I. D. G. A. F.

1 i don't give a fuck


Notas iniciais
First!

Meu nome é Roxie. Rosalie Elizabeth Pellenz Baungarten na certidão de nascimento, e Roxie Knight naquela identidade falsa que fiz mês passado. Minha mãe costumava dizer que tenho nome de princesa. Costumava. No passado. Porque eu a perdi quando tinha 10 anos. Desde então vivo há sete anos sozinha. Bom, não totalmente sozinha, já que moro com meu pai, e ele e nada é a mesma coisa. Então é meio que sozinha mesmo.

O que sei da minha história é um pouco vago, minha avó me detalhou um pedaço dela após a morte de mamãe. Enfim. Não sei qual a definição de “normal”, mas sei que nunca fui desse jeito. Tudo começou quando Natalie Pellenz, natural de Hamburgo – Alemanha, mais conhecida como minha mãe, engravidou aos 16 anos de um cara que ela conheceu no colégio. Uma burrice clichê cometida, já que Natalie era a garota perfeita, com a vida perfeita. Cheerleader, linda, corpo moldado pela dança e exercícios que fazia, estatura mediana, pele clara, longos cabelos negros que caíam em cascatas sobre os ombros, franja reta em comprimento exato e grandes olhos azuis que mais pareciam duas Agua Marinha. O conceito de cheerleader era exatamente aquele que todo mundo conhece; bonitas e gostosas conseguem tudo e todos que querem. Natalie era exatamente assim, além das notas altas, simpática com todo mundo e amável. Ela era perfeita, bem de vida e de família. O orgulho de todos.

O tal cara que Natalie engravidou se chama Jordan. Jordan Baungarten, mais conhecido como meu pai. Conhecido também como um dos melhores jogadores do Gymnasium Eppendorf, jogava basquete no Eppendorf Baskets, o time do colégio. Jordan não era um bom aluno e cresceu em uma família completamente desestruturada. É dependente químico desde os 12 anos de idade, e aos 30 quase morreu de taquicardia depois de ter usado uma dose muito alta de heroína. Era o típico galã do colégio; físico de jogador, peitoral definido e musculoso com quase 1,90m de altura. A tatuagem de dragão que cobria parte de seu peito parecia se mover quando corria. Se cabelo era curto, mas algumas mechas caíam sobre as orelhas e testa. Olhos castanhos e brilhantes; possuía um sorriso lindo, o que é uma raridade ver. Jordan era – e ainda é – o tipo de pessoa que não se importa com nada, o “foda-se” parecia costurado em sua fisionomia. Disperso e sempre viajando em seus pensamentos, sua mente trabalhava sem parar.

Conheceu Natalie em uma festa de veteranos no terceiro ano, dada na casa de um dos jogadores. Todo mundo sabe o que acontece nessas festas; o álcool e as drogas são totalmente liberados. Em todos os cantos da casa viam-se pessoas cheirando algo ou fumando e bebendo até vomitarem ou desmaiarem no jardim perto da piscina. A música alta confundia a todos, estava escuro e o efeito das drogas fazia tudo girar e ficar mais colorido. Natalie sentiu mãos em seu quadril e deixou-se levar pelo ritmo eletrônico. Não demorou muito para que um casal subisse as escadas, rumo a um dos quartos no andar de cima. E com esse casal, quero dizer Natalie e Jordan.

Não preciso dizer o que aconteceu depois dessa festa.

Sabe aquela ladainha de série americana? Líder de torcida + atleta + festa de colégio? Então. A história dos meus pais daria um bom dinheiro para um desses canais de TV paga. A qual que não assistiria, porque já saberia o final inteiro. Final esse que se resumia em mim. A festa passou e as fofocas também, porém Natalie não parava de sonhar acordada. Apaixonou-se perdidamente por Jordan, e o mesmo não dava a mínima para ela. – só queria uma coisa, assim como todos os outros. O problema era que, na época, a menina vivia em um lindo e brilhante conto de fadas, com direito a príncipes encantados e pedidos de casamento. Ela realmente achava que Jordan era o cara certo e, sendo assim, proporcionaria a ela uma vida digna de um livro. Mas ele nem ao menos ligava ou dizia “Olá” quando se encontravam nos corredores do colégio. Preferia espalhar coisas sobre Natalie e passar o resto dia se matando na heroína e na maconha.

A imagem de Natalie foi manchada no colégio e a partir daí, tudo começou a mudar. Os dois viviam em mundos extremamente opostos, estavam cegos até que a palavra brilhou no teste de gravidez e a notícia chegou aos ouvidos de Jordan.

- Estou grávida.

Natalie entrou em um desespero tão grande, que precisou ficar internada por dias. Aceitou assumir a criança depois de muita conversa e briga com os pais super conservados, entretanto Jordan escolheu o contrario. Era integrante de um grupo alemão de traficantes e fugiu quando soube. Até porque o pai de Natalie era general, por isso nunca conheceu a família da “namorada”.

A TV paga teria sucesso com a série.

Aos cinco meses de gravidez, Natalie descobriu o sexo do bebê: uma menina. Já havia aceitado a ideia e vivia em paz em casa com os pais, recebendo ajuda e apoio. Certa noite, a campainha dos Pellenz tocou. Natalie foi exatamente a felizarda a atender. Quem estava do outro lado da porta não era quem ela gostaria ver. Jordan havia voltado. Tão diferente que Natalie quase não o reconheceu. Havia raspado o cabelo, e possuía tatuagens em maiores tamanhos e quantidade. Uma cicatriz cintilava, perto do queixo dele, provavelmente feita com um canivete. Natalie ficou abalada com a visita repentina. Seus olhos se encheram de lágrimas, não podia acreditar no que via. Jordan estava bem à sua frente, vestindo jeans velhos e uma camiseta com a gola esgarçada, tão antiga quanto as calças.

- Jordan...

Ele não se moveu e nem se pronunciou no começo, apenas deu um de seus sorrisos tortos e passou a mão nos minúsculos fios de cabelo.

- Oi Natalie... Posso falar com você?

- O QUE ESSE DELINQUENTE FAZ AQUI?

Estava tudo bem até o pai de Natalie aparecer. Houve uma discussão com gritaria e alguns “sai da minha casa, fica longe da minha filha”. Mas, antes de Jordan sair da casa dos Pellenz, a garota deixou uma frase no ar:

- É uma menina, Jordan.

Com isso, ele parou e correu indo embora. O olhar de Jordan ao ouvir aquilo fez Natalie chorar por noites e noites. Acabou tendo que ser internada mais uma vez. Os meses forma passando e as dificuldades da gravidez aumentaram. Era de alto risco, então ela passava mal, dormia bastante, sentia dores e a pressão baixava. Os médicos já haviam dito, Natalie podia não aguentar o parto. Muito nova, seu corpo não estava preparado, e com o nervoso que passou, a pressão oscilava, prejudicando o bebê.

A mim, no caso.

Natalie havia perdido muita coisa em pouco tempo. Amigos, status, um suposto namorado e, por pouco, a família. Só não foi expulsa de casa pelo próprio pai, pois o mesmo foi ameaçado pela esposa. Depois de muita discussão, decidiram que a garota ficaria. Bancaram e ajudaram em tudo, entretanto tinha um acordo: Jordan ficaria o mais longe possível dos Pellenz, não teria contato com a criança e se dependesse, nem ao menos a conheceria. Natalie aceitou. Que escolha ela tinha, afinal?!

Os sofridos nove meses se passaram e o grande dia havia chegado. A garota sentiu dores fortes e foi levada ao hospital. Não aguentava mais ver aquele lugar, conhecia até mesmo as moças que ajudavam na limpeza. Chegou ao local e entrou na sala de cirurgia chorando. Foi internada e três horas depois veio a notícia.

Eu havia nascido.

Apesar das complicações e demora, nasci saudável. Natalie não me viu até acordar no já quarto, onde eu dormia nos braços de vovó, com vovô sorrindo ao lado. Ficou muito feliz, não esperava ver o bebê que via. (falas de minha própria mãe).

Até aí foi o que vovó me contou. Do resto, me lembro de tudo.

Cresci com eles. Tive uma infância ótima, tinha tudo o que precisava; mãe carinhosa e atenciosa, avós e um lar. Amava minha mãe mais do que a própria vida, ela era tudo pra mim. Meus avós também possuem uma grande parte de mim. O nome que me foi dado é uma homenagem à minha avó. Rose Elizabeth é o nome dela, por isso me chamo Rosalie.

Eu tinha cinco anos quando ela me disse uma frase ao qual nunca mais esqueci. Estávamos no parque, fazia um dia lindo e mamãe me empurrava no balanço:

- Sabe por que te dei esse nome, Rosalie? Porque é nome de princesa. E você é a minha princesa!

Parei o balanço e ela agachou na minha frente. Pôs uma mecha do meu cabelo para trás enquanto falava. Lembro-me de ter sorrido e a abraçado. Nunca mais me esqueci disso e espero nunca esquecer.

Ainda sou bem parecida com minha mãe. O cabelo preto é o mesmo, assim como a pele muito clara. Só não tenho seus olhos azuis cor do céu, os meus são castanhos claros como os de Jordan, meu pai. Aquele mesmo Jordan que fez o que fez, sumiu, voltou, sumiu de novo, e... Bom, estava do outro lado do parque naquele dia. Um cigarro pendia entre seus dedos e ele encarava minha mãe e a mim. Perguntei quem era, pois realmente não o conhecia. Mamãe disse que não era ninguém. Jordan colocou o cigarro na boca e virou as costas. Continuei olhando, e na volta para casa fiquei pensando na cena. Foi uma sensação estranha, como se houvesse uma ligação entre nós. Eu era muito nova, não sabia de nada ainda. Só tinha cinco anos, mas me lembro da cena claramente.

Os anos foram se passando e o assunto “Jordan, meu pai” não foi mais conversado até meus sete anos. Minha mãe me explicou, de maneira que eu entendesse a história toda sobre ele. Fiquei em silêncio durante um tempo e no fim pedi para conhecê-lo. Eu senti a insegurança e o medo nos olhos de mamãe quando ela disse “um dia Rosalie, um dia” e me abraçou. Fiquei com aquilo na cabeça, porém nada mais foi falado.

Houve uma manhã em que o telefone tocou. Acordei cedo neste dia, era meu aniversário de 10 anos. Antes de descer as escadas para a sala de estar, ouvi a voz nervosa da minha mãe no telefone. Ela brigava com alguém, mas eu não sabia quem era. Minha avó estava apreensiva, andando de um lado para o outro. Me escondi atrás da parede e ouvi apenas alguns trechos da conversa.

- Não, você não vai vê-la! Não. (...) Desiste disso! (...) Por que agora? Faz 10 anos! (...) Nos deixe em paz, Jordan!

Desligou. Vi minha mãe cobrir o rosto com as mãos e dizer algo abafado. Ela chorava, e minha avó a abraçou dizendo para se acalmar. Continuei ali ainda observando, mas minha garganta estava começando a fechar, então corri para o quarto e tranquei a porta. Nada me doía mais do que ver lágrimas descerem pelo rosto da minha mãe. Era meu pai ao telefone, querendo me visitar mais uma vez. Eu ouvia dizerem que ele era proibido de chegar perto. Eu tinha medo, era verdade, o passado do meu pai foi assustador. Afundei-me na cama e chorei até adormecer.

Era sempre assim: minha mãe brigava, meu pai insistia e o clima pesava. E eu acumulava sensações. Nunca expressava o que realmente sentia, muitas vezes não aguentava e acabava chorando trancada no quarto. Fraca e inútil, era assim que eu me sentia. Acordei com alguns barulhos no andar de baixo naquele dia, ainda era meu aniversário e mais uma vez eu vestiria a máscara de camuflagem.

Pois bem, aqui a história começa a ficar triste.

Dois dias depois da ligação, a campainha tocou. Eu estava no quarto, vendo televisão, e o relógio do despertador marcava 21h33min. Estranhei a hora e fui até a janela saber quem era. Eu não conseguia ouvir o que diziam, mas sabia que minha mãe falava com um homem. Ele parecia bêbado, tinha o cabelo grande cobrindo as orelhas e vestia roupas velhas. Olhei bem para seu rosto e percebi uma coisa. Eu o conhecia. Conhecia aquele homem, era Jordan; meu pai. Minha mãe o empurrava para fora, e os dois estavam brigando. E dessa vez era pessoalmente. Do lado esquerdo de onde estavam, pensei ter visto algo ou alguém. Um movimento estranho. Ignorei. Abri uma fresta da janela para tentar escutar e o vento entrou fazendo minha cortina voar, chamando atenção de meu pai. Ele parou de discutir e olhou para cima. Meu coração foi parar na garganta. Batia tão forte que tive medo, senti o corpo todo esquentar naquele instante. Os olhos dele estavam mais escuros do que o normal. Isso porque só o vi uma vez e nem sabia quem era.

- Como é o nome dela, Natalie?

- O quê...?

Minha mãe apareceu no campo de visão e olhou para mim. Tive vontade de chorar, não era para aquilo estar acontecendo. Ela respirou fundo, virou-se para Jordan e tentou se controlar.

- Vai embora, Jordan.

- Não, me deixe ver a menina... Por favor...

- Não Jordan! Você está bêbado!

Meu pai tentava mais uma vez entrar em casa, mas era empurrado para fora todas as vezes. A voz dele estava enrolada e estava cansado.

- Por favor, Nat...

Nat. Ninguém chamava minha mãe pelo apelido antigo. Meu pai começou a chorar e implorar de tão desesperado. Soluçava e cobria o rosto com as mãos, agora lavado de lágrimas. Tentou mais uma vez entrar, mas foi colocado para fora. Eu resolvi descer. Puxei a cortina para dentro e, com o coração pulsando em meus ouvidos e a revira volta em meu estômago, desci as escadas e corri em direção a porta.

Tudo aconteceu muito rápido. O mundo pareceu em câmera lenta naquele momento.

Meu pai ainda chorava muito. Mamãe tinha o empurrado para fora e dizia algo quando ele me viu e gritou:

- Filha!

Tentou se aproximar e minha mãe virou para segura-lo, mas... Ela não conseguiu. O barulho foi tão alto que me assustou e me fez cobrir os ouvidos com as mãos e fechar os olhos. Abaixei a cabeça e não ouvi mais nada. Eu tremia da cabeça aos pés. Lágrimas quentes e grossas cobriam meu rosto. Arrisquei abrir os olhos e a cena que meus olhos viram, foi o pesadelo que desejei com toda força acordar. Tinha um homem parado na porta, olhando para o chão. Ele respirava com dificuldade e não piscava, estava estático. Meu pai abraçava minha mãe no chão, onde estava completamente coberto de sangue.

Ela estava morta. Aquele homem ali parado tinha baleado minha mãe.

- Natalie! Natalie! Natalie!

Meu pai gritava e chorava tanto, que seu rosto ficou vermelho feito um tomate. Ele tremia e acariciava os cabelos da minha mãe. Meus joelhos cederam e comecei a chorar como nunca na vida. Durante alguns minutos eu não conseguia me aproximar, não sabia o que fazer ou o que pensar. Não tem como ao menos descrever. Do jeito que pôde, meu pai ligou para a emergência e largou o celular em qualquer lugar. Abraçou minha mãe fortemente e continuou chorando.

Me aproximei e acariciei o rosto dela. Fechei seus olhos e senti uma dor horrível no peito por saber que nunca mais eu veria o brilho daquelas pedras preciosas azuis. Eu soluçava e quase não conseguia enxergar pelo tanto de lágrimas que caiam dos meus olhos. Senti uma mão sobre a minha e olhei para cima. Meu pai também chorava ainda. Observei seu rosto, os olhos castanhos claros cobertos de tristeza, arrependimento e remorso. Os olhos que eu havia herdado.

- Oi pai...

Chorei mais ao ver que ele sorriu. O homem que havia baleado minha mãe sumiu. Eu não soube dizer para onde foi ou quando saiu dali. Ele apenas desapareceu. A pulsação dela já não existia mais, então ficamos juntos até a ajuda chegar. A polícia chegou junto com a ambulância. Meus avós haviam saído para jantar naquele dia e, no instante seguinte que o policial saiu da viatura, meu avô estacionou. Foi um tumulto terrível. Nos tiraram do chão, deixando o corpo inerte da minha mãe no meio do sangue. Eu tentei me soltar das mãos do policial, mas não consegui. Fui trancada no quarto, impossibilitada de saber o que acontecia no andar de baixo. Minhas roupas estavam sujas de sangue, assim como meu rosto e minhas mãos. Eu batia e chutava a porta, chorava e gritava, mas nada acontecia. Só me restou sentar e colocar aquela dor para fora. Culparam meu pai, que tentou se explicar, porém ele também só chorava.

Jordan Baungarten foi preso por ter sido cumplice de um homicídio culposo. O que aconteceu foi que meu pai havia levado um tipo de ajuda, uma companhia se caso meu avô o ameaçasse novamente. Ele estava bêbado, foi uma decisão repentina. Quando descobriu que minha mãe estava sozinha, tentou dizer para o homem ir embora. Mas ele não entendeu e acabou apertando o gatilho no momento em que eu desci as escadas.

Um plano mal elaborado que resultou numa tragédia.

Demorou uns meses para que eu entendesse que naquele caixão descendo sete palmos de terra abaixo, a mulher que eu amava e que me deu a vida, descansava em paz. Na autopsia deu para ver, a bala perfurou o pulmão dela, fazendo-a sufocar com o próprio sangue. Não vi isso acontecendo, foi tudo muito rápido. A ficha não caía. Entretanto, quando caiu, me vi sozinha.

Decidi mudar a partir daí. Nada mais fazia sentido, meu porto seguro havia sido tirado de mim de maneira bruta, fiquei sem ação alguma. Entrei numa depressão tão profunda, que tive que parar de estudar. Não saía mais para lugar nenhum, só frequentava o psicólogo e de lá, dormia quando chegava em casa. Me isolei completamente do mundo por alguns anos. Durante esse tempo, não vi meu pai. Pelo que meus avós diziam, ele estava em julgamento. Eles brigavam pela minha guarda no tribunal, não queriam de jeito nenhum que eu ficasse com meu pai. O culpariam pelo resto da vida. Eu não sabia qual seria meu destino, apenas fui avisada que eu ainda teria que fazer uma escolha. Com quem eu ficaria ainda era um mistério. Eu não culpava meu pai, mas também não o inocentava, então ficava difícil saber o que pensar a respeito.

Aos treze voltei para a escola. Foi bem estranho, sempre fui uma aluna dedicada, sempre amei estudar e sonhava em cursar Medicina. Agora, tudo o que eu sentia era desgosto, vontade de desistir de tudo. Perdi a conta de quanta detenção peguei, meus avós foram chamados várias vezes no colégio e por pouco não fui expulsa. Tudo ficou escuro na minha vida, desmoronei de uma vez. Me envolvi com pessoas... Diferentes, na escola. Conheci todo quanto é tipo de droga e bebida. Comecei a usar e aos quatorze fui parar na reabilitação. Motivo? Coma alcoólico. Empurrei a escola o quanto pude, terminei a sétima série na beira do precipício e fui internada.

Mudei drasticamente. Tanto de atitude como fisicamente. Emagreci o que não tinha para emagrecer, cortei todo o meu cabelo e só usava roupas largas para esconder meu corpo. Meu rosto, antes corado e contente, empalideceu e entristeceu. Na reabilitação, comecei a tomar remédios antidepressivos, o que me deixava ainda mais debilitada. Eu não me preocupava com alta, pois não conseguia progresso no tratamento. Parei de tentar, essa é a verdade.

Completei meus quinze anos lá dentro. Nesse mesmo ano, descobri quem me colocou naquele lugar. Meus avós. Foi decisão deles. Não houve resistência, não tentaram me ajudar de outra forma, a primeira proposta do psicólogo foi aceita sem pestanejar. Tentei entender durante um tempo, mas parei. Pois também soube que por eles eu ficaria ali até a maior idade, para não terem que brigar mais pela minha guarda. Sinto repulsa por eles desde então.

Não houve sequer uma ligação de feliz aniversário. Lembro-me deste dia, foi completamente triste. A única pessoa que falou comigo foi a Doutora Sparks. – ou Lilly, como somente eu a chamava. Ela era minha única amiga ali dentro, era a minha doutora. Loira de cabelos curtos, pele clara, olhos azuis claríssimos. Por baixo do jaleco, ela usava roupas confortáveis; calça jeans escura e moletons estampados. Apenas o sorriso dela me acalmava e foi com ela que consegui sair daquele lugar antes dos dezessete. Há histórias com essa doutora.

No dia da minha alta, dois homens de terno foram me buscar. Eu havia acabado de tomar os últimos medicamentos e estava muito sonolenta, então não perguntei nada e entrei no carro. O que eu tinha a perder?! Fui levada ao tribunal. Meu pai e meus avós estavam lá com seus respectivos advogados. Não cumprimentei ninguém, muito menos falei algo. Sentei na cadeira vazia que pediram e esperei para ouvir o que tinham a me dizer. Todos me olhavam, mas minha mente vagava longe dali. Era o dia que eu saberia com quem iria morar. Havia o direito da escolha, mas também havia algumas questões de que o advogado decidiria. Olhei para minha avó e a vi apertando a mão do meu avô com força, apreensiva. Meu pai apenas me olhava. Ele estava careca novamente e a tatuagem de seu braço fora colorida. Sorri levemente. Eu não o via há cinco anos, desde a morte de mamãe.

Cinco anos e eu ainda não acreditava.

Começaram a falar umas coisas que eu não entendia, então parei de prestar atenção. Me fizeram perguntas longas e eu respondia em monossílabas. Por pouco não houve uma discussão entre minha avó e meu pai. Coloquei as mãos no ouvido da mesma maneira que fiz na noite da morte, e a juíza fez todos se calarem. Acalmei a respiração e respondi a pergunta feita para mim:

- Com quem prefere morar, senhorita Baungarten?

Me chamaram pelo sobrenome do meu pai. Era a primeira que eu ouvia aquilo, então foi como se a resposta estivesse óbvia.

- Meu pai. Passei muito tempo longe dele, não é justo deixa-lo sozinho depois de tudo.

Aquela foi a resposta mais longa que consegui dar. A surpresa foi geral. Minha avó desatou a chorar, porém não me importei. Perdoei ela e a meu avô pelo que fizeram, mas não esqueci. Não levei a situação toda muito a sério até ouvir as palavras:

- Rosalie Elizabeth Pellenz Baungarten permanecerá sob a guarda de Jordan Baungarten a partir de hoje. Os avós poderão vê-la apenas se houver autorização do responsável. Caso encerrado.

Meu pai seria solto naquele mesmo dia e moraríamos na mesma casa. As coisas começaram a ficar sólidas diante de meus olhos, meu coração bateu mais rápido e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Por um momento desejei voltar para a reabilitação. Tive medo, pois tenho tantos problemas quanto ele, porém mais uma vez eu não tinha nada a perder. Fomos para casa depois da despedia chorosa de meus avós. Não esbocei sentimentos, só queria ir para casa me organizar novamente.

A casa que meu pai vivia era simples comparada com a minha antiga, mas bem confortável. Eu até já tinha um quarto para mim. Foi uma coisa que eu não esperava acontecer. Parei para pensar que apesar de ter abandonado minha mãe na gravidez, ele nunca me negou ou rejeitou. Foi apenas estranho, pois cresci sem sua companhia.

Acabamos nos conhecendo aos poucos e assim vivíamos bem. Meu pai fazia os trabalhos dele, e eu me afundava em remédios, tentando não pensar nas substâncias químicas que tanto me deixavam a par do mundo. Entretanto isso durou pouco. Descobri que meu pai produzia e vendia as mesmas que eu usava, e era dessa maneira que conseguíamos sobreviver financeiramente. Entrei no ramo e além de nunca faltar para mim, eu ganhava o meu dinheiro. Era uma rotina básica; trabalhávamos a noite, usávamos durante a manhã e dormíamos o resto do dia. Quase não via meu pai em casa, ás vezes ele sumia e voltava três dias depois complemente podre. E como ele só tinha a mim, então cuidava dele. Tivemos que nos mudar, pois corríamos perigo de a polícia nos encontrar. E se isso acontecesse, meu pai iria preso de novo e eu, para a reabilitação. Ou cadeia também, isso dependia das condições.

Desisti de uma vez da escola, já sabia que desse lugar eu não sairia mais, a não ser direto para um caixão. Como eu disse, parei de tentar. De me importar também, aprendi muito com Sr. Baungarten. Comecei a visitar minha mãe diariamente no cemitério. Passo horas e horas conversando com ela. Eu sou ouvida, sinto isso. Fecho os olhos hora ou outra tentando senti-la. Funciona quando me concentro. Até posso ouvi-la me respondendo. É apenas nesse momento que volto a ser a Rosalie e mato um mínimo da saudade que sinto da minha mãe.

Meus dezessete chegaram e aqui estou eu. Roxie Knight na identidade falsa, Rosalie na certidão. Órfã de mãe, com problemas psicológicos (como diz o diagnóstico), usuária e perdida na vida, agora sentada em frente ao túmulo que diz:

“Natalie Pellenz

✰13/06/1987

✞15/07/2013”

Se meu coração quisesse parar agora... Ele poderia. Eu nem sequer me assustaria. Até acenderia um baseado pra comemorar minha ida a qualquer que seja o lugar que as almas vão. Sabe por quê? Eu não dou a mínima!

Notas finais
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:)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.