Notas iniciais
Dedico este capítulo como um presente de aniversário à minha leitora e grande amiga, Andy-chan *-* Espero que você e todos os Hunters gostem ^^Boa leitura!

Era estranhamente interessante estar no Refúgio. Eu o imaginava como um pequeno abrigo para sobreviventes, com condições nem tão boas, mas que fossem suficientes para manter algumas pessoas seguras. Assim que seguimos Rebeca enquanto descíamos as escadas, fui percebendo o quanto eu estava enganada.

O Refúgio poderia ser chamado também de “labirinto de aço”, em minha opinião. Os corredores eram não muito estreitos e as paredes deveriam ser revestidas por aço, ao que me pareceu. Havia um grande espaço entre as lâmpadas fluorescentes no teto, fazendo com que não houvesse excesso de luminosidade no local. O chão era de concreto e não era possível escutar nossos passos enquanto caminhávamos.

Rebeca, sendo nossa guia, começou a dizer:

–- As paredes são de concreto e revestidas totalmente por aço, como podem ver. Isso tudo por precaução contra o que há além delas. Sabe, não deve parecer, mas estamos a aproximadamente 9 metros de profundidade.

–- Como isso é possível? – perguntou Quirina, surpresa.

–- Este Refúgio foi feito como os modelos que existem nos Estados Unidos. Eles desenvolveram abrigos para qualquer ocorrência em caso de acontecimentos apocalípticos, como o qual estamos vivendo – Rebeca dizia tudo como uma especialista.

–- Parece coisa que só poderíamos ver em história em quadrinhos – comentou Quirina.

–- E quem o desenvolveu, Rebeca, o Refúgio? – perguntou Hans.

–- Meu pai. Ele era um cientista consagrado no exterior, e um homem que nunca havia deixado de lado a possibilidade de haver uma situação crítica que afetasse o mundo de forma tão devastadora. – havia orgulho em sua voz, algo bem notável – Muitos o chamavam de louco por isso, até que ele se exilou em nossa antiga casa. Nunca o vi como um louco, mas como um gênio, e sempre tentei ser como ele.

Enquanto ela falava, nos aproximávamos de um salão circular bem iluminado e amplo. À nossa frente, havia cinco portas de aço. O silêncio era inquietante naquele lugar. Cada vez mais que conhecíamos o Refúgio, mais eu me sentia estar em um filme de ficção científica.

Rebeca foi na direção da porta da extrema esquerda e nós a seguimos. Não havia maçaneta nas portas e ela apenas deslizou a mão por sobre o metal e escutei novamente o barulho de engrenagens enquanto a porta se abria.

Hans ficou fascinado.

–- Que método é utilizado para abri-las? – perguntou ansioso.

–- Identificação por digitais. O sistema está por dentro da porta, mas de uma forma que o aço que as reveste não interfira ou bloqueie a identificação. – ela respondeu.

–- É fantástico! – Quirina disse enquanto passava pelo portal.

Rebeca assentiu com um sorriso e voltou seus olhos para mim. Acho que ela aguardava algum comentário de surpresa meu, embora eu não fosse muito de expressar minhas ideias, opiniões e sentimentos. Tentei dizer algo, mas Rebeca disse o que poderia ser a última coisa que pensaria que dissesse:

–- Você parece uma guerreira de animes do gênero ação.

–- Hum, apenas pelo fato de eu ser oriental, suponho – falei calmamente.

–- Não, acho que esse é apenas um fator que contribui.

–- Bem, você é a primeira que me diz que esse não é o principal fator.

–- Sinto-me honrada – ela deu um sorriso e, embora por um momento eu pensasse que estivesse sendo irônica, Rebeca não parecia ser desse tipo. – Bem, vou apresentar alguns de seus novos companheiros de Refúgio.

–- Preparada, Saeko-san? – Hans cochichou em meu ouvido enquanto seguíamos Rebeca e Quirina.

–- Agora você vai ficar me irritando com isso?—reclamei.

–- Bem, o que ela disse é verdade. Quando te vi pela primeira vez, achei você também parecida com uma guerreira de animes de ação.

–- Então tome cuidado. Pelo que me lembro, Saeko era muito boa com lâminas.

–- Ela tinha uma katana.

–- E eu tenho um machado, faz mais o meu tipo.

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O primeiro cômodo que Rebeca nos levou era, segundo a placa, “Sala de Reuniões em Grupo – SRG”. Não havia ninguém nela, mas ainda assim Rebeca queria nos apresentar a todos os lugares do Refúgio e não era algo que me chateasse. Era um tour que valia a pena. A SRG era uma um cômodo grande e que possuía poucas coisas. Havia uma mesa retangular e extensa e no mínimo umas dez cadeiras de madeira dispostas em cada lado dela, tirando aquela que ficava na ponta. Talvez aquela cadeira fosse para o chefe do Refúgio, caso existisse um. Um pequeno bebedouro estava no canto direito e havia alguns mapas nas paredes com marcações de caneta vermelha. Supus que fossem as rotas que eles já haviam percorrido e as que iriam percorrer futuramente.

A segunda sala era a cozinha – ou, como Rebeca chamava, “Mata-Fome”. Era um cômodo médio, o suficiente para caber o fogão, a pia de mármore e os armários de tons terrosos. Nela havia três mulheres que faziam, cada uma, um serviço diferente. Uma mulher baixinha e de cabelos castanho-escuros que estavam presos a um coque, sorriu quando nos aproximamos. Deixou a panela que mexia no fogão de lado e se adiantou até nós.

–- Vocês são os novos “pássaros” que Isabela comentou pelos corredores. – ela disse sorrindo de forma amigável para nós. Não era uma pergunta.

–- Luna, Hans e Quirina, esta é Suzana – Rebeca nos apresentou e apertamos a mão dela.

(Nota da autora: Saeko Busujima é uma personagem fictícia do mangá Highschool of the Dead)

–- É um prazer conhecê-la – dissemos.

–- Aquelas são Rita – Suzana apontou para uma mulher que aparentava ter 25 anos, de cabelos pretos e com um lenço na cabeça. Ela descascava e picava legumes e apenas assentiu em nossa direção – e Lúcia – a outra mulher que deveria ter a mesma idade de Rita, lavava algumas frutas e deu um sorriso tímido para nós por trás dos cabelos cor de palha que caíam por sobre seus ombros. – Imagino que estejam com fome, mas infelizmente terão de esperar um pouco.

–- Sem problemas, senhora – disse Quirina e vi um brilho de hesitação nos olhos pretos de Suzana.

–- Por favor, não me chame de senhora, não tenho nem 34 anos. Chame-me apenas por Suzana.

–- Desculpe, sen... Suzana.

–- Assim é melhor. Rebeca, leve-os até os seus quartos, devem estar muito cansados. – ela olhava para nós com um pouco de hesitação, provavelmente pelo sangue que tínhamos em nossas roupas e na pele. -- Faça um tour pelo Refúgio depois. Lúcia ou eu levaremos algumas roupas para vocês depois que terminarmos o serviço aqui.

Rebeca deu de ombros.

–- Pode ser.

–- Posso levar Hans até o quarto dele – sugeriu uma voz arrastada por trás de nós e Isabela surgiu um sorriso malicioso, se aproximando dele como um predador da presa.

–- Você se solicitando a ajudar alguém, Isabela? – estranhou Suzana.

–- Por isso que o apocalipse aconteceu – comentou Rebeca.

–- Não sejam ridículas. Não posso mostrar meu lado gentil?

–- Esse seu lado nunca existiu – falei.

Isabela voltou seu olhar desdenhoso para mim.

–- Não se meta do que não é da sua conta, querida.

–- Estamos falando de Hans, ele é o meu amigo... Acho que é da minha conta sim. – dei ênfase em meu amigo e Isabela percebeu.

–- Ah, que meigo! Jamais achei que um dia você pudesse ter amigos, Yumiko. Você era... como diziam mesmo? Um bicho do mato, isso! Agora que conseguiu dois subordinados, não quer perdê-los facilmente pra mim...

O sangue fervilhou em minhas veias senti um forte impulso de lançar minha mão no rosto branco dela e apagar o sorriso satisfeito que ele carregava, mas a voz de Suzana me fez retesar.

–- Ei, ei, Isabela, já chega – interrompeu Suzana. – Você vai para o seu quarto ou nos ajuda a arrumar a mesa da refeição. Escolha e em fique em silêncio.

Isabela lançou um olhar rápido para Suzana e não vi o que eles poderiam significar. Rita e Lúcia continuavam a fazer suas tarefas como se nada estivesse acontecendo, ou talvez porque estivessem acostumadas às atitudes de Isabela que nem mais ligavam. Eu esperava que fosse a segunda opção. Dando um último olhar demorado para Hans, Isabela saiu por um dos corredores, sumindo na curva que este fazia. Eu não sabia quanto tempo suportaria a ideia de ter que conviver com ela mais uma vez. Mas se era isso que eu teria que lidar – preferia enfrentar cem Retalhadores ao invés disso – eu conviveria em paz com ela.

–- Vamos, então – Rebeca nos chamou e nos despedimos temporariamente de Suzana, Rita e Lúcia.

–- Detesto dizer isso, mas acho que Isabela está interessada em você – Quirina encarou Hans enquanto seguíamos pelo corredor oposto ao que Isabela havia sumido. – Muito interessada.

–- É extremamente notável, mas não irei corresponder aos sentimentos dela – Hans respondeu calmamente.

–- Não diria que sejam sentimentos – comentou Rebeca. – Desculpe me intrometer, mas acho que Isabela não possui sentimentos assim por ninguém.

–- O que ela sente por você é atração, resumindo. – falei e Hans se virou para mim.

–- Atração?

–- É. Sabe quando uma pessoa não sente amor por alguém, mas...

–- Eu sei o que significa, Luna. Apenas achei isso algo tão...

–- Repugnante? Nojento? Esquisito? – sugeriu Quirina dando uma risada e não consegui evitar sorrir também.

–- Não, não é isso. “Estranho” não é bem a palavra que eu usaria, mas acho que serve.

–- Quando se lida com Isabela, você tem que ser bem ágil para se esquivar das investidas dela. – falei. – Ela nunca foi de se apaixonar por ninguém, mas isso não significava que os garotos não fizessem o mesmo.

–- Não vou me apaixonar por ela. – garantiu ele.

–- Como pode ter tanta certeza?

Hans não respondeu. Apenas continuou andando, ligeiramente mais a frente de mim e Quirina. Não perguntei novamente.

Agora seguíamos por um corredor extenso e muito iluminado por milhares de pequenas lâmpadas fluorescentes. Canos de larguras maiores que meu tórax serpenteavam pelas paredes. Do lado oposto a eles, seguiam-se várias portas de metal que correspondiam aos quartos. Pela quantidade de portas (aproximadamente vinte), me perguntei se quase todos os quartos estariam ocupados. Rebeca nos levou até as últimas portas. Tirou três pequenos cilindros dourados do bolso e entregou para cada um de nós.

–- O que é isso? – perguntou Quirina.

–- São as chaves dos respectivos quartos de vocês.

–- Não é a mesma tecnologia com as outras portas do Refúgio? – perguntei.

–- Por uma questão de privacidade, achei melhor que fosse assim. – explicou Rebeca. -- Todos os outros Refugiados possuem uma, e cada porta tem apenas uma chave correspondente. Por favor, não percam as de vocês.

Quirina colocou a chave na porta a sua frente e sons de mecanismos foram escutados. Empurrou a porta e nos deparamos com um cômodo amplo e vagamente iluminado, composto por uma cama, um criado-mudo e uma cômoda. As paredes eram brancas, o que fazia com que o local parecesse bem mais iluminado. O chão era de algo da cor do cimento, mas tinha a aparência mais lisa e plana.

–- Todos os quartos são assim, e há um banheiro ali atrás – Rebeca apontou para a parede oposta a cama, onde uma porta de madeira ocultava um cubículo suficiente para caber quatro pessoas, no máximo.

–- Sei que não é muita coisa, mas é o melhor que posso oferecer.

–- É o suficiente para mim – falei e senti Rebeca soltar a respiração, aliviada. Hans e Quirina concordaram com a cabeça.

–- Bem, algumas pessoas parecem se contentar com o mínimo, ao que parece – uma voz arrastada e masculina disse atrás de nós. De início, achei que tivesse sido Felipe, mas ao voltar meu olhar para a porta, vi que era um garoto, provavelmente da minha idade, que usava jeans e um casaco preto e seus cabelos da mesma cor eram arrepiados como se ele tivesse tomado um choque. Olheiras profundas emolduravam seus olhos pretos e ele tinha um piercing no lábio inferior.

–- O que temos aqui... – o garoto adentrou no cômodo enquanto falava. – Um nerd, uma chinesa e uma garotinha loira. Que belo grupo de aliados, Rebeca.

–- Vítor, ninguém te chamou aqui. Volte para seu quarto. – pediu a garota secamente, mas ele a ignorou.

–- Algo contra nossa presença aqui? – perguntei e ele deu uma risada debochada.

–- Contanto que não sejam mais outros mortos de fome que vem pra cá para comer e servir como carga para as missões, não nada contra, chinesinha.

–- Se você fosse inteligente, não me chamaria de chinesa.

–- Você é o quê, então, japonesa? Pra mim, japonês, chinês, coreano, mongol, é tudo a mesma...

Não o deixei terminar a frase. Lancei-me sobre ele e saquei meu machado, mantendo-o na altura de meus olhos enquanto imobilizava o garoto contra a parede com o outro braço. Permiti que toda minha raiva fosse passada para meu olhar enquanto o encarava.

–- Se você não tem nada inteligente pra dizer, fique calado, ou sofrerá graves consequências. – falei, e minha voz saiu quase como um rosnado.

Vítor me lançou um olhar desdenhoso.

–- Não tenho medo de você, oriental. –disse, mas algo em seu olhar parecia denunciá-lo. – Você é louca, e só porque tem um machado em mãos, acha que pode me ameaçar? Sou um dos melhores lutadores daqui.

–- Mesmo? Vou adorar lutar com você uma hora dessas. – fiz menção de largá-lo, mas voltei a encostá-lo na parede. – E quanto a ser louca, você nem faz ideia do quanto posso ser.

Soltei-o bruscamente e ele me fuzilou com o olhar. Escutei as respirações pesadas de Rebeca, Quirina e Hans enquanto nos observavam.

–- Vítor, por favor... – Rebeca começou a dizer, mas Vítor já estava saindo do quarto antes que terminasse a frase.

–- Desculpe por isso. – ela disse quando me voltei para eles. – Vítor é um dos Refugiados com piores gênios para se lidar. Só fica atrás de Isabela, acho.

–- Que garoto nojento. – disse Quirina cruzando os braços. – Achei-o até bonito por um momento, mas é só na aparência mesmo.

–- Como uma bolha de sabão. – comentou Hans e Quirina concordou.

–- Não entendo. Se ele não gosta daqui, por que permanece, já que é “um dos melhores lutadores”? – perguntei.

–- Não sei. Vítor foi encontrado pelo General enquanto este procurava por um refúgio. O General disse que ele estava encurralado por zumbis dentro de um elevador de um prédio, e desmaiou depois de algum tempo de tanto cansaço. Creio que se não fosse pelo General, ele não estaria mais ainda como um humano. Foi trazido pra cá desacordado, e acho que se sentiu um covarde por ter chegado aqui assim. Vai entender. Ele sempre fica trancado na sala de armas durante a tarde toda, lutando provavelmente com as armas de marionetes que tem lá. Acho que é uma forma de mostrar aos outros que não é um fraco.

As palavras de Rebeca ficaram vagando por minha mente. A história de Vítor não era fácil, mas ainda assim, não tinha porque ele agir daquele jeito com as pessoas. Em parte, eu o compreendia; não gostava de demonstrar fraqueza, mas estava aprendendo a lidar com isso. Mesmo assim, não justificava sua aspereza em tratar os outros.

A porta do quarto foi empurrada, e Suzana entrou, trazendo algumas roupas nas mãos.

–- Supus que estivessem aqui – disse e entregou algumas roupas para Hans, para mim e Quirina. – Acho que cabem em vocês, mas caso não couberem, é só me dizer. Tem uma toalha também para cada um. Agora, vão logo tomar um banho para poderem vir comer alguma coisa.

Mesmo dando ordens, Suzana era muito gentil. Assentimos e ela nos deu as costas ao sair do quarto e Rebeca seguiu na mesma direção.

–- Deixarei se trocarem e tudo mais agora. Caso tenham dúvidas em se movimentar por aqui para chegar até o refeitório, a dica é: sigam o cheiro da comida.

Ela acenou para nós e saiu do quarto. Peguei a chave em meu bolso e caminhei para a porta.

–- Ficarei com o outro quarto. – falei.

–- Eu também. – disse Hans.

–- O quê? – me assustei com a possibilidade dele estar dizendo do mesmo quarto ao que me referi.

–- Eu vou ficar com o outro quarto. – explicou olhando de forma confusa. Quirina começou a rir, pois certamente entendeu a minha reação quando ele havia dito que ficaria com o quarto.

–- Bem, até mais – despedi-me deles e caminhei para o quarto à direita do de Quirina.

Coloquei a chave na fechadura e ouvi os mecanismos. Empurrei a porta e fechei assim que entrei no quarto. Era exatamente igual ao de Quirina, como Rebeca havia dito. Coloquei o machado ao lado da cama e tirei meus coturnos, deixando-os enlameados ao lado do criado-mudo enquanto levava nos braços apenas a toalha verde que Suzana havia me dado. Senti o piso era um pouco frio sob meus pés enquanto me direcionava ao banheiro.

Mesmo sendo pequeno, o banheiro era capaz de me deixar mover por ele facilmente. Sobre uma pia branca e pequena havia uma escova de dente ainda dentro da embalagem e um sabonete de erva-doce. Quando ergui meu rosto para encarar o espelho circular na parede acima da pia, tomei um susto com minha aparência. Havia mais sangue de zumbi em meu rosto do que eu imaginava que houvesse. Meu cabelo estava arrepiado em algumas partes e grudado em outras devido ao sangue e suor. Parecia mais a versão original da Samara de “O Chamado” * do que Saeko, como Hans havia me chamado. Despi-me e coloquei minhas roupas sobre um banco de madeira ao lado da pia. Abri o registro e entrei na coluna de água morna do chuveiro. Era bom sentir o contato da água em minha pele novamente depois de tanto tempo. Senti meus músculos relaxarem um pouco, e me senti tranquila pela primeira vez em tanto tempo.

Depois do banho, envolta na toalha, saí do banheiro carregando minhas roupas no braço, colocando-as sobre a cama. Peguei a pilha de roupas que Suzana dera e observei as peças. Tinha uma calça jeans escura como a que eu estava usando – a grande diferença entre elas era que a antiga estava num estado lamentável, com rasgos e sangue misturado a poeira – e havia uma blusa longa e roxa, com estampas de cerejeira, o que me fez achá-la linda e meio sugestiva por ter sido entregue a mim. Vesti a roupa e ela coube perfeitamente em mim. Voltei ao banheiro a fim de encontrar algo para pentear meus cabelos, mas não havia nada lá. Fui até o criado-mudo e abri a única gaveta que ele tinha, e encontrei alguns papeis e, por sorte, um pente vermelho. Retornei ao banheiro e penteei meus cabelos, voltando, aos poucos, a ser a Luna de antes. Bom, pelo menos na aparência. Muita coisa havia mudado em mim, no que eu pensava, em meus sentimentos. Assim como haviam mudado subitamente, poderiam se esvair subitamente.

Saí do banheiro e calcei meus coturnos. Resolvi deixar o machado no quarto (não teria nenhum zumbi para matar, embora houvesse Vítor e Isabela), e, levando a chave no bolso, abri a porta e deixei o quarto. Hans se encontrava no corredor, recostado à parede, encarando o teto de forma pensativa. Não havia percebido minha presença até eu perguntar:

–- Está aqui há muito tempo?

–- Acabei de... chegar – ele hesitou em dizer a última palavra quando se virou para me encarar. Senti seus olhos me avaliarem por um momento, mas logo ele virou o rosto.

Ele estava também diferente. O jeans e a camiseta azul que usava deveriam estar apenas um ou dois números maior que ele, mas ainda assim lhe caíam bem. Sua pele morena estava mais notável e seus olhos azuis emitiam um brilho diferente de quando o conheci.

–- Achei que eu ia atrasar. – comentei, mas ele não respondeu. Ele parecia desconfortável e, para ser sincera, eu também. Era a primeira vez que ficávamos sozinhos, e aquele corredor era estranhamente silencioso, o que tornava tudo pior. O som das batidas de meu coração pareciam sons de tambores e torci para que não fosse audível quanto estava sendo para mim.

Por sorte, a porta do quarto de Quirina abriu e ela surgiu, com uma expressão de timidez no rosto. Uma camiseta vermelha, short jeans e seu All Star preto de cano alto. Parecia que a cor da camiseta refletia em seu rosto, agora sem nenhum vestígio de sua maquiagem de zumbi.

–- Sei que e uma pergunta esquisita, mas me digam a verdade: estou estranha com essa roupa?

Hans fez que não com a cabeça e perguntei:

–- Por que estaria?

Ela deu de ombros.

–- Acho que não estou acostumada a esse tipo de estilo.

–- Bem, pode começar a adotar, se quiser. Ficou bem em você. -- elogiou Hans e Quirina agradeceu com um sorriso.

–- Bem, estamos todos aqui, acho que é melhor irmos indo para o refeitório. -- falei.

–- Algo me diz que não deve ser tão longe daqui.

Quirina fechou a porta atrás de si guardou a chave no bolso enquanto caminhava entre mim e Hans.

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De fato, se locomover pelo Refúgio era algo bem difícil. Os corredores eram sinuosos e, em alguns lugares, estreitos, e tivemos que varias vezes nos espremer por entre canos frios e paredes ainda mais frias. Em algumas partes, podia jurar que escutava passos um pouco além de onde estávamos, mas ninguém surgia. Torcia para que conseguisse aprender rapidamente a andar por aquele labirinto de aço, principalmente quando chegamos a uma porta que não tinha placa de identificação, mas era onde o cheiro forte de comida escapava por brechas. Resolvemos arriscar e empurrei a porta.

Era uma sala que lembrava a SRG. Possuía uma mesa enorme que estava totalmente tomada por travessas e panelas fumegantes, jarros contendo variedades de sucos, e pratos de vidro. A atmosfera ali era quente e o aroma dos alimentos era irresistível, me dando água na boca. Assim como a mesa estava repleta, o cômodo não estava diferente. Assim que eu, Hans e Quirina surgimos no portal, todos pararam o que estavam fazendo para nos encarar. Rostos que expressavam os mais diversos sentimentos: curiosidade, surpresa, hesitação, desprezo. O último era por parte de Vítor, que havia apenas parado de pegar uma porção de arroz, mas ao nos ver, voltou a sua atividade como se fôssemos seres possíveis de serem ignorados simplesmente. Isabela encarava para minha esquerda, onde estava Hans, e seus olhos emitiram o brilho predador que sempre tinha quando o via. Senti um impulso de fazer aqueles olhos pararem de brilhar daquele jeito, mas era algo que não queria fazer na frente de pessoas como Suzana e Rebeca, esta última caminhando em nossa direção com uma expressão satisfeita.

–- Que bom que conseguiram chegar. Tiveram problemas para encontrar o refeitório?

–- Sim, -- admiti. -- mas pelo menos conseguimos chegar a tempo.

–- Você podia colocar placa em algumas portas que não tem, Rebeca. — sugeriu Quirina.

–- Os Refugiados sempre me dizem isso, mas é que são tantas coisas para resolver que acabo esquecendo. Pelo menos chegaram, e não são os últimos. Faltam Alice e o General.

–- Quem é esse General que você havia até mencionado antes? -- perguntou Hans enquanto nos encaminhávamos para a mesa.

–- Vocês o conhecerão logo mais. Podem se servir e sentar a mesa, mas lembrem-se: só comecem a comer quando todos estiverem presentes, principalmente o General.

Rebeca nos deixou e foi ajudar Rita e Lúcia com algumas terrinas. Fui na direção a uma pilha de pratos e peguei para mim, Hans e Quirina. Dirigimos-nos a uma panela grande o suficiente para caber uma criança dentro e senti o vapor do arroz recém-preparado em meu rosto quando abri a panela. Senti um braço encostar-se ao meu enquanto me servia de arroz e quando ergui meu rosto, me deparei com Felipe sorrindo para mim.

–- É bom vê-la novamente — seu sorriso era ofuscante e fiquei grata por haver tanto vapor entre nós para que ele não pudesse ver minha expressão desconcertada. -- Carne ensopada? -- ofereceu enquanto abria a panela.

–- Obrigada -- permiti que ele colocasse uma quantidade generosa em meu prato. senti minhas mãos arderem através do vidro do prato.

–- Gostou da minha escolha? -- perguntou e o encarei.

–- Escolha?

–- Sua roupa. Eu a escolhi. Achei que tinha a ver com você. Flores de cerejeira para a mais linda de todas.

–- Ah, bem, sim, você acertou na escolha. Obrigada por isso também. -- dei um sorriso pouco convincente, mas parecia ser o suficiente para ele.

–- Tem carne aí? -- ouvi a voz de Hans do meu outro lado. -- Com licença, amigo? — ele pediu para Felipe e este se moveu de má vontade e Hans ocupou seu lugar.

–- Pensei que Isabela havia feito seu prato. — comentei.

–- Por que ela faria isso? -- ele perguntou.

–- É o que falta ela fazer. Não viu como ela o encarou quando entrou?

–- Não, e mesmo que tivesse percebido... — mas suas palavras foram sumindo por um movimento na porta.

Duas pessoas caminhavam lentamente para o interior da sala. Uma delas era uma garota alta e um pouco desengonçada, que usava óculos enormes no rosto e cabelos presos em um coque no alto da cabeça. Vestia jeans e um suéter enorme que ia até seu joelho. Estava de braços dados com um homem que deveria ter sessenta anos e que se locomovia com passos hesitantes. Tinha uma expressão severa, os cabelos parcialmente grisalhos e seus olhos pretos eram estranhamente atentos. Usava um uniforme militar e, ainda que tivesse a garota para lhe ajudar, se apoiava em uma bengala elegante.

Suzana caminhou até eles e pegou cuidadosamente o braço que a garota soltara do homem.

–- Obrigado, Alice -- a voz do homem era grossa como um rosnado. -- Me ajude a ir até meu lugar, Suzana?

–- Claro, General. -- ela disse e o ajudou a ir até a ponta da mesa, onde um grande prato de comida esfriava.

Assim que o General sentou, todos os Refugiados terminaram de se servir e fizeram o mesmo. Hans puxou uma cadeira para mim e outra para Quirina, sentando-se entre nós duas. Rebeca tomou seu lugar a direita do General, e Isabela sentou-se na cadeira de frente para Hans. Ele nem pareceu notar. Ouvimos o som de vidro estilhaçando e Alice lamentou:

–- De novo não.

–- Tudo bem, Alice. Fiz um prato para você. — disse Rebeca.

–- Eu vou limpar depois, pode deixar -- Alice garantiu de forma nervosa enquanto ia até a cadeira ao lado de Rebeca. Ouvi Vítor murmurar algo como "idiota" enquanto a menina se sentava e quase derrubara a cadeira em sua direção.

–- Já que estamos devidamente acomodados, só tenho uma coisa a dizer: que Deus abençoe seus alimentos e nos fortaleça para mais um dia de luta.

Todos disseram "Amém" em uníssono e então o único som que se escutava eram os dos talheres batendo nos pratos. A comida estava tão boa quanto o seu cheiro, e notei que todos comiam avidamente as porções de seus pratos. Aos poucos, a sala se enchia de conversas aleatórias por entre seus componentes. Enquanto comia, escutei Isabela tentar puxar assunto com Hans, mas este apenas lhe dava respostas curtas, porém de forma educada, e talvez ainda por este motivo ela desistisse de tentar. Enquanto eu mastigava, dei um sorriso de satisfação discreto.

Quando os pratos foram limpos, Lúcia, Suzana e Rita trouxeram tigelas de vidro contendo pudim e distribuíram pela mesa.

–- Agora que nossa refeição acabou, — disse o General. -- gostaria que nossos três novos integrantes do grupo de apresentassem.

Demorou algum tempo até que eu percebesse que o General falava de Hans, Quirina e eu. Olhei para ele surpresa, e senti os olhos de todos da mesa se fixarem em nós. Pensara que havíamos passado despercebidos dos olhos dele, mas como isso não ocorrera, fiz o que ele havia pedido.

–- Meu nome é Luna Yumiko, senhor. -- apresentei-me.

–- É um prazer conhecê-la, Srta. Yumiko. Certamente, além de seu sobrenome tornar óbvio, percebi que és descendente de japoneses. Grandes guerreiros são, os japoneses. Deve carregar isso em seu sangue, creio.

Por mais grave que fosse sua voz, ele conseguia transmitir tranquilidade por suas palavras. Assenti para ele e seus olhos se voltaram para Hans.

–- E você, jovem, quem és? — perguntou.

–- Hans, senhor.

–- É uma honra conhecê-lo, Hans. Para estar aqui conosco, tem que ser um guerreiro também, por isso é um prazer tê-lo conosco. E a garota linda ao seu lado, quem seria?

–- Quirina Ávila, senhor General. É um prazer conhecê-lo e fazer parte do grupo.

–- Digo-lhe o mesmo, Srta. Ávila, e é também um honra tê-la conosco. Que vocês sintam-se em casa aqui, pois agora pertencem ao Refúgio, tendo os direitos e deveres assim como qualquer outro Refugiado presente aqui. Além de uma tropa, somos uma família cujos laços de união jamais podem ser enfraquecidos. Só podemos vencer o inimigo se estivermos juntos, lembrem-se disso -- ele dirigia a todos da mesa. -- Se ainda estamos vivos aqui não é graças à velha sorte, e sim graças aos nossos esforços. Permaneçam assim e iremos vencer.

General se pôs de pé e Suzana foi até ele para lhe ajudar a sair do refeitório. Aos poucos, as pessoas da sala se retiravam e seguiam nas direções dos túneis. Fiquei para ajudar Lúcia, Rita e Rebeca a limpar a mesa.

–- Tudo bem, Luna, podemos terminar aqui. -- disse Rebeca. -- Vá descansar um pouco e diga para Hans e Quirina fazerem o mesmo. O dia de vocês começa amanhã e é bom estarem preparados.

Assenti e dei as costas para elas. Quando saí da sala, encontrei Hans e Quirina me esperando e começamos a vagar pelos corredores que nos eram familiares quando estávamos vindo para o refeitório. Dessa vez, chegamos ao corredor em menos tempo de prevíamos. Chegando a nossas respectivas portas, me despedi dos dois e abri a porta de meu quarto. Antes de entrar, jurei que tinha visto algum movimento nas sobras do final do corredor, mas quando parei para encarar, não havia mais nada. Deveria ser o sono que eu sentia.

Enquanto fechava a porta do quarto, tirei meus coturnos e deixei-os no meio do quarto. Estava tão sonolenta que apenas me arrastei até a cama e me joguei nela, encarando o teto por alguns instantes antes de ser tomada pelo sono por completa.

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Depois de duas semanas no Refúgio, eu já conseguira me adaptar bem ao esquema proposto pelos Refugiados. Tínhamos hora para acordar (geralmente eram às 08:00) e o nosso despertador era algo como uma voz alta de uma mulher pelo alto falante, como nos aeroportos. Se alguém permanecesse na cama após dez minutos desse sinal, era acordado de forma cruel pelo som do apito que Lúcia carregava em torno do pescoço. Para evitar o som terrível dele, a maioria lutava para vencer o sono e a preguiça e se levantava.

Todos os dias tínhamos obrigações a cumprir. Por maior que fosse a quantidade de residentes aqui, a quantidade de tarefas parecia nunca se encerrar. Havia aqueles -- como no caso de Suzana, Lúcia e Rita -- que tinham seu serviço fixo, como fazer as refeições todos os dias. Os outros, porém, faziam de tudo um pouco, desde limpar os corredores, a desentupir dutos de ar ou cuidar do descarte do lixo de maneira correta. Quem estabelecia todas as tarefas era Rebeca, que também monitorava tudo e anotava em uma prancheta. Quase não a víamos enquanto realizávamos as tarefas, e as únicas vezes em que a víamos eram nas refeições. Imaginava o quanto de responsabilidade ela carregava nos ombros e me perguntava como conseguia fazer tudo isso sem sair nada de seu controle.

Dos Refugiados, outra que menos víamos fazendo atividades meticulosas era Alice. Rebeca havia me dito uma vez durante a refeição, que Alice era sua prima e que, para sorte dela, estava na casa de Rebeca quando o apocalipse começara. Ela sabia que a prima sempre fora desastrada, mas ainda assim pensava que esta poderia fazer alguma coisa no Refúgio, desde que ficasse longe da sala de armas. Desde então, Alice era vista prestando ajuda a quem precisasse ali, mas poucos se habilitavam a chamá-la.

Infelizmente, na maioria de meus serviços, Isabela estava presente. Tive que reprimir fortemente minha vontade de prendê-la dentro de um dos canos quando ela havia reclamado por ter quase jogado a chave e a porca nos pés dela enquanto montava novamente. Algumas coisas nunca mudavam mesmo, assim como minha vontade de me ver livre dela. Outro que parecia estar sempre em todos os lugares que eu estava era Felipe, mas ele agia de forma mais simpática comparada a Isabela. Na verdade, algumas vezes, ele tentava me privar de algumas tarefas, até o dia em que Rebeca lhe repreendeu. Fiquei grata pela atitude dela, pois em algumas vezes, Felipe tentava se aproximar demais de mim, o que era extremamente desconfortável.

Havia completado cinco semanas desde a última vez em que algum Refugiado havia saído em missão para conseguir os suprimentos necessários. Dessa vez, segundo as anotações da prancheta de Rebeca, faltavam alguns alimentos como arroz, farinha e macarrão, e alguns objetos de higiene pessoal e roupas.

–- Há muito que pegar dessa vez -- informou Rebeca em um dos jantares no qual todos comíamos a sobremesa, gelatina de framboesa.

–- Se há muito que pegar, então o número de pessoas a irem para a missão tem que ser correspondente — disse Hans.

–- A pergunta é: quem se habilita a ir? Temos que levar em consideração o que ocorreu na última missão em que um grande grupo nosso foi -- disse Alice.

–- O que aconteceu? — perguntou Quirina pousando a tigela vazia sobre a mesa.

–- Dos sete integrantes que foram, só dois conseguiram voltar com vida -- disse Maria, uma dos Refugiados que eu trabalhara no dia anterior.

–- Sendo que um morreu de hemorragia quando chegou aqui -- informou Vítor sem emoção na voz.

–- Todos tem medo de sair do Refúgio desde então. -- falou Suzana.

–- Eu não tenho -- disse Isabela.

–- Porque você não estava conosco na época, Isabela -- disse o General. -- Foi realmente uma perda horrível para todos daqui.

Todos ficaram em silêncio por alguns instantes, como em respeito àqueles que haviam falecido em decorrência da busca por aquilo que seus companheiros precisavam. A julgar pela expressão de Rebeca, imaginei se uma das pessoas que haviam morrido era importante para ela. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, ela estava falando novamente:

–- Voltando a questão anterior, temos que resolver quem irá à missão. Quem vai se habilitar?

Instantaneamente, Isabela ergueu a mão e fez uma expressão de vitoriosa ao encarar os rostos receosos ao redor da mesa. Ninguém se surpreendeu com sua ação. Felipe também ergueu a mão, no mesmo momento em que eu e Hans fazíamos o mesmo.

–- Quatro é um bom número -- comentou Alice.

–- Espere um pouco, não me digam que ela vai também? -- irritou-se Isabela.

–- Qual é o problema em Luna ir? -- perguntou Felipe. -- Ela sabe lutar excepcionalmente bem, Isa. Você sabe disso, mesmo que não queira admitir.

–- Mas do que adiantaria ela ir? Ela não luta lá isso tudo, Felipe, e sua opinião em relação a ela é irrelevante.

–- Você querendo ou não, Isabela, eu irei de qualquer forma. -- falei e ela colocou a sua taça de vidro com força na mesa.

–- Não trabalharei com alguém como você.

–- Agradeço por fazer essa escolha, me poupou as palavras.

–- Bem, quem resolve quem irá ou não, sou eu, Isabela -- disse Rebeca em tom severo. -- Luna irá sim, como Felipe falou das condições dela em luta serem boas, ela irá. Hans também fará parte do grupo. Vocês vão partir pela manha, já está escuro e não é bom agir levianamente. Sugiro que os quatro descansem, mas antes quero que Luna e Hans venham comigo. Com licença. -- pediu Rebeca e se levantou, saindo com passos apressados.

Hans e eu a seguimos antes que perdêssemos de vista os cabelos flamejantes de Rebeca que pareciam labaredas em meio aos corredores. Caminhamos em silêncio por um corredor oposto ao que usávamos para ir para os dormitórios. Subimos alguns lances de escadas e mais uma rampa, onde viramos à direita e paramos diante de uma porta. Rebeca pegou uma chave igual a que dera para nós do bolso da calça e destrancou a porta.

De todos os lugares que eu havia ido ao Refúgio nas últimas semanas, aquela sala era totalmente desconhecida para mim. Era um pouco escura e fria, e quando Rebeca ligou a luz, percebi que era algo entre um laboratório e um galpão de armas. Mesas estavam repletas dos mais tipos de laminas, canos de armas, projéteis e outras coisas que não consegui identificar. Papeis e mais papeis estavam empilhados e em alguns locais, espalhados de forma desarrumada. Ferramentas pendiam nas paredes.

–- Isso é um laboratório de fabricação de armas? -- perguntou Hans, fascinado.

–- Sim, você acertou em cheio. Foi a última coisa que pedi para meu pai antes dele... -- Rebeca engoliu em seco e suspirou pesadamente antes de continuar. -- Nunca trouxe ninguém aqui, mas resolvi mostrar a vocês.

–- Por quê? -- perguntei.

–- Tinha que lhes entregar isso – Rebeca se encaminhou para uma das mesas e afastou os metais pesados que se sobrepunham a prancheta que sempre carregava. -- São as listas do que precisarão para a missão de amanhã.

–- Por que está entregando a nós e não à Isabela ou Felipe?

Rebeca hesitou.

–- Felipe pode ser muito orgulhoso às vezes, e Isabela é muito cabeça dura. Às vezes não trazem tudo que lhes peço nas listas.

–- E por que ainda permite que eles vão? -- perguntou Hans.

–- Porque nenhum dos Refugiados além deles se solicita a participar, apenas por isso, ou não os deixaria ou também Vítor irem.

–- E está confiando na gente? -- perguntei e ela assentiu.

–- Tenho certeza que Isabela lhe escolherá -- ela olhou para Hans e depois para mim. -- e Felipe, você. Mantenham a lista sempre em mãos e não terminem a missão a menos que peguem tudo o que há nela. A menos que a missão se torne muito perigosa.

–- Por isso nos trouxe aqui? -- Hans a encarou por cima dos óculos.

–- Também, mas há outro motivo. Vocês tem suas armas, não?

Eu e Hans assentimos.

–- Gostariam que eu fizesse alguma melhora nelas?

–- Obrigada pela gentileza, Rebeca, mas acho que não daria tempo. -- agradeci calmamente e ela concordou.

–- Mas se um dia quiserem...

–- Aceitaremos sua oferta em um futuro próximo, Rebeca. Aliás, acho que poderia lhe ajudar com alguns protótipos de armas que tenho feito há algum tempo.

Ela sorriu.

–- Será ótimo ter alguém para me ajudar, Hans. Obrigada.

–- Não acha meio precipitado da parte de Rebeca confiar na gente? -- perguntei em voz baixa a Hans quando havíamos saído da sala.

–- Por que diz isso?

–- Chegamos há pouco tempo aqui, e ela já parece confiar plenamente em nós.

–- Isso é algo bom, não? Ou você acha que ela não merece sua confiança?

Chegamos ao corredor dos dormitórios e paramos diante da porta do quarto dele. Todos deveriam estar dormindo já.

–- Não é isso. É que acho que quando se trata de confiança, é algo que se adquire em um tempo maior, não simplesmente simpatizar com alguém. E por ela confiar tanto em nós, espero não desapontá-la amanhã.

–- Tenho certeza de que dará tudo certo, Luna. -- Hans disse em voz firme. -- E lembre-se, somos uma equipe.

Ergui meu olhar para encará-lo e vi que Hans havia dado um passo em minha direção e retesara logo em seguida. Estendeu, então, a mão para mim e eu a apertei. Quando depois ele sumira porta dentro de seu quarto, me perguntei se ele sentira a mesma descarga elétrica que eu sentira ao seu toque.

Notas finais
Algumas informações descritas nesse capítulo:1. Saeko Busujima, personagem que Hans menciona, é presente no mangá e anime Highschool of the Dead. É uma habilidosa guerreira de kendô, e manuseia katanas como ninguém;2. Quando Luna se refere estar parecida com a versão original de Samara de "O Chamado", ela se refere à Sadako, personagem japonesa do mangá The Ring, que inspirou os filmes da franquia.