Notas iniciais
Este capitulo deu-me enorme prazer a escrever :D Adorei mesmo, tanto que saiu maior do que eu normalmente costumo fazer. Espero que gostem, tanto como eu gostei de escrever.

Um novo dia amanheceu. O sol entrava radioso pelas percianas do quarto. O brilho bateu-me diretamente no rosto, fazendo me despertar. Abri os olhos preguiçosamente, olhei para o despertador ao meu lado direito que marcava as 8.13 da manhã.

Sentei-me na cama e esfreguei as têmporas. Mais um longo dia que começava. Levantei-me, despi a camisa de dormir e entrei no duche.

Os pensamentos iam escorrendo, assim como a água escorria pelo meu corpo. As palavras do médico ressonavam na minha cabeça. Era para passar no Hospital pela manhã.

Vesti um vestido de cor preta, um pouco a cima do joelho. Escovei os dentes, escovei o cabelo, peguei a gabardina vermelha que estava pendurada no cabide e sai.

Peguei o autocarro e dirigi-me para o Hospital.

O autocarro abrandou, dando sinal que tinha chegado ao meu destino. Agradeci ao condutor e sai. Encarei de novo aquele edíficio amarelado. Só de pensar que iria encontrar aquela pessoa, o meu estômago retroceu-se. Pareciam borboletas a voar dentro da minha barriga e a pedir desesperadamente para sair.

“Acalma-te Hannah. Tu supostamente salvaste-o. Ele é uma pessoa normal. Não te irá acontecer nada.”

Entrei pela porta principal e fui na recepção. A mesma senhora de ontem estava sentada por detrás do balcão. Quando ouviu a porta a abrir, encarou-me por cima dos seus óculos. Caminhei até ela.

—Bom dia. Não se se lembra de mim de ontem. Eu vinha ver o rapaz que entrou ontem. Que eu lhe falei, lembra-se?

A senhora de idade suspirou. Levou os óculos ao cimo da cabeça e esfregou os olhos. Encarou-me por uns segundos, que para mim pareceram horas, e entao exclamou:

—O doutor falou-me que caso aparecesse para o contactar. Sente-se ali na sala de espera que ele já chega e fala consigo.

Ela desviou a sua atenção de novo para o computador e eu conduzi-me até a sala de espera. Não deu tempo para me sentar. O Doutor entrou, pousou a mão no meu ombro . Assustei-me um pouco. Quando o encarei é que notei que se tratava dele.

—Bom dia doutor. Me deu um susto.- forcei uma risada baixa.

—Bom dia senhora. Veio ver o jovem de ontem ?

—Hannah.. pode me tratar por Hannah. E sim, eu vinha ver ele. Ele está melhor?

—Sim. Ele acordou a pouco. Está a tomar o pequeno-almoço agora. Vamos, eu digo-lhe onde é o quarto.

Ele começou a andar, fez o gesto com a mão para o seguir. Eu segui, atrás dele. Ele realmente era bem alto. E visto de trás, parecia bem maior. Tinha as costas largas, era realmente charmoso.

Segui-o até um ala dos quartos. O hospital era bem grande, como esperado. O seu cheiro a desinfetante era enjoante. Eu realmente não gostava daqueles sitios. Hospitais, farmácias, centros de saúde... tudo isso eu preferia evitar ao máximo.

Várias enfermeiras passavam por nós, muito aterefadas. Nem parecia que eu importava naquele sitio, era apenas uma visita certo?

—É aquele quarto. Pode entrar, se precisar de alguma coisa chame por mim ou por uma enfermeira. Eu tenho trabalho para fazer.

—Está bem doutor. Muito obrigada.

Ele afastou-se, sorrindo. O meu coração acelarou bastante naquela altura. Caminhei até à frente da porta. Respirei fundo. Umas três vezes seguidas. Jurava que o meu coração poderia sair-me pela boca a qualquer momento. A minha gabardine vermelha parecia ter perdido um pouco da cor, na frente daquela porta.

Respirei fundo de novo, bati a porta. Ninguém respondeu. Decidi então entrar por conta própria. Torci a maçaneta e entrei.

Dentro do pequeno quarto de paredes brancas, numa cama, estava um rapaz sentado. A comer. Ele ao ver-me entrar não desviou o olhar da comida, continuou a comer como se nada fosse.

O cabelo negro dele brilhava ao incidir com a luz natural que entrava pela janela. A bata branca que ele vestia, fazia um pouco de contraste com a sua pele morena. Não era escura, mas tinha um tom mais escura que a minha.

Os olhos acinzentados dele, realmente eram lindos. Mas pareciam desfocados, como se ele não visse o que estava na sua frente.

Consegui notar na sua nuca um pouco da tatuagem que lhe corria para as costas, mas não entendi do que se tratava, mas era grande.

As minhas mãos tremiam ao de leve. Entrei, fechei a porta e sentei-me ao lado da cama. Os lençois brancos da cama pareciam suaves.

Ele parecia-me uma pessoa bem triste, sem alma, sem motivo para viver. Não sabia da sua história, o seu passado, nem o que fizera até o conhecer, mas agora, parecia que estava sem sintonia com tudo o que ele era , ou pelo menos, parecia ser.

Já que ele não parecia interessado falar comigo, adientei eu conversa.

—Olá. O meu nome é Hannah Moris. Fui eu que te encontrei naquele dia, no beco.

Quando falei isto, ele parou a colher entre o comer e a sua boca. Como se tivesse ouvido algo que lhe interessou. Essa pausa de colher durou no máximo uns 2 segundos, depois ele continuou a comer o seu iogurte.

Vi que ele não iria responder nada. Engoli em seco, nervosa, tremia ao de leve, a minha voz tremia um pouco. Ele estava me a deixar nervosa, sem me responder.

—E-então ontem eu vim aqui. Ver como estavas, mas nao consegui entrar porque já tinha acabado a hora de visita.

Nada. Nem um simples olhar para a minha direção. Ele nem me tinha examinado com o olhar, o que normalmente costuma ser normal fazer quando alguém desconhecido nos fala. Ele realmente era diferente de todas as pessoas que eu ja conheci. E esse detalhe chamava a minha atenção.

—Soube que foste tratado de imediato. Espero que já te sintas melhor...

Ele continuava a comer. Devagar. Sem me responder a nenhuma das falas que eu disse anteriormente. Será que ele era surdo e eu não sabia? Isso era humilhante.

—Ah sim eu encont- Fui interrompiada.

—Ei. – A voz dele era grossa, muito sensual na verdade. Nem um pouco rouca. Era grossa mas um pouco aveludada. Dava muito prazer em ouvir. E eu realmente fiquei um pouco envergonhada quando ele me dirigiu a palavra. Era muito bom, saber que ele realmente deu conta da minha presença.

Ele pousou a colher que acabara de usar com o iogurte. Então rodou o rosto e encarou-me.

Naquela altura, parecia que me estava a hipnotizar. Os olhos cinza dele eram realmente lindos, mas ele olhava-me como se não me visse, mas sim parecia que olhava diretamente para a minha alma, encarando-me como se me quisesse comer por inteiro. Eu estremeci por dentro, senti um arrepio. Aquela aura, parecia que que estava a ser sugada por um buraco negro aos poucos, parecia que a minha forma vital estava a ir embora. As minhas pernas tremiam ao de leve. Aquilo que eu estava a sentir era medo? Aquele olhar penetrante a entrar pela minha alma fez-me tremer. Ele era assustador, mas belo. Parecia um ator tirado daqueles filmes que todas as meninas gostam. Mas toda aquela aura me dizia : Afasta-te! Corre! Foge! Mas as minhas pernas nao cediam. Congelei naquele instante.

—Podes tirar essa faceta de boa menina?

A próxima frase foi arrogante. Egoísta. Mas fez com que eu voltasse a realidade e aquela sensação de mau estar desaparecesse. O Buraco negro que me sugava desapareceu de 1 segundo para o outro.

—Ahn?

Não tinha entendido a pergunta dele. Boa menina? Eu não estava a fazer nada daquilo. Eu apenas queria que ele se mostrasse um pouco grato por estar ainda vivo. Por eu o ter salvo.

—Se vieste aqui para ter o meu agradecimento vieste em vão. Não te vou agradecer. – Falou afastando a pequena mesa giratória para o lado e ajeitando-se na cama.

Eu estava sem palavras naquele momento. Não conseguia soletrar nenhuma palavra. Ainda estava congelada por dentro.

—Eu não te pedi para me salvares. –disse arrogante de novo. Com aquele tom de superioridade e despreocupado. – talvez, já te passou pela cabeça que eu quisesse mesmo perder a vida naquele sítio?

Fiquei paralizada. A minha respiração estava pesada. Cada clique que o relógio na parede dava era bem auditivél. E o meu coração parecia acompanhar esse ritmo.

—Só responde-me a uma coisa, Hannah Moris, porque é que naquele dia, não seguiste em frente, sem olhar para dentro do beco. Como sempre fizeste até agora?

Encarou-me de novo, esperava uma resposta sincera minha. Como ele sabia que eu sempre seguia em frente sem olhar para dentro daquele sítio? O rosto dele estava sereno, sem uma curva de expressão. Sem sorriso. Apenas os olhos que me encaravam era a única coisa que conseguia expressar algo. Ele era frio, calculista e muito muito assustador. Aquela sensação que saia de cada ponto dele, era ameaçadora. Como se disse para não me aproximar.

— Como sabes que eu sempre sigo em frente?

Consegui finalmente falar. A minha voz saiu um pouco confiante para o meu gosto. Eu estava assustada na verdade, e ele sabia disso. Sabia que eu estava com receio.

—Eu sempre estive ali, naquela entrada. Então eu sabia quem tu eras e onde trabalhas, passas sempre à mesma hora. E sempre que ouço os teus saltos altos ressoarem ao chegarem onde estou, tu parás, e mudas o sentido da rua. Então a minha pergunta mantem-se, porquê?

Ele insistiu. Ele realmente notava que eu passava lá todos os dias. E ele sempre esteve lá. E eu nuncao notei, só até aquele dia. Porque seria realmente?

—Eu não consigo responder a isso, aqueles dois rapazes sairam a correr de lá e esbarraram em mim. Então, talvez por instinto? Eu olhei para lá e foi ai que te vi, ferido. E chamei ajuda. É isso.

Ele continuava a olhar-me com aqueles olhos penetrantes. Eu sentia-me forçada a responder ao que ele dizia.

—Fui eu que arranjei essa briga. Eu queria morrer. Não sabes o que passei, o que me faz sofrer. E tu apareceste e estragaste tudo! Sua intrometida!

Ele gritava. Tinha a mão direita fechada em punho, e juro que se ele tivesse mais perto de mim, me agarrava e era capaz de acertar um bom soco. Eu assustei-me com o tom de voz ameaçador dele.

—Eu não te salvei por favor. Eu achei que tinhas sido ataca-

—Mesmo assim! Devias ter passado pelo outro lado como sempre fizeste!

Ele interrompeu a minha frase com mais um berro. Fechei os olhos com força por reflexo, enquanto aquelas palavras entravam pelos meus ouvidos como facas.

—Acho que era o que uma pessoa normal fazia se te visse. Se não fosse eu, seria outra a encontrar-te e a ajudar-te.

Falei baixo, com medo da reação que ele poderia vir a ter. Mas era realmente verdade, se não fosse eu, seria mais alguém a ir e ajudá-lo.

Ele olhou-me furioso, levantou-se da cama de repente e agarrou-me pela gabardine. Puxou-me para cima. Ele era alto. Muito alto. Tinha quase uma diferença de 40 cm, entre mim e ele. Fiquei em bicos de pés enquanto ele quase encostava o seu rosto no meu. Estava furioso. Tinha os dentes cerrados, os olhos estavam a esforçar-se para me focar. A mão que me puxava a gabardine, não parecia afrouxar a força. Eu respirava seguidamente, sem pausar. Estava assustada. Agarrei o pulso dele com as minhas duas mãos.

—Solta-me . Por favor.

Pedi com educação, sem levantar a voz, tentando parecer o mais segura de mim. Mas as minhas mãos diziam o contrario.

—Não te voltes a meter onde não és chamada. Não voltes aqui. Não me procures nunca mais. Tu não me conheces, não sabes o que já fiz na vida. Então da próxima vez que nos encontrarmos eu não garanto que saias com vida.

Ele largou-me bruscamente, voltou-se para a cama e carregou no botão para chamar a enfermeira. Ele continuou de costas para mim. Segundos depois, a enfermeira entrou.

—Terminou a visita. Pode sair junto com ela. Não quero ver essa mulher mais à minha frente.

Ele falou calmo. Olhando-me por cima do ombro. Eu tinha as minhas mãos apertando o meu peito. Voltei a mim, apanhei a minha carteira do chão que caira quando ele me puxou e sai acompanhada da enfermeira. A porta fechou-se atrás de mim.

—A senhora está bem? Parece-me que algo está errado.

A voz suave e preocupada da enfermeira fez-me ficar mais tranquila. Recuperei a respiração que até agora estava acelarada.

—Sim... Estou bem.

Voltei a recepção. O doutor estava na sua pausa, e ao ver-me veio ter ao meu encontro. Pousou a mão no meu ombro e olhou-me.

—Então correu bem a visita? – Perguntou curioso. Afinal não sabia nada do rapaz. Então falar comigo talvez o fizesse ter algumas informações.

—Não correu como eu esperava. Foi um pouco...

Deixei a frase no ar. Não tinha palavras para descrever o que acontecera. Então veio-me a mente que eu ainda guardava os óculos do rapaz.

—Doutor, acha que poderia me fazer um favor?

—No que puder ajudar.

Retirei um bloco da carteira, apontei a minha morada e entreguei ao doutor.

—Podia dar-lhe isto?

Entreguei-lhe o pequeno papel. Ele pegou-o e encarou-me como acto de quem não entendeu.

—No dia do acidente, eu peguei os óculos quebrados e guardei-os para entregar mais tarde. Pensei em coloca-los para reparar, mas ainda não tive tempo. Então poderia dar-lhe esse recado? Se ele quiser claro.

O doutor acenou afirmativamente.-Darei sim. Fique descansada. Ele disse-lhe o nome?

Agora que parava para pensar, ainda não sabia o nome dele. Fui idiota, uma intrometida, mas nem o nome dele sabia. Segundo palavras do tal..

—Não sei ainda. Ele não ficou muito agradecido de me ver. Então não tive tempo de lhe perguntar.

A conversa acabou por ali. Eu sai do hospital. Tinha o vestido um pouco amarrotado, pela força que ele me agarrou na gabardine, amarrotou o meu vestido também. Mas, teria sido mesmo um erro ir ali vê-lo? Afinal eu fiquei interessada na história dele. Embora ele fosse assustador, aquele olhar brilhoso era sincero. E ele afastou-me com brusquidão. Tratando-me como uma pessoa que lhe repugna.

Estaria a espera dele na minha casa, caso ele quisesse os seus óculos de volta, teria de passar lá.

Então tomei uma decisão. Se ele fizesse isso, eu iria falar calmamente, tentar ajudá-lo. Se não fizesse, iria esquecer para sempre. Era apenas mais um capitulo que iria para tras das costas.

Preferia que a segunda opção tivesse se realizado.

Notas finais
Então que acharam? Sejam sinceros *.*