Hóspede
1 Hóspede
Hóspede
Kisuke não esperava que um hóspede aparecesse quando seus queridos funcionários foram em uma excursão da Disney, secretamente financiada por ele mesmo que precisava de um pouco de paz.
Capítulo Único
Kisuke Urahara estava imerso na fonte termal que ficava em seu local secreto, ou não mais tão secreto assim, depois de treinar um pouquinho. Estava aproveitando aquele silêncio que não conseguia ter quando aquelas criaturas estavam presentes.
Não que fossem maus, mas eram demasiadamente barulhentos. Até mesmo o Kurosaki-kun tinha sumido... Talvez o fato de Renji estar no mundo real e ele preocupado em não deixá-lo muito a vontade com Rukia tivesse algo a ver com isso.
Mas o que importava era que aquela água estava ótima e tinha poderes medicinais excepcionais, será que estava começando a ficar velho? Acabado por causa de um treinozinho de nada... Aquilo não era muito legal.
Teria de fazer alguns exercícios extras... Mas depois, agora iria para casa comer alguma coisa e ver quem sabe um bom filme. Não podia negar que os humanos tinham invenções muito interessantes, tais como a televisão e o DVD.
O loiro levantou-se e caminhou até suas vestes e claro que não podia esquecer de sua querida Benihime. Ela ficaria chateada se fosse deixada para trás.
Kisuke caminhou até a escada que dava para a saída e subiu-a com agilidade. Fechou o local e caminhou até em casa. Tudo na mais santa paz.
Entrou em casa, guardou Benihime e foi para a cozinha preparar algo comestível... Mas espera, que densidade espiritual era aquela? Tinha alguém ali!!!
O QUE?? SERÁ QUE ERA UM LADRÃO??
Não... não podia ser um ladrão...
Pensando bem, conhecia aquela densidade!! Como pudera não reconhecer logo de cara?? Era Yoruichi! Como não sentira ela chegando?? Caramba, será que a tinha deixado esperando??
O louro deixou a frigideira que tinha na mão sobre o tampo da mesa e foi seguindo a densidade pela casa. Onde raios estava aquela mulher? Ou será que ela estava como gato e enfiada num lugar apertado que ele não conseguiria alcançar?
Não, não... Ela não faria isso! E também, presa em cima de uma árvore é que ela não estaria! Yoruichi era uma shinigami afinal de contas...
MAS QUE DEMÔNIOS!! POR QUE ESTAVA PENSANDO EM TANTAS COISAS IDIOTAS!! ERA SÓ SUA VELHA AMIGA QUE ESTAVA... EM SEU QUARTO?!
Urahara parou de supetão em frente a grande porta e ficou olhando assustado. Por que ela estava em seu quarto? E por que a palavra quarto e Yoruichi na mesma frase soava tão mal?? Já tinham estado até na mesma terma juntos...
Não que tivesse visto algo demais naquela ocasião, viu em outras, mas isso já fazia tanto tempo. Tempo demais, porque aquela shinigami vivia sumida. Às vezes até queria perguntar o que ela tanto fazia... Mas tinha até medo da resposta.
- Não vai entrar, Kisuke-san?
Ele ouviu uma voz melodiosa vindo do recinto, raios... Por que as pernas não saiam do lugar?? Urahara teve que respirar fundo e pensar em carneirinhos fofinhos para conseguir se mexer.
Foi difícil dar aquele primeiro passo, no entanto, os demais fluíram mais fácil depois. E lá estava ela, sentada na janela com as costas na parede e os pés sobre o batente da janela.
Os cabelos escuros estavam soltos e molhados, usava a parte de cima de algum kimono dele ajeitado de uma maneira que parecia um vestido para ela, caindo muito bem, por sinal.
O ex-capitão olhou para o banheiro e viu que parecia recentemente usado. Ela deveria ter tomado um banho.
- Espero que não se importe, eu cheguei, não tinha ninguém e eu estava louquinha por um banho. – ela abriu um grande sorriso – Por falar nisso, onde estão todos?
- Eu mexi os pauzinhos e consegui mandá-los para a Disney. – Kisuke riu – Eu precisava de um pouquinho de paz.
- Hum... Quer que eu vá embora então? – ela saiu da janela num salto e começou a caminhar em direção a saída começando a desatar o nó que prendia o kimono — Eu não devia ter entrado aqui desse jeito.
- Hey, hey... – ele segurou as mãos dela e sorriu – Eu não disse nada. Não me importo com sua presença. Pode ficar a vontade e o tempo que quiser.
- Hum... Que bom! –
A shinigami deu meio volta e se jogou no futon do amigo ligando a televisão pelo controle remoto. Estava passando alguma novela mexicana, dublada por japoneses.
- Esses humanos têm até algumas idéias interessantes.
Ela se espalhou no futon como uma gatinha manhosa, remexendo-se até encontrar uma posição confortável. Não parecia ligar para o fato de seu “vestido” remexer-se junto mostrando partes de suas coxas.
Ou mesmo que uma parte da roupa que usava caia mostrando o ombro desnudo. Ela simplesmente não se importava, como nunca se importou. Ali ela era apenas uma mulher, não era a hime, não era a comandante da keigun, não era capitã... Era apenas uma mulher, a mulher que ele amava... Mas isso não vinha ao caso. Yoruichi não era dada a tais coisas, pois prezava mais que tudo sua liberdade e amor de certa forma era uma prisão.
E como um ditado humano dizia: Por mais que a gaiola fosse de ouro, o sabiá queria sua liberdade.
E ela conhecia a gaiola de ouro, ele não tinha chance no final das contas.
- Vou fazer algo para comer, quer também?
- Seria bom, Kisuke-san, quer ajuda? – ela sorriu daquela maneira que só ela sabia sorrir –
- Com seus dotes culinários? – ele gargalhou – Não quero que aconteça um incêndio.
- Hum... Depois não diga que eu abuso de sua boa vontade.
Kisuke apenas deu as costas e saiu, era melhor não dar chance ao acaso. O loiro sabia que se ficasse muito tempo acabaria nos braços da bela shinigami.
Yoruichi que antes sorria deixou o sorriso e passou a observar a porta por onde Urahara passara. Ela notara e não era de hoje que o loiro estava ficando cada vez mais distante.
E não podia culpá-lo por isso, eram amigos há muito anos, conheciam tudo um do outro e ele sabia que ela odiava qualquer tipo de pressão ou prisão, sem falar no medo de perder a amizade.
A gata sabia que Urahara já tivera outras mulheres e tinha raiva disso, mas ela também já tivera um ou outro caso... E tudo o que se recordava desses acontecimentos eram lembranças vazias. Não por ter sido ruim e sim por não ter sido com ele.
Somente as mãos dele pareciam tocá-la do jeito certo...
No final, sempre era só Kisuke que fazia tudo ser melhor, que fazia tudo melhor, que era o melhor! Quantos anos mesmo fazia desde que se viram pela primeira vez? Tantos, tantos... Que nem valia a pena contar.
Tão absorta em seus pensamentos como estava, a mulher não notou que Urahara voltara ao quarto e que tentava falar com ela.
- Yoruichi-san...??
- Hã? – ela virou-se para o loiro que tinha uma expressão cômica na face – Desculpe, eu acho que me distraí um pouco.
- Tudo bem, mas é que a comida ficou pronta... Vamos? – ele estendeu a mão e sorriu, sendo correspondido –
- Obrigada. Então, o que temos para comer?
Os dois caminharam até a cozinha onde Urahara tinha preparado uma macarronada especial, até vinho ele tinha trazido. Não era uma coisa muito oriental, mas ficando no mundo real sem ser um shinigami, Urahara tinha muito tempo livre, o que o levou a conhecer canais de culinária.
- Macarronada à moda italiana. – ele viu o cenho franzido da amiga em sinal de interrogação – É muito bom, não se preocupe.
- Vou confiar em você, como sempre... Não me decepcione!
- Não se preocupe, não vou decepcionar.
Comeram e beberam muito bem, conversando um pouco ficando até tarde, ele arrumou a cozinha, não quis deixá-la ajudar. Mesmo quando ela insistiu, ele manteve sua palavra: Ela era uma hóspede afinal.
E quando finalmente chegou a hora de dormir, foram para o mesmo quarto. Já não existiam tais convenções entre os dois e não necessariamente aconteceria alguma coisa, apenas dois amigos que dormiriam no mesmo futon.
Ela deixou o vestido em algum canto do quarto, ficando apenas de calcinha e sutiã e deitou-se. Kisuke caminhou e foi para o banheiro tomar banho, mas fechando a porta, o que não era comum. Era o sinal de que ele queria ficar sozinho, que o banho seria solitário.
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Era madrugada alta, Urahara não sabia exatamente que horas eram, mas isso pouco importava. Estava sem sono... Inconscientemente, queria aproveitar todo o tempo com sua Yoruichi-san, pois sabia que quando o sol nascesse ela já não estaria ali.
Por um lado era ruim, pois as noites que passavam juntos em nada mudavam os dias seguintes. Mas por outro lado era bom, pois dessa maneira não haviam riscos de perderem alguma coisa.
Ele sentia a respiração calma dela sobre seu peito e a pequena mão que repousava ali também, queria que isso acontecesse sempre e não em ocasiões raras e tão sazonais.
Mas não podia cobrar nada, entre os dois não haviam promessas ou palavras... E muito menos compromisso. Sempre fora assim e sempre seria assim.
- Yoruichi-san... – ele acariciou os cabelos sedosos e suspirou – Um dia quem sabe.
E assim o louro fechou os olhos e se permitiu adormecer com o calor do corpo delgado acariciando sua pele com a mesma suavidade de um botão de rosa ainda prestes a abrir.
Teria os sonhos embalados pela imagem da mulher amada e tendo na manhã seguinte apenas o perfume e as lembranças até a próxima visita. Já estava acostumado e certas coisas nunca mudam... Ou talvez... Não importava o talvez até ele se tornasse uma certeza.
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Urahara foi acordado pela luz da janela que não fora fechada na noite anterior e como o esperado, o peso sobre seu peito já não estava lá, e o corpo feminino já não jazia adormecido ao seu lado.
Mas dessa vez, não foi um golpe tão grande quanto fora das outras vezes, já estava calejado. E também não podia cobrar alguma coisa de alguém que só oferecia o que poderia lhe dar e nada mais.
O homem sentou-se na cama e ficou parado por alguns segundos, a lembrança de que estaria sozinho não soava mais tão agradável como antes. Era melhor quando Tessai, Jinta e Ururu estavam ali, pois era mais fácil esquecer a solidão.
Hum... Talvez fosse uma boa idéia ir até a casa de seu velho amigo Kurosaki Isshin. Encher um pouco a paciência de Ichigo, causar uma confusãozinha para acabar com a monotonia.
Mas todo e qualquer plano que o shinigami fizera antes de levantar-se da cama perdeu o significado quando ele avistara na porta do quarto uma certa figura que mantinha as costas apoiadas no batente da porta e trazia um sorriso nos lábios.
- Pensei que não acordaria mais, Kisuke-san.
Ele estava chocado, surpreso, assustado. Não era normal ela ainda estar ali e muito menos totalmente despreparada para partir. Urahara quase ousou perguntar, mas não importava tanto assim no final das contas.
- Desculpe fazê-la esperar, Yoruichi-san. – ele sorriu –
- Não tem problema, eu também sei ser paciente.
Disse ela antes de sair do quarto, ao que ele entendeu para treinar. Aquele simples fato teve uma importância catastrófica na relação dos dois, ainda não estava preparados para dizer “Eu te amo!”, mas podiam dizer que as noites que estariam por vir significariam mais do que prazer.
Ele não sabia o motivo tão súbita mudança, mas gostou. Ela simplesmente não era cega a ponto de não ver que acabaria perdendo o loirinho se não começasse a cuidar melhor dele.
Yoruichi amava sim, a seu jeito... Um jeito torto e talvez errado, mas era o seu jeito. Mal sabia ele que seu coração também se partia quando ia embora nas manhãs seguintes, ela tinha medo. Sempre teve medo.
Lutava tanto para ter uma liberdade que já nascera sem que tinha pavor de perder o que conseguira por entregar seu coração. Por isso, o amor hóspede, aquele que vem e logo vai...
Mas talvez fosse hora de se tornar um hóspede diferente, daquele tipo que não tinha hora, nem dia, nem previsão de ir embora.
- E antes que eu me esqueça... – o rostinho feminino apareceu na porta com uma face travessa – Eu não sei quando vou embora, então é bom arranjarmos uma desculpa para quando as crianças voltarem.
Fim!
Notas finais
kiss kiss
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