I Do Remember

11 Capítulo 11 - Only Truths


Aquele tinha sido um dos piores momentos da minha vida. Brigar com o Julian havia me ferido de tantas maneiras, que eu nem saberia explicar a maioria delas. Nós tínhamos brigado outras vezes, mas não tinha sido coisas sérias. Eu sabia que ele estava se encontrando com a Stacy há quase um mês, naquela época, então era óbvio que aquilo seria verdade.

Mas eu não queria continuar contando aquilo para Rachel. Se eu continuasse, teria que falar para ela sobre o Gary. Ele era legal, era bonito, não tanto quanto o Julian e parecia interessado em mim. É claro que eu nunca havia tido sorte com nenhum garoto, e dessa vez não teria sido diferente. Primeiro, porque eu estava ficando loucamente apaixonada pelo meu melhor amigo. E segundo, porque nenhum garoto presta. De verdade.

— Então vocês brigaram? — perguntou Rachel, com a intenção de me fazer continuar a falar.

— Sim — respondi secamente.

Eu não continuei. Aquilo era uma parte da minha vida que ninguém precisava saber. Até aquele momento, eu nunca havia ficado mal ou triste por causa de um garoto e, inesperadamente, o primeiro e único havia sido o Julian. Rachel era tão malvada e não conseguia entender isso.

— E depois? — ela voltou a insistir.

Depois da nossa briga, eu havia ficado sozinha atrás do prédio onde ficavam as salas da minha escola. Gary apareceu, me consolou e a gente deu um lindo beijo de cinema. No início, ele parecia meio tímido, mas depois ele começou a mostrar quem realmente era. Naquela dia, quando eu cheguei em casa, havia um chupão enorme no meu pescoço, que eu custei a esconder. Deveria ter ficado no meu pescoço por uns dias, acho. Não me lembrava muito, mas lembrava da quantidade de maquiagem que eu havia gastado para que ninguém visse nada. Contudo, uma parte de mim queria deixar aquilo a mostra para que o Julian visse que eu não estava interessada nele e que estava perfeitamente bem. O que era uma mentira, claro.

— Depois as coisas ficaram meio ruins, mas a vida tem dessas, não é mesmo?

Rachel me encarou com os seus olhos escuros.

— Você me parece muito esperta para estar em um manicômio — disse ela, inclinando a cabeça para o lado. — Vamos, me conte. Ela realmente estava grávida?

Naquele momento, Rachel me fez pensar que éramos duas melhores amigas dividindo segredos sagrados.

— Sim, ela estava grávida. — Fazia um mês que eu estava no manicômio, e dois meses havia se passado desde aquela briga minha e do Julian, então Stacy deveria estar no seu terceiro ou quarto mês de gestação. — Não vai demorar para todo mundo ver a barriga dela.

— E como o Julian encarou isso?

— Não sei — respondi, e era verdade.

Julian e eu paramos de conversar depois da nossa briga. Eu tentava evitar ao máximo vê-lo, mas algumas vezes era impossível. Na maioria das vezes que eu o vi, ele estava com outros amigos dele. Até achei que em breve a gente voltaria a conversar, mas quando o vi conversando com a Stacy e ela segurando a mão, desisti completamente desse pensamento.

Sim, eu era muito orgulhosa. E ele também era. Mas eu não podia suportar olhar para a cara dele e lembrar do que ele havia feito. Éramos da mesma sala, e eu sempre tentava chegar mais cedo, para chegar antes dele e abaixar a cabeça para não vê-lo. Isso realmente funcionou por um tempo, mas não muito.

— Vocês não conversaram sobre isso?

Dei de ombros, tentando parecer indiferente.

— Melhores amigos brigam — resolvi dizer.

Rachel se recostou à cadeira.

— E como melhor amiga dele, você não acha que deveria ter voltado atrás, deixado o orgulho de lado e ficado ao lado dele nesse momento? — ela me questionou, e eu desviei o olhar. Ela estava certa, eu sabia disso, mas naquele tempo, não tinha a menor chance disso acontecer. — Um garoto de dezesseis anos...

— Dezessete — corrigi. — O aniversário dele foi há três semanas.

— Pois bem... Um garoto de dezessete anos, que descobriu que iria ser pai, precisava do consolo da sua melhor amiga, e não que ela lhe virasse as costas!
Eu havia sido uma idiota. Parecia que tinha durado muito tempo, e que eu só havia expulsado a burrice de mim quando finalmente o Julian veio conversar comigo. Tinha sido a última vez que falamos sobre aquele assunto, e eu não tinha me lembrado daquilo até hoje.

— Eu não pensei assim naquela época, me desculpe.

— Não adianta ser irônica comigo, Rose — disse ela. Rachel olhou para o relógio. Imediatamente, ela ficou apressada e começou a juntar suas coisas. — Tenho que ir, Rose. Duas horas acho que é o tempo suficiente para te fazer refletir e parar de querer ir para a Solitária. Amanhã nos vemos novamente?

Acenei positivamente.

— Muito bem. Espero ouvir coisas boas sobre você amanhã.

Rachel pegou suas coisas e seguiu em direção à porta. Levantei-me, enquanto via o Michael Big Black entrando pela porta, se preparando para agarrar meu braço e me arrastar até o meu adorável quarto.

— Cuide bem dela, Michael — pediu Rachel, dando tapinhas no ombro dele. Michael não respondeu nada e simplesmente foi até mim.

Enquanto Rachel seguiu para a direita, Michael e eu seguimos pela esquerda. Em questão de segundos, estávamos na Solitária, e logo, eu estava encarando a porta feia da minha cela.

— Bons sonhos para você — disse Michael, já com a seringa na mão.

Afastei-me e olhei para ele.

— Eu não... Não precisa disso — falei. — Hoje não.

Eu já havia feito as coisas ruins no dia anterior. Não tinha mais nada para fazer. E, consequentemente, me peguei querendo repensar naqueles dias. Rachel tinha razão. Eu não havia sido uma boa amiga.

— Retardada — disse ele para mim, puxando meu braço. — Ninguém na Solitária fica acordada, menina.

— Mas... Eu juro que não vou causar nenhum problema.

— Não jura nada.

E então, apenas senti a seringa penetrando minha pele e vi tudo ficando escuro.

***

Quando acordei, percebi que eu estava bem, ou bem perto disso. Não havia tido nenhum pesadelo e dormira tranquilamente bem. Estava morta de fome, por isso, gritei pelo Michael. Demorou muito para que ele aparecesse, trazendo meu novo prato favorito.

— Quantas horas? — perguntei.

— Ainda não anoiteceu — ele me respondeu, seco.

O sedativo havia sido bem mais fraco dessa vez. Ainda bem.

Eu estava sentada na cama, o Michael estava na minha frente. Ele havia deixado a porta aberta, o que era bem raro, já que ele nunca confiara em mim.

— Você não é louca — ele me disse, enquanto eu devorava a comida.

Olhei para ele.

— O quê?

— Você — ele repetiu. — Não é louca. Em partes. Deve ter uma parte sua bem conturbada para ainda estar aqui. Ou querer estar aqui.

— Eu estou aqui, não estou?

Ele me olhou uma última vez antes de sair do meu quarto e bater a porta, o que causou um estrondo e ressoou pelos corredores.

— Está — ele havia dito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.