. Ao contrário do que eu pensei, eu não suportaria o que viria a seguir.
(...)
O caminho até o Bayou com Elijah foi tranquilo. Se não fosse pela situação do padre Kieran, com certeza eu estaria dando pulos de alegria. Era sempre um prazer encontrar Hayley. E curiosamente eu considerava o Bayou um lugar legal. Parecia que havia se passado uma eternidade desde a minha única visita ali. Por um momento, me senti feliz pela roupa que eu estava usando. Coincidentemente ela era perfeita para a ocasião. Já Elijah, diferentemente de mim, estava elegante como sempre. Ele estava quieto demais e eu estranhei isso.
— Eu sinto muito pelo padre Kieran. – Pronunciou após sairmos do seu carro.
— Eu também. Ele não merecia passar por isso. – Lamentei sentindo de novo um aperto no peito.
Elijah me lançou um olhar compadecido. Resolvi aproveitar a oportunidade para me desculpar com ele sobre a história de Klaus com os lobisomens.
— Elijah... Eu acho que te devo desculpas. Eu sabia sobre a aliança de Klaus com os lobos, mas como ele me pediu segredo... Eu sinto muito ter escondido isso de você. Eu juro que eu tentei convencê-lo a te contar. – Confessei.
O Original me encarou surpreso fazendo com que eu me sentisse ainda mais culpada.
— Você... Eu realmente não esperava por isso. Embora eu ainda esteja aturdido com a sua revelação, eu entendo seu lado. Trair a confiança de Niklaus é a pior coisa que alguém pode fazer. E o que mais me impressiona é o quanto ele parece confiar em você. Isso é algo inédito. – Disse me analisando.
Desviei o olhar do seu, um pouco sem graça. Eu imaginava que ele estivesse bravo comigo agora. Em silêncio, seguimos até uma das cabanas. Não contive o sorriso ao me deparar com Hayley sentada no chão junto de Eve. Eu conheci a mais velha na festa dada por Hayley na antiga casa do governador. Minha empatia por ela foi instantânea. Assim que notaram a minha presença, elas sorriram para mim. Ia cumprimenta-las, porém Elijah tomou a frente.
— Desculpem a interrupção. Será que eu poderia dar uma palavrinha com os conspiradores da suposta revolta? – Indagou ele fazendo nós três nos entreolharmos.
Ainda com o clima tenso, falei brevemente com Eve antes de seguir Elijah e Hayley até uma espécie de celeiro. Não demorou muito para que Jackson e Oliver se juntassem a nós.
— Vocês estão cometendo um grave erro. – Começou Elijah.
— Só está preocupado conosco, é isso? – Debochou Oliver.
— Olha, Elijah. Todos sabemos da reputação do seu irmão. Mas se há uma chance desses anéis nos ajudar a controlar nossa maldição... – Manifestou-se Jackson, sendo interrompido por Oliver.
— Nosso dom. – Corrigiu o loiro.
— Então, honestamente, não nos importa o que ele quer. Não precisaremos. – Prosseguiu Jackson.
Troquei o peso do meu corpo de um pé para o outro, cruzando os braços. Não me agradava nem um pouco quando se referiam a Klaus dessa maneira, mesmo eu sabendo que tinham motivos para isso.
— Entendi. Há alguns no Quarter que vão considerar isso uma provocação. – Ponderou Elijah.
— Aparentemente, muitos acham o mesmo de nós respirando. – Retrucou Oliver deixando o Original sem palavras por um momento.
— Assinou um tratado, e olhou nos meus olhos enquanto o fazia. – Acusou Elijah dirigindo-se a mamãe loba.
— Não queremos brigar, Elijah. Só queremos uma vida melhor. – Defendeu-se Hayley.
— Uma aliança com meu irmão vai garantir tudo menos isso. – Assegurou Elijah.
Hayley parecia querer rebater o que tinha ouvido e até mesmo eu pretendia me pronunciar em defesa do meu melhor amigo, mas um barulho alto de moto chamou a nossa atenção.
— Que diabos? – Inquiriu Jackson antes de seguir para a porta. O acompanhamos.
Chegamos bem a tempo de ver um homem desconhecido parando com sua moto no meio do acampamento dos lobos. As pessoas ao redor pararam para observar.
— Qual de vocês está no comando? – Questionou olhando para todos.
— Quem quer saber? – Retorquiu Jackson se aproximando dele.
O homem abriu um sorriso maldoso e naquele instante eu percebi que algo muito ruim estava para acontecer. Não tive tempo nem de reagir. Eu só senti algo me empurrando para trás e o vulto de Elijah passando por mim antes de uma grande explosão acontecer.
Levei algum tempo para me recuperar do impacto. Minha cabeça e minhas costas doíam, certamente por causa da queda.
— Você está bem? – Perguntou-me Elijah me ajudando a levantar.
O estado dele era deplorável. Seu terno estava todo chamuscado e rasgado e seu rosto estava coberto de fuligem.
— Estou. – Respondi com um pouco de dificuldade.
Olhei ao redor me dando conta do caos que aquele atentado provocou. Haviam muitas pessoas feridas e até mesmo crianças em meio aquele pandemônio. Ainda completamente atordoada, senti o alívio me percorrer ao ver Hayley em pé, não muito distante de onde estávamos, totalmente inteira. Não hesitamos em ir até ela.
— Hayley. – Chamou o Original.
— Elijah. – Respondeu tão assombrada quanto a gente. A abracei com força.
Quando nos separamos, notei que havia um homem próximo de nós em estado crítico. Nos abaixamos perto dele e Elijah levantou a camisa do mesmo revelando uma queimadura bem feia.
— Wolfsbane. – Apontou Elijah.
— Devia estar no tanque de gasolina. – Complementou Hayley. – Você é o mais rápido. Leve-o e quem mais puder andar sozinho. – Pediu.
Elijah ajudou o homem a se erguer, porém ele hesitou antes de ir.
— Está tudo bem, Elijah. Eu estou bem. Eles precisam da sua ajuda. – Garantiu Hayley. – E você, Lexi? Se também estiver em condições, ajude quem puder. – Emendou antes de ir até Oliver e Eve que ajudavam uma moça há alguns metros.
Corri meus olhos em volta e vi um garotinho sozinho, próximo a um rapaz caído. Fui até ele.
— Oi, vem comigo. Vai ficar tudo bem. – Tentei tranquiliza-lo enquanto sorria docemente para ele, o pegando no colo.
Depois de entregar o garotinho a Jackson e ajudar outras pessoas, me encontrei novamente com Elijah. Eu já tinha perdido a noção de tempo. Não vi Hayley desde o momento em que ela se afastou de nós. Os outros estavam dispersos ajudando os feridos. Tomei um susto quando o celular de Elijah tocou.
— Hayley. – Proferiu ele ao atender. Estranhei mais ainda. – Onde você está? – Questionou depois de alguns instantes. Após ouvir seja lá o que ela tenha dito, Elijah encerrou a ligação.
— Ela está bem? – Preocupou-se Jackson fazendo-se presente.
— Aparentemente, sim. – Respondeu o Original meio incerto.
Olhei de um para o outro com o cenho franzido. Onde diabos Hayley estava? Eu só torcia para que ela não estivesse fazendo nada arriscado. Elijah guardou o celular no que havia restado do seu paletó e seguiu adiante.
— Foi bom a bomba ter explodido naquele lugar. Poderia ter sido bem pior. Pessoas poderiam ter morrido. – Comentou Jackson.
Elijah parou ao chegarmos no local onde muita gente estava reunida.
— A menos que... – O Original deixou a frase no ar. Imediatamente senti um calafrio percorrer o meu corpo. – Tire todo mundo daqui. Agora! – Ordenou alguns instantes depois.
Em uma fração de segundos, outra explosão aconteceu bem perto de onde estávamos. Só tive tempo de escutar Elijah gritar o meu nome e me abraçar de forma protetora antes de irmos ao chão. Houve uma sequência de explosões. Passado os estrondos, os gritos se tornaram mais altos. Meus ouvidos zuniam e meu corpo estava mais dolorido.
— Lexi, você está bem? – Indagou-me Elijah afastando-se um pouco.
— Estou. – Respondi com certo esforço.
Elijah se pôs de pé e me ajudou a fazer o mesmo. Quase não tive coragem de avaliar o estrago ao nosso redor. Essas explosões foram bem mais destrutivas do que a primeira. Desta vez havia vítimas fatais. O Bayou parecia um inferno e tudo o que eu conseguia pensar era em como alguém podia ser capaz de algo assim. Engolindo o meu horror e a minha vontade de chorar, me dediquei a ajudar aqueles que ainda podiam ser ajudados.
O resto do dia foi uma das piores experiências que eu já vivi. Muitas pessoas morreram, entre elas, Eve. Quando Hayley voltou, não sei de onde, já à noite, tivemos que dar essas terríveis notícias a ela. Como se não bastasse, Oliver começou a incitar uma revolta entre os lobisomens. Todos estavam desolados. O tratado de paz proposto por Elijah definitivamente estava acabado. Quanto a mim, eu me encontrava uma verdadeira bagunça tanto por dentro quanto por fora. Tudo o que eu queria era ir embora e esquecer que esse dia existiu.

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