Híbrido
63 Curious
Notas iniciais
Uma porta se abriu mostrando-me um corredor com parapeitos de madeira escura e polida. A claridade que irradiava pela casa atrapalhava minha visão. Cerrei um pouco os olhos até me acostumar com aquela luz e segui em frente pelo corredor. O papel de parede tinha estampa de flores, como em renda, num tom claro de verde fantasma. Eu não reconhecia aquela casa e não fazia ideia de onde eu estava. Ao pé da escada havia um homem. Eu também não o reconheci. Era um homem alto, cabelos cor de pinho escuro ligeiramente enrolado em ondas gentis que lhe caíam até pouco abaixo das orelhas. Ele usava um par de óculos fino e retangular sob os olhos castanhos, uma barba crescia pelo contorno de seu rosto. Vestia jeans surrados, uma blusa branca por baixo da blusa preta de botões com as mangas dobradas até os bíceps ressaltados. Ele olhava escada acima com um olhar calmo e paciente e segurava nas mãos uma pequena jaqueta jeans.
"Vamos Tomás, o avião de Katherine parte daqui a pouco." Disse ele em um tom de voz tranquilo.
Tomás? Esse nome eu conheço. Eu estava na mente de Jared. Merda. O pequeno Jared descia degrau por degrau preguiçosamente. Seu desânimo era notável em seu desleixo em cada passo que ele avançava em direção ao homem que se abaixou para ficar do tamanho de Jared. O homem sorriu para ele.
"Ânimo, rapaz" tocou o ombro de Jared "Hoje é seu aniversário. Depois que ela partir podemos ir tomar sorvete ou..."
"Atirar em passarinhos no parque." falou Jared distraidamente. O homem semicerrou os olhos.
"Tomás." O homem disse o nome de Jared com firmeza, seu rosto não mais tão gentil, mas sério. "Por que quer fazer isso?"
Jared deu de ombros.
"Não sei... Acho que seria divertido."
O homem deu um longo suspiro cansado.
"Tom, você nunca escuto o que eu digo? Não pode matar coisas inocentes sem motivo." Jared revirou os olhos para ele. O homem se ergueu ficando em sua altura normal e sua expressão voltou a se suavizar. "Hoje é uma data importante e temos que comemorar."
"É só um dia normal. Só mais um 19 de Outubro..." disse Jared com indiferença. "E eu não quero ir. Sabe, não quero vê-la indo embora."
"Ela vai ficar chateada." O homem ergueu as sobrancelhas de modo enfático.
"Mas Harahel..."
"Vamos, Tomás. Força." falou esboçando um sorriso encorajador e sacudiu a mão nos cabelos do pequeno Jared, que não pareceu gostar da brincadeira, mas a aceitou em silêncio.
Jared pegou o casaco da mão estendida do homem e o vestiu. Saíram da casa pela porta da frente e depois de algum tempo, reconheci o lugar. Aquela era a rua onde eu morava na Romênia. E pelo que pude perceber, o homem ao lado de Jared era Harahel. Então aquele era o pai e criador de Jared. Eles entraram em um jipe. Jared ainda tinha no rosto uma expressão carregada de desânimo e desolação e se manteve em silêncio conforme o carro avançava pela rua. Com o vidro fechado era possível ver seu reflexo. Seu rosto com as feições mais suaves, mais jovens. Mas aqueles eram os mesmos olhos verdes e conturbados, a mesma pintinha rente à linha do lábio superior e os cabelos emaranhados.
Logo estavam no aeroporto caminhando entre as pessoas. Toda vez que Jared olhava para Harahel, ele lhe dava um sorriso calmante e despreocupado.
"Ed!" uma voz infantil e alegre o gritou. Ele olhou em volta freneticamente, procurando a origem da voz. Girou em seus calcanhares, ainda procurando, até que foi agarrado, quase jogado contra o chão.
Ficou automaticamente tenso, paralisado, e hesitante cautela olhou para baixo, encontrando um par de dóceis e brilhantes olhos violetas, iluminados num rosto pálido. Ela sorria abertamente para ele. Era a pequena Kate. Eu. O peito de Jared subia e descia como se estivesse sem fôlego. Enfim ela o soltou e correu até a mãe. Emily tinha os cabelos soltou que caíam numa cascata negra sobre seus ombros em contraste com a blusa branca que usava. Em seus lábios, um sorriso desconcertado, embora bem destacado por um batom vermelho escuro.
Jared fez uma careta contorcida e pôs a mão sobre o peito. Ele olhou com urgência e súplica para Harahel que se ajoelhou tirando um lenço do bolso e o entregou a Jared. Jared franziu o cenho, sua mão ainda pressionava seu peito, amarrotando a camisa. Harahel bufou pesadamente e aproximou o lenço do rosto de Jared limpando o nariz do menino. Quando retirou o lenço, este tinha uma enorme mancha carmesim, sujo de sangue. Harahel olhou por cima do ombro de Jared e fez um sinal nervoso para que ele se virasse. Quando ele olhou para trás, lá estava eu, a pequena Kate, segurando um cupcake com confeitos improvisados de fruit loops e uma única vela azul acesa no topo. Ela sorria e piscava os olhos para ele, observando-o.
"Faz um pedido." Disse ela docemente. Ele encarou a vela por um momento e subiu os olhos para ela.
Houve uma pausa silenciosa e por fim ele disse em voz baixa:
"Que você não vá embora." Ele soprou a vela.
A pequena Kate o encarou sem ter o que dizer. Ele estava parado naquela posição, levemente inclinado para frente, os olhos verdes olhando para ela diretamente nos olhos e a boca contraída em um biquinho que aos poucos se desfez.
"Você pediu alto..." disse a pequena Kate, em um lamento. "Agora não vai se realizar." Havia tristeza em meus olhos. Minha mãe tocou meu ombro e sorriu quando a olhei.
"É melhor você dar isso a ele logo, querida." Ela disse em tom gentil. "Já está quase na hora de embarcar." A pequena Kate olhou para ela em expectativa. Mas nada aconteceu. Pegando Jared pela mão, Kate o puxou até um banco próximo.
Então o avião decolou. Jared observava a pista de pouso enquanto o avião partia levando-me embora, ignorando completamente seu desejo de aniversário. No reflexo do vidro da enorme janela panorâmica, a expressão de Jared era séria, rígida e firme. Uma mão repousou no ombro do pequeno Jared, mas ele não fez qualquer movimento.
"Venha, filho. Vamos embora." Disse Harahel pacientemente.
Com relutância, Jared se virou e foi embora. Então acordei.
Eu estava com a cara grudada na página de um livro. Levantei e olhei em volta, sonolenta. Eu estava rodeada por eles. Eu nem mesmo me lembrava de ter caído no sono. Recostei-me na instante erguendo a cabeça, respirando fundo, relaxando o corpo e processando meu sonho. Então aquele era Harahel. Ele chamava Jared de Tomás. E também vi o quanto Jared havia sofrido quando fui embora. Ele havia desejado que eu ficasse. Bufei enterrando o rosto nas mãos e depois passando por meus cabelos, puxando as mechas entre os nós dos meus dedos.
Respirei fundo novamente, pensando na raiva que eu estava nutrindo por Jared. Eu fiquei tão furiosa que não me dei conta da falta que ele estava me fazendo até agora. Mas eu sabia que eu estava em território perigoso e estava brincando com fogo. Literalmente. Se eu cavasse fundo em nossas memórias, eu podia ver algo bom nele, mas eu sabia também que era um caso perdido, um caso passado. Jared não era mais aquele menininho. Agora ele era um monstro que havia tentado me matar, queimando-me viva. Senti meus dentes trincarem com a realidade. Eu não podia me render a ele outra vez. Eu precisava me defender e agora eu já sabia como fazer isso.
Fechei o livro que estava lendo, as páginas fazendo um baque surdo e pesado quando colidiram. Levantei rapidamente e saí correndo para fora da Sarcinulis à procura de Jenna. Procurei por toda casa e não encontrei ninguém. Quando cheguei na sala ouvi uma voz distante cantarolando alegre e distraidamente.
Encontrei Jenna agachada no meio de seu jardim, podando a roseira. Ela usava um vestido longo, manchado e surrado, um chapéu de palha enorme na cabeça. Ela cheirava as rosas com prazer, sorria e cantarolava.
"Tia Jen!" a chamei com exasperação. "Como faço para executar o feitiço Omnia? Digo, como eu posso usar meus... ahn... poderes?"
Ela me encarou assustada, depois relaxou.
"Antes de qualquer coisa, tenha paciência, respire..." ela disse enquanto tomava uma lufada de ar e soltava pela boca lentamente. Fiz o mesmo.
"Isso vai me ajudar com o feitiço?" perguntei sentindo-se relaxada e esperançosa.
"Ah... Não." Ela disse rapidamente. "Mas vai te ajudar a manter a calma enquanto você me explica que ideia é essa."
"Bom, eu estava pensando e..." comecei a tagarelar rapidamente. Ela me interrompeu com um gesto de mão que me fez calar a boca imediatamente. Encaramo-nos por alguns segundos e ela respirou novamente, indicando-me para fazer o mesmo. Fiz.
"Está um pouco cedo para toda essa agitação, querida." Disse. "Além disso, está um dia lindo. Diga bom dia para o sol, para as rosas. Cumprimente Astaroth também. Ele fica muito nervoso." Deu um risinho divertido. Revirei os olhos sentindo-me contrariada e ela se levantou ficando da minha altura. Ela cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha para mim, batendo o pé.
"Bom dia sol! Bom dia rosas" gritei exageradamente impaciente. Virei-me e vi Astaroth se espreguiçando feito um felino selvagem. "Bom dia Astaroth!" gritei e ele me encarou com uma carranca e rosnou. Suspirei. "Então tia..." tentei soar o mais calma possível. "Quando posso usar meus poderes?"
"Quando tiver sua joia." Disse com naturalidade. "O que vai ser bem difícil." Virou-se para as plantas e suspirou. "Bom dia minha rosa." Beijou a flor com carinho.
"Por quê?" perguntei.
"A joia fica sobre posse da mãe ou do pai." Explicou. "Depois há o ritual Osvla, que só é feito pelos pais também. Uma vez que se recebe o anel na cerimônia, aí sim pode usufruir bem de seus poderes."
"Mas sou uma Venefica, certo? Por que meu poder depende de um... anel?"
"Seu poder irradia por você, querida. Está concentrado em cada célula do seu corpo o poder de Luna. O anel serve para canalizar esse poder de maneira correta. Te dá controle. Apenas as anciãs podem usar os poderes sem seus anéis, mas isso é por causa dos vastos anos em treinamento."
"Anciãs?" perguntei sem perceber.
"Sim." Assentiu. "Estou falando de milênios em treinamento especial. Não é pra qualquer um."
"Jenna, Jared e eu fomos atacados por um demônio" tentei prosseguir com minha ideia inicial. Talvez houvesse esperança. O nome de Jared me causou certo desconforto na garganta, mas não me detive. "E eu descobri que havia vários protetores na minha cola. E eu nem sei do que estou fugindo! Como posso me proteger?" comecei a soar indignada. "Jared me queimou e eu não pude fazer nada. Pensei que executando o Omnia eu poderia ficar mais segura..." deixei minha voz morrer. Eu estava respirando rápido.
Jenna apenas me observou por um tempo.
"Eu poderia por um feitiço em uma adaga pra você. Tenho certeza de que esse Negativo que você carregava por aí não vai ousar chegar perto de você outra vez."
Essa ideia fez minha barriga se revirar.
"Assim espero." Foi só o eu disse. "Mas ele não é o único que pode me fazer mal."
"Nós vamos resolver isso, meu bem." Seu olhar vagou para algum lugar além de mim. "Mas não agora. O que esse Coca-Cola faz aqui?" perguntou pondo as mãos na cintura.
Eu me virei e vi Isaac se aproximando, caminhando em passos largos e confiantes até nós. Ele sorria. Para Jenna. Estava usando um belo terno cinza e segurava um envelope preto em uma das mãos.
"Kate." Ele disse cumprimentando-me e se virou dramaticamente para Jenna querendo, esboçando seu melhor sorriso. "Jenna" ele cantou seu nome. Respeitosamente pegou sua mão e plantou um beijo em seu dorso. Ai, meu Deus. Tia Jenna está corando! Mas revirou os olhos.
Luto contra uma súbita vontade de rir.
"Isaac," disse ela secamente. "O que o traz aqui?"
"Seu perfume... Digo, o perfume de suas flores." Sorriu galante. "Vim convidá-las para uma festa." Estendeu o envelope na direção de Jenna, mas não fez qualquer movimento para pegá-lo.
"O que te faz pensar que vou numa festa cheia de capitalistas, opressores?" ergueu uma sobrancelha, e de repente se pareceu muito com minha mãe. Meu coração se contraiu. Isaac abriu um pouco a boca, sem ter o que dizer.
"Ah Jenna... É só..." gaguejou. Ele claramente não esperava por uma recusa. "É só uma comemoração da empresa. Eu realmente gostaria que você fosse."
Ela o encarou.
"Sinto muito, mas não vou. Se as meninas quiserem ir tudo bem, mas..." fez uma pausa pensativa. Uma ruga de preocupação nasceu em sua testa. "Não. Na verdade não. Se aquele moleque loiro de energias ruins estiver por lá, nenhuma das minhas meninas tem permissão para ir."
"Jared? Oh, não. Acredito que ele não vá querer aparecer." Ele disse com certa convicção. Olhei para ele, interessada, mas ele manteve sua atenção em Jenna, como se mal me notasse. "Ele saiu estressado, encheu o tanque do carro, não atende o celular. Eu acredito que ele nem esteja mais na cidade."
Não sei bem o que senti com essa informação. Preocupação? Alívio? Sinceramente, não sei. Foi confuso.
"Jen," ele se aproximou da minha tia e eu a vi prender a respiração. Corei por ela e tentei esconder um sorriso. "Por favor, pense com carinho. Sua presença é... Importante pra mim." Ele a olhou nos olhos enquanto falava. Me vi segurando a maior vela para o mais novo casal.
"Ah..." foi a vez de Jenna gaguejar. "Tudo bem. Vou pensar, Coca-Cola, mas se eu fosse você não contaria com isso." Ela pegou o convite da mão estendida de Isaac e eu o vi sorrir brevemente. Ele se inclinou ousadamente para beijá-la no rosto e eu arregalei os olhos para ver a reação da minha tia. Isaac plantou um beijo carinhoso na bochecha rosada de Tia Jenna e ela o afastou desconcertada. "Isaac, estou um pouco ocupada no momento. Tenho muito o que fazer. Até depois, sim?" baixou os olhos nervosamente e se afastou sem olhar para trás.
Isaac deu um longo suspiro cansado enquanto a observava e depois me olhou surpreso, percebendo que eu estava ali, afinal.
"O que foi?" perguntou. Eu ri.
"Vocês dois..." sorri. "Eu shipo."
"Você o que?" franziu o cenho, confuso.
"Sabe, espero que dê certo. Eu não esperava por isso, já que vocês são tão diferentes. Mas eu gosto da combinação hippie e empresário." Ele riu, mas não pareceu constrangido.
"Mas e você? Como tem passado?" perguntou em tom de conversa.
"Ah... Acho que estou bem agora." Menti. A verdade é que eu ainda estava muito confusa.
"Sabe, ele ficou um pouco assustado quando ‘despertou’ e viu o que tinha feito a você. Eu entendo sua raiva, você tem motivos para odiá-lo. Não estou pedindo para perdoá-lo, mas não o odeie, Kate. Essa perda de controle..." Ele suspirou e balançou a cabeça. "Aquilo não foi normal. Foi um acidente."
"Ele não pareceu arrependido pra mim. Ele parece querer que eu o odeie." Eu disse. Isaac riu.
"Ele é um garoto problemático. Está tentando reconhecer as próprias emoções e se por no lugar." Isaac deu uma piscadela para mim, mas eu juro que não entendi o que isso quis dizer. "Bom, eu preciso ir, Kate. Espero vê-la na festa."
Ele começou a andar, e então parou virando-se para mim novamente.
"Ah! Por favor, tente convencer sua tia e ir com você."
"Pode deixar." Sorri.
"Se precisar de alguma coisa, é só me ligar."
Assenti e ele se afastou. Observei-o enquanto eu pensava do que eu poderia vir a precisar. Então me lembrei de que Isaac fornecia de tudo para Jared, inclusive armas!
"Isaac!" gritei seu nome e ele voltou.
Eu estava no quarto estudando mais alguns livros que eu havia pegado, tentando aprender alguns feitiços embora eu não pudesse usá-los. Aquilo era ridículo! Ter que depender de um simples objeto para poder manipular meu poder. Pesquisei sobre o ritual Osvla e descobri que aquilo não passava de uma festa de dezesseis anos das bruxas. Simbolizava a passagem de um amadurecimento interno provando que a pessoa é digna e capaz de desbravar seu próprio interior através dos poderes de Luna. Procurei nos livros também sobre como usar os poderes sobre a joia, mas não encontrei nada. Por ora eu teria que me contentar com as armas que Isaac havia me prometido e com o feitiço que a Tia Jenna jurou fazer.
Tudo isso, embora em grande parte despertasse minha curiosidade, já estava me dando dor de cabeça. Eu estava num dilema. Se eu parasse de ler, meus pensamentos me levavam diretamente para Jared. Se eu continuasse a ler, ficaria extremamente frustrada por estar isenta de meus poderes. Suspirei. Eu precisava me desfocar e a solução mais atraente que consegui pensar para isso, foi festa!
"Em, está a fim de sair hoje?" perguntei a Emma ao telefone.
"Ah, amiga, hoje não vai rolar. Os pais do Gayle vieram conhecer o nosso apê e eu estou ridiculamente tentando ser a melhor nora do mundo. Não está dando muito certo, sabe. A mãe dele é uma bruxa! Ahn... Sem ofensas." Eu ri.
"Eu queria poder te salvar agora."
"Eu sei, amiga. É por isso que eu te amo. Mas vamos deixar pra próxima."
"Sim, claro." Respondi sem conseguir esconder minha decepção.
"Kate... Você está estranha. Aconteceu alguma coisa? Não... Não vai me dizer que foi aquele branquelo canalha outra vez."
Bufei ao telefone.
"Amiga, o que ele fez? Me fala agora porque eu juro que vou..." Emma! Uma voz gritou ao fundo interrompendo-a no meio de sua ameaça indireta. "OI! ESTOU INDO!" ela gritou de volta cobrindo o telefone com a mão, sua voz ficou abafada. "Kate, preciso desligar. Amanhã nós terminamos essa conversa, tudo bem? Beijos, amiga, te amo."
"Também te amo." Respondi e desliguei o aparelho. Resolvi ir atrás de Fleur. Ela estava no quarto pintando as unhas da mão.
"Vai se arrumar. Nós vamos sair." anunciei parada na porta de seu quarto, sem cumprimenta-la ou qualquer coisa.
"O que? Pra onde?" perguntou deixando o pincel do esmalte cair sujando sua perna. Ela soltou um palavrão.
"Não faço ideia." Declarei com um suspiro. "Não importa. A gente se vira. Você escolhe. Vamos pra qualquer lugar, mas eu preciso sair hoje!"
Ela ergueu uma sobrancelha pra mim, então seus lábios se curvaram num sorriso travesso e divertido.
***
A festa era no mesmo rancho em que eu havia perdido o controle com Jared pela primeira vez. Revirei os olhos evitando pensar nele e olhei para a extensa fileira de barracas. Me peguei procurando por uma em especial, a barraca de coquetéis. Olhei para trás e vi um barril d’água. Talvez fosse o mesmo que ele usou para esfriar a cabeça depois que eu o brochei. Me reprimi três vezes por pensar nele. Será que foi uma boa ideia ter deixado Fleur me trazer pra cá? Isaac disse que havia sido um acidente. Mas depois de tudo o que ele me fez, eu seria burra demais em acreditar nisso. Eu não estava disposta a perdoá-lo. Eu o estava odiando.
"Ei, bonitinha." senti uma mão tocar meu ombro e me deparei com um par de olhos castanhos escuros. "Está tudo bem com você?" perguntou Zoey. Eu a reconheci. Era uma amiga de Fleur.
"Ah..." balbuciei.
"Garotos... esse é o problema dela." disse Fleur rindo da minha expressão. "Na verdade, um garoto. É por isso que prefiro meninas."
Eu ri, relaxando, e reparei que Zoey me avaliava. Depois sorriu, estendendo a mão para mim.
"Venha, vamos beber." me puxou entre a multidão até chegarmos ao balcão de um quiosque-bar. "Duas doses da bebida mais forte que a senhora tiver!" falou sorrindo para a mulher do balcão, que não retribuiu o sorriso.
Depois de um tempo, a mulher voltou e colocou dois pequenos copos sobre a tábua de madeira, preenchidos por um líquido transparente e incolor, como água, mas o cheiro era forte e inebriante.
"Então!" Zoey exclamou chamando minha atenção, assustando-me para fora de meus devaneios pós-bebedeira. Eu já havia virado quatro doses seguidas e minha cabeça girava. Olhei para ela e tive que estreitar os olhos para que a imagem dela não parecesse um vulto duplicado. "Me conta, quem partiu seu coração?" passou a mão por seu cabelo loiro.
Olhei para ela se canto e um sorriso desavisado surgiu em meus lábios. Mas a pergunta fez nascer uma tristeza mórbida no meu peito. Isso me deixou com raiva. Fiz uma careta.
"Ele não partiu meu coração!" declarei meio grogue. "Ele dilacerou meu coração." Bati na bancada. "Ele nunca está satisfeito e não vai parar até não sobrar mais nada em mim pra queimar!"
Zoey me olhava com atenção, mas eu duvidei que ela estivesse prestando atenção no que eu estava dizendo. Não me importei. Dei de ombros para a vida e virei minha quinta dose. Eu ri debilmente enquanto pousava o pequeno copo rudemente sobre o balcão de madeira.
Eu e Zoey fomos para o centro aonde as pessoas dançavam uma mistura de música house e country. Eu ria enquanto tentava tomar o sentido das minhas pernas de volta. Estava dançando com ela, me divertindo, rindo sem motivo, até que vi tudo girar, fazendo minhas têmporas latejarem fortemente. A gravidade começou a pesar em mim e eu vi que precisava me sentar. Saí dali cambaleando em rumo e me sentei. Quase caí, na verdade, por cima de um tronco de árvore. A música tocava ao longe. Senti a bile subir quando abaixei a cabeça, mas ergui o queixo aspirando o ar profundamente. Quando abri os olhos, lá estava, o estábulo.
Encarei o estábulo enquanto todas as lembranças de uma das noites mais quentes com Jared invadiam minha mente. Eu comecei a rir e de um segundo para o outro comecei a chorar. Me senti como uma miserável.
"Pare!" murmurei comigo mesma "Kate, qual é o seu problema?" afundei meu rosto nas mãos.
"Ei, acho que alguém exagerou na bebida..." alguém se aproximou de mim, rinso. "Oh, porque está chorando?" perguntou Zoey. Eu a vi como um borrão loiro-dourado. Pisquei tentando voltar com a minha visão e ela acariciou meu cabelo. "Kate, o que houve?"
"Esse lugar, aquele ali," apontei aos prantos. "É o pior lugar do mundo. Ele é gostoso... Eu o odeio tanto! Eu me odeio tanto..."
"Não..." ela disse aproximando-se mais "não se odeie."
"Eu me odeio! Ele sempre me avisou. A culpa é minha! Ele falou. Eu sei que ele falou porque eu lembro do que ele disse." Parei por um momento e a encarei. "Isso faz algum sentido? Ele avisou e eu..." grunhi impaciente, tropeçando pelas palavras.
"Shhh." pegou em meu queixo e me olhou nos olhos. "Não fale isso, as coisas acontecem..."
"Eu odeio ele mais do que odeio lasanha de berinjela." Choraminguei. "Eu queria tirar ele da minha cabeça!" segurei minha cabeça com as duas mãos e balancei de um lado para o outro, mas fiquei tonta. "Argh!"
"Eu sei um jeito." A voz de Zoey era tranquila. Era bonita. Olhei para ela e franzi o cenho, sem entender. Ela sorriu e aos poucos aproximou o rosto do meu. Eu não sabia o que ela ia fazer. Na verdade, eu sabia sim. O álcool me subiu à cabeça novamente, eu estava lerda e por isso não reagi instantaneamente ao seu beijo.
Ela me beijou na boca e abriu os olhos sorrindo com os lábios colados nos meus. Eu a encarei sem me afastar. Ela puxou o lábio inferior com os dentes e chupou os de cima. Depois, simplesmente infiltrou sua língua na minha boca.
No inicio relutei, mas depois, cedi. Era como beijar qualquer cara. Era igual. Não. Era doce. Era... erótico. Ela me segurava pelo o rosto enquanto eu me apoiava em suas pernas. O beijo de Zoey era calmo mas com volúpia. Depois de um tempo parou e me olhou sorrindo, enquanto eu piscava loucamente ainda tentando processar o que havia acontecido.
"Pronto, agora vai se lembrar de mim quando vier aqui de novo. Não dele." Eu pisquei e neguei com a cabeça. Ela riu e se levantou estendendo a mão.
"Vamos dar o fora daqui."
Ela parou com seu Chevy em frente á casa de Jenna. Me ajudou a descer do carro e subir a escadinha. Coloquei a chave na porta e me virei para me despedir, seus olhos negros brilhavam.
"Quero conhecer seu quarto." falou
"Oh." Exclamei meio tonta. Franzi o cenho pra ela. "Por que? Ele não tem nada demais... Na verdade, é bem sem graça." então ela tomou a frente, abrindo a porta e entrando, parou na escuridão como se estivesse me esperando, então entrei.
Ela subiu até meu quarto. Estava perto da janela, olhando alguma coisa lá fora.
"Ah... Por que tem um cara acampado no seu quintal?" perguntou.
Han? Pensei. Depois lembrei. OH Merda. Era Astaroth. Passei por ela ficando em sua frente, ela me olhou.
"Ele é um, ahn... Um amigo jipe da minha tia." Respondi rapidamente. Ela me olhou sem entender. "HIPPIE," me corrigi. "É um amigo hippie da minha tia."
Ela riu.
"Tudo bem, então." ela sorriu e pôs as mãos no meu rosto me beijando novamente. Suas mãos tomaram minha cintura, e antes que eu percebesse, envolvi seu pescoço com meus braços.
Em circunstâncias normais, eu me perguntaria “o que pensa que está fazendo?" Mas eu não estava em circunstâncias normais. Zoey se deitou sobre mim na cama e me olhou sorrindo.
"Ah... não sei como vocês..." gaguejei.
"Relaxa, eu te ensino." falou tirando meu cabelo do pescoço e espalhando beijos por ali, enquanto abria minha blusa, e seus cabelos me faziam cócegas nos seios. Diferente de Jar... Argh. Ele que foda, também! Beijei Zoey com vontade e inverti a posição, quando ouvi o barulho da porta de abrindo. Oh, não. Jenna! Mas para minha total surpresa, era Jared. Ele acendeu a luz e ergueu as sobrancelhas com um olhar divertido. Saí rapidamente de cima de Zoey, sem equilíbrio. Caminhei até ele, tropeçando sozinha. Apoiei-me na batente da porta.
"O que está fazendo aqui?" perguntei entre os dentes.
"Ahn... Há quanto tempo está na onda da Fleur?" perguntou ele segurando um sorriso nos lábios e eu lhe dei um tapa na cara e automaticamente recuei, com medo. Ele não parecia estar com raiva, apenas divertido, mas ainda assim, senti-me encurralada. "Sai daqui! Eu vou chamar Jenna."
"Ah...Kate?" Chamou Zoey atrás de mim, mas eu a ignorei. Jared não.
"Olha, desculpa interromper e tudo mais, mas eu realmente quero me juntar a vocês. Garanto que sei ser bastante volátil." Sorriu.
"Hm... Acho melhor eu ir embora." falou Zoey passando por mim rapidamente. "Amanhã eu te ligo. As coisas estão ficando estranhas aqui." e saiu do quarto.
Jared passeou com os olhos de cima a baixo me encarando com um desejo voraz. Afinal, eu estava sem blusa.
"Saia." falei tentando me manter firme.
"Foi bom?" perguntou ele me ignorando.
"O que?"
"Beijar uma garota."
"Ah... Foi. Ela sabe ser melhor que muito homem. Melhor até do que você." Cuspi a última palavra. Ele riu e deu um passo a frente. Eu dei um passo atrás.
"Você sabe ser engraçada, às vezes. Mas eu sei que essa graça não é sua. Você cheira a rum."
"Vai a merda!" Em dois passos ele me fez recuar batendo na parede. Ele estava bem próximo de mim e me encarava com seu olhar ameaçador. Senti todo seu corpo torneado no meu sob o tecido fino de sua camisa cinza. "Saia" vociferei outra vez, um pouco trêmula.
Ele me pegou pelas bochechas bruscamente.
"Não quero te beijar, não vou." Sacudi a cabeça para me livrar de suas mãos. Senti minha cabeça girar e doer. "Prefiro a Zoey. Vá chamar a Zoey." Ele riu.
"Eu adoraria. Seria um prazer pra mim e você sabe." Ele disse prendendo os dedos no meu cabelo, segurando-me pela nuca. "Mas vamos deixar pra outra hoje. Hoje eu quero você pra mim."
Trinquei os dentes e não rebati uma resposta.
"É uma coisa engraçada. Você dizer que prefere a Zoey do que a mim." Ele riu. "Essa é nova..."
"É como dizem: Quem come de tudo não passa fome." Respondi. Ele não conteve sua risada.
"Então está dizendo que você realmente trocou de lado? Prefere comer meninas?"
"Prefiro." Respondi corajosamente.
"Então isso me deixa com apenas uma escolha." Ele disse num sussurro e chegou mais perto, seu hálito quente em minha boca entreaberta. "Vou ter que te beijar até você mudar ideia." Então atacou minha boca.
Eu selei meus lábios rapidamente, mas quando os dele tocaram os meus, insistentes, minha boca se abriu por vontade própria. Minhas mãos o agarraram. Por ajuda do álcool eu perdi o controle de mim. Beijá-lo era como um instinto natural. Eu já conhecia cada canto daquela boca e meu corpo sentia saudade.
Ele grudou mais em mim contra a parede e eu me derreti em excitação. Não! Droga Kate, não caia nessa! Eu gritava comigo mesma, protestando em minha burrice sem limites. Suas mãos foram na minha coxa e me ergueu em seu colo. Eu sabia que eu estava sendo estúpida mais uma vez. Me ordenei a parar. Então mordi seus lábios até ele grunhir. Ao invés de uma reação nervosa, senti-o sorrir com dificuldade, seu lábio ainda preso em meus dentes. Ele dançou com sua língua e não parou. Empurrei-o pelo peito, chutei-lhe entre as pernas e dei-lhe um tapa no rosto.
Ele me avaliou com o cenho franzido, e eu me afastei ao máximo. Ele estava com raiva, e por muito medo gritei o nome de Jenna.
"Você não quer jogar esse jogo de novo, quer?" perguntou Jared, eriçando-se feito um animal pronto para atacar.
"Você quase me matou! Você queria me matar! Vai embora!" Jenna apareceu no quarto com uma vassoura na mão, e começou a bater em Jared com ela, até que ele saísse feito um cão de rua, protestando e xingando a mil.
Me joguei na cama exausta, minhas têmporas pareciam que iam saltar de minha pele, meu coração estava acelerado e senti todo meu sangue subir, então apaguei.
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