Notas iniciais
Olá gente! Até que demorei menos do que o costume para postar. Obrigada pelos comentários e boa leitura!!

– Ara, a gente devia de te saído de lá antes Gina! — Ferdinando falava enquanto fugia com ela. Se sentia arrependido por muitas coisas e ter saído da floresta era uma delas. Sentia falta da manhã tranquila que passara na margem do riacho. Mas infelizmente a única coisa que podia fazer agora era correr.

–Eu sei disso Ferdinando, não precisa me avisar! — Gina não estava muito diferente dele. Mas o que mudava era a tamanha raiva que estava sentindo. Tinha sempre que fugir? Não podia fazer nada, e agora, mesmo com esses pensamentos, realmente não podia. Seria melhor deixar para uma hora em que pensasse melhor. Ou acabaria fazendo alguma besteira. Se sentia exausta, a dor de cabeça estava crescendo e começava a sentir falta de ar. O que mais queria naquele momento era descansar. –Vem pra cá! –Disse e se virou com Nando, entrando em um beco escondido, sem saída. Depois de um tempo, todos que os perseguiam haviam sumido.

–Ieu acho que a gente já pode continuá... - Disse Ferdinando, mas sem receber resposta alguma. Quando olhou, ela estava com a mão na cabeça, aparentemente incomodada com algo. –O que aconteceu co cê Gina? - Disse novamente, com uma certa preocupação.

–Nada não Ferdinando...não é nada... é só uma dor na cabeça. — Disse, começando a respirar com dificuldade e tossir.

–Ara Gina ocê num tá bem... — O engenheiro começou a se preocupar ainda mais, mas quando se aproximou, ela fingiu estar normal e foi em direção da avenida.

–Eu to sim! Só estou cansada Ferdinando... E esse ar da cidade está me fazendo mal. Só isso! Vamos então? - Disse, tentando mudar o assunto. Sempre era teimosa.

Ele decidiu acompanhá-la. Afinal, o que faria? Continuaram, agora indo em direção à floresta. E o que parecia ser uma caminhada rápida estava demorando muito. Nenhum dos dois se lembrava de ter ido tão longe. E as crises de tosse de Gina estavam os deixando ainda mais nervosos. Ferdinando sabia que alguma coisa não estava bem. Até que ela cambaleou no meio da rua.

–Gina, Gina! - Disse ele, indo socorrê-la e a segurando pelos braços.

–Não é nada Ferdinando, me solta. — Respondeu, se soltando e se afastando. — Eu já disse, eu to cansada. Agora antes de chegar na floresta a gente precisa colocar as nossas roupas de novo.

–Tá certo Gina, tá certo. Vamos. Mai si acontece isso de novo a gente para pra descansá. — Respondeu o engenheiro.

Seguiram pela longa avenida até que acharam um pequeno restaurante com banheiro, onde entraram e se trocaram. Quando Ferdinando saiu, encontrou Gina já trocada, sentada em uma cadeira. Ele não queria ser pessimista, mas teve a impressão de que ela aparentava ainda pior do que quando estava na rua. Via que estava respirando com um pouco de dificuldade.

–Vamos Gina? - Perguntou, oferecendo sua mão.

Vamos... — Quando segurou em Ferdinando para se levantar, se sentiu ainda pior e não conseguiu.

–Ara Gina, o que foi? — A preocupação voltou a afligir o engenheiro.

–A dor... tá aumentando... — Manteve o orgulho até não aguentar mais. Até chegar nessa situação.– E eu não to conseguindo respirar direito... Eu preciso de água. — Ela se sentia como se estivesse sendo sufocada.

–Gina carma que ieu já trago água procê. — Ferdinando correu pedir no balcão um simples copo d'água, mas para sua surpresa esse lhe foi negado. Mesmo depois de alegar que ela estava passando mal, não conseguiu nada sem ter dinheiro.

–Deixa, vamos embora Ferdinando... — Disse Gina, que sabia que a discussão não adiantaria de nada. Se estivesse bem e isso fosse para Ferdinando, ela não pensaria duas vezes antes de se meter em uma briga. Mas no estado em que estava, não tinha cabeça para nada. Apenas sabia o lugar onde acharia água. Com a ajuda do engenheiro ela conseguiu sair dali e continuar a andar pela avenida.

–Gina, ieu peço em otro lugar. Ocê num pode ficar assim. — Falou o engenheiro.

–Ferdinando, você não entendeu. Aqui ninguém dá nada sem receber algo em troca. Principalmente dinheiro. E do jeito que água aqui é escassa, você nunca que ia conseguir um copo. — Explicou.

–Ieu entendo Gina... mai i agora, onde a gente vai achá água?

–Onde a gente já estava indo...

–Na froresta! — Completou Ferdinando.

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Pituca e Serelepe caminhavam pela floresta sem grandes sustos. Os dois estavam acostumados a explorar a Vila de Santa Fé e de todos, eram os menos amedrontados. A menina ainda temia essa busca, mas a falta que sentia do irmão era maior. Enquanto seguiam, a menina chamava por ele, sem obter sucesso.

–Ara Lepe, nois procura, procura, procura i inté agora nada do Nando aparece... – Disse a menina, cansada.

–Vamo continuá inté começa a iscurecê. Dispois a gente vorta.

–Tá certo. — Concluiu Pituca.

As próximas horas passaram voando para as crianças. As brincadeiras de esconde-escode e as músicas que cantavam contribuíram para isso. Mesmo com tudo que passavam, nunca deixavam de sorrir. Quando começaram a se cansar, subiram em uma árvore e se sentaram. Serelepe pegou sua inseparável luneta e olhou o lugar. Conseguia ver a caverna em que os outros estavam, então era um sinal de que eles não iriam se perder. Via também um pequeno riacho não tão longe dali e por último, bem mais distante, conseguia ver prédios muito altos. As vezes até ouvia sons vindos do céu, que assustavam Pituca, mas logo conseguia ver os aviões passando e sumindo no horizonte. Naquela vista de cima, aquela floresta parecia menor do que quando estavam andando. Ficaram um tempo lá encima, descansando e admirando a vista, até a menina romper o silêncio.

–Ocê viu o Nando daqui de cima Lepe? - Disse, com uma certa esperança, que foi embora assim que o menino olhou para ela com uma certa decepção estampada na cara. Não precisou dizer nada para ela saber a resposta. E o que mais o deixava triste era ver a amiga desse jeito.

–Ara Pituca, ocê num fique assim... Logo logo a gente vai vortá pra vila i tudo vai vortá a se o que era antes, ocê vai vê. Agora vamo continuá? — Disse o menino, colocando a mão em seu ombro e descendo da árvore, ajudando ela a descer também.

–Vamo Lepe... - Respondeu, tentando se animar. -Ara oia só cada bichinho esquisito! — Disse vendo os insetos que sobrevoavam o local.

–I ocê tá percebendo que as árvores tão mudando também?

–É mermo... — Respondeu.

Conforme iam explorando aquela parte da floresta, a tristeza dos dois foi indo embora e a alegria que demonstravam não combinava nada com a atmosfera daquele lugar.

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Gina e Ferdinando estavam se aproximando cada vez mais do muro que separava a floresta da cidade. E se não chegassem logo, seria difícil para ela aguentar. Tinha certeza de que se não fosse forte do jeito que era, já teria caído a muito tempo atrás. Ou coisa pior. Além da dor, sentia uma sede que nunca havia sentido antes. Necessitava de água urgente. E não conseguia pensar em outra coisa senão no riacho que havia próximo a entrada da floresta. Começou a ver tudo embaçado. Precisava resistir. Mas não conseguia. E de repente tudo o que pode ver era a escuridão.

–Gina! Acorda Gina!! Aaara! - Disse Ferdinando ao vê-la caída no chão. O desespero que já havia sentido era pouco comparado aquele que sentiu naquele momento. Correu para socorrê-la, abaixando e colocando sua cabeça em seu colo. Passava a mão pelo seu rosto, querendo fazer tudo para trazê-la de volta mas não podendo fazer nada. Sentia uma profunda dor no peito. Se lembrou do que mais ela estava pedindo e achou que seria a única solução para aquilo. A carregou no colo e foi ainda mais rápido para a floresta.

Depois de alguns minutou chegou ao muro. Localizou a porta e digitou a senha. Mas para a sua surpresa a porta não abriu.

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A metade do dia já chegava e a preocupação de todos aumentava cada vez mais. Pelos dias que contavam, já tinha passado mais de uma semana que estavam longe de casa e vários dias que Ferdinando e Gina haviam sumido. Epaminondas e Catarina temiam a causa do sumiço do engenheiro enquanto Pedro Falcão e dona Tê sentiam um pouco a falta de Gina. Aquele pouco tempo que passaram juntos tinha sido o suficiente para sentirem carinho por ela, principalmente porque sempre quiseram ter filhos e nunca puderam. Sempre que imaginavam, pensavam em alguém como Gina, ela pela aparência e ele pela bravura.

Enquanto alguns como Milita sentiam falta de casa, Zelão não conseguia pensar em outra coisa que não fosse no estado da professora Juliana. Era verdade que havia acordado, mas seu estado de saúde tinha piorado muito. Para o capataz, sua professora sempre era como uma flor, mas para quem a visse agora acharia que sua aparência havia piorado muito desde que desmaiara. Estava agora com pouca cor e olheiras apareciam abaixo de seus olhos. E ainda isso era pouco comparado ao que estava sentindo. E também ao que Zelão estava sentindo, vendo a professora daquele jeito. Doutor Renato tentava de tudo mas não obteve sucesso em nada. E se não fosse por Mãe Benta e Zelão, talvez Juliana ainda estivesse desacordada.

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Ferdinando se sentiu impossibilitado de ajudar Gina. Mas tinha que fazer isso. Tentou todas as senhas como quando queria sair mas nada dava certo. Será que haviam mudado? Se afastou mas no muro não havia nenhuma dica. Sentou em uma pedra e ficou com Gina deitada em seu colo. Sentia alguma esperança ao ver que se coração ainda batia, mas ainda estava aflito com seu estado. Pegou em sua mão, estava gelada mas esquentou aos poucos em contraste com a mão de Ferdinando. Ele a levou a boca e distribuiu pequenos beijos pelo local. Logo depois olhou para seu rosto. Ela estava com os olhos fechados, como se estivesse dormindo, mas ele sabia que não era o caso. Ao olhar para Gina daquele jeito, o engenheiro sentia como se estivesse perdendo uma parte de si. Depois de todo esse tempo que passou junto dela, já não sabia como seria voltar a viver se vê-la. Beijou sua testa, a carregou novamente e caminhou em direção da porta. Estava determinado a tentar todas as formas de conseguir entrar. E a sua esperança era tão grande que a porta se abriu ao digitar a senha ao contrário.

Não teve nem tempo de comemorar ou questionar o porquê de não ter tentado isso antes. Correu ainda mais pela floresta até chegar a um lugar que conhecia muito bem. Encontrou o riacho e se ajoelhou na beira dele. Lembrava da manhã que passara junto de Gina mais do que nunca naquele momento e o que mais queria era que ela acordasse. Pegou um pouco de água e molhou o rosto, não demorou muito a ela começar a abrir os olhos. A surpresa foi a primeira palavra que disse.

–Nando... - Gina disse lentamente. Logo depois voltou a fechar os olhos, aparentemente incomodada e continuou a repetir seu nome. Ele se surpreendeu ao ouvi-la o chamar assim, como nunca tinha dito. Passou a mão em seu rosto carinhosamente e disse:

–Acorda Gina... — Ela só conseguia vê-lo. E tinha necessidade de senti-lo perto de si. Pegou a sua mão que estava em seu rosto e segurou.– Vamos, seja forte como ocê sempre foi... — Encorajava Ferdinando. E aos poucos ela começou a se levantar. Colocou as mãos na água e tomou um pouco, naquele mesmo momento se sentiu melhor. Entrou e ficou alguns segundos debaixo d'água. Quando voltou a superfície já não estava com dor alguma. A primeira coisa que viu foram os olhos azuis de Ferdinando a observando com atenção e preocupação.

–Eu já estou bem, agora quero descansar. — Disse rápido, evitando olhar para ele. Precisava pensar. Se sentou embaixo de uma árvore e fechou os olhos. Não conseguia parar de pensar o porquê de ter desejado ficar perto de Ferdinando enquanto estava se recuperando. Só podia estar delirando. Coisa que achava ainda estar. Não conseguia dormir com a imagem dele que não saia de sua cabeça e teve de abrir os olhos. Mas se arrependeu no mesmo momento porque encontrou os mesmos olhos azuis que a atormentavam a fitando.

–Também num consegue dormir? — Disse, sorrindo. Um sorriso mais de provocação do que de felicidade.

–Isso não lhe interessa. Vai dormir você. - Respondeu. Se afastar e ignorar era o melhor para ela naquele momento. Mas algo a dizia que isso não funcionaria.

–Ara Gina, ocê num me respondia assim inquanto tava desmaiada. Ocê inté ficava me chamando... Nando... Nando... — Disse, rindo. Para ele essa braveza de Gina não tinha sentido algum depois de sua ajuda. E isso funcionava ao contrário com ele, só o fazia desejar desafiá-la.

–Para com isso. Eu não tava bem, senão nunca te chamaria!– Gina disse, se virando para encará-lo.

–Gina, Gina... ocê nem vai mi agradecê deu ter salvado sua vida?

–Deixa de ser exagerado que eu tava longe de estar morrendo. E me deixa em paz senão eu vou embora e te deixo aqui! - Respondeu, com o queixo erguido em ameaça. Ação que deixou Ferdinando enlouquecido.

–Ara... Ocê num ia ter coragem de faze isso...

–É claro que eu teria! — Gina se levantou.– Eu num sou covarde que nem você! Já estou até indo.

Aquilo acabou com toda a paciência de Ferdinando. Já não podia mais esperar para fazer uma coisa que queria fazer a muito tempo.

–Não antes de ieu lhe mostrar que num so nenhum covarde!– Ferdinando pegou Gina pelo braço e a surpreendeu com seus lábios.

Notas finais
Comecei a escrever a três dias, então demorou um pouco mais... mas toda noite vinha escrever aqui. Espero que vocês tenham gostado!! Mais uma vez, obrigada pelos comentários e sugestões. Obrigada por todo o carinho! Como sempre, peço que digam o que acharam, sugiram melhorias, etc. Ajuda bastante. Até o próximo!! Beijooooos!