Notas iniciais
Olá, galera! Muito obrigada a todos vocês que tem paciência por meus capítulos. Suas esperas valem a pena, acreditem ;) E cá estamos nós de novo, em mais uma aventura de Luna e os Refugiados. Se bem que nesse capítulos vamos descobrir algumas coisas sobre um passado bem conturbado de um personagem - creio eu - muito querido. Espero que gostem!

Acordei com o calor da respiração quente de Hans no meu pescoço e senti sua mão abraçando minha cintura levemente. Olhei para o relógio sobre o pequeno criado-mudo e notei que ainda eram seis da manhã. Ainda teria duas horas para descansar, mas não conseguia mais sentir sono. Pela primeira vez em muito tempo, eu não acordara num susto de outro pesadelo e era uma sensação ótima ter sido despertada sem seu “auxílio”. Eles me deixavam mais nervosa do que já me sentia em relação ao que poderia ter acontecido com Mark. Já se passara muito tempo e uma parte de mim pensava que talvez aqueles sonhos, de alguma forma, teriam ligação direta com o seu paradeiro. Lembrei-me do sonho no qual um vulto segurava o corpo de Mark e o seu coração na outra mão e senti um bolo se formar em minha garganta. Não, ele está vivo, dizia a mim mesma. Poderia parecer até uma forma de me manter iludida caso o pior acontecesse, mas a fagulha de esperança em meu coração nunca se apagara.

Hans se mexeu e soltou minha cintura, ficando com o corpo virado para cima. Virei-me na sua direção e resolvi observá-lo. Uma de suas mãos estava sobre o tórax enquanto a outra estava pousada do lado de seu corpo. Seus cabelos levemente bagunçados. A expressão era tranquila, incrivelmente pacífica. Tive vontade de tocar seu rosto, mas a ideia de despertá-lo de um sono tão tranquilo me impede. Enquanto o encaro me recordo de suas palavras da noite anterior, sua declaração, seus beijos... Parecia que era um sonho que eu tivera, mas vê-lo deitado em minha cama significava que talvez aquilo realmente tivesse acontecido. Hans me amava, ele dissera com todas as letras. Sem perceber, um sorriso brotou em meus lábios.

Hans era meu e eu o amava mais do que poderia imaginar.

Lentamente as pálpebras dele se moveram e seus lindos olhos azuis se voltaram para mim.

—- Luna? É você mesma? – me perguntou com a voz embargada de sono.

—- Claro que sim, Hans. – respondi e lhe dei um sorriso.

Ele se virou, ficando com o corpo de frente para o meu e tocou meu braço, deslizando a mão por ele. Um rastro de pequenas fagulhas elétricas percorreu o trajeto que sua mão fez.

—- Não estou sonhando, então? Me belisque só para que eu me certifique disso.

—- Tenho uma maneira melhor de fazê-lo acreditar que estou aqui.

Inclinei meu rosto em sua direção e o beijei levemente nos lábios.

—- É, isso foi melhor do que ser beliscado. -- comentou.

Acabei rindo de sua frase. Ele toca minhas bochechas com as costas da mão de forma suave e fecho os olhos. Era realmente surreal estar daquela forma com Hans quando pensei que, depois daquela nossa discussão na enfermaria, nunca mais fosse encará-lo novamente.

—- Você fica tão linda enquanto dorme. – a voz de Hans me fez abrir os olhos novamente.

—- Ficou acordado de noite me encarando?

—- Não peguei no sono tão rápido quanto você e valeu a pena. Se não a visse destroçando zumbis e enfrentando saqueadores, diria que é um anjo.

Olhei para o lado tentando disfarçar o fato de aquelas palavras me deixarem sem jeito. Sentia minhas bochechas arderem e esperava que não estivesse tão corada como imaginava.

—- Estou mais para uma Samara que fez participação em The Walking Dead do que um anjo. – disse e ele riu.

—- Você não se parece nem um pouco com ela.

—- Muito menos com um anjo, senhor romântico. – dou um soco em seu ombro e ele me surpreendeu com um beijo, inicialmente lento, intensificando depois. Deslizou um dos braços por entre meu corpo e o colchão, me puxando em sua direção. Eu não queria me mover ou sair do meio de seus braços. Se pudesse, ficaria o dia todo envolvida em seus abraços, seus beijos...

—- Eu te amo muito, Srta. Yumiko – ele diz em meio aos nossos beijos.

Quando nos separamos, percebo algo que há muito havia ignorado sem querer, deixado passar por conta de tantos acontecimentos até hoje. Parecia ser a oportunidade perfeita.

—- Qual o seu sobrenome, Hans? – perguntei sem rodeios e percebi que o peguei desprevenido com a pergunta.

A reação dele me surpreendeu. Hans baixou os olhos por um momento, como se lembrasse de algo muito ruim, e permaneceu assim por um tempo. Sua expressão estava fechada e um lampejo de raiva passou por seus olhos.

—- Isso não é importante, Luna. – a voz saiu dura quando se dirigiu a mim.

—- Não é importante? Hans, claro que é importante! Naquele dia que chegamos ao Refúgio e o General perguntou nossos nomes, eu e Quirina dissemos os nossos, mas você apenas disse o seu primeiro nome. Por quê?

—- Esse é o único que importa.

—- Por quê? – perguntei novamente. – O que há com seu sobrenome? É estranho e você não gosta, ou...

Ele se ergueu e sentou-se em minha cama de repente, de costas para a parede e com as pernas esticadas até a beirada. Pensei que fosse sair e me deixar sem respostas, mas ele permaneceu.

—- Pegue meus óculos, por favor. – pediu e estendi meu braço na direção do criado mudo, pegando o objeto e entregando a ele. Quando os colocou, sua expressão pareceu mais fechada do que antes.

—- Vai me contar? – perguntei hesitante.

—- Você realmente não precisa saber sobre isso. – disse com a voz amarga. – Aquele sobrenome não tem nada a ver com minha família, muito menos comigo.

—- Você me pediu para contar tudo a você, lembra? Não pode ser algo unilateral em nossa relação, Hans. Temos que confiar um no outro.

Hans suspirou pesadamente, ainda de olhos fechados, e senti sua mão tocar a minha num leve aperto. Quando abriu os olhos novamente, sua expressão era mais suave, até um pouco pesarosa.

—- É uma história vergonhosa, não queria nunca ter que lhe contar isso...

—- Tem a ver com Redlin e Marcos, não é? – adivinhei e ele assentiu.

—- Eles têm uma ligação extremamente forte em minha história, infelizmente.

Aquilo me surpreendera. Havia apenas suposto sobre Redlin e Marcos, mas aquela frase dele me deixou curiosa. Sentei-me na cama, colocando minhas pernas dobradas junto ao meu corpo e o esperei começar. Hans parecia buscar as palavras certas quando dizia:

—- Há vinte anos, um casal vivia morando de favor numa antiga pensão em Santa Teresa. O homem era Luís Ferreira e trabalhava como vigia noturno em um prédio em Copacabana. Sua esposa, Teresa Correa, fazia bicos como diarista. Com o dinheiro que conseguiam, mal conseguiam se sustentar e ainda tinham que pagar a estadia na pensão, mas dando um aperto aqui e ali, eles conseguiam sobreviver. Um dia, Luís se desentendeu gravemente com o síndico do prédio no qual trabalhava e foi demitido imediatamente. Agora ele só poderia contar com a renda da esposa para sobreviverem. Mas então perceberam que não seria fácil se manterem daquela forma. Começaram a passar por mais dificuldades e quando nada poderia piorar, a dona da pensão falecera e os seus filhos imediatamente venderam o imóvel para uma empresa imobiliária. Luís e Teresa não queriam passar seus dias sob uma ponte e então Luís começou a procurar emprego, até que conheceu um cara boa pinta que se solidarizou por sua situação e resolveu ajudá-lo com um empréstimo e disse que quando Luís recebesse o dinheiro novamente, que o pagasse. O homem lhe dera o prazo de dois meses. Mas esse cara não era um camarada qualquer. Era um golpista, um...

—- Um agiota. – sussurrei e Hans confirmou com um aceno de cabeça.

—- Mas não era um agiota qualquer, é um conhecido nosso. Sabe a quem me refiro, não?

O nome surgiu sem que eu precisasse perguntar: Marcos.

—- Marcos entregou uma quantia a Luís e este conseguiu comprar, junto com o dinheiro de sua esposa, um pequeno espaço para eles morarem. Só que ele não conseguira encontrar emprego de imediato. Demorou muito tempo até que conseguisse uma vaga temporária como trabalhador de uma fábrica de móveis. E até conseguir, foram mais que dois meses, o que significava que Marcos já iria procurá-lo. E ele foi. Quando interrogou Luís sobre o dinheiro, este disse que ainda não o tinha, mas que iria pagar. Marcos não se mostrava mais tão tolerante ou amigável como quando conhecera Luís, mas lhe estendeu um prazo de um mês e nada além disso. Se até lá não lhe entregasse o dinheiro, iria arcar com as consequências. Luís não conseguiu esconder de Teresa por muito tempo sua situação e logo lhe contou tudo. A esposa o criticou por ter ido recorrer a um criminoso quando poderiam ter outros meios de resolver sua situação, mas falou que não havia mais o que fazer. Começou a ajudar o marido trabalhando dobrado até mesmo quando este conseguira o emprego. Mas então a fábrica faliu e os funcionários foram demitidos. Luís conseguira apenas seu primeiro salário, o que não era muita coisa, mas juntando com o dinheiro da esposa, era a quantia que devia. No dia seguinte, fora até o local com a quantia em mãos. Quando chegou lá, entregou o dinheiro para Marcos e este foi conferir a quantia e estava certa, porém não dissera isso ao pobre homem. Alegou que faltava dinheiro e que Luís estava tentando lhe dar um golpe. Luís negou e disse que aquela era a quantia que estava devendo, mas Marcos negou que o tempo extra que dera ao rapaz significava um acréscimo na quantia que ele devia. Luís avançou para Marcos, mas Redlin o prendeu e depois o golpeou até desacordá-lo.

—- Redlin e Marcos trabalham juntos desde sempre?

—- Ao que parece sim. Mas era sempre o mesmo esquema onde quer que fossem: Marcos manda, Redlin obedece, exatamente nessa ordem.

—- Marcos é repulsivo, nojento. Só em pensar que ele queria colocar as mãos imundas dele em mim... – estremeci só de lembrar das tentativas de Marcos de querer fazer algo comigo.

Hans pegou minha mão e a beijou gentilmente.

—- Eu nunca o deixaria tocar em você, Luna, nunca. Eu o machucaria se fosse preciso, mas ele nunca a tocaria como pretendia.

Aproximei-me dele e Hans passou seu braço por sobre meus ombros. Apoiei minha cabeça em seu peito e pego sua mão, encorajando-o a continuar.

—- Quando Luís acordou, -- prosseguiu Hans. – estava amarrado a uma cadeira no centro da sala do criminoso e este se encontrava ali, debochando dele. Marcos o torturou simplesmente por diversão e teria matado o homem se não fosse interferido por uma pessoa: Teresa. Ela estava à espreita e quando viu que a vida do seu marido corria perigo, não suportou mais esperar. Foi confrontar o agiota. Teresa gritou para que Marcos parasse de fazer aquilo com Luís. O bandido se surpreendeu com a intervenção da mulher – estava acostumado a elas apenas o temerem e fazerem suas vontades promíscuas, mas aquela, vendo o que ele fizera com seu marido, permanecia firme e determinada a enfrentá-lo. Além disso, Teresa era uma mulher jovem e bonita, de cabelos pretos e grandes olhos azuis, era como o presente perfeito. Então Marcos resolveu estipular um novo preço a Luís e o preço de sua liberdade e pagamento pela dívida seria sua esposa.

Hans deu uma leve pausa. Alguma coisa na descrição da mulher, Teresa, me fez olhar para ele automaticamente. Olhos azuis, cabelos pretos... Teresa era a parente de Hans então? Mãe, talvez? Se fosse, isso ainda não justificava o motivo dele ter vergonha sobre seu passado. Seus pais eram pessoas boas, porém que passaram por dificuldades e assim foram alvos fáceis para alguém cruel. Teresa era uma mulher corajosa e Luís era um marido preocupado com o bem estar da esposa e guerreiro por tentar dar sempre o melhor que podia. Não havia por que Hans ter vergonha dos pais. Eu abrira a boca para perguntar, mas fechei quase que imediatamente. Resolvi esperar ele concluir a história e fazer as perguntas depois.

—- Luís não concordaria com esse preço – falei elevando meu rosto para encará-lo.

Ele me olhou com a tristeza passando por detrás de suas lentes dos óculos.

—- Não mesmo, mas Marcos não dá escolhas nas quais você possa escapar ileso. Ou Luís concordava com aquilo ou morreria. Das duas formas, ele teria Teresa para si. Mas Luís preferia morrer a ver sua esposa sendo entregue como mercadoria a Marcos e disse isso ao homem. Com satisfação, o bandido puxou a arma e ia apertar o gatilho quando Teresa o atingiu na cabeça com uma barra de ferro. Marcos chamou Redlin e ordenou que este a prendesse em um quarto enquanto ele terminava de resolver a situação pendente com Luís.

—- Ele o matou? – interrompi, temendo pelo pior.

Hans negou com um aceno de cabeça.

—- Mas o torturou o suficiente para deixá-lo quase à beira da morte. Ele queria que Luís escutasse o que ele faria com sua esposa antes de matá-lo por fim. Marcos então saiu da sala e deixou Luís incrivelmente ferido e quase desacordado enquanto se dirigia ao quarto onde Teresa estava presa e a estuprou durante muitas horas. Luís escutou todos os seus gritos de misericórdia e medo, com raiva profunda dele mesmo por não poder fazer nada.

Senti um embrulho no estômago quando imaginava o ocorrido. Talvez a pior das torturas para Luís fora ouvir os gritos de sua esposa. Uma onda de tristeza tomou conta de mim pelo casal. Como tantas coisas ruins poderiam acontecer com aquelas pessoas em tão pouco tempo?

—- Que história horrível – falei, mais para mim mesma do que para Hans.

—- Quer que eu pare? – ele perguntou hesitante.

—- Não, vou ouvi-la até o final. É só que é tão ruim pensar que existem pessoas como Marcos por aí.

—- Infelizmente sim. O pior é quando topamos com essas pessoas sem querer. Só nos resta sair com vida.

—- O que, com sorte, aconteceu comigo e com Quirina. E graças a você também.

Ele beijou o topo da minha cabeça e apertou mais os braços ao meu redor.

—- Mas eu disse que se você quisesse enfrentá-lo, você conseguiria.

—- Acho que depois do que me contou sobre ele, temo não ser capaz de fazer isso. Mas não importa agora. Continue a história, por favor.

—- Algum tempo depois, Luís foi deixado para morrer na rua quando um médico passou e se horrorizou com seu estado de saúde. Levou Luís consigo e tratou de seus ferimentos. Em poucos dias o homem estava praticamente curado e resolveu colocar o seu plano de resgatar Teresa em prática. Antes disso, ele observava o horário mais ou menos no qual Marcos e Redlin costumavam sair para tratar de seus “negócios” e assim planejou tudo. Um dia, quando estes saíram de seu covil, Luís arrombou a porta com um arame e adentrou no local. Procurou exaustivamente pelos quartos até que achou Teresa estirada em uma cama, completamente debilitada. Havia alguns sinais de agressão em seus braços e pernas. Sem pensar duas vezes, ele a levou consigo para o mesmo médico que tratara de seus ferimentos. O tempo se passou e Teresa então começou a sentir fortes enjoos e algumas dores. Luís a levou ao médico novamente e após alguns exames, constatou que Teresa estava grávida de dois meses.

Não pude conter a surpresa. Levantei minha cabeça e encarei Hans fixamente, a pergunta disparando por minha boca enquanto dizia:

—- Teresa estava grávida de Marcos – não era uma pergunta, e Hans confirmou.

—- Hans, eles são seus pais? Teresa e Marcos? Você é o filho deles?

Hans encarou um ponto fixo na parede. Ficou em silêncio durante muito tempo. Agora tudo estava explicado, o porquê dele não revelar seu passado, por ter receio de revelá-lo. Não era uma história fácil de ser contada e ele estava dividindo-a comigo, junto com suas frustrações e raiva.

—- Sou filho de uma mulher incrível e do cara que a estuprou. – ele disse entredentes e voltou-se para mim. – Agora entende por que não queria revelar meu sobrenome? Nunca colocaria o sobrenome de um bandido junto ao meu, e não colocaria da minha mãe, pois me recordaria sempre de minha paternidade também.

—- Qual o sobrenome de Marcos?

—- Não faço ideia. Minha mãe nunca disse.

—- Mas você não foi criado com ele, foi?

—- Não, eu fui criado por minha mãe e Luís. Ele não pensou em nenhum momento em mandar minha mãe abortar, até porque na época só haviam clínicas clandestinas que executavam o serviço de qualquer jeito e ele não arriscaria a vida de minha mãe de jeito nenhum. Quando eu o questionei sobre isso uma vez, ele me disse também que acreditava que eu poderia ser alguém melhor, que não necessariamente filhos seriam iguais aos seus pais de sangue se não fossem criados ao seu modo. Algo como um pitbull, sabe? Há pessoas que acham que ele pode ser feroz apenas por sua raça ser assim, mas se o criarem com amor e carinho, pode ser mais dócil do que qualquer outro.

Abracei Hans fortemente enquanto acariciava seus cabelos. Havia muita coisa ainda para ser absorvida de uma vez só. Hans, filho de Marcos? Era algo que horas atrás eu julgaria ser totalmente impossível ou incoerente. Mas pegando os detalhes de sua história e tudo o que acontecera, percebi que era realmente verdade. Hans era uma pessoa tão boa, gentil e amável enquanto seu pai era o extremo oposto. A analogia que ele fizera era o que realmente acontecia e aquele ditado “filho de peixe, peixinho é” só poderia fazer sentido quanto à espécie animal.

Nos separamos do abraço e ergui minhas mãos para apoiar o rosto dele.

—- Eu entendo agora totalmente o motivo de você não querer usar seu sobrenome verdadeiro, mas use pelo menos os de seus pais, de seu verdadeiro pai, Luís. Tenho certeza de que ele ficaria feliz em vê-lo usando-o.

—- Eu sei, mas... eu não consigo. Quem sabe um dia.

Sorrio e o beijei novamente nos lábios. Hans envolveu suas mãos ao meu redor e me puxou enquanto me beijava. As mãos percorreram minhas costas enquanto as minhas estavam apoiadas em seu pescoço, puxando-o na minha direção.

—- Eu te amo muito, Sr. Ferreira. – falei e ele me deu um sorriso.

—- Você é a pessoa mais importante pra mim, nunca se esqueça disso.

—- Se você continuar me beijando, posso reforçar essa frase em minha mente. – dou uma piscadela e ele riu.

—- Bobona – disse enquanto me inclinava na direção do colchão e me beija, passando depois os lábios em meu pescoço e pelo lóbulo da minha orelha, me causando um arrepio.

—- Essa cena deveria ser normal? – uma vozinha fina perguntou vinda da porta e olhamos na direção quase que imediatamente. Uma parte da cabeleira loura de Quirina apareceu pela fresta da porta.

—- A partir de hoje, sim – Hans disse saindo de cima da cama e me ajudando a sentar.

—- Vocês estão juntos? – ela perguntou, na expectativa.

—- Nada, só estou dando uns pegas nela aqui e... AI! – belisquei o braço de Hans e ele me olhou com ar de assustado. – Era brincadeira!

—- Você me pediu para beliscá-lo mais cedo – lembrei-lhe e Hans revirou os olhos.

—- Não era para levar a sério.

—- Ei, não fujam de minha pergunta – Quirina fechou a porta atrás de si e caminhou em nossa direção. – Vocês estão juntos?

Hans e eu nos entreolhamos e ele pegou minha mão, beijando-a logo em seguida.

—- Sim, pequena, estamos juntos.

Quirina bateu palmas e pulou em nossa direção dando um gritinho de alegria. Nos abraçou e quando se separou, sua expressão era de sincera felicidade.

—- Eu sabia! Desde sempre eu sabia que ficariam juntos!

—- Vem cá, virou adivinha agora? – Hans perguntou em tom de brincadeira. – Adivinha quando vou ficar milionário, vai?

Quirina mostrou a língua e Hans caiu na gargalhada.

—- Estou tão feliz por vocês. – ela pegou minhas mãos e as apertou. Seus olhos brilhavam de alegria. – Mal posso esperar para contar a todos!

Puxei-a e dou um abraço de urso e ela retribui na mesma intensidade. Os cabelos louros cheiram a baunilha.

—- Melhor deixarmos as pessoas perceberem por si só – falei. – Não quero chamar tanta atenção assim.

Ela deu de ombros.

—- Tudo bem então. Acho que vocês tem que se arrumar agora, não? Daqui a pouco é hora do café da manhã.

Hans se levantou e me puxou pela mão. Inclinou-se para mais um beijo e então sussurrou em meu ouvido:

—- Estarei esperando-a para irmos juntos, tudo bem?

Concordo com um aceno de cabeça e então ele puxou Quirina e os dois caminharam até a porta de meu quarto. Quirina deu um aceno antes da porta se fechar num estalido.

Voltei meus olhos para o relógio sobre a mesa. Já eram sete e meia. Pegando um elástico sobre o criado-mudo, me encaminhei para o banheiro. Quando encarei meu reflexo no espelho, vejo que minha expressão está diferente. Pareço um pouco mais rosada nas bochechas, os olhos com um brilho diferente. Toquei meus lábios e me lembro dos beijos de Hans. Espere um pouco: desde quando me tornei tão boba apaixonada? Acabo me despindo e entro debaixo da água fria do chuveiro, tomando um banho demorado enquanto ainda permaneço com meus pensamentos indo apenas em uma direção e pessoa: Hans.

Depois do longo banho e de ter escovado os dentes, ainda enrolada na toalha, me dirigi a um pequeno baú de roupas, vasculhando pelas peças. Acabei decidindo por fim uma calça jeans e uma blusa vermelha lisa. Assim que me vesti, escovei meus cabelos e os deixei cair como uma cortina sobre meus ombros. Enquanto guardava a escova, não conseguia parar de pensar na história que Hans me contara. Luís havia sido um bom homem ao escolher que Teresa tivesse a criança ao invés de abortá-la. Muitos não teriam tido essa mesma decisão, ainda mais se tratando de uma criança filha de um homem tão cruel e perverso como Marcos. Sabendo um pouco mais de seu passado, eu torcia cada vez mais que algo tivesse acontecido na queda do seu carro daquela ponte. Seria um favor que ele faria a Hans se sumisse de sua vida. O que eu ainda não entendia e nem perguntara por medo de aprofundar demais na ferida do passado de Hans, era o motivo de ele retornar e trabalhar para seu pai se o odiava tanto. Luís e Teresa não deixariam seu filho ir levianamente, supus. Faria essa pergunta a Hans outra hora. Não queria vê-lo sofrer mais ainda revivendo seu passado.

Calcei meus coturnos e rumei em direção à porta. Assim que a abri, Hans estava lá, de braços cruzados sobre o peito. Trocara a roupa do dia anterior por jeans e uma camiseta verde. Um sorriso brotou de seus lábios enquanto seus olhos me avaliavam por completa.

—- Você está linda – disse quando me aproximei dele e o beijei levemente nos lábios.

—- Obrigada. Não é algo normal ser recebida com elogios. – digo enquanto damos as mãos e começamos a andar.

—- Bem, se depender de mim, isso vai mudar.

Olhei para os lados e procuro por Quirina, mas não a vejo em nenhum lugar.

—- Ela já foi para o Mata-Fome – Hans interpretou meu olhar. – Disse que quer ver a reação de todos de “camarote” quando chegarmos lá.

Acabo rindo com aquela frase enquanto viramos o corredor em direção às escadas que nos levarão ao nosso destino.

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Escutei vozes por detrás da porta cuja placa está escrito em letras pretas MATA-FOME. A julgar pelo som, todos do Refúgio já estariam acordados, o que significa que Hans e eu éramos as últimas pessoas a se reunir com eles, o que chamaria mais atenção ainda. O cheiro que passava pela fresta da porta era enlouquecedor de tão bom, fazendo meu estômago roncar. Hans empurrou a porta de leve e adentramos no local.

A mesa estava quase toda ocupada exceto por dois lugares. As pessoas se serviam de bolos, torradas, biscoitos e café e muitas outras coisas. Alguns acenaram para nós quando entramos e localizei Quirina sentada perto de Alice. As duas conversavam animadamente sobre alguma coisa. A amizade entre elas surgiu quando me visitavam na enfermaria e, pelo o que percebi, continuou depois disso. Estava feliz por Alice ter conseguido ultrapassar suas próprias barreiras e tomado o primeiro passo além de sua timidez e não havia pessoa melhor do que Quirina para incentivá-la a fazer as coisas. Assim que nos viram, elas acenaram e chamaram para sentarmos com elas. Suzana servia chá para General, que fez um breve aceno de cabeça quando viu Hans e eu. Felipe baixou os olhos ao me ver, atitude que fazia com frequência desde a missão que havíamos ido juntos. Seu olhar pousou sobre a minha mão e a de Hans entrelaçadas e vi uma faísca de tristeza passar por seu rosto. Sentada à sua frente, Isabela me fulminava com os olhos enquanto segurava a torrada e passava margarina com violência, como se quisesse raspá-la até se tornar pó. Não pude conter um sorriso de triunfo ao passar por ela e me sentar com Quirina e Alice.

—- A cara da Isabela é a melhor – comentou Quirina num sussurro quando me sentei.

—- É, tenho pena daquela torrada. – falei enquanto me servia de biscoitos e café com leite.

—- Vocês sabem onde Rebeca está? – perguntou Hans e olhei para a mesa. Mais uma vez ela não comparecera às refeições e aquilo estava começando a me preocupar.

—- Não. – respondeu Alice. – Ela agora passa boa parte do dia trancada no laboratório e as únicas vezes que sai são para visitar aquele cara esquisito.

Enquanto mastigava um biscoito integral, me recordei do dia em que Rebeca e eu fomos visitar Thiago no quarto dele e o quão abalada Rebeca ficou ao ver sua condição de saúde. Desde aquele dia ela buscava em documentos de seu pai algo que ajudasse a tratar das consequências experimentais que Thiago sofrera, talvez até curá-lo. Mas essa sua busca parecia extrair todo o seu tempo livre. Era estranho olhar para a mesa durante as refeições ou caminhar pelos corredores e não encontrá-la. Quando vi Suzana recolhendo alguns dos alimentos da mesa e colocando-os numa tigela, chamei-a:

—- Suzana, é para Rebeca? – indiquei a tigela de vidro.

—- Ah, sim. Estou preocupada com ela. Não sai daquele laboratório por nada e não quer dizer a ninguém o porquê. – o tom de Suzana era como o de uma mãe se referiria a sua filha.

—- Eu poderia levar isso para ela? – me ofereci. – Talvez possa ajudá-la a sair daquele confinamento.

Suzana estendeu a tigela de boa vontade para mim e pegou uma jarra de café média.

—- Leve-os para ela, está bem? E por favor, tente fazê-la sair de lá.

—- Pode deixar. – digo e já estou me levantando da mesa.

—- Onde vai? – Hans perguntou.

—- Entregar o café da manhã à Rebeca. Quero conversar com ela também sobre algumas coisas.

Hans me puxou pela mão e me inclinei para lhe dar um beijo rápido. Quando me ergui e dei as costas para a mesa, senti o olhar abismado de Isabela na minha direção enquanto me dirigia à porta.

Com a tigela e a garrafa comprimidas em meus braços, desci as escadas de metal ruidosamente, meus passos ecoando conforme eu avançava. Escutei um barulho estranho vindo do teto, como se algo ou alguém o raspasse com uma pá. Parei de andar no mesmo instante. Não era possível ter alguém cavando ali. Estávamos metros abaixo do solo e não havia indícios de um lugar subterrâneo se a ser visto, ainda mais com a fachada de uma escola abandonada. O barulho cessou inesperadamente e voltei a caminhar em direção ao laboratório. Reportaria isso à Rebeca quando a encontrasse, mas talvez não fosse nada do que me preocupar. Eu devia estar paranoica.

Subi uma escada de poucos degraus e então cheguei à porta do laboratório. Bati uma vez. Nenhuma resposta. Dei dois toques novamente. Nada. Rebeca teria saído ou estaria ainda em seu quarto, dormindo. Mas antes de desistir, testei a maçaneta e empurrei a porta de leve com o ombro. O laboratório estava completamente bagunçado. Papeis espalhados pelas mesas e alguns no chão, caixotes contendo frascos para um lado e alguns projéteis dispostos sobre uma mesa. Em uma bancada, atrás de frascos com substâncias coloridas, tubos de ensaio e provetas, estava Rebeca. Seus braços estavam cruzados sobre a superfície de metal com a cabeça apoiada sobre eles. Coloquei a jarra e a tigela no canto da mesa e me aproximei dela.

—- Rebeca? Acorde, está tarde – murmurei tocando seu braço como minha mãe fazia quando eu estava dormindo além do tempo permitido.

—- Hum... quem...? – ela levantou a cabeça lentamente e seus olhos castanhos emoldurados por roxas olheiras demoraram a me focalizar. – Luna?

Assenti e ela olhou para os lados, como se estivesse perdida.

—- São que horas? – perguntou esfregando os olhos.

—- Oito e vinte, acho. Em todo caso, todos os refugiados estão tomando café agora, algo que também deveria fazer. – falei.

—- Oito e vinte...? Mas isso é impossível. Eu só ia tirar um cochilo, então...

Ela saltou do banco, caminhando para uma pequena pia de porcelana no canto da parede. Enquanto Rebeca lavava o rosto, observei as anotações dispostas sobre a mesa. Eram páginas escritas numa caligrafia elegante sobre elementos químicos neutralizantes. Alguns eu vira na escola, outros nunca havia ouvido falar. Havia uma caderneta com um lápis sobre ela na qual algumas anotações foram assinaladas. Rebeca voltou para mesa, a expressão mais desperta, e percebeu que eu olhava para os papeis.

—- Ignore a bagunça, por favor – disse enquanto se sentava novamente. – Normalmente deixo tudo arrumado, mas ultimamente estou perdida em muitas coisas.

—- Percebi – comentei. – Mas para que serve essa sua pesquisa sobre elementos químicos neutralizantes?

As bochechas dela ganharam um leve toque rosa.

—- Coma seu café da manhã – indiquei a tigela e a garrafa térmica. – Enquanto come, você me explica.

Rebeca pegou a tampa da garrafa e colocou o café. Pegou uma torrada que continha geleia e a mordeu, mastigando avidamente. Logo em seguida pegou mais uma, e outra, e assim acabou a refeição em poucos minutos. Me surpreendi com a rapidez que ela havia devorado a refeição – nem eram tão pouca comida que Suzana dispusera na tigela.

—- Desculpe por não oferecer nada – ela diz, ressentida, mas faço um gesto de tanto faz.

—- Eu já tomei café. Em todo caso, quero saber o motivo que tira seu sono e seu convívio social.

Rebeca baixou os olhos por um momento e depois voltou a me encarar.

—- É o Thiago. Eu estou tentando ajudá-lo, procurando algo que anule aqueles efeitos colaterais das experiências que sofreu. E claro – ela disse apressadamente quando ergui uma sobrancelha – porque não podemos manter alguém trancado como ele vive, mas também não posso colocar um risco para os outros Refugiados.

—- É só por isso mesmo? -- questionei.

—- Sim. O que mais seria?

—- Desculpe, Rebeca, mas acho que não é só isso. – falei tranquilamente. – Posso parecer equivocada, mas sinto que há mais coisa aí.

Inclinei-me um pouco na sua direção.

—- E então? Anda, Rebeca, você sabe que pode me dizer. – encorajei-a. Rebeca mordeu o lábio inferior.

—- Você está certa, tem algo a mais. Dói vê-lo daquela forma, gritando de dor. Mas no momento, eu quero apenas ajudá-lo mesmo e se der certo, oferecer um lugar a ele aqui conosco.

—- Entendi. E futuramente?

Rebeca abriu a boca para responder, mas um estrondo como uma bomba explodindo sobre nossas cabeças nos faz saltar dos bancos.

—- O que foi isso? – perguntei, mas Rebeca já deslizou para a bancada onde estão os circuitos de vídeo.

Andei até ela e observo as imagens que as câmeras captaram. Passamos pelas câmeras dos corredores, mas na há nada além de alguns refugiados andando. Rebeca mudou para as câmeras dispostas na entrada do Refúgio e prendo a respiração.

Chutando e dando murros na porta de entrada, um grupo de Retalhadores tentam romper o metal aos grunhidos. O barulho que causavam começava a atrair alguns zumbis que estavam dispostos na rua. A porta parece intacta, mas algo me diz que não vai conseguir permanecer assim por muito tempo. Um dos Retalhadores a golpeia com a enorme foice que estava presa em suas costas e o encontro de metais resulta em faíscas por todos os lados.

—- O que é isso? – indagou Rebeca, atônita.

—- “Por que estão fazendo isso?”, seria a melhor pergunta. – digo encarando o monitor. – Como nos acharam?

—- Não faço ideia. Eles estão tentando adentrar. Mas como? Eles possuem inteligência?

—- Já encontrei alguns antes de vir pra cá e não acho que eles possuam algum intelecto. Estes -- apontei para os Retalhadores -- até falam, mas...

—- Mas eles parecem saber o que estão fazendo.

De repente, um rugido alto até mesmo para nós duas que víamos tudo através das câmeras, ecoa e os Retalhadores param. Vemos alguns corpos de zumbis serem arremessados para os lados, como se alguém estivesse abrindo caminho por entre a hora. Um deles voa e quase colide com a câmera, seus fluídos se espalhando pelo ar antes de desaparecer de vista. Uma silhueta grotesca surgiu em nosso plano de visão. Era imenso e, ao observá-lo atentamente, parecia com algo que já vi antes. Costas enormes e espinhos se projetavam delas como grandes espetos; músculos sobressalentes visíveis por debaixo da epiderme. Um frio percorreu a minha espinha.

O Sanguinário golpeava a porta com murros tentando adentrar no Refúgio. O mesmo monstro que eu havia enfrentado... e quase havia morrido ao fazê-lo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.