Hunter's Instinct
29 Episódio 29 - Homeward Bound
Notas iniciais
Tonight I'll sing my songs again,
I'll play the game and pretend.
But all my words come back to me in shades of mediocrity
Like emptiness in harmony I need someone to comfort me.
Homeward bound,
I wish I was,
Homeward bound,
Home where my thought's escaping,
Home where my music's playing,
Home where my love lies waiting
Silently for me.
Silently for me...
Simon and Garfunkel – Homeward Bound
A garota colocou as duas mãos na testa, tapando os olhos do sol forte daquela tarde quente. A brisa soprava agradável, trazendo uma temperatura nem muito abafada nem muito fria.
Em um piscar de olhos, os portões daqueles muros laminados enfim se abriram.
Ela respirou fundo.
Ao seu lado, Peggy reparou de esguelha em Carl mover seu rosto para a direita. Ali, fora dos limites de Alexandria, podiam ver à distância uma espécie de casa abandonada, repleta de tralhas e objetos sem uso. Alguma espécie de depósito de lixo.
A adolescente reparou no garoto a sua direita mover o rosto para a frente outra vez. O que quer que pudesse estar naquela casa com um galpão velho com certeza não poderia ser mais surpreendente do que aquilo que os aguardava dentro daquela murada.
Com Annie ao seu lado, e, mais a esquerda, Mavie, Peggy seguiu adiante. As três veteranas do Aquário eram umas das últimas junto ao grupo de Rick Grimes a adentrar os limites de Alexandria, sendo seguidas apenas por Carol, Sasha e Abraham.
Enquanto os portões terminavam de se abrir e parte do grupo acabara de entrar, como Maggie, Rosita e o próprio Rick Grimes com sua bebê no colo, algo se moveu nos arbustos centímetros próximos do portão de entrada.
Peggy, instintivamente, moveu sua mão esquerda para a faca que guardava em seu bolso. Pequena, porém afiada... E que já aprendera a manusear com segurança. A menina, agora, era praticamente auto-suficiente na arte do combate. Sendo treinada e ensinada por Mavelle, uma exímia caçadora e ágil sobrevivente daquele mundo horrendo, a adolescente aprendera habilidades que jamais imaginara ser capaz de um dia desenvolver.
Porém, aquilo lhe fora ensinado tarde demais. Se sua chance de mostrar seu potencial tivesse sido lhe dada anteriormente, se não tivesse sido sempre tão subestimada, mal notada, sempre escondida à sombra de sua linda mãe... Talvez o destino de Peggy pudesse ter sido diferente. Talvez não tivesse perdido todos a quem mais amava.
Talvez tivesse conseguido ajudá-los, e não ser apenas mais um estorvo para os sobreviventes.
Antes que pudesse se movimentar a frente, antes mesmo que Mavie pudesse soltar uma flecha na direção do ser rastejante que logo sairia dos arbustos, Daryl Dixon foi mais rápido, um dos primeiros na linha de entrada em Alexandria. Ao lado de Glenn, o caçador atirara naquilo com sua balestra e fora conferir o que matara.
– Trouxemos o jantar – disse o arqueiro, com deboche evidente, encarando Aaron e seu namorado, Eric, que já haviam ultrapassado os portões de entrada.
Em poucos segundos, Peggy e o resto do grupo adentrara as fronteiras de Alexandria. Assim que Abraham saiu de perto do portão, o mesmo se fechou por algum dispositivo automático, provavelmente guiado por algum controle eletrônico.
Como no Aquário. Peggy pensou, e subitamente sentiu-se muito tonta. Fechou os olhos, e respirou fundo, buscando se acalmar. As lembranças turvas que vieram de imediato a sua mente não eram bem-vindas, e de nada viriam a calhar naquele momento decisivo. Quando abriu seus olhos castanhos de novo, pôde reparar que Annie, ao seu lado, a encarava com um olhar sagaz. O recente destempero da menina não havia passado incólume pela idosa.
– Boa tarde a todos nós, e bem-vindos a Alexandria! – saudou Aaron, carregando seu namorado pelos ombros, que os presenteou com o mesmo sorriso simpático do homem falastrão. Ao lado dele, um sujeito se aproximava, de cabelos castanhos e olhar um tanto arrogante.
– Se ficarem terão de ser desarmados – avisou o novo estranho. Peggy mal se deu ao trabalho de lhe olhar com cuidado. A visão que teve, ao enfim vislumbrar a comunidade e não mais os portões, a surpreendeu por completo.
Com gramados bonitos e bem cuidados, casas com fachadas elegantes, ruas pavimentadas e muros a perder de vista, a garota mal podia acreditar no que vira.
Um condomínio fechado, muito maior do que o Aquário, muito mais aberto do que o Oceanário, e, inclusive... Surrealmente mais parecido com uma ideia do que seria a realidade, o mundo de antigamente, antes de todo aquele caos, aquela loucura dos carniceiros...
...Uma comunidade por cuja aparência a ideia de “lar” era explicitada em cada esquina, ladrilho de calçada e centímetro de relva verde aparada.
Isso não é de verdade.
Não pode ser.
Peggy olhava para os lados, assombrada, sem saber no que seus olhos deveriam se focar. Estranhamente, aquilo não a fizera se sentir a vontade. Ou bem. Ou sequer aliviada.
Seu coração começara a retumbar dentro de seu peito. Suas mãos tinham sudorese, embora ela começasse a tentar limpá-las discretamente em sua blusa. Sua garganta parecia se fechar, obrigando-a a engolir em seco.
Seus nervos que já estavam comprometidos com os últimos acontecimentos, agora passaram a ficar definitivamente à flor da pele.
– E quem disse que já tomamos esta decisão? – retrucou Rick ao homem de cabelos cacheados escuros. Os dois trocaram um olhar de desafio implícito, pelo que Peggy pôde ver. Quase quis agradecer ao policial pela interrupção breve naquela avalanche de emoções negativas que a atacara de súbito. Peggy ainda se sentia tonta, mas ter algum fator externo para se preocupar aliviava aqueles estranhos arroubos emotivos.
– Está tudo bem, Nicholas. Se fossem usá-las, já teriam feito isso comigo – Aaron respondeu, falando com o novo sujeito com um tom pacificador.
– Bem, então que conversem com Deanna – o tal Nicholas retorquiu, ainda dando ao grupo um olhar desconfiado.
– Quem é Deanna? – Atrás da adolescente, ouviu-se uma voz sonora e bronca falando. Era Abraham.
– É quem lhes dirá tudo que precisam saber sobre Alexandria – redarguiu Aaron, ainda sorridente. – Rick, por que você não começa falando com ela? – sugeriu, como se o convidasse para almoçar.
Assim que o namorado de Eric proferiu tais palavras, o grupo voltou-se para trás, movidos por seus instintos de sobrevivência aguçados. O som rouco, gutural e agourento que ouviram só poderia significar uma coisa.
Rick alertou a mulher que fechava o grupo.
– Sasha – falou o policial, em tom de ordem.
A irmã do saudoso Tyreese, mirando com seu rifle, gastou apenas um tiro. Preciso.
O carniceiro que avistaram caiu ao chão, seu cérebro explodindo em vários pedaços, voando metros ao longe, sem chances de se aproximar dos amplos portões da comunidade. Enquanto isso, uma segunda camada protegeu ainda mais os portões daquela espécie de condomínio.
– Que bom que estamos aqui – ironizou Rick Grimes, em um claro tom debochado.
*****
– Eu imagino que compreenda, Annie – disse Deanna, respirando fundo e juntando as mãos. A idosa irlandesa encarava a líder da comunidade com severidade, sem titubear, sentada em um sofá defronte a governante. Nenhuma das expressões, nenhuma palavra, nenhum gesto escapava dos olhos atentos de Annie Guinness. Mal se importava com a câmera que a filmava de forma opressora. Se aquilo era uma tentativa de ameaça, certamente não funcionaria com ela.
– Por tudo o que me falou, busca um lugar seguro para sua neta. E para Peggy – acrescentou a chefe de Alexandria. – Você é mãe, como eu, e é avó, uma dádiva que ainda não fui agraciada – contou a mulher de cabelos platinados, sorrindo. – Sei que está disposta a tudo para proteger os seus.
– Sim. Eu me aliaria a Hitler, se ele ressurgisse do túmulo como estes tantos mortos-vivos, caso garantisse que elas estariam bem e seguras – garantiu a idosa irlandesa, certeira. Havia dado uma sugestão irônica com aquela frase de que se aliara a Rick Grimes essencialmente por essas razões, mas não sabia se a líder de Alexandria percebera aquilo ou não.
– Então você compreende que é exatamente isto o que pretendo fazer neste lugar – insistiu Deanna.
– Uma vez li uma reportagem, antes do mundo tornar-se o que é, sobre um pai que era nada mais do que um viciado detestável. Um drogado, desencaminhado, sem futuro. Tinha um filho de cerca de quatro ou três anos, algo do gênero. Li este artigo tem tantos anos, tantos, que já nem lembro mais quantos – comentou Deanna dando um sorriso amarelo.
– Entretanto, o conteúdo daquilo mexeu comigo. Décadas já se passaram, e não consigo esquecer. Era a história de um pai que, transtornado por alguma droga, fora de si, agarrou a cabeça do próprio filho. – Deanna gesticulava com as mãos. – E sugou para fora os olhos da criança. Seu próprio filho – repetiu ela, respirando fundo, parecendo abalada.
Annie sequer piscou. Apenas encarava Deanna. Não sabia se aquilo era algum tipo de “número” atuado ou algum sentimento legítimo.
A líder de Alexandria continuava encarando Annie, que finalmente retrucou, impaciente, querendo que ela fosse direto ao ponto:
– Se ao menos você me encarar prolongadamente pudesse trazê-lo de volta ao normal! – disse a idosa irlandesa com sarcasmo notável, referindo-se aos olhos do menino e a postura dramática de Deanna, levantando os ombros.
A líder soltou uma risada seca pelo nariz. Annie não sorria.
– Já vi que é uma mulher direta.
– Esforço-me ao máximo – redarguiu Guinness, fria.
– O que quero dizer com isso, Annie, é que nunca compreendi aquilo. Aquilo me moveu de tal forma que passei dias me questionando não só a questão biológica, referente a como o pai conseguiria retirar os olhos do filho de forma tão violenta, mas o principal... Por que o menino não reagiu? Depois, inquirido sobre o que acontecera, a criança dissera: “papai comeu meus olhos.” Compreende? – Deanna continuou, parecendo angustiada, porém decidida.
– Isto é que é o mundo de hoje em dia. Esta criança não tinha nenhuma experiência, nada em que se basear. Ela não sabia que o que seu pai cometia consigo era uma violência indescritível, porém, aquilo a machucava. Só sabia disso. E isto é essa comunidade. A maioria das pessoas que vivem aqui são tão indefesas quanto esta criança. – Deanna abriu os braços ao redor, frustrada.
– Precisamos de vocês aqui dentro. Precisamos de gente com experiência, de você, de Rick, de Carol, de Abraham, todos que sabem o que era o mundo antes, para que não possamos nos perder. Para que possamos reconstruir o que era a vida neste horror repleto de morte e devastação. Não queremos que esta comunidade reproduza o mundo lá fora. Queremos que essa comunidade seja a base para o que será o mundo lá fora.
Annie refletiu. De fato aquela mulher era bastante eloquente, mas já conhecera pessoas tão articuladas quanto. Aquilo não a surpreenderia. Mas estava disposta a pagar para ver.
– E então, está conosco? – perguntou Deanna, finalmente.
– Sim – decidiu a idosa irlandesa.
*****
– Então vocês estão há vinte e três dias com o grupo de Rick Grimes? – perguntou Deanna. – Depois de se desencontrarem quando tentaram desbancar Jed?
– Sim – respondeu Peggy, olhando para os lados, incomodada com aquela câmera focada diretamente em seu rosto. Mexia em seus cabelos castanhos, enrolando-os nervosamente com a ponta dos dedos.
– Querida, pode olhar para mim, isso vai te deixar mais à vontade – sugeriu a chefe da comunidade com gentileza, encarando Peggy como se a compreendesse. Aquilo enraiveceu a garota, que esfregou as mãos em suas coxas cobertas por sua calça jeans. Peggy não a encarou mais de um segundo. Olhou para as próprias pernas.
– Estamos quase acabando Sei que é um assunto difícil. Imagino como deve ter sofrido muito – falou a mulher com compreensão.
– Não – Peggy rebateu, ainda mais furiosa, mas sua expressão continuava apática. Olhava para suas mãos enquanto falava. – Não, você não imagina. Você não sabe como é perder seu pai, seu padrasto e sua mãe. Tudo isso em uma questão de meses. Depois de ter perdido há menos de dois anos seus dois irmãos. – Peggy sentia a raiva se alastrando por cada poro de seu corpo, mas não conseguia demonstrar. Suas mãos tremiam, por mais que as forçasse em cima de suas calças, mas sua voz soava distante, fria, como se não sentisse a dor que alegava sentir.
– Não, eu não sei – Deanna admitiu, e Peggy levantou seus olhos para ela, suas sobrancelhas franzidas, seus olhos marejados de lágrimas. Passara alguns dias sem chorar. Não queria voltar aquilo de novo. Não queria falar naquele assunto.
Queria apenas esquecer.
– E é por isso que precisamos que estejam aqui. Aqui, vão estar seguros. Vão poder superar seus sofrimentos. Terão uma nova vida – afirmou Deanna, sua voz soando solidária e generosa, mas Peggy quis soltar uma risada desdenhosa.
– Não há mais vida hoje em dia – definiu a garota, voltando a baixar seu olhar para o piso. – Tudo o que há é morte. Caminhando entre nós.
******
Começara a tarde do segundo dia de estadia naquele lugar.
A brisa continuava fresca como na manhã em que haviam chegado a Alexandria. Ela podia escutar o cricrilar dos grilos, assim como alguns pássaros cantores, e o riso estridente das crianças que ainda brincavam, alegres, pelos terrenos da comunidade. Sons de passos apressados correndo em alguma brincadeira, grama sendo pisoteada em ânimo exultante.
Aquele cenário externo não poderia ser de nenhuma forma mais oposto ao que se passava internamente para Mavelle Berry.
A garota irlandesa, determinada a fazer valer sua passagem para aquele lugar, tentou ser resiliente com os novos desafios que haviam surgido; convivera, sem criar maiores problemas, com o grupo de Rick Grimes sob o olhar vigilante do policial, apenas observando o que se delimitaria a partir da decisão de fincarem raízes no território de Alexandria.
Silenciosa e discreta, Mavelle sequer tentara socializar com os moradores do lugar, ou fazer algo além de encontrar uma função para desempenhar junto a Deanna. Ocupava seu pequeno espaço, junto a companhia de sua avó e da órfã, contando os dias, quase alheia as novas possibilidades que aquele local poderia lhe trazer.
Caminhando rumo ao encontro daquela tarde, Mavie apenas relembrava os últimos acontecimentos. A conversa noturna de Rick e Michonne na casa que dividiram pelos últimos dois dias, e que agora haviam decidido finalmente se dispersar para outras residências. O teor daquele diálogo era hesitante e simultaneamente decidido. Mavelle vira o que Rick fora capaz de fazer no Oceanário, como conseguira convencer a todas aquelas pessoas a seguirem sua liderança, inclusive para algo tão perigoso quanto peitar um líder como Jed.
Se nem mesmo Freeman fora um desafio para o policial, o que dirá Deanna? Será que Grimes se sentia ameaçado por ela? Será que em algum tempo arranjaria provas contra a chefia de Alexandria, e, mais uma vez, poria mais uma zona de segurança em risco?
Engolindo em seco, Mavelle, sabendo ainda ser muito cedo para tais respostas, tentou desviar os pensamentos daquele tema. Seus passos se apressaram, enquanto ela lembrou-se das reações do grupo de Grimes. A postura do pai de Carl e de Carol lhe pareceram as mais difíceis de esmiuçar, mas alguns estavam reagindo de forma até mesmo surpreendente, de forma positiva. Glenn e Maggie pareceram agarrar a oportunidade de sobreviver em Alexandria com unhas e dentes, o que era natural, tendo em vista a gravidez de Greene. Abraham, Rosita, Tara, Eugene, Padre Gabriel, se mostravam mais uma vez neutros, aparentemente. Michonne aparentava nutrir dentro de si um mar de esperança.
Peggy estava à beira de um colapso nervoso, e Mavelle compreendia perfeitamente como ela se sentia. Podia antever a ansiedade óbvia da garota, demonstrada em sua insônia, sua dificuldade de se assentar num lugar só, caminhando a esmo pela comunidade ao longo daqueles dias, enfim, em diversos sintomas. Sua avó adotara sua postura como sempre alerta e vigilante. Não esperaria outra coisa delas.
Já a maior surpresa viera dele.
Daryl Dixon parecia, de longe, um dos indivíduos com maior dificuldade de adaptação. Não deixara o batente da varanda da casa grande onde Rick e os outros ficaram juntos por dois dias, e inclusive passara uma tarde limpando a carne do gambá que matara sem a menor necessidade, uma vez que a despensa de Alexandria era mais do que abastada de suprimentos. Mais calado e turrão do que nunca, Dixon parecera ter se enfurnado dentro de alguma zona interna de sua mente, não querendo conversa com ninguém. Tampouco tomara banho, aparentemente.
Aquilo poderia parecer estranho, mas Mavelle entendia como ele se sentia. De certa forma, estava reagindo de forma parecida. Simplesmente sentia que não conseguia voltar a seu estado de espírito natural, alegre, faceira, espevitada como antes. Aquilo não costumava ser um esforço para ela, fluía naturalmente.
Mas a confusão mental que mantinha dentro de si, presa, lutando para sair... Impedia que ela retornasse a alguma normalidade. Por mais que se sentisse cada vez mais apática, sem ânimo, e aquilo não a fizesse bem internamente... Mavelle preferia adotar aquele humor depressivo a enfrentar o que parecia perseguí-la, de dentro para fora.
Entretanto, temia não poder fugir para sempre.
Mavie se lembrou de alguns minutos atrás.
Descera para a varanda da casa, passando por Rick, e seu filho, que embalava a bebê Judith. Atravessando para a grama, Berry andou evitando olhar para os lados e cruzar olhares com o caçador – já tinha emoções conflitantes demais dentro de si mesma para serem incentivadas -, e podia sentir os olhos de Carol Peletier, bem vestida e com elegância invejável, cravados em sua nuca.
A irlandesa andava a passos largos, os punhos fechados em riste, suas unhas cravando-se em sua pele e no arco que segurava, até que fechou os olhos e sacudiu a cabeça, tentando desviar-se de si mesma. Voltou a abrir seus orbes de avelã esverdeado quando sentiu sua testa trombar contra uma superfície rígida.
– Ai! – reclamou a garota dentuça, audivelmente, dando alguns passos recuados.
– Estava faltando você – um sujeito alto, esbelto e com feições pretensiosas falou, encarando Mavelle de cima a baixo, como se a julgasse em vários sentidos diferentes. Voltou os olhos para o lado, e Mavie, esfregando a testa que batera contra o ombro daquele sujeito, vira que ali estavam o marido de Maggie e Tara, assim como o homem de cabelos cacheados antipático, Nicholas.
– Glenn, Tara, Mavie? – perguntou o moreno alto. Os três assentiram em seguida. Mavelle quase suspirou aliviada, vendo que finalmente teria uma tarefa para desempenhar para se afastar de seus temores internos.
– Prazer. Sou Aiden Monroe. O Nicholas vocês já conheceram no portão – disse, enquanto todos assentiam.
– Você é filho de Deanna? – perguntou Glenn, sondando o sujeito.
– Sim – confirmou Aiden Monroe. – Bem, soube que são experientes para ir “à caça” de suprimentos.
Glenn anuiu e adicionou:
– Vi sua despensa. Vocês estão indo bem.
– Bem, eu tive treinamento no exército – Aiden falou em tom de quem contava vantagem. – Era quase tenente quando essa merda toda começou. – O sujeito voltou a olhar para Mavelle.
– Mas você não tem cara de quem é apta para esse serviço – comentou de forma inconveniente, com um sorriso inoportuno.
– Já ouviu falar que as aparências enganam? – retrucou a irlandesa, com sarcasmo. – Eu caçava com meu pai – esclareceu ela, mostrando o arco em mãos, e movendo os ombros de forma a evidenciar a aljava com flechas.
– Ele não sobreviveu? – perguntou o impertinente Aiden.
– Não faço ideia – retorquiu Mavelle, de forma ainda mais seca. Glenn levantou uma sobrancelha e se aproximou mais, provavelmente percebendo a inevitável mudança de ânimos, enquanto Tara apenas mordia a ponta do dedão, observando nervosa.
Aiden deu um passo na direção de Mavie, ignorando a aproximação de Glenn. Deu o mesmo olhar grosseiro para ela, e soltou uma espécie de muxoxo de desdém com a boca, balançando a cabeça.
– É, tem sido assim mesmo – respondeu, mudando de expressão para uma menos irritante, que provavelmente julgava mais simpática. – Ok, vamos lá fora fazer um teste. Encherei um pouco o saco de vocês... – Voltou-se outra vez para Mavie, com um olhar como se lhe pedisse desculpas de antemão. – Sabe como é, né. – Olhou então para Tara, da mesma forma inconveniente.
– Não, não sei. Mas tudo bem – redarguiu a mulher morena, dando de ombros.
– E as armas? – Glenn questionou, atento.
– Pegaremos umas maneiras hoje – Aiden falou, enquanto Nicolas lhes entregou pistolas simples. Completamente comuns, ao contrário da descrição dita pelo filho de Deanna. Glenn, Tara e Mavie se entreolharam rapidamente, mas, sem escolha, seguiram o sujeito portões afora.
Caminharam por cerca de meia hora, com Aiden lhes apontando mais locais limítrofes a Alexandria, exibindo seus supostos esforços e conquistas sem a menor humildade.
– Temos aumentado nosso território, percorremos oitenta e cinco quilômetros expandindo Alexandria pela cidade anexa – gabou-se Aiden. Nos dividimos em dois grupos quando saímos do veículo, para concretizar tais ações. Caso algo saia fora do plano, usamos sinalizadores para nos encontrarmos e voltarmos.
– Belo sistema – comentou Glenn, andando ao lado de Mavelle.
– É verdade – disse o prepotente Aiden. – De qualquer forma, vocês estão aqui porque mês passado perdemos quatro pessoas. Estávamos fugindo, andarilhos apareceram e... Eles não seguiram o sistema – informou, enquanto trocava olhares com Nicholas.
– Eram boas pessoas – falou o homem de cabelos cacheados. Mavie sentiu certa desconfiança daquele sujeito. Não parecia realmente lamentar a perda dos indivíduos aos quais se referiam.
Não da mesma forma que o grupo de Rick Grimes fazia.
– Eram... Só estavam assustados – acrescentou Aiden, e mais uma vez voltou-se para os três novatos.
– Olha, posso ser cabeça dura, e sei que sou meio babaca – disse o homem moreno, e Berry imediatamente pensou: Jura?
– Mas alguém precisa decidir aqui e esse alguém sou eu. Se estão na minha equipe, seguirão as minhas ordens – sentenciou o homem alto.
– Sinto muito pela sua gente – Tara falou, como sempre empática.
– Ah, nós demos o troco – afirmou Nicholas, olhando de forma cúmplice e maldosa para Aiden.
– Capturamos um dos escrotos que fizeram isso com ele, sabem, temos um ritual para nos acalmarmos. É algo que nos lembra porque lutamos – explanou Monroe, caminhando para uma clareira.
Sua expressão mudou completamente de súbito, assim como a de Nicholas. Se antes estava convencido e resoluto, agora parecia intimidado e assustado.
– Filho da puta! Ajudem-me a encontrá-lo! – exigiu Aiden, enquanto o sujeito de cabelos cacheados mexia em correntes penduradas em uma árvore, sujas com sangue fresco.
– Ele está perto – percebeu Nicholas, olhando para os lados.
– Esqueçam isso – tentou Glenn, sendo razoável. – Vamos voltar. Ele já foi – falava de forma calma e clara, embora Mavie aferisse nervosismo disfarçado em sua voz. Ela e Tara se entreolhavam, franzindo as sobrancelhas. Que tipo de loucura era aquela? Eles torturavam carniceiros como forma de diversão e vingança?
– Não, ele matou nossos amigos! – insistiu Aiden, exaltado.
O que se seguiu naqueles segundos foi uma surpreendente e até mesmo patética situação com o morto-vivo que surgiu ameaçador, rapidamente atravessando a vegetação local. O ridículo do acontecimento fora a forma como o tal notável Aiden quase fora mordido pelo carniceiro que fora direto para cima de si, o qual ele empurrara na direção de Tara.
Chambler, tentando desvencilhar-se, acabou por atraí-lo ainda mais, arrancando sem querer parte da pele podre de suas costas, fazendo com que o cadáver andante se voltasse para si com dentes arreganhados.
De pronto, Mavie e Glenn pularam na direção do morto-vivo, ela fincando uma flecha no crânio do ser pútrido, e Rhee sua faca.
– Que merda foi essa?! – perguntou Glenn, finalmente enfurecido, avançando para perto de Aiden. Mavelle seguiu junto. Previra aquilo desde o primeiro olhar irritante daquele homem.
– Eu falei para me obedecerem! – retrucou o filho da líder de Alexandria, aproximando-se de Rhee, estufando o peito em desafio.
Sem esperar mais, Mavelle Berry se impôs entre os dois. Aiden parou de avançar, mas modificou sua expressão para um sorriso presunçoso outra vez.
Enfim aparentemente controlados, o grupo de coletores e desbravadores se encaminhou de volta aos terrenos de Alexandria. Passando o portão que se fechou pelos mecanismos eletrônicos presentes no objeto, Aiden voltou a falar.
– Vocês precisam de trabalhos novos. – Encarou diretamente Glenn.
– Ah, porque você está realmente pronto para isso – retorquiu com sarcasmo desafiador, ainda irritado, o asiático.
– Temos o nosso jeito de resolver as coisas por aqui – falou Aiden, ameaçador, e dessa vez Mavelle, que viera fechando o grupo, não pudera se interpôr entre os dois.
– Você amarrou a porra de um errante! – reclamou com sensatez Glenn, como se dissesse por aquelas palavras que Aiden era um maluco sem precedentes.
– Ele matou nosso amigo! – teimou o suposto líder dos desbravadores. — Quer saber? Eu não vou nem conversar com você – falou com arrogância ímpar. – Lá fora você me obedece. Fim de papo – Aiden disse a última frase devagar, separando bem cada sílaba.
– Com certeza. Para a gente se foder igual ao seu último grupo – Glenn falou, e foi longe demais.
Mavie prendeu a respiração, e pôde ver Tara, ao seu lado, fazendo o mesmo. Pessoas começaram a se aproximar daquela cena. Mavelle julgou ter visto a silhueta de Daryl ao longe, o que a deixou ainda mais preocupada com o rumo que aquilo iria tomar.
– Para! – Mavie reagiu, enfim, correndo em direção deles. Nicholas voltou o rosto para ela, olhando seus movimentos. – Pare, Aiden. Pare com isso – pediu a garota com dentes salientes, enquanto o homem moreno a ignorava, aproximando-se perigosamente do asiático.
– Ninguém está impressionado, cara – Glenn falou, agora mais calmo. Maggie se aproximara dele. – Sai fora – continuou o rapaz, ainda irritado, mas com mais bom senso, mesmo que Aiden lhe desse empurrões provocadores. Até mesmo Deanna chegara para testemunhar o que acontecia.
– Ele tem um problema com nosso modo de agir – aduziu o filho da líder, voltando-se para a mãe. – Por que aceitou essas pessoas? – questionou-os com desprezo evidente.
– Porque nós sabemos o que fazemos lá fora – Glenn retrucou, e, dessa vez, Aiden reagiu em definitivo.
Aiden, sem aviso, tentou socar o rosto de Glenn, que, mais rápido e ágil, abaixou-se e deu-lhe um cruzado de direita em meio ao rosto. Mavie, simultaneamente aquela movimentação rápida, tentou mais uma vez meter-se no meio para evitar os danos, mas Nicholas a empurrou para o lado, evitando que se aproximasse. A irlandesa caiu no chão pela força do empurrão, mas não se machucou.
No mesmo segundo, Mavelle apenas sentiu o ar se movimentar rápido perto de si. Daryl praticamente voara em cima de Nicholas, que agora estava no chão, depois de ter levado por si só um soco no queixo fazendo-lhe trincar os dentes, e agora era praticamente enforcado pelo arqueiro.
– CHEGA! – gritaram Michonne e Maggie. Rick, também correndo ligeiro, puxou com seus maiores esforços Daryl para longe de Nicholas, que continuou estático e surpreso, inerte.
– Não vamos fazer isso agora. Pare – Rick falou para Dixon, tentando soar baixo, mas Mavelle pôde ouvir. Encarou-os, ainda administrando o súbito surto de agressividade entre todos ali.
– Quer acabar no chão de novo? – Michonne ameaçou Aiden, que acabara de se levantar e parecia tentar um segundo round contra Glenn.
– Fique calmo, Daryl, venha. – Rick arrastou o amigo para longe com dificuldades, que ainda tinha os olhos fixos em Nicholas. Grimes teve de passar alguns bons segundos contendo o caçador, que olhava fixamente por cima dos ombros do policial para o sujeito ainda caído.
Deanna Monroe, já impaciente com tamanha loucura, finalmente se manifestou de forma mais veemente.
– Quero que TODOS escutem: Rick e seu pessoal são parte da comunidade agora, com todos os direitos equivalentes aos nossos. Entendido? – determinou ela, enquanto olhava para seu filho. Sem escolha, Aiden baixou a cabeça e a marra. – Entendido – respondeu o homem.
– Todos vocês, entreguem as armas, agora – ordenou a líder. – E vocês dois. – Olhou para Nick e Aiden. – Venham comigo – mandou Deanna, enquanto encarava Michonne e Rick.
– Eu falei que tinha um serviço para você. Quero que seja nosso policial – esclareceu a mulher de cabelos platinados. – É o que você era, e é o que você é – atestou Deanna.
– E você também. – Olhou para Michonne de forma assertiva. Passou alguns segundos encarando os dois, e finalmente perguntou:
– Aceitam?
– Certo – Rick confirmou. Mavelle, ainda atônita, apenas assistia o desenrolar dos acontecimentos.
– Sim, eu topo – disse Michonne, por sua vez. Atrás de Rick, Mavie pôde ver Daryl sair de perto da companhia dos amigos, soltando um “tsc” audível. Pelo visto, não aprovava aquela súbita resolução de integração.
Mavie, atarantada, apenas viu Deanna agradecer a Glenn por ter batido em seu próprio filho, enquanto Maggie segurou um sorrisinho sardônico ao seu lado. Atrás da irlandesa, Enid e Carl conversavam, mas aquilo tudo já fora demais para ela. Não estava mais prestando atenção.
Berry decidira voltar para a casa que agora dividia com Peggy, Annie e Tara, entrar no banheiro e tentar relaxar debaixo de uma ducha quente e vaporosa. Assim, quando já estava um pouco mais relaxada, depois de a noite cair, a pele mais fresca e suave pelo contato bem-vindo da água e do vento noturno que a envolveu assim que saiu novamente da casa... Caminhou a irlandesa, com passos curtos e apressados, para a pequena sala em um local vazio de moradores, o qual sabia se tratar da biblioteca de Alexandria.
Aquele lugar silencioso poderia ser muito bem-vindo naquele momento, após tantos conflitos – tanto internos quanto externos – naquela tarde pouco usual. Aliás, será que haveria de fato algo “usual” naquela comunidade? Tudo era estranhamente conexo, perfeito, equilibrado demais para ser verdade...
…Com exceção de seus habitantes, tanto os novos quanto os veteranos.
Com aquelas controversas reflexões em mente, Mavelle tentou apenas se preocupar em encontrar algum volume literário bem-vindo em meio aquela vastidão. Gostara bastante da aparência da biblioteca local. Com estantes antigas, de madeira, lembravam o escritório da casa em que morara em outra vida, com sua avó e seus pais.
Seu pai nunca estava em casa, e sua mãe tinha tanto interesse por livros quanto um cervo por carne. Assim, o lugar estava sempre ocupado por Annie, entretida em suas pesquisas ou leituras por prazer. Muitas vezes Mavie sentara no colo da avó, quando criança, enquanto liam juntas histórias de fantasia e contos de fadas.
Entretanto, naquela noite, não foram livros sobre lendas e histórias ingênuas que a atraíram primeiramente. Berry notara um livro naquelas estantes. Encadernado em espiral. Em meio a tantos volumes planos e encapados, aquele tomo se destacava, parecia deslocado, fora do lugar.
Exatamente como ela se sentia.
Mavelle, curiosa, andou rápido até a prateleira onde ele estava. Puxou-o para baixo, uma vez que estava alguns centímetros acima de sua altura, e sentou-se a uma mesa grande de madeira que ali havia. Abriu o que era na verdade um caderno e leu a letra impressa, a página até um tanto amarelada, mostrando o quanto aquele exemplar era gasto.
“Canções country e folk da América”
Depois de três dias de tentativas falhas de adaptação naquela comunidade, Mavie finalmente sorriu. Abriu a primeira página e passou a ler e estudar a canção que ali havia, já pensando se haveria um violão naquele lugar, quando a porta da biblioteca se abriu.
Daryl Dixon entrara no recinto, carregando consigo a balestra em seus ombros, sempre a postos, mesmo naquele território aludidamente seguro.
Se Mavie havia acabado de se sentir a vontade, aquilo tudo se transformara no mais imediato e intenso desconforto no mesmo momento. As mesmas emoções controversas e confusas ameaçavam tomar-lhe por completo, em um milésimo de segundo, apenas pela súbita aparição dele. Especialmente ali, onde ambos estavam sozinhos, e ela não tinha para onde fugir.
– Mas que inferno você quer?! – perguntou Mavie, incapaz de se controlar, levantando-se da cadeira. Estranhamente, uma espécie de choro já lhe subia a garganta. Por que reagia de forma tão irracional quando estava perto dele? Por que ele tinha de insistir em importuná-la, quando na companhia dele era quando ela sentia tudo... Sem poder evitar?
– Você não está bem – respondeu Daryl depois de um tempo, sua voz rouca saindo esquisita, como se ele quisesse medir as palavras. – Então... – ele iria continuar, mas ela finalmente descompensou.
– E O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO?! – Mavie gritou agudo, para logo depois fechar os olhos, levando as mãos aos cabelos. Seus dedos perpassaram seus fios nervosamente, enquanto ela levantava outra vez o rosto e o encarava, controlando as lágrimas. Parecia uma maluca, daquele jeito.
– Pelo amor de Deus, garota – retrucou Daryl, agora impaciente e irritadiço. – Você é melhor do que isso – afirmou ele, encarando-a com um olhar que Mavie julgou... Diferente.
– E você acha que me conhece, camarada? – disse a garota irlandesa, cruzando os braços. – O que você quer de mim?! – repetiu, forçando um tom controlado a voz, por sua vez aguda e inconstante.
– Conheço o suficiente. Quero que pare com esse drama todo. Pare de sentir pena de si mesma. Isso não é você. Você é melhor do que isso. Todo mundo aqui se fodeu, e não ficamos nos lamentando pelos cantos e fugindo dos outros – asseverou o arqueiro, ainda parado à porta de entrada principal, metros longe dela.
– Grand!* Pena de mim mesma?! – Mavelle redarguiu, indignada. – Eu me preocupo comigo, sim, e com a minha avó, e com Peggy! Se não fosse por mim, elas teriam morrido. Se eu não me adaptar... Elas precisam de mim! Eu podia cuidar delas no Aquário, onde tínhamos tudo, onde eu sabia que nada aconteceria... Até vocês chegarem! – retorquiu Mavie, aproximando-se do arqueiro, com raiva.
– Não comece a falar merda. Ninguém “chegou” lá. Vocês nos levaram para lá sem pedir licença. Pra viver debaixo do teto de um velho maluco filho da puta que alimentava tubarão com carne de gente e usava pessoas de cobaia! — foi a vez de Dixon responder raivoso. – Queriam que ficássemos como uns baba-ovos fodidos e obedecêssemos a tudo sem questionar? Esse merdinha que você obedecia sem reclamar matou o pai da menina que você quer tanto proteger. – Daryl apontou para Mavelle, irritado, também se aproximando.
– Será que você é um eejit** tão grande assim?! Isso não tem nada a ver com Jed! – Mavie soltou, já descontrolada. – Será que você não consegue entender o principal?! – ela falou, suas mãos tremendo. Queria ter seu arco naquele momento.
– É você que está ofendendo sua própria inteligência aqui – retrucou Daryl. – Como vai ajudar alguém se não pode ajudar a si mesma? Ingrata por estar viva, ingrata por todos que te ajudaram! – falou o arqueiro hipócrita.
– Ah, porque você realmente pode me julgar. – Mavelle deu mais um passo a frente, sua voz seca e sarcástica. – Com que cara-de-pau você me acusa de fugir dos outros e me lamentar? Você mal sabe dizer uma palavra, fica escondido naquela varanda o dia inteiro, você nem sequer... Nem sequer toma banho, porra! – respondeu Mavie, encarando Dixon com desprezo e emoções misturadas.
Daryl olhou para ela com feições esquisitas, franzindo as sobrancelhas. Subitamente, parecera uma criança sendo repreendida.
– Pelo menos eu tenho uma ideia do que está acontecendo – revidou o caçador, enquanto Mavie mais uma vez se impusera.
– Você não tem. Não tem ideia. – E enfim as lágrimas caíram. – Você não faz a menor ideia do porque eu não aguento mais ficar um minuto perto de você – ela falou, desconsolada. – E eu até salvei você na estrada daqueles camaradas com aquele menino. Eu matei para te ajudar!
– Eu salvei sua pele um milhão de vezes! E da sua avó, e daquela menina também! – retorquiu Dixon, como se não acreditasse no que ela estava falando.
– Isso não é uma competição! – Mavie disse nervosa, passando as mãos pelo rosto, secando as lágrimas que ainda desciam. – Será que não entende qual é o problema? Será que não é óbvio pra você que você me enganou?!
– Como eu poderia te contar aquelas coisas, você é maluca?! Como eu saberia que você iria entender? – Daryl ia contestar, impaciente, mencionando os planos de Rick e Carol, mas a arqueira continuou.
– Eu entenderia. Eu estava disposta. Eu estava do seu lado. Achei que tivesse deixado isso bem claro... Naquele dia. Naquele hotel. Você só não teve colhões para aceitar – concluiu o óbvio, seu queixo tremendo, enquanto ela tentava dar alguma dignidade à sua fala.
Daryl parecia desarmado, apesar da balestra que carregava consigo. Estava sem resposta. Ficou ali, parado, apenas encarando Mavelle, compreendendo o sentido daquela frase.
A irlandesa virou as costas, se afastando. – Deixe-me em paz – pediu ela, indo de encontro a outra porta em meio as estantes, longe da que Daryl estava próximo.
– Eu vim aqui para me desculpar – falou o arqueiro, subitamente. – Tudo o que fizemos no Aquário, fizemos para sobreviver. Mas eu não queria que... Tudo acabasse desse jeito. Ninguém queria – atestou Dixon, enquanto Mavie parou de andar, ainda de costas para ele.
– Eu deveria ter percebido antes – Daryl pareceu concluir o raciocínio, ele mesmo se afastando.
– Percebido o quê?! – Mavelle ainda não olhava para ele.
– Que você é da família também – Daryl Dixon afirmou, saindo da biblioteca, enquanto Mavie virou o rosto a tempo de vê-lo encarando-a de forma inenarravelmente significativa. No segundo seguinte, estava sozinha na biblioteca, novamente em silêncio. Acompanhada apenas do efeito daquele olhar.
Aquilo lhe confessou muito além do que toda aquela troca verbal de farpas.

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