I Can't Fear Death No Longer
1 I've Died A Thousand Times
Eu corri. Corri o mais rápido que pude, mesmo sabendo que o meu máximo de nada adiantaria. Eu podia ouvir seus passos cada vez mais próximos e as risadas. Aquelas risadas que me faziam tremer dos pés à cabeça e lembrar dos momentos que eu havia passado nas mãos deles e da dor. Como eu queria que o som da minha respiração apressada ou do meus batimentos acelerados encobrissem aquelas risadas macabras.
Eu tremia e chorava, o desespero tomando cada pedacinho da minha alma. Minhas esperanças se esvaiam e eu rezava para todos os deuses nos quais conseguia pensar e pedia que me protegessem, que impedissem que eles continuassem correndo, que eles desistissem de mim.
Os galhos pareciam ficar cada vez mais próximos, cortando vez ou outra minha pele e rasgando partes das minha vestes.
De repente todos os sons à minha volta cessaram. Continuei correndo, forçando minhas pernas cansadas a manterem o ritmo. Naquela bolha muda, olhei para trás procurando algum vestígio de que meus perseguidores continuavam atrás de mim. E nesse momento, nesse maldito momento, eu assinei meu atestado de óbito.
Uma raiz que saltava para fora da terra agarrou meu pé, me levando ao chão. A bolha se rompeu. Ouvi o som do meu corpo batendo contra o solo duro e meu tornozelo se quebrando, ouvi as risadas se aproximarem e aumentarem e se cessarem junto com os passos. Ouvi a gargalhada infernal que veio depois e as hienas a acompanharem. Quase pude ouvir o som do resto de esperança que eu ainda guardava me deixar.
Por um segundo, a dor e o desespero me cegaram. No instante seguinte, senti um chute se chocar contra a minha barriga me fazendo rolar e olhar meu agressor. Alto e forte, os cabelos loiros, curtos e encaracolados, capazes de enganar qualquer garota e fazê-la pensar que ele parecia um “anjinho”, e o blusão branco e azul marinho com um brasão de águia que me atormentavam todas as noites em meus pesadelos, nos quais revivia as surras que eu levava daquela gangue de colégio quase que semanalmente. Não vi nada disso. Tudo o que eu conseguia enxergar eram aqueles pequenos olhos encolhidos pelo prazer e sua boca contorcida em um sorriso maldoso.
A um comando, ele me agarrou pelos braços e me arrastou pelo chão de terra e folhas secas até o meio do grupo. Havia mais três. Os mesmos blusões, os mesmos olhares e sorrisos. Se afastou, eu estava no meio da pequena clareira e no meio dos quatro. Senti meus pelos se eriçarem à espera do que viria depois.
O líder do grupo, o mais alto e forte e menos burro da gangue, veio até o lugar onde eu estava largado, colocou a mão em meu queixo e me fez olhar para seu rosto. Lembre de mim no inferno. Sussurrou entredentes e sorriso. Depois me deu um soco que atingiu o lado esquerdo da mandíbula e me lançou alguns metros para trás. Meus dentes se chocaram e eu me surpreendi que nenhum deles tivesse se rachado ou quebrado com o impacto.
Abri meus olhos a ponto de ver outro soco vindo com velocidade em direção ao meu nariz. Senti o sangue espirrar quando ele se quebrou. Espirrar e depois escorrer pelo meu rosto até a minha boca, contornando-a e continuando seu caminho até meu queixo e então pingando em minha camiseta. Soltei um gemido baixo de dor e pude ouvir as risadas que ele gerou à minha volta.
Um chute me foi aplicado nas costelas, me fazendo cair de lado na terra. Duas mãos voltaram a me erguer, me puseram de pé, mas caí de joelhos por causa do tornozelo fraturado. Voltaram a me suspender sem desta vez me soltar. E um punho me acertou a boca do estômago, fazendo todo o ar deixar, audivelmente, meus pulmões. Antes que eu pudesse inspirar novamente, outro soco me acertou no mesmo lugar. E outro. E outro. Uma lágrima caiu de meus olhos. As risadas voltaram, pude sentir meu corpo vibrar enquanto aquele que me mantinha erguido gargalhava.
Senti um chute acertar minha perna machucada e gritei de dor. As risadas aumentaram e eu fui jogado no chão. Fiquei algum tempo encolhido, minhas mãos apertavam a minha calça com força, como se isso fosse fazer a dor e tudo aquilo parar. Procurei inspirar o máximo de ar que conseguisse, mas até esse simples ato já começava a ser difícil de realizar. O sangue ainda pingava.
Ouvi o som de folhas sendo amassadas conforme passos se aproximavam.
Um chute acertou minha barriga me fazendo arquear ainda mais meu corpo. Antes que eu pudesse me recuperar, outro pé acertou minhas costelas. O líder havia resolvido dividir a presa com o resto do bando. Outro pé na minha coxa, nos meus braços, costas. Minha cabeça. Antes que eu tombasse no chão, os chutes cessaram.
Rezei para que ele fossem embora, para que me deixassem ali e nunca mais voltassem para me buscar. Eu suava frio. Tremia. Já não chorava mais, a dor era tão intensa que mesmo produzir algumas poucas lágrimas dispendia mais energia do que eu podia oferecer. Estava encharcado de suor, sangue e lágrimas. Senti um bolo se formar no meu estômago e subir, cada lugar pelo qual passava doía, chegou à minha boca e saiu por meus lábios. Eu vomitei sangue e bile. Um gosto amargo e férreo tomou minha boca. Outro bolo subiu e foi expelido.
Inspirei fundo e gemi com a dor causada pelo ato. Mais um chute nas costelas. Senti algo se partir dentro de mim, espremi ainda mais meus olhos já cerrados. Outro chute. E outro e outro. Por todo o meu corpo. Quando meus músculos e ossos já não mais aguentaram o próprio peso, eu cai. Sobre vômito, sangue, suor, lágrimas e o que quer que houvesse naquela terra.
Acertaram minha cabeça uma, duas, três vezes e mais, até eu perder a conta. A dor já havia me tomado por inteiro. Eu já quase não a sentia mais, apenas os impactos e meu tronco e membros sendo jogados de um lado para o outro pelos golpes aplicados.
Não percebi quando cessaram. Não ouvi as risadas que enchiam a clareira, muito menos ouvi quando elas se afastaram; não me ouvi sozinho. Não vi os pés se afastarem. Não senti as gotas leves de chuva tocarem meu corpo e lavarem aos poucos cada centímetro da minha pele. Tudo o que eu tinha era consciência, da minha imobilidade, da inutilidade de se fazer qualquer oração naquele momento, do fato que já não mais me atormentava e, muito pelo contrário, me servia agora de consolo: eu ia morrer ali. Só esperava que não demorasse muito.
Eu não veria os hematomas se formarem, os ossos se reafirmarem ou os cortes se curarem. Eu não veria um grupo de busca me encontrar. Eu não veria meus pais chorarem sobre minha camiseta suja de vômito, sangue e terra e se perguntarem porque aquilo tinha que ter acontecido com o filho deles. Não veria aqueles quatro garotos serem presos ou dizerem que se arrependeram. Não veria três deles serem soltos algumas semanas depois com um sorriso no rosto e o quarto ter que esperar um mês a mais para fazer o mesmo sem, porém, sorrir. Não o veria, com lágrimas nos olhos, pegar uma arma e atirar contra a própria cabeça. Não veria outros milhares de adolescentes morrerem da mesma forma que eu. Não veria o fim disso tudo.
Não ouviria a música que me foi escrita como pedido de desculpas pelo primo com tendências suicidas de um dos meus agressores. Não veria esse primo salvar milhares de outras vidas com essa mesma música e com outras tantas.
Não veria nada, não ouviria nada.
Só o silêncio e a escuridão.
Notas finais
Esperam que tenham gostado......
Muuuito obrigada por ler!! hehe
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