Hurricane

7 Você não se lembra de nada?


Notas iniciais
Leitores fantasmas, façam o favor de aparecerem. Obrigada, haha.

Acordo com uma forte dor de cabeça e sinto meus olhos pesarem ao notar a luz do sol. Continuo deitada por alguns minutos e não demoro muito tempo para lembrar do motivo de tanta dor, ou melhor dizendo: de tanta ressaca. Eu sabia que não deveria ter bebido tanto ontem, eu sabia que acordaria assim hoje. Acho que eu deveria dar mais valor ao que a minha consciência diz antes de fazer besteira.

Olho para o relógio que fica na cabeceira ao lado da minha cama e vejo que horas são. 15:00pm. Perdi o café da manhã e o almoço, uma das melhores partes do dia. Bufo enquanto me levanto e vou em direção a cozinha, já pegando qualquer coisa comestível e indo direto para sala, onde encontro minha mãe.

–Não vai almoçar? –Ela pergunta olhando diretamente para o que carrego na mão. Dou um sorriso disfarçado e faço que não com a cabeça. –E como foi a festa ontem?

–Ah, foi legal. –Respondo sem dar muita informação.

Ela me encara como se exigisse saber de mais coisas e rio tentando imaginar um jeito de resumir tudo. Enquanto penso nisso, observo-a. Ela possui os mesmos cabelos castanhos que eu, só que ao invés de serem lisos, são encaracolados. E seus olhos são de um tom tão castanho que a maioria confunde com preto. Já os meus, são tão claros que a maioria confunde com cor de mel.

–Marina? –Ela diz ainda me encarando.

–Ah, não tem muita coisa pra falar. –Digo simplesmente.

A verdade é que eu não lembro de muita coisa. Lembro que cheguei na festa, vi a praia, observei a multidão... E tinha barulho. Ah, muito barulho! Uma batida insuportável que quase poderia estourar os tímpanos de alguém. Lembro de ter me perdido da Fernanda e da Stephany e de ter ido até a areia para ficar mais tranquila. E então voltei até a festa e... E mais o quê? Ah, eu peguei alguns drinks, algumas bebidas, alguns outros líquidos identificáveis que poderiam muito bem ser de origem duvidosa e então eu comecei a dançar. Ah, não, eu realmente comecei a dançar! Eu sempre fui péssima nisso, pelo amor de Deus. O que eu tinha na cabeça naquela hora, aliás? Porcaria alguma! Enfim, eu bebi, dancei e... Esbarrei em alguém. Alguém, não, o... Ah, não. Ah, não. Não, não, não. Isso tudo é obra da minha fértil imaginação, isso mesmo. Tudo imaginação, nada aconteceu. Nada aconteceu! Repito isso diversas vezes mentalmente até que a voz de minha mãe me tira de meus devaneios internos.

–Você realmente não tem nada a contar? –Ela pergunta com a desconfiança estampada na face.

–Ah, o lugar era bem barulhento e tinha bastante gente. Muita gente mesmo! E quase ninguém conhecido. –Digo.

–Não era uma festa de despedida da sua escola?

–Foi o que me disseram!

–E a Fernanda e a Stephany?

–Sumiram no meio da festa.

–Até o Mateus sumiu? –Ela pergunta surpresa, como se o Matt fosse uma espécie de guarda-costas.

–Eu não fui com ele, mãe.

E então Nicolas me vem a mente. Aposto que foi ele que convidou tanta gente para aquela festa. Quer dizer, ele foi o organizador, ele é o culpado. Sinto vontade de ligar para o mesmo e perguntar que manada de gente era aquela, mas quando pego o celular é outro número que chamo.

–Alô? –Ele atende após algumas chamadas.

–Oi, Matt.

–Boa tarde, bela adormecida. –Ele diz em tom de brincadeira.

–Boa tarde. –Digo. –Posso passar na sua casa?

–Você sabe que nem precisa perguntar.

–É, eu sei. –Digo rindo. –Já estou indo aí.

Me despeço de minha mãe e de Harry e vou até a casa de Matt, já encontrando-a aberta. Entro e antes que eu possa ir até o quarto de Matt, Victor aparece na minha frente.

–Não fala mais com os antigos amigos? –Ele pergunta se fingindo de chateado.

Rio me lembrando da época em que ainda poderíamos ser considerados amigos. Quer dizer, nunca fomos tão próximos, mas algum tempo atrás costumávamos nos falar bastante. Eu, ele e o Matt.

–Você que não fala mais comigo, viu? Desde que começou a ser popular é assim. –Digo mesmo não dizendo totalmente a verdade. O Victor sempre foi popular, em qualquer lugar que fosse. O problema é que de um tempo para cá sua popularidade foi direcionada a um grupo mais velho, o que deixou certos amigos um pouco desencaixados.

–Que mentira, Mari! –Ele diz.

–Super verdade! –Rebato.

–Não sei o motivo da discussão, mas concordo com a Mari. –Diz Matt chegando ao pé da escada que leva até seu quarto.

–Que irmão traíra que eu fui arranjar! –Diz Victor com um certo drama exagerado.

–Eu não sou traíra, você que é. Esta sendo, aliás. Roubando a amiga do irmão. Ela veio aqui para falar comigo. –Matt diz tentando fazer drama igual ao irmão.

Reviro os olhos por ser obrigada a aturar aquilo e aponto para o andar de cima.

–Eu posso subir ou vocês vão continuar discutindo um pouco? –Pergunto ironicamente.

–A gente vai continuar discutindo um pouco. –Responde Matt.

–Eu adoraria, na verdade, mas tenho que sair. –Victor diz já indo em direção a porta. –Tchau, pirralhos.

O encaro com um olhar de reprovação e o mesmo responde com uma risada. Pirralhos! Olha isso...

–Primeiro diz que nós vamos nos casar, agora nos chama de pirralhos... –Comento revirando os olhos. –Esse Victor é um caso perdido mesmo.

–Não julgue os loucos, Mari. –Diz Matt apoiando seu braço em meu ombro enquanto subimos a escada.

–Quer dizer que você não se lembra de nada? –Pergunta Matt após eu explicar um pouco da situação.

–Não, eu lembro. Só... Não tenho certeza se minhas lembranças são reais. –Digo enquanto ele ri. –Mateus, é sério!

–E do que você se lembra?

Sinto minhas bochechas esquentarem e então Matt começa a gargalhar.

–Ah, entendi! –Ele diz tentando se controlar para parar com as risadas. Observo-o enquanto ele tenta fazer isso, expirando e inspirando algumas vezes. A cena é realmente engraçada, mas me controlo para não rir com ele e ao invés disso o encaro. É um garoto bonito, percebo, mesmo com tanto descontrole. Adoro o jeito que seus cabelos pretos ficam bagunçados como estão agora, entrando em constraste com seus olhos verdes.

–Tudo bem, pode parar de me encarar. Eu já me controlei. –Ele diz sem rir dessa vez.

–Sério? –Pergunto erguendo as sobrancelhas, quase no mesmo segundo que ele começa com as risadas novamente. Reviro os olhos e ameaço ir em direção a porta.

–Calma, eu já parei. –Ele diz voltando a ficar sério. –Mas deixa eu ver se eu entendi. Você quer ter certeza se ficou mesmo com o David na festa?

Ok, ele não precisava ser tão direto.

–Acho que agora não estou mais em dúvida. –Digo dando de ombros. –Infelizmente.

Matt me encara por um tempo e então torna a falar.

–Ah, Mari. O que tem de mais? Vocês estavam em uma festa, coisas assim acontecem. Ele é seu vizinho. Beleza, e daí? Não é como se ele fosse espalhar para toda a vizinhança o que aconteceu.

Reflito sobre aquilo e decido que ele tem razão. Tudo bem que não foi uma das coisas mais sensatas para se fazer, mas agora já foi.

–Acho que você está certo. –Digo. –Só não sei como vou olhar pra ele depois daquilo.

–Como você olha todos os dias. –Ele fala sorrindo como se aquilo fosse muito simples. –Aliás, comprei um jogo novo.

–Seus companheiros de jogo te abandonaram novamente? –Digo como uma falsa lamentação.

–Eu preciso jogar com uma pessoa que perde para aumentar minha auto-estima, não é, Mari?

–Idiota!

Na verdade ele sempre me mostra os jogos novos, independente se sou boa nele ou não. Pra ser sincera, acredito que já tenha jogado todos os jogos existentes em sua casa. Nunca fui fã de video-game, mas quando se é amiga do Mateus é impossível você não acabar se viciando nisso também.

O jogo do dia é um de skate, onde você começa em um treinamento e pratica algumas manobras até que esteja pronto para ir até a cidade cumprir algumas missões. Confesso que a melhor parte nele pra mim foi mudar a aparência do boneco todo desleixado que acabou virando um skatista muito estiloso.

–Olha só, ele ficou um gatinho. –Comento admirando o personagem que acabei de personalizar.

–Bem, está melhor que antes. –Ele diz. –Agora me dá esse controle que eu quero jogar.

–Não, calma! –Digo pegando o controle que ele acabou de me tirar. –Eu esqueci de trocar a cor da roda do skate.

–Pelo amor de Deus! –Ele reclama. –Ele já está parecendo um gay assim.

–E daí? Os gays são os mais bonitos.

–Você quem diga, não é? –Ele fala erguendo as sobrancelhas enquanto ri. Demoro alguns segundos para entender o que ele diz e quando entendo dou-lhe um tapa.

–Eu não tinha culpa, tudo bem? É difícil reconhecer um gay nos dias de hoje.

–Ah, com certeza. Principalmente quando ele anda todo arrumadinho, gosta de romance e...

–Para. –Interrompo-o. –Eu nem gostava dele de verdade, só o achava bonito.

Ele solta uma risada.

–Diz isso agora, mas lembre-se que fui eu que tive que ouvir o quanto ele era lindo e...

–Que mentira! –Digo o interrompendo novamente. –Eu nunca fiz isso.

Ele ri novamente. O fato é que o Matt é exagerado. Eu não cheguei a gostar de verdade do menino, o Thiago. Não gosto tão facilmente assim de alguém. De qualquer forma, eu o achava lindo e ele era minha paixãozinha platônica. Era uns três anos mais velho que eu, que na época tinha em torno de quatorze anos. Resumindo, tudo acabou quando ele começou a namorar. Com um garoto.

Finalmente mudo a cor da roda do skate e entrego o controle ao Matt, já cansada daquele jogo.

–Ah, Mari, amanhã eu vou ir para aquela ilha que você queria conhecer. –Ele diz depois de um tempo. –Você quer ir junto?

–Amanhã? As aulas já começam segunda, Matt.

–E amanhã é domingo. Eu vou embora no mesmo dia.

–Quem vai para lá? –Pergunto.

–O Victor, a namorada dele e um pessoal daqui do bairro. Não sei se alguém já confirmou.

–Eu tenho que falar com a minha mãe. –Digo. –Mas acho que ela vai deixar.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.