Híbrido
75 Dead people rising again
Notas iniciais
A claridade me despertou de um sono pesado. Pisquei algumas vezes, forçando minhas pálpebras a se abrirem e me deparei com a visão do conhecido teto da casa de tia Jenna. Tentei me levantar, mas senti dores e meu corpo pesava como se meus ossos fossem feitos de chumbo. Depois de certo esforço, simplesmente cedi e me deixei relaxar sobre o colchão e fiquei apenas encarando o teto, tentando recapitular tudo o que tinha acontecido. Percebi que eu não queria pensar naquilo. Senti uma mão acariciar a lateral do meu rosto.
“Ei,” Fleur me cumprimentou, pondo uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha. “Finalmente acordou.” Sorriu. “Bem vinda de volta. Quer ajuda com alguma coisa?”
Suspirei e sorri de volta para ela.
“Na verdade,” eu disse com a voz embargada. “Estou com muita sede. E fome.”
“Pode deixar.” Respondeu ela carinhosamente e me beijou na testa rapidamente antes de se afastar.
Assim que fiquei sozinha no quarto, me peguei lembrando-me de tudo o que havia acontecido em Xibalbá. Eu não queria pensar naquelas coisas, mas foi inevitável. Pensei em Jared, em sua voz e em suas palavras duras. Essa lembrança, em particular me doeu à cabeça e também o peito. Uma angústia desesperadora que me dominou de uma só vez e então me vi soluçar e chorar. Eu esperava que aquela dor me deixasse com as lágrimas, mas eu sabia que não seria fácil assim.
Eu preciso de você.
Confie em mim.
Estou aqui...
Essas palavras me atormentavam e me engoliam. Senti uma fúria violenta crescer dentro de mim. Toquei meu rosto e senti seu toque quando ele me beijou. Logo em seguida, senti a dor de seu tapa, esfregando na minha cara o peso da traição. Permiti-me chorar para extravasar a mágoa e a raiva, mas eu não conseguia aceitar essa dor. Aquilo me consumia de uma forma absurda e eu não podia deixar isso acontecer, principalmente agora. Eu não daria o gostinho da fraqueza a ele. Eu não podia me fazer vulnerável.
“Kate?” Ouvi a voz de Emma chamar meu nome. “Oh, meu Deus. Kate!”
Ela correu para me abraçar e imediatamente me aconcheguei ali. Chorei em seu ombro, como havia chorado tantas outras vezes. Fiquei ali com ela, até não ter mais forças ou lágrimas para chorar e ela, pacientemente, me fez carinho e tentou me acalmar. Eu não podia estar mais grata. Emma era tudo o que eu precisava naquele momento.
***
À noite, depois do jantar, tentei me ocupar o máximo possível para distrair a mente. Conversei com Emma sobre coisas banais, mas foi difícil me concentrar. Muitas coisas me atormentavam e não era para menos, já que eu havia feito uma visitinha ao Inferno. Ela não me pressionou a contar muitas coisas, pois estava claro como eu havia ficado mexida com aquilo tudo. Eu estava constantemente desconfiada, tinha medo de ouvir coisas, ver coisas, me assustava facilmente e estava sempre esperando pelo pior. Eu já estava achando que nunca mais voltaria à normalidade e isso me preocupava. Contei a ela sobre a ilusão de ter visto minha mãe e ela ficou tensa ao ouvir isso. Provavelmente ficou preocupada por eu ainda não ter superado e por causa de todas as situações traumáticas em que eu havia me metido durante minha pequena aventura.
“Kate,” ela disse meu nome mansamente e segurou minhas mãos nas suas. “Você precisa ver uma pessoa.”
Franzi o cenho, sem entender, então assenti lentamente. Ela esboçou um sorriso fraco e fez sinal para que eu esperasse enquanto ela deixava o quarto. Tentei relaxar, sem deixar de me perguntar quem Emma traria para me ver. Recostei-me no monte de travesseiros, respirei fundo e agarrei a barra do cobertor quando ouvi a batida à porta. Antes que eu respondesse, a porta se abriu lentamente e eu me vi atônita. Ela parecia preocupada, mas também feliz. Sorriu para mim enquanto entrava sem pedir licença. Vestia uma calça larga, verde, de veludo e uma camiseta branca. Seus cabelos escuros estavam presos em um coque simples e seus olhos pareciam um pouco inchados e cansados, porém tinham um brilho especial ao me encarar. Eu não havia percebido que tinha parado de respirar até que me faltou ar. Engoli em seco conforme ela se aproximava e baixei os olhos, sem conseguir encará-la de volta, sem conseguir acreditar. Balancei a cabeça, tentando me convencer de que ela não estava ali de verdade, de que era tudo um truque da minha mente. Senti o colchão afundar quando ela se sentou, perto de mim. Perto demais. Eu sentia seu cheiro, seu calor e de repente eu estava soluçando, chorando baixinho.
“Oh, querida...” Ouvi-a dizer. Continuei balançando a cabeça, murmurando para mim mesma que ela não estava ali. “Kate olhe para mim, filha. Sou eu.”
Se aquilo era verdade, se ela realmente estava ali comigo, eu devia estar feliz, certo? Por que meu peito doía tanto? Por que eu me recusava acreditar?
Quando ergui os olhos para encará-la, ela estava tão perto que podia me abraçar. Assim ela o fez. Hesitantemente, ela colocou seus braços ao meu redor, esperando que eu a recebesse, mas isso não aconteceu, pois eu não conseguia me mover. Eu estava paralisada, sem acreditar que era ela ali, me abraçando. Senti seu cheiro, tão familiar, seu calor. Foi o bastante para uma onda de choro me inundasse. Solucei em seu colo, como havia feito muitas vezes ao longo da minha vida. Ela afagou meu cabelo, murmurando palavras carinhosas para mim, aninhando-me e distribuindo beijinhos no topo da minha cabeça.
“Está tudo bem, querida.” Ela disse suavemente. “Eu sinto tanto, meu amor. Mas eu estou aqui agora.”
Eu queria ficar ali nos braços dela pelo resto da minha vida, mas ao mesmo tempo queria discutir com ela, perguntar por que ela havia me deixado. Eu tinha tantas perguntas para fazer e tinha tanto medo das respostas. Minha cabeça girava, então tudo o que fiz foi ficar ali com ela, chorando em seu colo outra vez.
***
Após dias de muita conversa e discussão, tudo havia se esclarecido. Minha mãe implorou pelo meu perdão por me ter feito passar tanto tempo acreditando que ela estava morta, por ter me feito sofrer tudo o que sofri longe dela. Quando a verdade veio à tona, eu não sabia se eu devia ficar surpresa. É claro que a razão de tudo aquilo havia sido os gêmeos. Quando Owen saiu do Inferno, todos os Veros entraram em um alerta urgente e colocou todo mundo em busca dos dois, temendo o pior. De acordo com a história contada por minha mãe, todos temiam uma espécie de apocalipse, o tal de Glosbe que Jared havia mencionado. Só de pensar em Jared, meu estômago se revirava e meu sangue fervia de puro ódio. Com minha mãe ali, eu me sentia melhor. Obviamente, eu continuava péssima, mas não era tão ruim quanto estar sem ela. A decepção que eu havia sofrido era absurda e muito dolorosa. A voz dele estava sempre presente, seja nas lembranças, seja nos meus sonhos. Uma tortura. Com minha mãe de volta, eu tinha com o que ocupar minha mente, eu tinha outras coisas para pensar e me preocupar. Naquele período de tempo, eu dizia a mim mesma que eu não precisava esquecer o que havia acontecido. Àquela altura do campeonato, seria estupidez não tirar uma lição daquilo tudo. Eu havia sido seriamente traída, o que me fez acreditar que eu não devo confiar em ninguém. Esse pensamento se transformou em um escudo e eu não podia me sentir mais forte. Eu tinha muito que aprender ainda, levaria tempo para lidar com a dor recente, mas já era um começo.
Balancei a cabeça, mudando o rumo dos meus pensamentos. Beberiquei meu café enquanto observava Isaac subir as escadas. Reparei que eles estavam bem mais próximos desde que chegamos. Os dois estavam no andar de cima, cuidando de Harahel que permanecia fraco, porém em recuperação. Pelo que eu soube, ele havia sido torturado durante todo o tempo em que esteve no Inferno. Eu não sabia como ele havia conseguido suportar, mas sabia que havia sido por muito pouco. Eu mal o tinha visto nestes últimos dias. Ele estava sempre no quarto, descansando e talvez, tentando digerir o que havia acontecido com Jared. Quando Owen contou a Jenna, Isaac, Emma, minha mãe, e também a alguns guardas, o que tinha acontecido, vi algo em seu olhar muito semelhante ao que eu carregava em meu próprio olhar.
O quintal de tia Jenna havia se tornado um camping desde que voltamos. Vários guardas do Sero, que acompanharam minha mãe, estavam lá. Circundavam a casa, se dividiam em áreas para vigiar e proteger. De vez em quando tia Jenna ia até eles para recepciona-los, mas ficava louca quando eles pisavam nas plantas. Respirei fundo, sentindo o delicioso aroma do café, que subia junto com o vapor. A casa estava estranhamente silenciosa. Coloquei minha xícara semivazia na mesa de centro e quando comecei a me ajeitar no sofá para deitar, a campainha tocou. Grunhi e encarei a porta fechada, xingando quem quer que estivesse do outro lado. Eu sabia que não era Jen, Fleur, nem Owen, pois todos tinham uma cópia da chave. De repente um arrepio me subiu pela espinha. A imagem de Jared me veio à mente, então tive um súbito medo de encontrar seus olhos verdes do outro lado da porta. Tentei controlar minha própria respiração. Se ele voltasse, ele não tocaria a campainha... Tocaria?
“Quem é?” perguntei.
Merda. Por que eu havia respondido? Agora, quem quer que fosse, saberia que tinha alguém em casa.
“Aqui é a casa de Jenna Lev...não-sei-como-se-lê?” indagou a pessoa.
“O que quer?” tornei a perguntar, aproximando-me cautelosamente da porta.
“Quero falar com Emily.” Respondeu.
Aquela voz... Eu tinha a impressão de que eu conhecia de algum lugar, mas simplesmente não consegui reconhecer.
“Ela não está.” Disse eu. “Pode falar que eu dou o recado.”
“Hm, diga a ela que eu vim saber qual é minha próxima missão.”
Desta vez, senti meu coração acelerar a tal velocidade, que achei que fosse explodir. Não era possível.
“Não é possível...” murmurei em voz alta, sem perceber.
“Katherine?” a voz me chamou, pegando-me de surpresa. Oh, Luna. “Você vai dar o recado à sua mãe? Se quiser, eu posso voltar mais tarde.”
Minha mão estava pousada sobre a maçaneta, mas não ousei girá-la. Eu estava atônita.
“Bom, tudo bem então.” Disse. “Eu volto mais tarde...”
Ouvi o som de passos se afastando, descendo os degraus da varanda da frente. Abri a porta de supetão, me deparando com a figura alta e atlética de costas para mim. Seus cabelos estavam bem mais curtos que da última vez que eu o havia visto. Eu não consegui esconder minha surpresa. Eu estava chocada!
“James!” minha voz saiu antes que eu pudesse pensar.
Ele se virou e me encarou. Parecia surpreso, talvez por eu ter aberto a porta, ou por eu tê-lo reconhecido. Os cantos de seus lábios estavam repuxados para cima, um brilho se destacava em seus olhos castanhos esverdeados. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas tornou a fechá-la. Umedeceu os lábios e balançou a cabeça, tentando esconder um sorriso. Veio novamente em direção à varanda, subindo degrau por degrau da escada.
“Katherine.” Ele me cumprimentou, quando parou de frente para mim, a poucos centímetros de distância.
Confesso que perdi o fôlego. Eu realmente não esperava por aquilo. Senti vontade de chorar com a alegria de vê-lo outra vez, mas tudo o que fiz foi soltar uma risada e um arquejo de pura descrença.
“Eu não acredito...” murmurei, olhando no fundo de seus olhos, completamente admirada.
Um sorriso preguiçoso floresceu em seus lábios. Em resposta, sorri de volta e dei-lhe um belo de um tapa na cara.
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