I Hate You Too!
35 XXXV- Coisas que você nunca vai conseguir viver com
Notas iniciais
(POV: HASSAN)
Estávamos nos aproximando dos últimos dias de aula. O último período era apenas de formalidades escolares, nada muito específico. Os últimos vestibulares já haviam acontecido e agora tudo já havia passado e só restava torcer e esperar respostas positivas, o que era o pior sentimento do mundo. Algo detestável era esperar.
Minha mãe estava em casa, me esperando para sairmos para a escola. Ela vinha caminhando calmamente até mim, com um pedaço de papel na mão.
—Filho… -Suspirou calma e me entregou. -Isso chegou ontem, no seu nome… Tá lacrado ainda e é da Universidade…
—O quê? -Tomei o papel da mão dela e segurei. Era o primeiro resultado que havia chegado.
—Chegou ontem e eu guardei, quando cheguei você já estava dormindo e aí eu preferi te dar hoje de manhã… -Ela se explicou enquanto eu rasgava o envelope do resultado. Aquela era a primeira fase, a carta chegava dizendo se você havia sido aprovado para a segunda fase ou não. -E então…
Li o papel com atenção e até chegar no final da folha com o resultado… Não aprovado.
—Não passei… -Sussurrei, mas ela conseguiu ouvir.
Minha mãe se aproximou e me abraçou junto ao sofá. Um abraço verdadeiro de consolo. Basicamente aquela era a universidade que eu queria, era a mais próximo de casa e eu ficaria bem feliz em estudar nela. Ainda tinha outras duas opções, mas a primeira, já havia sido descartada.
—Filho… Eu sei que você está decepcionado, mas isso é bem comum… Imagine que o número de pessoas que está sentindo essa sensação é tão grande e o mais importante, é que você tentou outras e terá outras oportunidades de tentar novamente… Imagina isso como apenas um primeiro teste.
—Eu estou bem, mãe. -Falei dando um beijo na bochecha dela e me encaminhando para o quarto para pegar minha mochila.
Na verdade, eu estava devastado. Receber nãos nunca era uma coisa boa, principalmente quando é de algo que você quer muito. Peguei minha bolsa e suspirei ao me ver no espelho do guarda-roupas. O dia já havia começado difícil e imaginar que tudo estava desandando piorava.
Não necessariamente tudo, a conclusão do plano havia sido a contento. Eu já sabia o que queria, já descobri que Bruno realmente existia e não estava morto e isso já era um tremendo alívio. E era isso que eu estava precisando para excluir Jonathan de vez da minha cabeça.
Imaginar que ele estava em outro país e que nada daquilo o preocupava era bastante provável. No fundo, Jonathan nunca mostrava grandes preocupações com coisas além de si mesmo, o mais vulnerável que ele já havia sido comigo, havia sido me mostrar seus quadros. E era isso que eu estava precisando, me preocupar comigo mesmo. Aquele resultado de vestibular, era o que eu queria para abrir os olhos.
Suspirei e fechei os olhos, abrindo logo em seguida para me olhar de novo. Era isso que eu queria agora. Preocupar-me com a universidade, com os resultados que virão, com o meu futuro como médico, que tudo daria certo e que aquele não era apenas um início para os sim que virão em seguida.
Saí do quarto com a mochila nas costas e minha mãe já estava pronta, com sua pasta e arrumada para ir ao escritório. Ela seguia com o mesmo sorriso de compaixão e aquilo era mais decepcionante do que estimulante. Caminhamos até o carro e o caminho foi bem silencioso.
Geralmente, eu e minha mãe nunca éramos de conversar muito, porém o silêncio também não era muito comum nos nossos momentos juntos, porém aquilo estava me fazendo bem. Era melhor ficarmos calados do que ela tentando melhorar o meu humor depois do balde de água fria sofrido pela negativa da Universidade.
Ao chegarmos na escola, me despedi da minha mãe e desci do carro. Luck estava sozinho na entrada da escola, parecia entediado e mexia no celular.
—Oi, Luck… -Comentei me aproximando e ele me sorriu e me abraçou.
—Eai, Has. Tranquilo?
—Sim, tirando o fato de que recebi o meu primeiro não da Universidade, o resto tranquilo…
—Aquela perto da sua casa?
—Isso… -Respondi sentando, enquanto Luck guardava o celular no bolso.
—Mas aquela é foda mesmo, né? Eu nem tentei aquele vestibular… Se você não passou, eu seria rechaçado.
Ri da escolha de palavras dele. Luck sempre era exagerado em adjetivos e isso era divertido.
—Cadê o Midas? Você não estando com ele, deve ter acontecido algo…
—Tá tudo bem… -Respondeu. -Ontem eu tive que dormir em casa, foi aniversário do meu pai e aí acabamos que viemos separados hoje.
—Vocês sempre dormindo juntos, né? -Comentei rindo.
—Diferente de você e do Jonathan, a gente não mora na mesma casa. -Luck logo engoliu em seco ao perceber o que disse, Eu sabia que ele não havia falado por mal, ele só era expansivo e acabava falando mais do que a boca. -Ei Has… Desculpa. -Era perceptível que ele falaria isso.
—Tudo bem, Luck.
—Eai, bichinhas! -Vinícius chegou dando a sua típica saudação detestável e sentou-se ao lado de Luck, o deixando no meio.
—Que péssima maneira de dizer “oi”, Vinícius.
—Você que é sempre muito educado, Luck…
—Olá, garotinhos… -Aquela voz aquela hora da manhã não.
Yuri chegava com seus habituais óculos escuros e o sorriso sarcástico no rosto. Evitei qualquer contato visual com ele, para que aquilo não me irritasse mais do que já estava sendo o possível. O loiro parou na frente de nós três. Luck também estava evitando qualquer contato visual com ele, apenas Vinícius o encarava.
—Como vai a manhã de vocês, jovens? -Perguntou retirando os óculos e nos olhando. -Pelo clima nada bem, né? A minha está maravilhosa.
—Transou ontem, Yuri? -Vini provocou e ele apenas sorriu.
—Não, Vinícius. Consegui a segunda fase da Universidade, sabe como é né? Mas acho que eu vou numa Universidade privada mesmo, Universidade pública só serve para greves e eu não quero esses problemas na minha vida acadêmica.
Então Yuri havia conseguido a segunda fase da melhor Universidade da cidade? Aquilo era apenas pimenta nos meus olhos, ou ouvidos, no caso. Tentei me manter impassível e apenas ouvindo aquilo.
—E você, Hassan?
—O que? -Respondi com uma pergunta, ainda sem olhar.
—Conseguiu a segunda fase? Acho que eu estava ouvindo que não, isso é bem triste, né? Me diziam que você era o melhor da sua turma…
—Você não consegue viver sem ouvir o que os outros falam, né? Se a fortuna do teu pai acabar já pode viver de fofocas, não acha? Tem muito mercado televisivo pra isso.
—Acha mesmo que me atacar vai resolver seus problemas, sr. Perfeitinho?
—Você chega aqui e diz o que quer e eu que estou te atacando?
—Sabe de uma coisa que você nunca vai conseguir viver com?—Yuri perguntou desafiante e eu levantei ficando de frente a ele. Vini riu com a ação e Luck parecia tenso. -Você nunca vai conseguir viver com o fato de que eu sempre vou conseguir tudo o que que você ou o que você deseja? Porque os melhores sempre conseguem tudo o que querem e eu sou melhor que você.
—Claro que é…
—Você pode se achar inteligente e pode até ser, na verdade, mas eu sou mais! -Yuri me confrontava se aproximando. -Eu sou mais rico. Eu sou mais bonito. Eu já peguei o seu ex. E agora estou pegando o seu outro ex. E pode apostar que com todos eles, eu fui melhor. Porque você vai sempre estar muito inferior a mim.
—Você sempre se acha tudo isso, ou só quando está na minha frente? -Yuri riu em escárnio e eu segurei seu antebraço com força, o apertando. —Sabe de uma coisa que você nunca vai conseguir viver com?
—Manda… -Desafiou.
Eu sabia que as minhas próximas palavras poderiam causar uma situação devastadora em todas as pessoas que eu conheci na vida. Aquilo iria me afetar, iria afetar Luck, iria afetar Jonathan, talvez afetasse Vinícius, mas principalmente iria afetar Yuri e, infelizmente, iria afetar João. A escola já estava começando a encher de alunos e a maioria passava por nós prestando atenção, o clima não era agradável, parecia tenso e eu não iria recuar.
—Você nunca vai conseguir viver com o fato de que embora você aparente toda essa superioridade ridícula que você clama, eu sempre vou estar um passo a sua frente, não necessariamente sempre, mas eu sou bem mais ardiloso do que você imagina e bem menos indefeso também. Você pode achar que está sempre a minha frente, mas eu estou a sua frente. Eu sei coisas que você nem imagina que eu saiba, eu conheço você mais a fundo do que você espera e eu tenho mais munição do que você…
—Você acha que pode me ameaçar assim… -Yuri puxou o próprio braço, mas continuou me encarando.
—Isso não é ameaça! Eu não sou como você, eu transcendo as ameaças! Ou você não acha que eu sei tudo sobre o Bruno? -Yuri pareceu assustado com aquele nome sendo trazido a tona. -Que você arma mentiras pra conseguir ter as pessoas nas suas mãos, mentiras sujas, mas as mentiras acabam rápido, Yuri e eu acabei de descobrir que toda a sua ladainha, não passava de um ridículo golpe pra ter quem você queria nas suas mãos.
—Você só pode estar blefando… -Ele sabia que eu não estava, mas não queria cair do cavalo tão rápido assim.
—Você é patético de achar que eu não descobriria as coisas, ainda mais se entregando tão facilmente pra o meu aliado, deixando bem simples que eu arrancasse tudo que eu precisava de você.
—De que você tá falando?
—Você se diz muito inteligente pra se fazer de idiota… -Ele sabia, óbvio que sabia.
—SEU FILHO DA PUTA!
O segundo seguinte eu só vi Yuri se jogando sobre mim, numa tentativa de me agredir, o que chegava a ser cômico, vê-lo partindo pra uma agressão, já que nas palavras, ele não conseguiria me afetar. Acabamos caindo no chão, devido ao peso que ele jogou sobre meu corpo. Coloquei meus braços como defesa no meu rosto, enquanto ele tentava me bater no rosto.
—VINI! ME AJUDA! -Luck se aproximando rápido.
—Deixa eles se matarem, vai ser massa! -O moreno brincou, mas logo levantou pelo pedido de Luck.
O loiro acabou me segurando, embora eu não estivesse batendo em Yuri, apenas estivesse me defendendo e Vinícius tirou o loiro de cima de mim, o levando pra um pouco longe.
—VOCÊ ME PAGA, HASSAN! VOCÊ NÃO PERDE POR ESPERAR, VOCÊ E AQUELE MOTOQUEIRO MORTO DE FOME!
Vinícius acabou soltando Yuri que simplesmente saiu de onde estávamos, invés de entrar na escola, ele se encaminhou para a saída.
[...]
(POV: YURI)
Aquilo era patético. Eu havia sido enganado no mais básicos dos truques, tudo por um envolvimento idiota com um morto de fome estúpido. Ódio, poderia ser a coisa que mais definia o meu momento. Recoloquei os óculos escuros, Hassan poderia ter vencido uma batalha, eu iria ganhar a guerra. Entrei novamente no meu carro, com o motorista de sempre no seu lugar e comecei a discar no meu celular. Maldita vida!
—Para o meu apartamento, por favor… -O homem fez uma cara de negação, mas apenas dirigiu.
Os motoristas eram indicados a não descumprir ordens, não interessava se eu estava matando escola para ir para outro lugar, nenhum deles poderiam me questionar sobre o que eu deveria fazer. Bruno precisava saber de tudo isso e precisava me ajudar.
—Alô?—Falou ao atender a ligação.
—Estou indo pra sua casa, preciso de você!
—Hã? Eu estou indo para o meu estágio!
—Volta pra casa!
—Yuri…
—Bruno, eu preciso de você!
—Eu não posso faltar o estágio assim.—Ele não deveria me irritar mais do que eu já estava.
—EU NÃO QUERO SABER, INVENTA ALGUMA COISA! DIZ QUE A SUA MÃE MORREU, QUE VOCÊ TÁ COM A PERNA AMPUTADA NO HOSPITAL, MAS EU TE QUERO EM CASA!
Eu odiava quando as coisas saiam do controle e aquele era o dia onde tudo parecia fora do lugar. Meus olhos já estavam ardendo de tanto que eu estava segurando as lágrimas. Eu havia sido enganado de uma forma tola e agora teria que aguentar tudo aquilo. Aquela foi a minha primeira humilhação fora de casa. Ser humilhado pelos meus pais, era comum e usual.
Levei uma das mãos aos olhos para secar o mais rápido possível, a última coisa que eu estava precisando era que o motorista me visse desabando. Aqueles dois iriam ter o que merecem. Humilhar alguém como eu não iria ficar por aquilo. Principalmente, o motoqueiro ridículo.
Ao chegar no prédio onde Bruno morava, desci do carro e pedi para o motorista esperar. Entrei sem ter que explicar nada a ninguém e logo subi. Ao chegar lá, Bruno estava sentado no sofá. O negro usava um terno bem acertado ao ser corpo. bruno estagiava em um dos fóruns da cidade e já era considerado um prodígio dentro da faculdade, por estar tão bem empregado e ser tão jovem.
—O que houve?
—Você tinha razão… -Me joguei nos braços do maior, que segurou meu corpo enquanto eu basicamente desfalecia. -Ele só queria brincar comigo… Eu… -Comecei a chorar e Bruno me apertou em seus braços.
—Você tá falando do bartender, né? -Confirmei que sim com a cabeça enquanto continuava a chorar.
No fundo, eu deixei tudo aquilo acontecer, eu me deixei envolver com alguém que eu deveria ter ficado com os dois pés atrás. Eu poderia estar revoltado, irritado e com o espírito completo com vontade de vingança, mas eu havia deixado tudo aquilo acontecer, eu não me precavi.
—Baby… -Bruno falou tentando me animar, mas estava bem complicado. -O que você quer fazer?
—Eu quero matar aqueles dois idiotas. Fazer com que eles paguem por tudo! -Falei irritado e sentei-me no sofá. -E você vai me ajudar!
—Eu faço tudo o que você quiser…
Bruno ajoelhou-se entre minhas pernas e se inclinou para me beijar. Virei o rosto e ele beijou meu rosto, possivelmente sentindo o gosto salgado das minhas lágrimas. Minha cabeça estava bagunçada demais. Nem eu sabia o que sentia por Bruno, antes eu realmente amava ele ou apenas estava feliz por ter alguém que fazia tudo o que queria? Amor era realmente fazer tudo o que o outro quer? Essa não é a definição de interesse? E João… Era inegável que eu sentia algo por ele, mas será que era amor? Tão rápido, em apenas alguns meses?
—Me trás um pouco de água, pode ser? -Bruno levantou e logo foi atrás de água.
Eu tinha que fazer algo, saquei meu celular e disquei outro número.
—Alô? —Suspirei.
—Você tá em casa? -Será que eu deveria fazer isso?
—A caminho… Aconteceu algo? Você deveria estar na escola, não?
—Precisamos conversar…
—Não parece boa coisa.—Respondeu.
—Estou a caminho, chego em trinta minutos, ok?
—Ok, eu estarei em casa antes disso.
—Tchau.
Bruno estava me olhando com um copo com água na mão e me encarava com uma expressão nada satisfeita. Ele sabia para quem eu havia ligado e claramente desaprovava isso.
—O que você está fazendo, Yuri? -Levantei e peguei o copo da sua mão para tomar o líquido, sem lhe responder. -Ei… Você vem aqui e fica todo pra baixo e agora vai na casa desse vadio? Me explica porque eu não estou entendendo…
—Eu não vou na casa dele! -Ele me olhou com uma expressão de dúvida. -Nós iremos!
[...]
O motorista estava levando eu e Bruno para a casa de João. Era melhor eu ir com Bruno, pois o moreno já deveria saber de tudo e poderia usar contra mim, ou até me sequestrar como forma de ganhar dinheiro. Bruno sempre foi um guarda-costas.
Nos aproximávamos da parte menos afortunada da cidade e eu deveria saber que não deveria me envolver com aquele garoto. Aquilo deveria ter ficado sempre claro na minha mente, mas não… Eu havia sido estúpido e deixado me envolver. Aquilo só aumentava minha raiva.
João morava na entrada da favela, o que não era muito agradável, mas pelo menos não era dentro do muquifo que era aquele lugar. Desci do carro e Bruno me acompanhou. O motorista novamente iria esperar. Toquei a campainha e logo João me atendeu. Usava uma camiseta branca e um jeans e logo fez uma expressão de surpresa ao me ver ali com Bruno.
—O que esse cara faz aqui, Yuri? -O negro ameaçou se aproximar, mas eu fiquei entre os dois.
—A gente precisa acertar umas coisas, João. Podemos entrar? -O moreno parecia assustado e sem entender e eu não o esperar responder fui logo entrando.
Bruno me acompanhou e ele acabou fechando o portão e entrando em seguida. A casa estava arrumada, apenas a pia parecia suja, o que poderia deixar claro que ele havia acabado de comer.
—Yuri… -Começou e eu sentei na cadeira, próxima a cozinha.
—Você realmente achou que iria ser fácil assim? Que eu ia ser patético o suficiente e ser enganado por dois idiotas. -Na verdade, havia. Eu havia sido patético, porém eu não iria assumir aquilo na sua frente.
—Do que você está falando?
Antes que João conseguisse se aproximar, Bruno o segurou por trás. Puxando o braço do moreno e prendendo entre seu corpo e o corpo de João. O fazendo ficar imóvel. Bruno era mais alto e mais forte que João e aquilo seria fácil pra ele.
—Não se faz de tonto, João! -Levantei e me aproximei do moreno, sendo imobilizado por Bruno ficaria fácil pra mim. -Você conseguiu o que queria! Me usou pra conseguir sua carreira de modelo, me usou pra sair da sua vida péssima e conseguir algo melhor, fez tudo escondido com o seu amiguinho, se é que é só seu amiguinho mesmo…
—Yuri, o que você tá di…
E ele se calou ao sentir o tapa que eu dei na sua cara. Minhas lágrimas já não estavam tão controladas quanto antes e já desciam involuntariamente pelo meu rosto e eu não queria chorar na frente daquele ridículo.
—O HASSAN ME CONTOU TUDO, JOÃO! -Os olhos dele se arregalaram e ele parecia mais assustado do que antes. -Que você me usou pra arrumar informações pra ele, que talvez, vocês estivessem dormindo enquanto eu estava caindo na sua, mas eu não vou ser mais o bobo da corte do espetáculo de vocês viu! Você ainda vai sofrer muito nas minhas mãos, escreve o que eu estou te dizendo, viu.
—Yuri… Você tem que me ouvir. -Com minhas mãos apertei as bochechas dele com força, o fazendo me olhar nos olhos, embora meus olhos estivessem muito encharcados de humilhação e ódio.
—Fala! Continua fingindo o que você fez esse tempo todo!
—Isso fugiu do controle, tá legal? Eu não queria isso no começo, eu fui movido… Por uma idiotice, mas… Eu gosto de você! Quer dizer, eu aprendi a gostar de você e perceber que você me completa em alguns pontos e que é isso o mais mágico entre a gente.
—Continua… -Me aproximei, deixando meu corpo bem próximo do corpo imóvel dele. Bruno parecia amedrontado, talvez por imaginar que eu fosse ceder, mas eu não iria.
—Eu… Eu… Por favor! Eu sei que eu fui terrível com você, mas eu nunca quis fazer isso… Eu fui movido por uma vontade, mas percebi que isso não estava me levando a nada… Eu gosto de você… Por favor! -Os olhos do moreno começaram a lacrimejar e eu não iria cair nessa.
—Sabe de uma coisa… -Levantei nas pontas dos pés e fiquei colado ao corpo do moreno, até me aproximar da orelha dele. -Eu devia ter te ajudado a ser ator e não modelo, você também tem futuro nisso! -Soei o mais irônico que eu conseguia naquele momento e saí de próximo de João. -Vamos, Bruno…
—Terminou, Yuri? -Confirmei para Bruno e ele não se moveu, o olhei. -Agora é minha vez!
Bruno empurrou o corpo de João contra a parede e logo o moreno virou com o impacto, porém João não estava em guarda e eu pude sentir a força com que Bruno socou o rosto de João o fazendo se desequilibrar e quase cair no chão.
—Bruno… -Tentei chamá-lo, mas ele não pereceu me ouvir.
João não parecia pronto para se defender e aquilo só estava ajudando nos ataques de Bruno. O negro jogou novamente o corpo do moreno contra a parede e dessa vez deu outro soco, no outro lado do rosto de João. O moreno tonto tentou se por em guarda e se defender, porém Bruno lhe deu uma rasteira o fazendo cair contra as costas no chão.
—Se levanta, seu lixo! Acha que vai ficar por isso mesmo?
—Bruno… -Chamei novamente, ainda longe, mas ele me ignorou.
João levantou e tentou dar um soco em Bruno que se esquivou com facilidade, Bruno correu e apertou o corpo de João contra a parede, com o baque percebi que o moreno tentou respirar, Bruno segurou forte pela cabeça e bateu contra a parede. Os lábios de João sangravam, seus dentes estavam avermelhados de sangue, fora as porções roxas perceptíveis no rosto e que deveriam estar pelo corpo também.
—Sabia que você poderia ter feito isso com qualquer um, menos com ele, não sabia? -Bruno segurava a cabeça do moreno, que muito possivelmente não estava entendendo nada do que ele estava dizendo, pelas dores que estava sentindo. -Você vai morrer, seu lixo!
Bruno jogou o corpo de João contra o chão, que dessa vez caiu de barriga pra baixo. Ao gemer pela dor, o chão acabou ficando vermelho de sangue, líquido que João soltou pela boca ao gemer.
O moreno tentou se levantar, porém só conseguiu ficar de quatro, o que facilitou Bruno ao chutar a barriga de João com força, o fazendo novamente cair ao chão. A força havia sido suficiente para fazer João vomitar alguma coisa entre comida e sangue e que tinha um cheiro péssimo.
—BRUNO! -Ao ouvir meu grito desesperado e choroso, ele parou. -VAMOS EMBORA!
Bruno passou por mim e se encaminhou para saída, enquanto eu ainda via aquela cena. O corpo de João caído no chão, com uma porção de sangue e vômito misturada próximo ao seu rosto, com um dos olhos inchados, com os cabelos suados e completamente sem qualquer esboço de consciência. E embora meu exterior estivesse perfeitamente bem, meu interior deveria estar pior do que aquilo.
Caminhei e saí daquela casa, a qual não esperava mais voltar nunca mais. Coloquei meus óculos escuros e novamente iria fingir… Aquilo que sempre fui bom em fazer.
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