Há Trinta Anos.

3 Capítulo 3: Passado enganoso


—Bom dia Sr. Barriga!

—Bom dia Chavinho!

—Já tenho o dinheiro dos seus alugueis, quer comer algo?

—Não, obrigado, acabo de almoçar.

—Mas, me diga, como tem passado?

—Com o ferro, mas quem passa minhas roupas é a Atadolfa.

—Pergunto se o senhor tem passado bem, se o senhor está bem.

—Ah, sim, sim, nem tudo, venho sentindo uma sonolência durante o dia que tem me preocupado, alguns me acham meio frio também.

—Pois procure um médico, tomara que não, mas isto pode ser grave.

—Pode deixar, e os negócios, como vão?

—Muitississississississississíííííííssimo bem, de vento em popa, muita gente chegando e, claro, o que restou da antiga clientela do carequinha.

—Pois é, coitado, iludiu-se pela Tia da Paty e eis o resultado.

Imediatamente, veio à lembrança do dono do restaurante os tempos em que mal tomava café da manhã, quando ainda usava de domingo a domingo, vinte e quatro horas por dia, o seu velho boné inca verde, sua bonita roupa, nela tudo era remendado, não valia um centavo, mas para ele era tudo, até então, quando viu a menina com um ursinho de pelúcia, lembrou-se nitidamente do beijo que ganhou dela depois que resgatou o ursinho de dentro do seu barril.

—Chavinho!?

—Ôpa, que foi, Seu Barriga?

—Nada, mas você ficou um tempo distraído aí.

—Ah, sim! Barrigas Seu Lembrança, barrigas!

—Quê?

—Digo, lembranças, Seu Barriga, lembranças boas que não me saem da cabeça.

Sorrindo, o velho senhorio respondeu:

—Entendo, pode me servir um cafezinho?

—Claro, está à mão, enquanto isso, vou buscar seu dinheiro, como está o Nhonho?

—Muito bem, conseguiu uma bolsa em Harward.

—Pra carregar o que?

—É uma bolsa de estudos.

—Ah, sim!

Após pagar e o senhorio ir embora, o dono do barril e do restaurante ficou imaginando, enquanto, lavava os pratos, momentos de sua vida, os cascudos que levava do Seu Madruga, os momentos em que apanhava e batia no Kiko, as voltas que levava da Chiquinha e os raros revides contra a sardentinha, quase tudo, mesmo as más lembranças, vinham revestidas com um tom de ternura, por isso fazia questão de continuar a ser chamado pelo apelido de infância, embora seu verdadeiro nome e origem não fossem mais mistério para ninguém.

O que ocorreu nestes últimos anos também não lhe passou despercebido, principalmente, um fato que, segundo ele mesmo, foi uma das maiores, senão a maior traição de sua vida, superando até quando o bochechudo o tapeou quando ele vendia jornais e revistas. “Como ela pôde fazer isso comigo?” Perguntava-se, “simplesmente a melhor amiga que tive na minha adolescência, pensei até em, sei lá, tentar até um relacionamento sério, meu Deus! Que pessoa eu traria para a minha vida!”.

Dissemos, no início, que trinta anos mudaram muito a mansão dos Barriga y Pesado, pois três anos também mudaram a cabeça do nosso querido ex morador da casa oito, até três anos atrás, tinha uma parceria figadal com Chiquinha, amigos inseparáveis na escola, na vila e até nas confidências, algo tão íntimo e profundo que o próprio Chaves questionou seus sentimentos, de fato, os anos modificaram muito a filhinha do Seu Madruga, mas nada interferiu mais na vida de ambos do que o ocorrido contado agora:

—Chavinho, olha o que eu comprei!

—Caramba! Thriler, do Michael Jackson!

—Sim, comprei naquela loja lá no centro da cidade.

—A mesma que vimos naquele dia?

—Pois é, pois é, pois é!

—Vamos ouvir na sua casa então!

—Não Chavinho, você sabe que Jaiminho e Dona Clotilde não deixariam, além disso, não há ninguém lá em casa, se eles chegarem e nos virem sós lá, o que vão pensar?

—É verdade! Mas, me diga uma coisa.

—O que foi?

—Você lembra aqueles vinte mangos que eu tinha ganho do dono da venda da esquina?

—Sim, lembro que a nota tinha até uma manchinha verde, aparentemente feita de pincel.

—Exatamente como essa?

—Sim, exatamente como essa.

—E com este mesmo número de série?

—Não lembro.

—Não minta pra mim.

A vendedora da loja de discos, uma das meninas que tinha chamado a atenção do nosso herói durante sua adolescência, havia comprado uns refrescos do Chaves e tinha pago com a mesma nota, sendo o restante desnecessário contar, pois já dissemos o resultado, foi quando adentrou ao restaurante uma mulher muito bonita e bem vestida, morena, olhos levemente puxados, perguntou pelo anúncio na porta de que o local precisava de garçom ou garçonete.

—Mas, você tem experiência como garçonete?

—Não, mas tenho como vendedora em uma loja de discos.

—Ah, você trabalhava naquela loja do centro?

—Sim, entrei lá aos quinze anos e saí muito recentemente.

—Lembro de você, você me comprou uns refrescos faz tempo.

—Não lembro, mas, com certeza eles estavam deliciosos. -Respondeu com um bonito sorriso que resplandeceu familiar ao novo dono do restaurante, parecia que sua cabeça estava tentando avisar quem era, mas a memória não colaborava, resolveu, então perguntar:

—Mas, diga, qual seu nome?

—Patrícia, mas meus amigos me chamam de Paty.

Desnecessário descrever como nosso herói do velho barril teve sua fisiologia alterada, principalmente no centro geométrico do seu tórax, resumindo, extasiado ficou, “como ela ficou ainda mais bonita!”.

—E o seu nome?

—Todos me conhecem por Chaves.

A morena fez um gesto boquiaberta, com as mãos nas bochechas, em expressão mista que denotava surpresa e alegria, não contendo um grito eufórico seguido por um abraço efusivo.

—Mentira! Chavinho! Quanto tempo! Como você mudou!

Respondeu que ela também mudou, mas, para muito melhor, perguntou o que se tinha passado nestes anos todos, ambos conversaram por algum tempo, falaram sobre escola, amizade, infância e, claro, sobre o tempo em que estiveram distantes sem saber o que se passava com eles, pois já tinha passado a hora do almoço e o restaurante estava vazio, foi então que voltaram a conversar sobre o emprego.

—Pois é, estou precisando de garçom ou garçonete, o anúncio está na porta faz quase um mês, mas, ainda não apareceu ninguém.

—Pois estou disponível e espero que você leve em conta sua velha amiga e vizinha.

—Bom, não posso recusar, tipo, não que esteja dizendo que você não será uma boa garçonete, mas, como tenho experiência de garçom e você com cozinha, podemos trocar de vez em quando, dependendo da conveniência, enfim, o emprego é seu.

Ela não escondeu a alegria, e acabou dando um beijo no seu rosto, fato que rapidamente demonstrou arrependimento:

—Ai, desculpa, é que fiquei tão alegre com a oportunidade que não me contive.

—Tudo bem, tive vontade de fazer o mesmo quando consegui meu primeiro emprego.

—E quando começo?

—Esteja aqui amanhã pela manhã.

—Tudo bem, tchau Chavinho, espero ser uma ótima funcionária.

—Até amanhã então!

Paty saiu, deixando o dono do “Restaurante Doña Florinda” suspirando, com os punhos no queixo e cheio de recordações além de uma maravilhosa sensação, uma vontade de ser de apenas uma mulher para o resto da vida, de jamais fazê-la sofrer, de tê-la em seus braços, de ter seus filhos com ela, de envelhecer ao seu lado, até o fim dos seus dias.

Já na casa dezessete da vila, o clima não era assim tão agradável, sua única moradora havia cumprido o meio-turno de trabalho na sapataria e estava tentando se concentrar para estudar, faria vestibular novamente no final do ano, mas algo tirava seu foco dos livros, fazia lágrimas evadirem de seus olhos e trazia consigo um sentimento misto de raiva e tristeza ao relembrar o que ocorrera há três anos:

—Mas não estou mentindo!

—E como chamamos isto então?

—Chavinho ... confie em mim, não roubei seu dinheiro, caramba, não sou mais aquela menininha birrenta de antes!

—Sinto muito, mas há coisas que, quando se perde, jamais conseguimos recuperá-las.

Recordava de como ambos tinham saído chorando daquele lugar, o que houve? Por que ele imaginava que ela tinha roubado seu dinheiro? Não deixou nem explicar que aquilo era fruto da primeira mesada de sua vida, ou seja, que estava era aprendendo a dar valor ao seu dinheiro, aprendendo a economizar e não roubar.

O almoço não desceu bem, o banho não refrescou suas idéias, os estudos e a leitura não traziam distração ou alívio, há três anos, vez por outra se flagrava imaginando esta situação, não era algo doentio, frequente, mas machucava muito quando vinha à tona e, principalmente, quando se encontrava com seu antigo amigo do barril, coisa que evitava muito, pois ficava muito magoada com sua desconfiança.

Eis, que, de repente, ouve alguém bater à porta:

—Quem é? -Perguntou.

—Sou eu, o Sr, Barriga.

Ao contrário de seu progenitor, Francisquinha era pontual, não devia sequer quatorze horas de aluguel, quem dirá intermináveis quatorze meses que seu pai fazia questão de pendurar religiosamente na conta do dono da vila, não tinha um grande salário, mas seus bicos garantiam o dinheiro do aluguel, vestuário, comida e o curso à noite.

—Entre, já separei o dinheiro do aluguel, aceita uma bebida?

—Não, obrigado!

—Como o senhor está?

—Bem, e você?

—Com algumas dificuldades, mas vou levando a vida.

—Sabe, eu estava lembrando seu pai — O velho senhorio cobrava basicamente o mesmo valor de antes pelo aluguel, mas seu bom coração o fez perdoar os quatorze meses do velho chimpanzé reumático quando Dona Neves faleceu — Lembrei de quando ele foi embora deixando você e sua bisavó sozinhas neste mundo, me desculpe, é, ou era, seu pai, mas que sujeito irresponsável!

—Pois é, Seu Barriga, ainda me pergunto o que houve com ele, o que o fez abandonar a filhinha ainda criança e a Vila — Uma lágrima escorreu do rosto ainda salpicado da inquilina, um misto de saudades do velho pai embalado pela lembrança de há pouco — E o seu filho, como vai?

Contou a mesma história e refletiu, vidas vão, vidas vêm, outras ficam, mas continuamos humanos, sentimentais e fracos da mesma forma, ansiosos por dias melhores, mas, ao mesmo tempo, desejosos por um descanso, ou, pelo menos, por uma vida menos pesada e atribulada, sem tantos percalços.

—“Aquela miserável quer tomar meu lugar!” — Pensou Dona Rose, já desconfiando que algo em sua casa estava errado — “Mas não me posso deixar abalar, tenho um filho e uma vida para seguir em frente!”

Estes pensamentos tomavam conta da mente da então matriarca dos Barriga y Pesado em seu apartamento, onde estava passando uma temporada com seu filho, acompanhando seus estudos nos Estados Unidos. Nhonho era um garoto precoce, orgulho de seus pais, aos quinze já estava às vésperas de se matricular em uma das mais, se não a mais, importante universidade do mundo.

—A senhora está bem mamãe?

—Sim, meu fofo, só estou com saudades do papai.

—Certo, vou dar uma volta e já volto está bem?

Sua mãe apenas assentiu com a cabeça, sabia que o filho querido jamais faria besteira, mesmo sozinho ou com amigos os quais, aliás, sabia selecionar muito bem, principalmente depois de conhecer um sujeito que quase o deixou em maus lençóis.

Na verdade, o único herdeiro dos Barriga y Pesado tornou-se, também, muito afeito à socialização, apesar de excelente aluno, o primeiro de sua turma, e de estar um bocadinho acima do peso, não seguia o estereótipo dos geeks tradicionais, muito sociável, sempre fazendo amigos por onde passava, em Boston não tinha sido diferente desde sua chegada.

—Fala mosquito!

—E aí balão mexicano!?

Na primeira esquina o gordinho encontrou-se logo com Paulo, um amigo brasileiro, aluno de engenharia de automação na mesma universidade, magrinho e narigudo, o piauiense fazia jus ao apelido que foi “revidado” na mesma hora para o rechonchudo amigo mexicano, o que os tornou ainda mais amigos.

—Tudo bom cara?

—Na paz, fazendo o que?

—Estava em casa com minha mãe e decidi sair um pouco, como foi tua matrícula?

—Tranqüila, embora tenha ficado indeciso entre algumas disciplinas, mas tudo correu bem, se tudo der certo, dentro em breve você conhecerá o inventor da máquina do tempo.

—É mesmo? Cadê ele?

—Falando com o Donald Trump esférico.

Risadas ecoaram ainda mais altas, quando a dupla que, para quem visse de longe, mais se assemelhava a uma parodia de “O Gordo e o Magro” trocava brincadeiras um com o outro como se fossem velhos conhecidos, mesmo num inglês “macarrônico”, assim sendo, eles foram ao fast-food mais próximo onde continuou uma conversa alheia a qualquer problema, enquanto, em casa, Dona Rose juntava suas suspeitas sobre a fidelidade de seu marido.

—Atadolfa, como estão as coisas aí?

A voz da dona de casa pelo telefone, com seu ainda carregado sotaque texano verbalizava num espanhol que, embora compreensível, soava engraçado para quem não a conhecia.

—Por aqui tudo bem patroa!

—Alguma coisa suspeita?

—Não que eu tenha visto, a senhora me falou, mas não vi nada de errado até agora.

A empregada, recém saída de outro emprego, a casa de um filatelista excêntrico que quase perdera sua coleção por confiar num conde cleptomaníaco e, também quase, colocava a pobre, porém honrada, secretária do lar atrás das grades por conta de suspeitar justamente dela, já alimentava uma enorme afeição por seu patrão, mas sabia de alguns dos seus segredos, só não os contava porque julgava que não devia se meter na vida particular de seus patrões.

Ainda assim, as investidas do patriarca por vezes incomodavam, mas, na maioria das vezes a deixava com vontade de entregar-se à paixão, no entanto, o bom senso rezava que não deveria trair a confiança de sua sisuda, porém, justa patroa.

—Pois continue vigilante, quero informações assim que você as tiver.

—Sim senhora, pode deixar!

A velha loira mãe do Nhonho era o perfeito estereótipo de uma perua, tinha os cabelos duros de tanto laquê, os saltos que usava contribuíam para endurecer os cabelos, mas de frio, tamanha a altura que sua cabeça ganhava, as roupas eram um misto de tenda cigana com bicicleta de pedreiro e árvore de natal, tinha sido educada sob rigorosa disciplina religiosa, o que não garantiu uma boa tranquilidade mental, desde criança sempre foi muito possessiva e ciumenta.

O casamento com o velho pançudo deu-se em uma de suas viagens a terras de Tio Sam, conheceu-a em uma festa de rodeio, ainda jovens trocaram olhares nos moldes do que sempre víamos nas visitas do quilômetro percorrido à velha carcomida na vila.

Em princípio, seu pai, dono de poços de petróleo no Texas, foi contra, mas, ao perceber a habilidade do mexicano para os negócios e seu tino diplomático, abençoou a união.

Aliás, aos olhos do senhorio da vila, a mulher meiga, bonita e atenciosa deu lugar a uma pessoa insegura, egoísta e narcisista, nunca mais tinha perguntado como tinha sido o dia do seu marido, enfim, aparentava cultivar uma infelicidade doentia a qual alimentava ainda mais seus ciúmes, diga-se, bem fundados.

Falando nele, saiu da casa cinco, a última na vila a pagar o aluguel naquele dia, era um domicílio que o preocupava muito, pois a dona estava em avançada idade e com a saúde não muito boa, pensava até em transformar a velha vila num abrigo, já que seus outros negócios estavam muito bem e garantiram o sustento financeiro seu e de sua família.

Andava pela vila e continuava refletindo, suas histórias, andanças, as histórias de outras pessoas, mais que uma vida havia passado por aquele lugar, tão velho, e, em alguns aspectos, mal cuidada, mas que era mais que um amontoado de tijolos e cimento, era um coração que pulsava e lhe trazia lembranças de uma vida inteira no trabalho e, principalmente, de seu filho, que brincou e cresceu por ali junto com as outras crianças, já grandes, da mesma forma que seu bebê, grande o suficiente para criar asas a alçar vôos mais altos.

Na verdade, cada casa, cada morador, cada canto era como um filho para ele, raivas, alegrias, ternura, praticamente toda gama de sentimentos ocupou aquele espaço, oriundos de seu interior, até mesmo quando ia vendendo o local para outro senhorio por conta de um eletrocardiograma errado, seu coração apertou ainda mais.

Passou pelo portão da vila rumo ao seu carro e voltar pra casa, onde seu almoço esperava, o calor era sufocante, fez o bom homem tirar o blazer e afrouxar o nó de sua gravata, pois, embora seu carro tivesse ar condicionado, era uma época do ano tenebrosa para quem precisava trabalhar vestido com muitos panos.

Viu um moleque numa esquina vendendo refrescos e lembrou-se do seu querido inquilino, agora dono de restaurante, atrapalhado, sempre saudava suas chegadas à vila com um experimento físico o qual o velho círculo engravatado, como todos em sã consciência, jamais faria questão de participar voluntariamente, principalmente na condição de cobaia.

Lembrou, também, de sua infância, de sua juventude, e, principalmente, de todos os bons conselhos que seus antigos patrões e fregueses lhe deram e fizeram-no chegar aonde estava atualmente, pensou, também, em como seria o futuro de seu herdeiro sem esta experiência.

“Bobagem!” pensou “Ele é muitíssimo inteligente, capaz e responsável, jamais precisará passar pelo que passei!”

Recordou de um de seus primeiros empregos, vendendo frutas em um dos mercados da capital, magrinho, maltrapilho e sujo, mas com uma disposição e um estímulo de seus pais que observavam, também, sua educação, jamais tinha tirado uma única nota baixa em toda sua vida escolar, quase chegou a ser médico, mas desistiu, pois não gostava da maneira como as pessoas eram tratadas nos serviços de saúde.

Sua adolescência não fora menos dura, porém, espelhava-se nas crianças (agora adultos) da vila, da mesma forma a vida foi dura consigo, mas só tinha a agradecer pelo que tinha recebido, mesmo com seu casamento já não sendo o mesmo de outrora, até os calotes do Seu Madruga pareciam um estímulo, comparados à dureza de uma pessoa incompreensiva, mas isto “era resultado de um passado enganoso”, refletia consigo mesmo como forma de continuar levando sua vida profissional e pessoal tranquilamente.