Hurt

2 21 de Maio.


Notas iniciais
Então galera, eu decidi que Hurt será atualizada uma vez por semana, toda a Quarta, sem atrasos. Eu não sei se o Shikamaru ficou OOC, ou o quê, mas eu gostei de escrever esse capítulo. Mais tarde será explicado detalhadamente o porque da personalidade sinistra da Ino. Bom, boa leitura!

A primeira dica que Shikamaru teve foi o cheiro.

Era um cheiro forte e enjoativo, e lhe lembrava vagamente o odor que impregnava suas próprias roupas.

Mas não se parecia muito com o tabaco.

Ele inclinou-se mais perto de Ino, fungando discretamente. Instantaneamente sentiu falta do cheiro de flores que ela costumava ter.

“O que você esta fazendo?”, Ela sussurrou desconfortavelmente sem despregar os olhos do papel preenchido com uma letra cursiva e feminina.

Outra história.

Um romance, provavelmente.

“Nada.”, Ele respondeu dando de ombros, voltando a cruzar os braços sobre a mesa e a enfiar a cabeça ali, travando os olhos fechados.

Ino fez uma careta para isso.

“Shikamaru, você prefere que a heroína acabe com o herói ou com o vilão?”

“Eu gosto da idéia de um coadjuvante.”, Ele murmurou imóvel.

Ele perdeu o jeito como Ino iluminou-se e balançou a cabeça energeticamente em aprovação antes de enfiar o nariz de volta a folha incompleta. Mas ele com certeza não perdeu o perfume intenso que voou em suas narinas com os movimentos bruscos de Ino.

Em sua cabeça algo estalou, mas ele simplesmente empurrou o pensamento para longe.

Ino não seria idiota.

–-

Não houve uma segunda dica.

Duas semanas depois a realidade bateu-lhe como um tapa na cara ou um soco no estômago.

Era razoavelmente o começo da manhã quando seu celular vibrou, e Shikamaru não fez muito mais do que remexer-se e murmurar alguma incoerência antes de voltar ao sono. Isso se repetiu mais três vezes, até que o incômodo aparelho encontrasse seu destino, caindo em um amontoado de roupas sujas, vítima de um Shikamaru realmente perturbado.

Ele suspirou feliz quando o som abafado não apresentou nenhum risco ao seu sono.

Mais tarde, sua mãe acordou-lhe sem nenhuma cerimônia e gritou sem nenhum fim por jogar coisas aleatórias no meio das roupas sujas que ela teria que lavar, já que Shikamaru e seu pai eram bundas preguiçosas que não poderiam fazer qualquer coisa doméstica mesmo que suas vidas dependessem disso. E Shikamaru arrependeu-se amargamente por não ter simplesmente agarrado o celular mais cedo. Iria evitar a dor de cabeça persistente depois dos gritos da mulher louca.

“Problématica...” Ele murmurou arranhando a parte traseira de sua cabeça.

Checando brevemente seu celular, Shikamaru suspirou quando analisou as oito chamadas perdidas de Ino.

Droga, Ino era uma dor na bunda.

Contudo Shikamaru tenha imediatamente tentado retornar as ligações, a linha continuava insistindo em cair antes de sequer acabar na caixa postal. O que só poderia dizer uma coisa: Ou Ino estava morta e alguém estava manipulando suas ligações, ou Ino estava puta.

Ele poderia apostar dinheiro na última opção.

Com um suspiro resignado e característico de um cavalheiro deprimido que vai resgatar a princesa indefesa, Shikamaru fez seu caminho para a casa de Ino.

. . .

O sol poente já estava queimando em alto vigor no topo do céu, e as mãos de Shikamaru coçaram para a caixa de cigarros esperando pacientemente para ser fisgada de seu bolso. Porém ele se conteve, tentando entreter-se com a visão da cidade em alto funcionamento. Deveria ser perto das dez horas, as tendas e lojas já tinham um grande número de fregueses, algumas crianças corriam pela rua, tecendo caminhos perigosos por entre carros, e Shikamaru se viu atraído por uma cena peculiar. Ele parou brevemente, tomando nota do que se desenrolava no playground do parque.

Uma menina com bochechas infladas parecendo incrivelmente irritada estava plantada na frente de dois meninos assustados. Ela tinha as mãos nos quadris, e parecia incrivelmente como uma galinha mandona, e era engraçado como ela cacarejava enquanto repreendia astutamente os outros dois.

Shikamaru sorriu discretamente para isso.

Ele lembrava-se de si mesmo quando pequeno, e como Ino ficaria com raiva dele e de Chouji sempre que eles fizessem algo que ela considerava inapropriado ou vergonhoso. E como castigo eles ficariam o resto do dia ouvindo Ino falar sobre o quanto de um preguiçoso Shikamaru era, e como Chouji deveria parar de comer como se o estoque de fast-food do planeta inteiro fosse acabar de um dia pro outro. Shikamaru era muito vocal sobre seu descontentamento a respeito disso, não que mudasse muita coisa, Ino não levava muito em consideração suas reclamações.

E então a puberdade havia chegado e invés de uma Ino precariamente irritada e mandona, eles haviam obtido uma Ino mandona e irritada em tempo integral, que parava de praguejar apenas para murmurar sua devoção para Uchiha Sasuke.

No começo Shikamaru encarava as declarações de amor patéticas de Ino como uma situação natural de uma adolescente, afinal Sasuke tinha uma extensão enorme de fangirls assim como ela. E se ele ignorasse a bolha de ciúmes que sentia no estômago toda vez que Ino enrolava seus braços ao redor do pescoço do Uchiha, ele até poderia encontrar toda a cena muito cômica.

Com o passar do tempo Shikamaru se acostumou com os ataques de frustração de Ino sempre que Haruno Sakura se dava melhor que ela na arte de pertubar Uchiha Sasuke. A rivalidade das duas era muito visível. Houve um tempo que Shikamaru até mesmo chegou a se perguntar se seus sentimentos pela Yamanaka não passavam de uma relação de irmandade muito intensa. E até hoje ele achava isso. Seus sentimentos por Ino não eram românticos. Não mesmo.

Então havia acontecido.

Shikamaru sentiu o pequeno sorriso em seus lábios desvanecerem em uma carranca profunda e voltou a andar com passos pesados, suas mãos brincando com a caixa em seu bolso.

O dia em que Haruno Sakura foi flagrada beijando publicamente o herdeiro Uchiha, foi o dia em que 90% do fanClub de Sasuke foi dizimado. Obviamente houve os 10% que cegamente recusavam-se a acreditar. E Ino fazia parte desses 10%.

E como Ino era a estúpida loira irritante que ela era, ela foi pessoalmente tirar a história a limpo.

E isso, em parte, resultou no estado de Yamanaka Ino.

As sucessões de eventos catastróficos que se desenrolaram pareciam um catalisador de novas emoções para Ino, e da mesma forma que elas vieram, elas se foram, deixando uma apática figura que se parecia apenas visualmente com a Ino que ele conheceu desde as fraldas.

A morte de seu pai, a depressão de sua mãe, a falência da floricultura, a decaída de Deidara nas drogas, o suicídio de sua mãe.

Ino estava quebrada.

E doía vê-la assim.

Por isso, na mais remota esperança, Shikamaru viu com cautela como as ultimas semanas pareciam ter injetado um novo ânimo em Ino. Ela parecia mais alegre, mais... Viva. Ele obviamente havia percebido a sua falta de atenção e sua incapacidade de manter-se focada em qualquer coisa, mas pareciam pequenos detalhes perto da súbita reação de Ino.

“Ino, você esta em casa?”, Shikamaru gritou empurrando a porta de entrada aberta.

O cheiro indecifrável que Shikamaru havia sentido dias antes na Yamanaka parecia dez vezes mais intenso na pequena casa em que Ino morava. A madeira rangia sob seu peso e o ventilador de teto não ajudava em nada a espalhar a neblina espessa do odor repugnante.

“Ino?”, Ele tentou de novo, recebendo um leve fungar como resposta.

Ele empurrou a porta do quarto de Ino e sua expressão se aprofundou em algo que poderia ser facilmente descrito como preocupação.

Seus olhos escuros correram para a forma instável de Ino que o encarava com olhos arregalados de medo e alivio. Um objeto grande com uma espécie de mangueira estava robustamente assentado na frente da loira, algumas ervas estavam queimando em seu interior enquanto seus dedos trêmulos tentavam inutilmente acender o objeto com um isqueiro velho.

Ino balançou a cabeça em reconhecimento e voltou a raspar o isqueiro, ignorando Shikamaru petrificado em sua porta.

“Ino... isso são drogas?”, a voz de Shikamaru era profunda e parecia retumbar no pequeno cômodo como um trovão. Ele parecia com raiva.

“Eu não sei. Você quer se juntar a mim, Shika?”, Ela perguntou inocentemente, olhando-o como se estivesse pedindo se ele queria compartilhar o café da manhã.

Em um piscar de olhos Shikamaru estava ao seu lado, segurando seus pulsos com pressão o suficiente para machucar, porém não era sua demonstração de força física que obrigou Ino a ficar de pé. Era o olhar de descrença e ódio que rivalizava com seus próprios olhos azuis assustados.

“Você perdeu sua cabeça?”, Shikamaru rosnou arrancando o isqueiro de Ino e jogando-o para longe, consequentemente liberando o aperto de seus pulsos.

“Por que você fez isso? Qual o seu problema Shikamaru?”, Ino parecia incrivelmente intrigada com as ações bruscas de Shikamaru. Ela esticou-se para agarrar novamente o isqueiro, apenas para ser impedida pelas mãos fortes de Shikamaru que a seguravam no lugar pelos ombros.

“O meu problema? O meu problema, Ino, é chegar aqui e ver você se acabando em uma droga que você nem mesmo sabe o que é, e por Deus Ino, eu nem quero imaginar de que jeito você conseguiu isso.”

Agora isso parecia ter atacado um nervo em Ino, porque ela sacudiu-se longe das mãos de Shikamaru como se elas estivessem pegando fogo, uma expressão irritada contorcendo-se em seu rosto.

“Bem Shikamaru, eu sinto muitíssimo por afetar sua vida, oh, tão tranquila. Estou me sentindo tão arrependida que eu imploro para você tirar sua maldita bunda da minha maldita casa nesse exato minuto!”

“Eu honestamente pensei que você estava melhorando Ino! E então eu venho aqui só para perceber que na verdade você esta se afundando cada vez mais baixo. Você esta cavando seu buraco, caramba Ino, você não consegue perceber?”

“E então o que, Shikamaru? Não é como se isso importasse pra você, é a minha vida! Por favor, me deixa ter controle dela por uma vez, você não pode me negar isso!”

Os olhos de Ino transbordaram com lágrimas furiosas e ela as afastou esfregando o braço no rosto, seus lábios tremiam involuntariamente como se ela estivesse falando muito menos do que ela realmente gostaria de falar.

“Você vai se matar, Ino.”

“E então o que? Não estamos todos mortos?” , Ino respondeu com um sorriso cínico. “Saia, Shikamaru.”

E não pela primeira vez, Shikamaru saiu, não poupando um único olhar quando Ino desabou sobre o chão com soluços altos e amargurados, seu corpo frágil tremendo violentamente.

Ele havia desistido.

Notas finais
Deixem um aturo feliz e comentem, vocês não sabem como isso faz diferença!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.