I Just Wanna Stop
7 Convites
Notas iniciais
Pov. da Lexi
O dia hoje em New Orleans estava perfeito. Céu ensolarado, sem nenhuma nuvem, e uma suave e deliciosa brisa refrescando o ambiente. Eu estava na praça principal da cidade, sentada à sombra de uma árvore qualquer. Encostada no tronco e com os joelhos rentes ao peito, eu rabiscava em meu caderno o mais novo rosto que atormentava meus sonhos, um estranho elegante de terno e incrivelmente bonito.
Parecia-me ridícula a capacidade que eu tinha para fantasiar com completos estranhos. Na verdade, acho que ficaria feliz se tivesse certeza que eram apenas fantasias. O último desconhecido com quem eu havia sonhado por várias noites seguidas, acabou aparecendo e bagunçando ainda mais minha cabeça.
Fazia uma semana desde o meu encontro com Klaus. Não tive nenhum contato com ele, mas isso não quer dizer que aquele sotaque e aquele charme misterioso e sombrio não tenham me azucrinado durante esse tempo. Terminei o último detalhe que faltava no desenho e o olhei bem. Apesar de não ter muita certeza de que seria boa coisa, de algum modo, eu sabia que aquele estranho também acabaria se materializando em minha vida.
— Lexi? Lexi? – Chamou-me Steve enquanto estalava os dedos a minha frente. Imediatamente levantei o olhar para ele. Estava em sua companhia e tinha me esquecido completamente disso.
— Oi. – Respondi focando minha atenção nele.
— Não ouviu nada do que eu disse não foi? – Perguntou apoiando as mãos sobre a grama.
— Não... Me desculpe. Acabei viajando. – Expliquei.
— É, eu percebi. Estava bem focada no desenho. – Observou.
Minha relação com Steve tinha se tornado ainda mais próxima nesses últimos dias. Ele já me conhecia o suficiente para saber quando havia algo de estranho comigo e eu podia apostar que era por isso que ele encarava meu caderno com curiosidade.
— Bobagem minha. – Desconversei fechando o caderno e o pondo em cima da mochila que eu tinha trazido. – O que você estava falando mesmo? – Indaguei querendo esquecer o assunto do desenho. Não havia razões para compartilhar aquilo com ele, até porque, nem havia muito a ser compartilhado.
— Estava comentando com você sobre o Festival de Música. – Respondeu.
— Ah... Isso. Começa que dia mesmo? – Voltei a perguntar. Estava completamente por fora. Steve me olhou com as sobrancelhas erguidas.
— Hoje. – Respondeu me fazendo arregalar os olhos em espanto. – Tem cartazes por toda a cidade. – Completou. Sacudi a cabeça. Esses sonhos malucos estavam me deixando fora de órbita.
— Você vai? – Procurei saber.
— Não sei. Se eu sair mais cedo do Joe e uma certa loirinha cabeça de vento me confirmar que vai... – Disse dando de ombros. Foi impossível não sorrir.
— Vou falar com Cami e depois te ligo. – Prometi.
— OK. – Concordou levantando. – Tenho que ir. – Informou enquanto limpava a calça com as mãos.
— Já? – Perguntei fazendo biquinho. Steve riu.
— Já, infelizmente. Está na minha hora. – Respondeu.
— Tudo bem. Vou ficar mais um pouco. – Falei. Steve se inclinou e me deu um estalado beijo na bochecha.
— Até mais, Bonitinha. – Despediu-se.
— Até, Rogers. – Brinquei me referindo ao sobrenome do Capitão América, que era xará de Steve, pelo menos no primeiro nome. Ele riu e começou a se afastar.
(...)
Depois que Steve foi embora, fiquei pensando a respeito do Festival. Estava imaginando com que roupa iria quando uma ideia no mínimo absurda surgiu em minha mente. Peguei o celular e coloquei na agenda telefônica. Zapeei a lista até achar o contato que eu queria. Klaus Mikaelson.
Levei um bom tempo para me decidir entre ligar ou não. Parecia muito idiota da minha parte convidá-lo para o festival. Até porque, ele certamente devia ter coisas mais importantes para fazer. No entanto, por outro lado, não custava nada tentar. Sem falar que todas as vezes que me encontrei com ele, pude perceber em seus olhos uma solidão tão grande que eu gostaria de ajudar de alguma forma.
Resolvi seguir minha intuição e finalmente apertei a tecla send. O telefone chamou quatro vezes, e nada dele atender. Já estava prestes a encerrar a ligação quando ouvi um click na linha.
— Alô? – Disse a voz que eu seria capaz de reconhecer em qualquer lugar. Demorei alguns segundos para responder. Estava completamente sem fala.
— Klaus? Sou eu... Lexi. – Foi a única coisa que conseguir dizer. Ouvi sua risada no outro lado da linha e me xinguei mentalmente. Não tinha como eu parecer mais estúpida do que isso.
— Isso eu já sabia, sweetie. – Respondeu parecendo segurar o riso. Amaldiçoei-me mais uma vez. – A que devo a honra desta ligação? – Completou sem o bom humor de antes. Agora seu tom de voz parecia curioso e inquiridor. Respirei fundo.
— Bom... É que... Não sei se você sabe, mas o Festival de Música começa hoje. Vai ser bem legal e... E... Eu liguei porquê queria saber se você gostaria de ir. – Expliquei gaguejando feito uma imbecil.
Houve momento de silêncio do outro lado que me fez bater a mão livre contra a testa. Retiro o que eu disse. Agora sim, não tinha como eu parecer mais idiota. Esperei por sua resposta, mas como não houve nenhuma, achei melhor tentar consertar a situação e depois passar o resto da vida trancada em casa para não correr o risco de vê-lo novamente depois desse King Kong.
— Olha só... Desculpa se estou te incomodando, só achei que seria legal te convidar e... – Comecei sendo interrompida por ele.
— Eu vou. – Disse simplesmente.
— O quê? – Perguntei sem acreditar no que tinha acabado de escutar.
— Eu aceito o convite. Diga a hora e o lugar em que podemos nos encontrar. – Repetiu, dessa vez com mais clareza. Segurei o impulso de gritar.
Ele aceitou! Eu consegui! Comemorei internamente.
— Ótimo! – Exclamei sem conseguir conter a empolgação. – Bem... Para ser sincera, eu tenho umas coisinhas para acertar ainda, então não sei direito onde podemos nos encontrar. – Falei me lembrando de Steve e Cami. Precisava me resolver com eles. – Se não tiver problema para você, te mando uma mensagem com o endereço e o horário depois. – Completei cruzando os dedos. Klaus não respondeu de imediato.
— Okay. – Concordou. Minha alegria era tanta que levantei de onde estava sentada. – Eu tenho que desligar agora. Nos vemos mais tarde. – Informou.
— Okay. Nos vemos mais tarde. – Repeti. – Tchau. – Disse em despedida.
— Tchau, sweetie.— Despediu-se, desligando em seguida.
Assim que a linha ficou muda, passei a mão pelo cabelo em total espanto. Até agora não acreditava no que tinha acabado de fazer. Apesar do meu receio em estar indo na direção errada, algo me dizia que quanto mais próxima eu ficasse dele, mais mistérios seriam resolvidos.
Ainda em choque, recolhi minhas coisas, joguei a alça da mochila sobre o ombro e fui embora. Minha próxima parada seria no Rosseau’s. Precisava falar urgentemente com Cami.
Pov. do Klaus
Já fazia alguns dias desde o meu último encontro com Alexandra. Apesar de não querer, meus pensamentos várias vezes se voltaram para ela. Eu sentia que não era o único a ocultar segredos. Alexandra com aquele jeitinho atrapalhado e encantador de ser, também escondia algo e eu estava mais do que disposto a descobrir o quê. No entanto, antes de me ocupar da formidável Lexi, precisava cuidar de Hayley e do meu filho, recuperar Elijah e minar o domínio de Marcel sobre a cidade.
Revolvi começar pelo mais difícil, enfraquecer de algum modo Marcel. A maneira mais fácil que vi para isso foi usar Cami, sua paixonite no momento. Não me agradava usá-la, mas era o necessário. Marquei um encontro com ela em uma casa alugada por mim, como o aguardado ela apareceu. Esperava que ela realmente me fosse útil.
— Durante o curso da minha vida, me deparei com muitos que ousavam falar sobre o bem e o mal. Tais termos não significam nada. As pessoas fazem o que lhes interessa, sem se importar com quem vão ferir. É maldade conseguir o que se quer para se satisfazer, mesmo que fazê-lo causará o sofrimento de outro? O que alguns chamam de maldade, eu acredito que seja uma reação apropriada a um mundo cruel e injusto. – Discursei enquanto admirava uma obra de arte recém-adquirida por mim e que a propósito era a mesma que vi um artista de rua fazer quando conversei com Cami pela primeira vez.
— Sem ofensa, mas acho que não entendi por que me convidou para vir para cá. – Pronunciou-se Cami, meio desconfiada. Assim como Alexandra, ela não parecia ser nada boba.
— Porque aprecio a sua companhia. – Respondi amável e ao mesmo tempo sincero, virando-me para ela. – E sinto que você tem capacidade para compreender alguém da minha complexidade. – Completei. Passei por Cami e andei até a outra parte do cômodo.
— Voltei a New Orleans para investigar uma ameaça contra mim. E encontrei uma jovem mulher, grávida, precisando de proteção. Meu irmão, sempre samaritano, tentou me manipular a ajudá-la. Pensou que isso me redimiria. O problema é que fiquei sabendo de outra jovem mulher, uma garota, na verdade, com vasto potencial, mantida em cativeiro por um tirano. Quero ajudar as duas mulheres... Proteger uma e libertar a outra. Diga-me, Cami... Isso parece maldade para você? – Perguntei ao final da explanação. Ela não demorou muito a responder.
— Não acredito em maldade como diagnóstico. Acho que você tem relacionamentos instáveis, paranoia relacionada a estresse, problemas crônicos de raiva, medo de abandono. Creio que se beneficiaria conversando com um profissional. – Disse de forma imparcial.
Encarei-a por um momento. Apesar de não ser o que exatamente eu queria ouvir, ela estava certa. Entretanto, nunca admitiria isso em voz alta. Não é que ela era mesmo uma boa psicóloga?
— Acho que prefiro conversar com você. – Insisti, ainda usando o tom amável. – Então, oferecerei um trabalho como minha estenógrafa. – Informei enquanto me sentava.
— Certo. O que iremos escrever? – Perguntou com certa ironia, encostando-se a soleira da porta e cruzando os braços.
— Minha memórias, é claro. Alguém precisa conhecer minha história. – Respondi também irônico e com certo divertimento. – E isso nos dará tempo para discutir outros assuntos, como seu lindo pretendente Marcel. – Acrescentei.
— Lamento. Minha vida pessoal é... – Começou, mas a interrompi.
— Sua vida pessoal é, no fim das contas, essencial aos meus planos. Veja bem, Marcel quer você e por isso confiará em você, o que é útil para mim. – Expliquei levantando-me. Andei até ela novamente. – O problema é que o French Quarter está a beira de uma guerra. De um lado, temos eu, do outro, Marcel ao lado de uma poderosa bruxa e um exército de vampiros. – Concluí. Cami me encarou sobressaltada.
— O quê? – Perguntou aturdida. Avancei sobre ela, prensando-a na parede.
— Você está assustada. Não fique. – Hipnotizei-a.
— Não estou mais com medo. – Disse mais calma. – Isso é incrível! Como você...? – Indagou.
— Chamam de hipnose. Uma amostra dos truques de vampiros. Contarei tudo sobre isso. – Expliquei. – Mas antes falemos um pouco mais sobre Marcel. – Sugeri bem humorado.
Cami ainda estava confusa, mas mesmo assim me obedeceu. Dei-lhe instruções sobre Marcel e também lhe contei algumas coisas sobre vampiros. Depois de mais algumas horas de conversa, a liberei e a compeli para que só se lembrasse de tudo que tinha ouvido em minha presença. A única coisa de que lembraria era de avisar-me sobre qualquer coisa relacionada a Marcel. Fiquei tentado a lhe perguntar sobre Alexandra, mas achei melhor não fazê-lo. Não queria me distrair com esse assunto agora.
(...)
Algumas horas depois do meu encontro com Cami, recebi uma ligação da última pessoa que eu esperava no mundo. Alexandra McCartney. Ela me convidou para o Festival de Música. O evento agitaria toda a cidade e não pude deixar de ficar, de alguma forma, sensibilizado com seu convite. Então, mesmo contrariando todos os meus instintos, aceitei.
Coincidência ou não, logo depois Cami me ligou dizendo ter informações sobre Marcel. Marquei um encontro com ela no Rosseau’s e não demorei muito para chegar lá. Não tinha tempo a perder. Ao entrar no estabelecimento a encontrei de costas para mim, limpando uma mesa.
— Olá, Cami. – Cumprimentei chamando sua atenção. Ela virou-se para mim assustada.
— Como é que quando você aparece e não tem ninguém por perto, eu simplesmente me lembro que você me disse que é um vampiro e pode controlar minha mente e quando vai embora, volto a pensar que você é apenas um cara atraente com um sotaque fofo e dinheiro para gastar em sua bibliografia? – Inquiriu intrigada. A olhei com condescendência. Achei graça dos seus pensamentos com relação a mim sem a hipnose.
— É como a hipnose funciona. – Respondi com sarcasmo.
— Sim, mas o que acontece? É hipnose, meus neurônios param de alguma forma? – Insistiu.
— Sempre a curiosidade acadêmica. – Brinquei. – Falemos do Marcel. – Sugeri, indicando que se sentasse. – Você disse que tinha uma informação para mim. — Iniciei o assunto que me interessava. Sentamos lado a lado e eu encarei Cami, incentivando-a a prosseguir.
— Ele trará alguém ao Festival de Música hoje à noite. Uma garota de quem ele é tutor. Parece que ela está em um momento difícil, rebeldia contra autoridade, raiva, coisas assim. Pela formação em psicologia e minha experiência como tutora da Lexi, ele achou que eu ajudaria, mas eu disse não. – Explicou.
Prestei atenção em cada detalhe. Olhando por esse novo ângulo, o convite de Alexandra parecia-me mais do que conveniente. Eu tinha certeza de que essa garota era Davina e de forma alguma eu poderia perder essa chance.
— Insistirei que mude de ideia e aceite. – Falei o mais brando possível. Cami me encarou.
— Vai me forçar a fazer isso, não é? – Perguntou depois de um tempo. Não foi necessário responder. – Por que se importar em ser educado? – Ironizou conseguindo me arrancar um sorriso.
— Porque gosto de você. – Respondi sendo sincero. – Gosto de como sua mente funciona. – Completei me aproximando mais dela. – Em outras circunstâncias, acho que poderíamos ser amigos. De qualquer forma, não posso me dar ao luxo de deixar passar a oportunidade desta noite. Além de ser a arma poderosa de Marcel, a garota, Davina, mantém meu irmão como prisioneiro. – Concluí a encarando. Cami me olhou compadecida e se aproximou um pouco. Aproveitando-me da situação, prossegui.
— Em outras palavras... A garota precisa da sua ajuda. Ligue para Marcel, diga que ficará feliz em ajudá-lo. – Ditei a compelindo.
Depois dessa conversa, não fiquei muito tempo no bar. Saí logo em seguida. Precisava me preparar, pois ao que tudo indicava seria uma noite daquelas.

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