Hálito de Fogo

13 Destino traçado


O rei entrou no quarto e sorriu quando nos viu.

— Procuramos vocês por todo castelo. Onde estiveram todo esse tempo? Ficamos preocupados. — Ele me abraçou e apoiei minha cabeça em seu ombro, retribuindo o abraço. — Aconteceu algo?

— Hércules se foi. Ele cumpriu seu objetivo como Cavaleiro da Ressurreição. — Mesmo aquilo parecendo algo tolo, me abalou. Todos os Cavaleiros, independentemente do quão forte ou bons eles fossem, quando cumprissem seus papéis, quando me dessem seu poder, teriam que ir embora.

O rei começou a fazer inúmeras perguntas e eu não estava disposto a respondê-las, então pedi a Sabra e Helena que explicassem o necessário a ele enquanto eu caminhava pela cidade. O rei pediu a dois guardas que me seguissem, mas eu lhe disse que não era necessário, então um deles apenas levou-me até a saída do castelo.

Ao caminhar pela cidade, pude ver a população quase completamente bem. Apenas algumas pessoas ainda tossiam e estavam pálidas devido a Peste, então avistei Kaila, a filha do rei, distribuindo doces para as crianças que passavam por perto. Todas saiam sorridentes.

— É uma coisa muito bonita de se fazer. — Ela se virou e sorriu para mim. — A filha do rei sai pelas ruas sem preocupação nenhuma e entrega doces para crianças.

— É o mínimo que posso fazer. Eu e meu pai sempre tentamos ser justos e ajudar a população o máximo que podemos. — Todas as crianças a volta de Kaila sorriam e corriam felizes.

— Você faz parecer que não aconteceu nada com a cidade. Espero que consigam trazer de volta tudo que foi destruído. — Percebi os olhos da garota desviarem-se para o chão e logo então para um carrinho de mão que era carregado por dois homens. Havia um pano cobrindo um enorme volume, então pude perceber que eram corpos, devido a um braço que foi exposto quando o carrinho passou por um buraco. Rapidamente um dos homens escondeu o corpo de volta para de baixo do pano. — Me desculpe, eu não sabia, eu não deveria ter vindo a cidade. Fui eu quem trouxe a Peste até aqui...

— Não, Cadmo, não é sua culpa, é o seu dever. Não se culpe por coisas que você não pode controlar. — Mesmo com tudo que aconteceu, Kaila mantinha sua postura e agia como uma princesa.

— Nós partiremos dentro de duas horas. Mesmo não sendo minha culpa, eu prefiro prevenir qualquer outro tipo de problema, e preciso continuar a minha jornada.

— Eu entendo. Vou sentir sua falta, mesmo que a gente se conheça há alguns dias e essa cidade sempre acabe sendo atacada por alguns dragões, você trouxe um animo diferente pra cá. — Ela sorriu e beijou minha testa. — Infelizmente não poderei ficar aqui para poder me despedir, estou partindo agora para representar meu pai em um encontro de reis. Boa sorte, até um dia quem sabe.

Kaila partiu e eu comecei a caminhar pela cidade. As crianças corriam de um lado para o outro, mas então percebi uma garotinha branca com longos cabelos castanhos sentada em um canto, com a mão sobre seu braço, que tinha um corte.

— Você quer ajuda? — Sentei-me ao seu lado e ela pulou, um pouco assustada. — Calma, eu não vou fazer nada, onde estão seus pais?

— Meu pai é soldado do rei e minha mãe está fazendo compras de suprimentos, me deixou aqui para brincar com os meus amigos — Ela disse, um pouco tímida.

— Entendo, espere um pouco aqui. — Levantei-me e encontrei uma mulher que enfaixava o braço de um soldado. Perguntei a ela se podia pegar um pedaço da faixa, esparadrapo e um pano, então voltei para a garota. — Dê-me aqui seu braço.

Coloquei o pano sobre o braço da garota, mas algo diferente aconteceu. Ao colocar a mão sobre a ferida uma luz emanou e eu pude ouvi-la suspirar aliviada e ao retirar o pano a ferida havia se fechado, havia apenas uma pequena cicatriz.

— Bem, acho que você está melhor. — Levantei-me e então a garota me abraçou.

— Obrigado, eu sou Sophia.

— Eu sou Cadmo. — Ela me soltou e sorriu, encantada com o que eu havia feito. Retribui o sorriso com o mesmo encanto e, quando a garota se foi, pude reparar que a ferida que estava no braço da garota havia se transferido para o meu e aos poucos se fechava.

Eu podia tomar a dor dos outros. Ainda não sabia os limites daquilo, mas seria algo muito útil quando alguém se ferisse. Porém, algo a mais me intrigou.

Uma garota branca, alta, de olhos negros e cabelos da mesma cor a altura dos ombros. Ela passou em frente a uma padaria, colocou um pedaço de pão sob a camisa e saiu andando como se ninguém tivesse percebido, até seus olhos encontrarem os meus, fazendo-a tomar uma expressão de pânico. Diferente de outras pessoas, o pânico fez com que seus olhos tomassem uma cor prateada, então a garota bruscamente devolveu o pão ao cesto que havia tirado e correu. Tentei alcançá-la, mas antes que pudesse tomar impulso ela já estava virando uma rua e escalando uma casa para fugir pelos telhados.

Surge então atrás de mim Sabra, me puxando pelo braço.

— O que houve? O que tem ali? — Ela me perguntava, enquanto tentava encontrar algo sobre os telhados. Contei a ela o que havia visto.

— Deve ser alguma moradora de rua, não se preocupe. Uma hora ou outra, alguém encontra ela. Nada que o senhor Cavaleiro da Ressurreição precise entrar em modo herói. — Ela disse “modo herói” com uma cara de deboche e eu encarei-a com desaprovação. — Agora vamos, Lena está juntando nossas coisas para partirmos e pediu para esperarmos por ela no portão da cidade.

Sabra enganchou seu braço ao meu e caminhamos pela cidade em direção ao portão. De repente algumas pessoas vieram em nossa direção, não eram muitas, mas haviam cerca de 50 pessoas ali tentando falar conosco.

— Você poderia assinar o meu elmo? — Um garoto parou a minha frente com um elmo de couro esticado e uma caneta. Eu não fazia ideia do que ele queria, mas Sabra sorriu, me disse para pegar a caneta e quando a peguei ela colocou sua mão sobre a minha e deslizou a caneta que marcou o elmo.

— O que você marcou naquilo? — Perguntei enquanto saíamos e o garoto sorria agradecido, gritando para os amigos que estavam a alguns metros sobre ele ter conseguido uma assinatura minha.

— Escrevi seu nome no elmo por você. Aquela palavra marca o seu nome. — Ela deslizou o dedo indicador no ar formando Cadmo. — Qualquer dia desses eu te ensino.

Quando chegamos ao portão Helena estava rodeada por crianças que gritavam e corriam.

— Por favor, Cadmo, erga sua espada, faça pegar fogo e queime todos esses pivetes, eles estão gritando já tem um século. — Ela fazia uma cara de desespero enquanto uma garotinha agarrava sua perna enquanto gritava.

Eu e Sabra rimos enquanto pegávamos as mochilas que estavam no chão. Dentro delas haviam suprimentos, alguns remédios e outras coisas que precisaríamos durante a viagem.

Os Ases dos Ares apareceram para se despedir e uma multidão se formou em volta de nós para admirarem os belos dragões.

— Não se preocupem, não vai ser a última vez que iremos nos ver. Sinto que ainda teremos muitas histórias juntos para contar um dia. — Ravel sorriu e então se aproximou de Helena. — Sei que não é muito, mas é algo poderoso. — Ele foi até Zhoa e de uma bolsa acoplada ao dragão ele tirou uma espada. — Está é uma espada gêmea a minha, ela é feita com os ossos do dragão o qual Zhoa matou para me salvar. Não é igual à de Cadmo, não pega foto e nem transforma dragões em pedra, mas lhe garanto que é muito resistente e poderosa, se usar com sabedoria. — Helena pegou a espada, sorriu e num gesto inesperado abraçou cada um dos Ases dos Ares.

— Eu prometo a vocês que, quando nos encontrarmos novamente, serei tão boa quanto vocês montada sobre um dragão. — Todos gritaram de felicidade e uma salva de palmas surgiu na multidão.

— E essas malas maiores? — Perguntei a Helena, que apenas me disse para deixar com ela e, ao atravessarmos o portão, colocou dois dedos dentro da boca e assobiou. Uma figura que pairava sob as nuvens desceu.

Nero estava muito maior do que a última vez que eu havia o visto. Da ponta de sua cabeça até a da cauda ele media aproximadamente 3 metros e meio, então Helena pendurou as mochilas grandes em uma cela que estava sobre as costas do dragão que decolou novamente, mas não antes ganhar um peixe.

— E agora, Cadmo, para onde vamos? — Sabra olhava Nero planar sobre nós.

— Hércules não me disse nada. — Coloquei as duas mãos sobre a cabeça e entrei em desespero. — Como ele pode ter esquecido? Isso é impossível, ele precisava me dar a dica sobre o próximo Cavaleiro.

— Acalme-se, Hércules me pediu para lhe entregar isto aqui depois que ele partisse, pois não queria embolar mais a despedida. — Helena tirou então um pedaço de papel dobrado de dentro da mochila e o abriu. O papel em questão de segundos começou a ganhar cores e traços, revelando um mapa da região. Havia uma pequena chama em movimento no mapa que marcava exatamente onde eu estava e um traço vermelho marcava o caminho que deveríamos seguir.

— Por que temos que passar por aqui? — Coloquei o dedo sobre uma parte do mapa onde havia uma enorme floresta desenhada com árvores cinzentas. — É muito mais fácil seguirmos por este caminho. — Deslizei o dedo no mapa por uma rota que contornava um rio. Helena e Sabra concordaram e decidimos desviar a rota, mas quando começamos a desviar-nos toda a tinta do mapa sumiu e uma caveira surgiu no lugar.

— Acho que isso quer dizer “Pare de ser idiota e siga o caminho que marquei para você, garoto estúpido.” — Sabra e Helena começaram a gargalhar enquanto voltávamos para a rota original. — Deve ter algo importante lá que ele quer que demos uma olhada.

Ψ

Estávamos caminhando há algum tempo dentro da floresta marcada no mapa e nada de diferente havia acontecido, então comecei a duvidar se Hércules realmente não havia se enganado ou algo do gênero, até o momento que vi a ladra de pão andar acompanhada de uma garota que me era familiar.

— Você é a herdeira do bando e saí por aí roubando pães? Me poupe, Koba. — A garota estava enfurecida e entregava uma garrafa d’água para a outra beber. — Olhe, eu não vou contar nada para o seu tio porque você é minha amiga, mas não faça mais isso, por favor, já me basta ter que te acompanhar em todas as suas aventuras noturnas quando você resolve quebrar as regras e se transformar numa loba, agora quer se misturar com os cidadãos também

— Desculpe-me, Morgana, mas eu não consigo suportar essa história de apenas homens poderem se transformar, meu tio é um idiota por ter inventado essa história. — A garota tomou um pouco de água e fez um gargarejo com o resto. — E eu só fui até a cidade por causa dos rumores e você sabe o quanto eu sou fascinada por histórias de heróis que lutam pela justiça.

— Você realmente acredita que um garoto saí por aí com uma espada flamejante em punho queimando dragões e tentando reestabelecer a ordem no mundo? — Ela gargalhava, mas então Koba estendeu a mão a sua frente e fez com que Morgana parasse. — O que foi?

— Tem alguém nos observando. — Eu, Sabra e Helena já havíamos nos escondido atrás de uma árvore, mas a garota de alguma forma sabia de nossa presença. Ela respirou fundo e seus olhos brilharam prateados. — Saiam de trás dessa árvore, eu sei que estão aí. — Morgana se posicionou logo atrás de Koba como quem buscava proteção. — É melhor dizerem quem são logo. — Saí de trás da árvore com Ascalon apontando para os céus. Koba não tinha mais apenas os olhos prateados fugindo do comum, suas unhas já estavam muito maiores, se tornando garras e suas presas também tomaram um formato mais animalesco, como um cão, leão ou um lobo

— Espere, agora eu sei quem você é. — Apontei para Morgana. — Você é a garota que perseguia o lobo gigante algumas noites atrás, vocês se lembram. — Sabra e Helena afirmaram com a cabeça.

— Muito esperto, mas isso não faz diferença, quem são vocês? — Koba começava a rosnar e sua pele tomou um tom acinzentado.

— Não somos inimigos. — Sabra disse tentando convencer a garota que nos encarava com desprezo.

— Provem.

— Já que insiste, Ascalon. — Sussurrei o nome da espada para que Nero não ouvisse e fosse afetado, mas foi o suficiente para ela ser envolta por chamas e as garotas abrirem um sorriso.

— As histórias são reais. — Koba correu em nossa direção, mas Nero desceu em um rasante e rugiu fazendo a garota recuar.

— Para trás, ninguém toca em Helena. — A voz de Nero estava muito mais grossa e imponente do que antes.

— Helena, diga a Nero que não há problema, as garotas não vão nos machucar. — Ela então assentiu com a cabeça e pediu ao dragão que se acalmasse. Ele veio em nossa direção e passou a língua pelo rosto de Helena, e eu tive quase certeza que ele estava tentando sorrir.

— Esse dragão é de vocês? — Morgana, espantada, tentava se manter distante, mas estava tão curiosa quanto Koba, que sorria e me enchia de perguntas sobre o que eu podia tanto fazer.

— Não, ele não tem dono, ele é nosso amigo. — Helena disse enquanto acariciava o focinho de Nero. — Mas eu e ele temos uma conexão um pouco diferente deles. — Ela olhou para mim e para Sabra.

Helena havia aceitado Nero como um companheiro, coisa que eu nunca esperaria da garota que teve os parentes mortos por dragões e declamava seu ódio a todos os seres com escamas que pudesse existir na face de Teran.

— Vamos, vocês precisam conhecer nossa alcateia. — Koba me puxava pelo braço como uma criança sorridente que queria mostrar aos pais um brinquedo legal que havia encontrado na loja.

Olhei para Helena e Sabra como um pedido de socorro e elas se entreolharam e riram.

— Vamos, Cadmo, não tem problema nenhum, está é a rota mesmo, não há mal nenhum ir com elas. — Sabra interrompeu a conversa que tinha com Morgana.

— Desculpe-me a minha falta de educação. — Koba largou meu braço e estendeu o seu enquanto caminhava. — Prazer, eu sou Koba di Luna e está é Morgana Amare.