I Have My Angel

1 Parte 1 - Meu anjo


Notas iniciais
Música: Your Guardian Angel - The Red Jumpsuit Apparatus.

A chuva caía fria no meu rosto, lavando de certa forma minha alma, eu realmente sentia que nada mais importava, tudo estava acabado. Todos aqueles olhares me davam um ódio tremendo, despertavam meu mais íntimo monstro, aquele com quem eu convivia antes de encontrar ela.



Foi numa tarde de inverno, eu e o Mitch fomos dar uma volta pela cidade, fazia algum sol, apesar do frio, e era mais agradável ficar sob a luz do sol tentando se esquentar, nós passamos horas caminhando e rindo, as férias realmente estavam sendo agradáveis, os dias com Mitch me faziam esquecer dele, que tanto me atormentava, na verdade, ele acordou aquele monstro quando foi embora, e agora eu estava só, eu só tinha a mim mesma e os fantasmas da minha alma tão assombrada, de dia com o Mitch era fácil driblar, o que não faz uma amizade? Mas quando a solidão batia eu sentia que era hora de ter medo, medo de mim mesma.



- Hey Mitch, tem um cigarro? – perguntei, olhando as horas, seis da tarde.


- Tenho sim. – Ele colocou um na minha boca, e eu peguei o isqueiro no bolso.


- Sabe se aonde vamos pode fumar? – perguntei meio entediada, soltando a fumaça do cigarro e o segurando nos dedos.


- Acho que sim, vivem fumando e bebendo lá, sabe como é, o underground de Londres! É perfeito, sempre tem uma banda que toca ao vivo, é iniciante sabe... – Mitch disparou a falar, na verdade eu não ouvi muito, uma figura extremamente doce passou ao meu lado, exalando um perfume único, quase como um milhão de rosas vermelhas, seus cabelos cor de fogo brilhavam às primeiras luzes das lojas que estavam começando a tentar clarear as ruas, eu fiquei admirando aquele anjo, até que senti um cutucão no braço.


- Hein, o que acha Kath? – ele perguntou me olhando fixamente com um sorriso nos lábios.


- Ah, aham, legal. – eu falei tentando me conectar ao mundo real, meio tonta ainda.


- O que eu acabei de dizer, dona Katherine? – ele perguntou sarcástico.


- Aaah, confesso, não escutei. – eu disse, rindo, e sentindo as bochechas corarem.


- Viu um gatinho passando, é? – Mitch riu mostrando aqueles dentes perfeitos, juro que se não fosse meu melhor amigo eu o agarraria ali mesmo.


- Foi, foi sim. – menti, tudo bem que ele gostava de meninos e meninas, mas, não sei o que ele pensaria de mim se eu contasse que eu achava que gostava também, e a essa altura, eu não suportaria perdê-lo, minha única esperança de não cair na loucura.


- Safada, e nem me mostra. – ele riu, balançando a cabeça e acendendo um cigarro. – Estamos chegando! – ele disse todo feliz, me pegando pela mão e andando mais rápido.


- O bar não vai fugir não, Mitchel, seu gay. – eu brinquei, apressando o passo para acompanhá-lo.


- Cala a boca sua magrela. – ele riu.



-----------------



Depois de muito tempo conseguimos entrar no tal bar, era meio escuro, umas luzes cinzas iluminavam o lugar, e davam um aspecto sujo, algumas garotas que dançavam em meio aos rapazes estavam semi-nuas apesar do frio que fazia lá fora, dentro também não estava necessariamente quente, mas estava mais agradável. Caminhamos até a bancada do bar e eu apaguei o cigarro em um dos cinzeiros que estavam ali.



- Que droga Mitch! Não trouxe grana. – resmunguei, colocando as mãos nos bolsos.


- Duas Tequilas por favor. – ele disse ao barman, uma gracinha de rapaz, com os cabelos curtos e bagunçados, usava uma calça preta e uma t-shirt que tinha o desenho de uma camisa social, com gravata borboleta e tudo.


- Vai pagar pra mim? – perguntei pasma.


- Tudo pela minha magrelinha querida. – ele riu e sentou num banquinho ao meu lado.


- Awn Mitch, se você não fosse gay eu casava com você! – brinquei, rindo enquanto observava ele metralhar o barman com o olhar.


- Não dá amor, você ainda não esqueceu o Matt que eu sei... – ele disse meio decepcionado, balançando negativamente a cabeça.


- Eu faço o que posso. – resmunguei, pegando a taça e tomando um gole, assim que me virei vi um vulto de cabelos ruivos cor de fogo, e o perfume veio aos meus lábios, eu pude até sentir o gosto de sua pele, era ela. Meu coração disparou, ela parecia tão frágil, tão deslocada, sentada em um dos sofás vermelhos que ficavam espalhados pelo lugar sua pele era branca e seus olhos negros, como a noite, mantinha os lábios rosados contraídos, como se estivesse com medo, naquele momento eu soube, eu tinha que protegê-la. – Mitch, não vou virar vela, vou conhecer pessoas, não suma. – resmunguei, levantando do banco.


- Ok. – ele respondeu, e voltou-se ao barman.



Caminhei na direção dela, com vontade de abraçá-la e dizer que estava tudo bem, como alguém conseguia ser tão perfeita? Eu não sabia o que era aquilo que ela havia feito comigo, mas o Matt ficou em último plano, ele parecia tão pequeno, ele e suas promessas falsas não eram nada comparados à minha vontade de proteger aquele anjo. Senti meu rosto corar ao me aproximar dela, e mesmo tomada pela visão aterrorizante de que ela iria me odiar pro resto da vida, me apresentei.



- Não gosta de dançar? – disse, com a voz trêmula, acho que ela percebeu meu nervosismo, porque sorriu, o sorriso mais perfeito que eu já vi na vida.


- Olá também. – continuou sorrindo, e virou-se para mim, eu pude ver meu reflexo naqueles olhos perfeitos, negros. – Na verdade, não no meio de tanta gente. Me sinto deslocada aqui. – disse de um jeito tão inocente e doce, que eu não pude evitar sorrir.


- Também me sinto meio por fora aqui, ah, permita-me me apresentar, Katherine. – disse estendendo a mão, e esperando resposta dela, ela inclinou o corpo para trás, como se tivesse se assustado um pouco, talvez estivesse na mesma situação que eu, com medo.


- Sou Melanie, me chamam de Mel. – ela apertou a minha mão, a mão dela era tão menor que a minha, tão quente e convidativa. Meus olhos queriam se encher de água.



-----------------



- Ah sua esquelética! – ouvi a voz de Mitch ressoar em meu ouvido.


- Não me deixe surda, agradeço a atenção. – disse sarcástica. – Vamos embora? – perguntei quase implorando.


- Como assim vamos, meu amor? Eu vou com o Oliver, ia te perguntar se você tem carona. – ele disse, me olhando e depois olhando Melanie, e ele sorriu.


- Ah, essa é a Melanie, Mitch. Bom, ela está com alguns amigos, mas vai de táxi, e eu não tenho grana e nem vou ficar andando por ai a noite. – reclamei.


- Eu pago pra você, Kaah! – ela disse e sorriu, colocando a franja ruiva de lado, eu pude sentir o perfume de novo. E sorri, ninguém me chamava de Kaah, mas ela havia chamado. – Aonde você mora? – ela perguntou.


- Não precisa. – eu agradeci.


- Não tem problema, por favor, Kaah. – ela me metralhou com aquele olhar, aquele olhar que me matava por dentro.


- Bom, resolvido o problema, é difícil a dor do parto, mas eu vou partir, boa noite minhas jujubinhas. – ele disse e nós duas caímos na gargalhada, o Mitch era uma figura.



-----------------



Chovia, e muito, o frio estava quase insuportável, e estávamos as duas paradas debaixo do toldo vermelho que ficava em frente ao bar, já fechado.



- São dez da noite. – disse indignada. – Que droga, devia ter deixado você ir com o Mitch, ele teria te dado carona. – esmurrei a parede.


- Acalme-se, tudo vai ficar bem. – ela me amparou nos ombros, sorrindo. – Olha Kaah, um táxi! – ela riu, dando saltos de alegria.


- TÁXI! – eu gritei, correndo desesperadamente até a ponta da calçada, e sentindo o frio da chuva, mas o táxi parou, valeu à pena.


- Vamos logo! – ela disse, rindo e correu até a ponta da calçada.


- NÃO! – gritei, tirando meu casaco de couro e a cobrindo da chuva. – Não se molhe, a chuva está muito gelada. – disse, meio desesperada, não ia deixar nada acontecer à ela. Ela apenas sorriu e entramos no táxi.


- Ufa. – suspirei, molhada.


- Mora aonde, Kaah? – ela perguntou.


- Do outro lado da cidade. – exclamei, meio sem graça, procurando seus olhos negros no meio da escuridão.


- Então vamos para o meu apartamento. – pude ver ela sorrir, e eu encostei no banco do carro.

Notas finais
Continuo? /o/