Hunter's Instinct
19 Episódio 19 - Wild West Duel
Notas iniciais
– Rick! – Alguém batia com avidez na porta dos aposentos do policial. Com seus reflexos sempre aguçados, o xerife abriu os olhos no segundo em que ressoou a primeira batida. – Rick Grimes! – A voz ansiosa clamava por sua presença.
Levantando-se rapidamente, o homem pôs-se a vestir-se com as roupas que usara no dia anterior, jogadas em cima de uma cadeira ao lado de seu leito. Pronto já em segundos, Rick Grimes abriu a porta de seu quarto, já preparado para algo inusitado.
A fisionomia perplexa e angustiada de Buck se fez visível à uma fraca luz azulada daquele corredor do Aquário da Georgia. Grimes havia visto em seu relógio que o sol mal havia nascido, tendo sido repentinamente acordado por volta do horário que a aurora despontaria.
– O que aconteceu? – perguntou o policial, passando uma das mãos no rosto, concentrando-se em seu interlocutor.
Não esperava nada além de mentiras.
Mas não era apenas Jed capaz de fazer planos, dentro daquele Oceanário. Rick Grimes tinha tudo planejado, e sabia que seria bem sucedido.
– Algo muito ruim. Muito, muito ruim mesmo – confidenciou o cientista, respirando rápido, parecendo realmente aflito. – A esta hora da manhã, eu e Peggy fomos designados para despertar mais cedo e fazer a primeira verificação da concentração das hordas no estacionamento. Sabe como funciona. Descemos para o depósito no subsolo central, checamos se está tudo fechado, depois vamos até as partes externas que fazem fronteira com o estacionamento, e nos certificamos se está tudo bem fechado e resistente – Buck explicou o desnecessário, falando abobalhado sobre um dos métodos de garantir a segurança contra a possível invasão de errantes o qual Grimes já conhecia bem.
– E o que viram? – Rick insistiu, já saindo do repartimento onde dormia, e seguindo Buck, que já caminhava com ligeireza rumo ao destino que queria guia-lo.
– Alguns errantes conseguiram entrar por aquela pequena fresta que há nas portas do depósito, a qual tentávamos consertar recentemente – Buck esclareceu. – Cerca de quatro, apenas. Mas fomos surpreendidos completamente, abrimos a porta do compartimento e lá estavam eles. Por muito pouco não fui mordido. – O homem negro parecia apavorado.
– Quer que eu os ajude, então? – Rick questionou retoricamente.
– Bem... Bem, eu não sou realmente muito bom com essas questões físicas, e a Peggy é muito nova, inexperiente ainda... Mandamos ela de volta para a cama – ele tentou se justificar.
– Ela só ganhará experiência tentando – Grimes retrucou com frieza.
– É... Mas, bem, Jed sempre busca protege-la dessas tarefas mais... Perigosas... – Buck parecia um tanto constrangido.
– Não tem problema. Farei isso sem dificuldades – Rick fingiu solicitude.
– Ok, então só nos resta buscar o Dixon também – Buck acrescentou, mais controlado.
– Daryl? – Rick perguntou, agora ainda mais desconfiado. – Por que não um de vocês? – quis saber o policial.
– Ele já está acordado. Ele e Abraham, são os principais responsáveis pela solidificação dos novos muros externos... – o biólogo explanou sem dificuldades, e Rick manteve-se alerta.
Toda aquela conversa revelava uma enorme coincidência... Mas Rick Grimes já sabia como agiria para se preservar.
Assentindo em silêncio, como se concordasse com a explicação, Rick e Buck foram atrás de Daryl Dixon, descendo aos jardins no qual ele e Abraham já haviam iniciado a construção dos muros, com ajuda de Dakota. Lepidamente esclareceram o ocorrido somente a ele, não querendo exaltar os ânimos dos outros dois presentes.
Assim, o trio voltou ao edifício do Aquário da Georgia, descendo as rampas e percorrendo os corredores até atingirem o ponto onde se localizava o depósito. Rick colou os ouvidos a parede adjacente, e pôde ouvir com facilidade o som gutural dos errantes se arrastando lá dentro daquela sala.
– Daryl, eu vou na frente. Você me dá cobertura. Cuidamos disso em poucos minutos – sentenciou o policial.
O arqueiro apenas meneou a cabeça em afirmativa, mas Buck levantou uma das mãos, como se quisesse interrompê-los por um momento.
– Por via das dúvidas – sugeriu o biólogo, entregando-lhes duas pistolas cada um. Rick reparou que, assim que ele moveu o jaleco para fazê-lo, escondidos em um dos bolsos internos da vestimenta haviam cerca de dois revólveres. O xerife soltou a trava e confirmou que sua arma estava carregada, enquanto Dixon fazia o mesmo com a que recebera.
Rick Grimes olhou para Daryl Dixon, em um sinal silencioso que ele soube que o amigo compreendera.
– Dê-nos duas facas também – pediu Rick. – Por via das dúvidas – falou ele com ironia que sabia que Buck não entendera.
O cientista fez o que lhe foi requisitado, parecendo um pouco mais reticente neste ato. Rick Grimes sabia muito bem a razão.
Logo em seguida, ele e Daryl abriram a porta do depósito, fechando-a com rapidez assim que entraram no repartimento. Os errantes moveram seus rostos e corpos pútridos na direção de ambos com o máximo de velocidade que tinham, e tanto o arqueiro quanto o policial dividiram cada qual o número de oponentes para dois alvos cada um.
Dixon matou dois errantes vestidos como civis comuns, apunhalando seus crânios decompostos, movendo-se com destreza enquanto atacava. Nenhum dos dois usaria as armas que lhes foram entregues, conforme já haviam combinado anteriormente.
Sobrara para Rick o que ele imaginara que iria enfrentar.
Assim que matou um errante vestido com roupas ordinárias, o policial reparou bem nas sombras e estampa do uniforme do errante restante. De cores terrosas, de um verde amarelado e marrom, ali estava um errante que um dia fora algum tipo de membro do exército.
E ele entendera em completude o que Buck e Jed pretendiam.
Rick Grimes moveu-se com habilidade, evitando que o errante se movimentasse bruscamente, cercando-o antes que o mesmo pudesse se voltar contra ele. Enfiou a faca curta e pouco afiada que Buck lhe emprestara fundo no cérebro do morto-vivo, fazendo-o cair em seus braços.
– Vamos revistá-lo – Rick sussurrou para Daryl, que assentiu rapidamente.
Antes que Buck pudesse abrir a porta, atônito por ver que fora descoberto, Grimes e Dixon já haviam feito a vistoria necessária. Em segundos, encontraram o que havia escondido nas roupas do errante, em um bolso interno.
Com o timer já contando, fios improvisadamente entrelaçados, e um cheiro forte de produtos químicos, a bomba que Carol denunciara ali estava, pronta para explodir a qualquer disparo sensível de pólvora ou movimento ríspido que fizesse o errante dispará-la em consequência. As paredes de metal pesado do depósito aguentariam a pequena explosão, ainda que pudessem danificar talvez parte das portas externas ao lado do estacionamento.
E eis que o plano de Jed e Buck para se livrar simultaneamente de Rick e Daryl se fez claro: esconder o dispositivo em um errante vestido como um soldado, pois, quando o explosivo fosse disparado, todos imaginariam que por um imprevisto Grimes e Dixon haviam detonado uma granada portada por um errante que antes fora um homem do exército.
Assim, petrificado, perceptivelmente incrédulo por ver que o plano de Jed falhara, Buck continuara parado estático onde estava.
– É melhor você não se mexer – Daryl ameaçou, aproximando-se do biólogo marinho com a faca em punho. – Se Rick não conseguir desativá-la, é você que vai fazer isso – demandou o arqueiro, sua faca aproximando-se perigosamente do pescoço de Buck. O cientista, um covarde, jamais teria coragem de entrar em uma luta física contra o caçador, muito mais forte e habilidoso.
E sabia muito bem os perigos de disparar um tiro na presença daquela bomba.
Rick, concentrando-se ao máximo que podia, limpou um filete de suor frio que descera por sua testa. Já fizera aquilo antes, em outras oportunidades cuidara de casos de projetos de terroristas na cidade em que atuava. Nos EUA, aquilo não era um acontecimento tão raro. Muitos idiotas gostavam de criar bombas caseiras para explodir carros ou até se livrar de desafetos.
Mas ele sabia. Qualquer movimento em falso e poderia dispará-la sem querer.
– É o fio verde que conduz o agente explosivo? – perguntou Rick para Buck, olhando-o com seu olhar mais gélido.
O cientista não respondeu. Daryl aproximou a faca ainda mais de seu pescoço.
– Eu fiz uma pergunta. É melhor responder – Grimes exigiu, enquanto o biólogo marinho apenas olhava para os dois, fingindo o melhor que podia sua falsa inocência.
Buck fechou os olhos, tremendo de medo. Era uma situação quase patética, mas Rick já sabia como agir.
– É melhor que seja, ou você vai explodir conosco. – O policial cortou o fio, ao passo que Buck abriu seus olhos, arregalando-os de pavor. Quando viu que a lâmina portada por Grimes atingia mesmo o fio verde, seus olhos pareceram mostrar o alívio que ele não queria transparecer.
Rick realmente desativara a bomba. O timer parara de contar, estacionando no número 25:46. Assim, o policial guardou no bolso de sua própria jaqueta a bomba caseira, enquanto Daryl apontava sua pistola para Buck. Rick também manteve a mira por todo o tempo, enquanto o cientista, por sua vez, sequer se movimentou.
– É melhor você ficar aqui por alguns momentos. Só durante o tempo suficiente para mostrar ao seu chefe que já entendemos o que ele pretende – Rick falou com frieza inenarrável. Buck apenas engoliu em seco, sem saber como reagir. Sabia que se desse um passo, levaria uma facada. E não ousaria atirar neles, assim como não o fariam os dois amigos. O risco da pólvora ainda despertar uma reação na bomba era possível.
Determinados, Rick e Daryl seguiram até o primeiro andar, subindo as rampas. Aquela era a hora do confronto com Jed, estavam armados, e poderiam, naquele mesmo dia, tomar o controle do Oceanário.
Se as coisas não tivessem destoado um pouco do que planejaram.
Já no primeiro andar, Grimes e Dixon foram surpreendidos por presenças inesperadas naquela hora matutina. Como se os estivessem esperando escondidos no corredor, Jed, Annie, Haywood e Dakota se aproximaram, praticamente saídos das sombras.
Nem o policial nem o arqueiro conseguiram esconder suas armas a tempo.
– O que aconteceu, Rick? – indagou Jed em seu tom de falsa cortesia.
O xerife sabia que o idoso, de alguma forma, descobrira o que acontecera. E se antecipara.
Não poderia correr o risco de começar um tiroteio ali. Eles eram quatro, mais bem armados do que ele e Daryl. Literalmente o dobro de pessoas, e provavelmente de munição e armas.
– Encontramos errantes lá embaixo. Buck nos alertou – improvisou Rick, sabendo que Jed não confiava em sua mentira. Mas não sabia se os outros três compreendiam o que ali se passava.
– E nos entregou estas pistolas – o policial omitiu partes da verdade. Daryl não o encarou. Entendera que o amigo não tinha outra escolha.
– Certo... Como eu havia pedido. Mas é curioso como não ouvimos nenhum som de disparos – comentou Jed como se falasse de uma curiosidade boba qualquer.
– As facas foram o suficiente – revidou Rick, mostrando-lhe sua lâmina, esta sim já bem guardada.
Por um segundo, uma sombra de fúria perpassou os olhos escuros do idoso. Entretanto, no momento seguinte, ela já havia sumido.
– É melhor nos devolver nosso material, então – pediu Jed com gentileza forçada.
Daryl e Rick se entreolharam rapidamente, e fizeram o que o líder do Oceanário ordenara implicitamente. Passaram-lhe tanto suas facas quanto pistolas, e o idoso prontamente as entregou para Annie, que saiu para guarda-las no depósito de armas, local onde nenhum dos antigos membros do grupo de Rick Grimes tinha liberdade para entrar.
– Tudo está bem quando termina bem, não é mesmo? Estou certo de que Buck está lá embaixo se fazendo útil, limpando a bagunça – falou com cortesia o idoso sardento, dando aos dois um de seus melhores sorrisos. – Vamos todos voltar ao trabalho então – ordenou o chefe do Aquário da Georgia, ao passo que Dakota e Haywood obedeceram-lhe no mesmo instante. Rick e Daryl ainda passaram algum tempo encarando o idoso, que apenas lhes sorria de volta, com polidez.
– Acho que vocês têm alguns cadáveres para dar de comer aos tubarões – sugeriu o idoso, e Rick percebeu outra insinuação na frase.
Talvez quisesse dar a entender que o melhor que Rick poderia fazer era jogar a bomba desativada para seu fim junto ao azul profundo do Aquário, e fingir que aquilo tudo jamais acontecera.
*****
Mavie estava envolta com um dos trabalhos que mais desprezava dentro da vasta gama de atividades internas do Oceanário de Atlanta: consertar vazamentos de pias.
Praticamente deitada debaixo de um balcão onde havia o encanamento da pia mais usada da cozinha do Aquário da Georgia, ela começara o seu dia cedo, sem café da manhã, reparando aquele cano velho e bolorento. Para quem estava acostumada a caçar, estripar animais e matar “Frankies”, aquilo não era grande coisa no quesito relativo à possível repulsa, mas sim no quanto era frustrante e entediante.
Por mais que se esforçasse para acertar o encaixe do encanamento quebrado, ela simplesmente não tinha muito jeito para aquela tarefa. Desencaixava o cano inúmeras vezes, o que a fazia ficar molhada pela água mal filtrada e entupida que a atingia sem sobreaviso.
Xingando o encanamento de todos os palavrões que lembrara, ela foi surpreendida com mãos puxando-a pelos tornozelos, arrastando suas calças pelo chão, obrigando-a a afastar seus olhos do cano com o qual se digladiava com afinco.
– What the feck?! – exclamou a irlandesa, forçando o olhar para ver quem a puxara daquela forma. Já começara a se erguer do chão, apoiando-se em seus cotovelos, mas a pessoa que a surpreendera já estava acocorada ao seu lado, retirando de suas mãos a ferramenta que usava para reparar o cano.
– Deixa que eu resolvo esse trem – decidiu Billy Ray sem o consentimento de Mavie, já movendo a ferramenta com habilidade inegável para encaixar novamente o cano relativamente solto.
– E por acaso eu pedi ajuda? Aliás, o que você está fazendo aqui, capiau? – perguntou Mavelle, surpresa e um pouco indignada com o amigo.
– Não tenho nada para fazer até as oito da manhã – disse ele, seus olhos não se movendo do cano, como se aquilo servisse de resposta. A jovem moça reparou que o amigo tinha um estranho cheiro de bebida alcóolica destilada junto à sua camisa, mas resolveu não perguntar a respeito.
– E por isso resolve tomar as minhas tarefas?! – Mavie Berry falou, incrédula e revoltada. – Seu maluco, essa sua super-proteção está saindo do controle! – continuou a garota morena, dando um leve empurrão no ombro do amigo. Billy continuou calado, enquanto Mavie fazia esforços inúteis para recuperar a ferramenta e continuar o conserto. Ele ignorou solenemente seus apelos, tanto os físicos quanto os verbais.
Depois de muitos minutos e várias tentativas, Billy terminou o conserto. Mas Mavelle reparava no quanto ele estava estranho. Taciturno. Sério. Depois de uma brincadeira e piada de Mavie, ele sempre arrefecia, abrandava seu estado de espírito.
Mas não dessa vez, pela primeira vez desde quando haviam se tornado amigos.
– Que bicho te mordeu, hein, caipirão?! – questionou a irlandesa, tocando de leve no ombro do amigo. Billy apenas se levantou do chão, enquanto a garota fazia o mesmo. Em seguida, ela viu subitamente o sulista do Alabama jogando a ferramenta do reparo com violência desnecessária dentro da pia. Mavie soltou uma exclamação de reprimenda, mas se calou assim que viu a expressão inédita que havia nos olhos do homem junto a si.
– “Caipirão”... – retrucou Billy Ray, aproximando-se um passo de Mavie. Parecia estranhamente ameaçador. – Você fala com deboche, mas, na verdade, gosta mesmo de um caipira, não é? – falou ele com um desprezo evidente.
– O quê? – Mavie só pôde perguntar. Mas, no mesmo instante, entendera do que se tratava. Fez o melhor que pôde para não engolir em seco. Aquilo não deveria ter sido descoberto tão cedo... Não assim.
– Não se faça de sonsa que eu te conheço, menina. Ou achava que conhecia. – O desprezo na voz do sulista dos EUA apenas aumentava. Mavie retrocedeu um passo, enquanto Billy avançava mais uma vez. Ela pôde sentir que seu hálito fedia a gim vagabundo.
– Eu vi você se atracando com... – Billy Ray falou com dificuldades, como se quisesse engolir a menção que faria. — ...Com aquele traste, aquele filho da puta disgramado – Billy xingou Daryl com um ódio implacável que Mavie jamais tinha visto antes, proferido pelo amigo – eu sempre soube que você não tinha juízo, “tome tento, menina, tome tento”, é o que eu sempre disse... – Billy falava frases inteiras de forma desconexa, e agora já segurava Mavelle pelos braços, que, surpresa, apenas tentou se desvencilhar de suas mãos fortes.
– ...Mas não, você nunca quis me ouvir... Você nunca... Você nunca me quis, menina, e por quê? O que aquele merdinha, aquela desgraça que Jed colocou dentro desse Aquário, um zé ninguém, um cretino fodido... A merda de um caipira – falou Billy, e sua voz agora mostrava uma dor clara, como se as palavras que dissesse saíssem do fundo de seu âmago, fossem confissões que nunca quisesse revelar – um caipira, um caipira perdido na vida tem, que eu não tenho? – fez Billy Ray a pergunta como se ela o ferisse profundamente.
Atônita, sem saber como reagir diante de tantas informações, Mavie Berry não sabia sequer o que responder. Ela desconfiava, há pouco tempo, que Billy pudesse nutrir secretamente algum tipo de sentimento por ela. Mas o amigo nunca havia manifestado antes... Ele costumava trata-la como se fosse sua filha, uma parente quase, alguém que se importava muito mas não tivesse intenção alguma nesse sentido.
Pelo visto, a presença de Daryl e o que ele despertava na irlandesa... Foram demais para ele conseguir esconder seus verdadeiros intuitos para com Mavie.
As mãos de Billy começavam a machuca-la. Ele apertava com força desmedida seus braços, tentando evitar que ela se soltasse, como se aquilo pudesse impedi-la de agir como ela agia, pensar como pensava... Sentir como sentia.
– Billy, você está me machucando. Me solta agora – exigiu a garota.
– Por quê? Por que você só não me dá uma chance... – Billy Ray agora parecia suplicar, ao passo que não pretendia libertar Mavelle tão cedo. Estava de fato fora de si, seus olhos molhados de lágrimas, uma visão ao mesmo tempo comovente como deprimente.
– Me solta agora! – Mavie repetiu, mas Billy fez o contrário.
Enquanto tentava se soltar do aperto das mãos do caipira do Alabama, o homem se aproximou da irlandesa, puxando-a para si e beijando-a à força. Mavie tentou mover o rosto para o lado para evitar, completamente contrariada com a situação, mas Billy era mais forte, e a empurrou contra o balcão, machucando parte de suas costas com o baque ríspido. A barba e bigode do antes amigo de Mavelle quase machucavam seu rosto, tentando beijá-la com um afã inexorável, como se pretendesse devorar seus lábios.
Depois de tentar se libertar por meio da força física e ser sobrepujada, Mavie sabia que só havia uma forma de se livrar daquilo. Fingiu, por instantes, corresponder ao ataque de Billy, parando de se debater e fazendo uma falsa retribuição ao beijo. Seu queixo pendeu delicadamente, dando espaço para que o homem conseguisse o que queria com sua boca. Assim que percebeu que o sulista do Alabama, surpreso, soltou por alguns segundos o aperto que a mantinha presa contra si, Mavelle reagiu de imediato. Deu-lhe um soco com toda a força que pôde reunir nas costelas esquerdas, fazendo Billy curvar-se e levar as mãos contra a parte do corpo ferida.
No segundo seguinte, Mavie já estava a postos, retirando do apoio de suas calças a arma bobcat que tinha. Destravou-a, e apontou-a em cheio para o rosto do amigo.
Agora era ela quem tinha o rosto repleto de lágrimas.
– Nunca mais toque em mim outra vez – falou Mavelle Berry, e suas palavras soaram firmes, apesar do choro que já descia em seu rosto, pelo abuso e pela violência repelida justamente por alguém que ela considerava ser seu grande amigo.
– Menina... – tentou Billy Ray, levantando as mãos em uma posição de rendição, e ela percebia que ele estava arrependido. Havia saído de si, havia entrado em algum surto. Mas Mavie não o perdoaria tão fácil, nem tão rápido.
– Não sou sua “menina” – disse com assertividade Mavie, e agora ela era quem tinha desprezo em sua voz.
Andando de ré para a porta da cozinha, Mavelle continuou apontando a arma para Billy por todo o tempo, até enfim sair pelas portas de empurrar. Deixou sozinho um confuso, contrito e totalmente atormentado homem que um dia julgara ser seu amigo, e que acreditara antigamente que a respeitaria sempre.
*****
Cerca de quase uma hora havia se passado desde que Jed flagrara Rick e Daryl portando as armas e frustrara os planos do policial.
Naquele momento, o antes líder do grupo dos novatos do Aquário da Georgia e o arqueiro levavam o último cadáver em direção a abertura retangular no chão de um dos compartimentos do Aquário, naquela tarefa no mínimo tétrica de alimentar os tubarões com carne de algo que um dia já fora um ser humano. Havia deixado sua jaqueta na qual escondera a bomba desativada atrás da alavanca que abria o buraco que os separava dos tubarões literalmente abaixo daquele compartimento. Sabia que, portando aquele dispositivo, era perigoso fazer movimentos bruscos.
– Onde está ele? – Ouviram ambos os gritos de uma voz conhecida e anasalada, em um sotaque típico de um dos estados vizinho a Georgia, de súbito. – Onde está aquele filho da puta?! – A voz soava cortante, quase um latido, proferida a curta distância.
Daryl e Rick mal haviam acabado de jogar o último cadáver de errante para os tubarões, quando Billy Ray e Maggie desembestaram para dentro daquele repartimento do Aquário, a porta quase sendo quebrada pela força com que o caipira do Alabama a havia empurrado.
Rick, mais próximo do centro da sala, e Daryl, quase debruçado na direção da água onde nadavam os tubarões, no mesmo instante mudaram sua própria postura, adotando um porte de defesa.
– Billy, calma, se controle! – gritou também Maggie Greene, seus olhos verdes muito arregalados em preocupação.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou Rick Grimes, andando rapidamente na direção de Billy. A resposta imediata do caipira, um homem também habilidoso no combate físico, foi um soco certeiro no nariz do policial. Inevitavelmente, o xerife levou a mão a parte do rosto ferida, ficando rapidamente distraído pela dor excruciante de uma pancada forte como aquela.
No segundo em que recobrou a concentração, ele quase temeu que fora tarde demais.
Mais rápido do que Rick imaginara, Daryl se jogara como um touro na direção de Billy Ray, e Rick Grimes desconfiou por um segundo que seu amigo já ansiara por aquele enfrentamento há algum tempo.
Em um frenesi violento, os dois caipiras lutavam com os próprios punhos, Daryl Dixon primeiramente na vantagem, desferindo potentes socos no rosto do sulista do Alabama, que por sua vez conseguiu achar uma brecha para agarrar seu pescoço e tentar estrangulá-lo com a força das mãos.
Rick fazia o seu melhor para separar os dois homens que pareciam querer se digladiar até a morte, arrastando-se pelo chão em meio a golpes diversos, o rosto de Billy já inchado e sangrando em alguns pontos por conta dos socos e golpes de Dixon, e as mãos de Daryl também feridas e sanguinolentas pelo esforço do combate. Sem armas, seria difícil pará-los, e ele não conseguia chegar perto o suficiente para retirar uma das armas que Billy portava consigo.
Maggie, a um sinal certeiro de Rick Grimes, correra na direção da alavanca que a permitiria fechar o buraco no chão perigosamente próximo da luta que ocorria entre os dois homens. Ela já estava a meio caminho de fechá-lo, enquanto Daryl, agora parecendo perder a vantagem, se esforçava para quebrar os braços de Billy Ray, que já estava próximo de quebrar seu pescoço.
A cabeça de Daryl Dixon estava perigosamente perto do tanque dos tubarões, seus cabelos compridos já tocando o líquido. Acima da água, Rick pôde ver uma barbatana de um tubarão branco se aproximando, curioso para ver o que era aquilo flutuando acima da superfície da água, perigando cair dentro do tanque.
Rick Grimes conseguiu puxar Billy Ray para longe com muito esforço, puxando-o pelo pescoço em um “mata-leão” bem dado. No mesmo instante, o buraco do chão se fechou, restando a Rick um último relance de visão dos dentes de um tubarão que quase abocanharam a cabeça de Daryl, que moveu-se de forma a evitar aquele terrível fim no último momento.
Assim que Daryl se recuperara, cuspindo no chão e tossindo múltiplas vezes, Rick ainda segurava um arfante e enlouquecido de fúria Billy Ray pelo pescoço. Logo em seguida, a porta daquele repartimento se abriu, revelando, dessa vez, a chegada de Jed e Annie.
– Billy Ray. Vá agora com Annie tratar desses machucados – o líder do Oceanário ordenou, não mais fingindo cortesia. Rick soltou o sulista do Alabama pelo pescoço, que passou a tossir e respirar fundo para se recuperar. Grimes se levantou, enquanto Daryl apenas olhou para Annie e Jed com o melhor olhar apático e desinteressado que poderia lançar-lhes. Maggie, assustada, ainda segurava com firmeza a alavanca que empurrara anteriormente.
– Rick, preciso falar com você – o idoso disse ao policial, no mesmo tom de ordem.
– Acho uma boa ideia – concordou Grimes, com ironia contida.
Assim que ambos saíram daquela sala, depois de Annie levar, parecendo ela mesma muito desagradada e contrariada, Billy Ray para a ala médica, Rick viu que do lado de fora grande parte dos habitantes do Aquário aguardavam. Rosita, Abraham, Tara, Eugene, Sasha, Glenn – que chegara pelo corredor naquele instante e correu na mesma hora para ver se Maggie estava bem –, Carl com Judith nos braços, Michonne, Dakota, Haywood, Peggy e até mesmo Carol ali estavam, todos compartilhando a mesma expressão de curiosidade e espanto, cada qual com a própria fisionomia.
Rick e Carol trocaram um olhar cúmplice, e ela fez ao policial um meneio de cabeça quase imperceptível.
Era chegada a hora de confrontar Jed. Os ânimos do Oceanário de Atlanta, de ambos os lados, já estavam exaltados demais.
Subiram os dois para o escritório do idoso sardento, ao passo que o líder do Aquário da Georgia, assim que adentraram o recinto, fechou a porta atrás de si. Ofereceu a Rick uma cadeira para se sentar, assim como mais um gole do mesmo whiskey caríssimo que tentara lhe agraciar outra vez.
Depois de recusar a bebida sem maiores melindres, Rick Grimes foi direto ao ponto, ainda de pé, com Jed também em pé defronte a ele, atrás da escrivaninha.
– Eu sei o que você fez. O que você mandou Buck fazer. E eu sei o que você pretende. – Grimes retirou a bomba de dentro de sua jaqueta, que vestira antes de sair da sala na qual alimentara os tubarões. Mostrou-a para Jed, que apenas observou o objeto com cautela.
– Você não tem prova nenhuma – o idoso retrucou, não mais sorrindo, mas parecendo de fato inabalável. Rick não esperava por aquela reação.
– Você está louco? – perguntou Rick, franzindo as sobrancelhas e avançando para a escravinha. – Isso nas minhas mãos é o quê?! – Exibiu a bomba caseira mais uma vez.
– Uma sugestão. Não uma prova. Provas... São o que eu tenho. – Jed abriu uma de suas gavetas, retirando dela um notebook, já ligado. Abriu-o, teclou algo rapidamente, e mostrou a tela para Rick. Incrédulo e chocado, o policial viu o que o fez praticamente abandonar todas as suas esperanças.
Na tela do notebook, inúmeras câmeras mostravam um sistema de vigia muito bem elaborado do Oceanário de Atlanta. Rick podia ver Carol e Daryl conversando no corredor anexo à sala onde haviam alimentado os tubarões, Michonne, Carl e Judith, descendo até a cozinha, bem como Abraham já andando nos jardins externos do Oceanário, acompanhado de Rosita, Dakota e Haywood. Cerca de quarenta câmeras variavam entre vários pontos, corredores e salas diversos do Aquário da Georgia, com exceção dos quartos de dormir, banheiros, a ala médica e o laboratório, e outros poucos aposentos.
Em seguida, como se não bastasse a surpreendente vigilância de Jed, o idoso pegou outro objeto de dentro da mesma gaveta. Um gravador, do tipo que ele usava em seu cargo de policial.
O líder do Oceanário de Atlanta apertou o botão para que a gravação tocasse. Rick Grimes ouviu, em alto e bom som:
“- Mas nós vamos fazer o que temos de fazer, e sobreviveremos para lutar mais um dia. – A voz de Rick foi reconhecida por ele mesmo, saindo do gravador. – Pois é assim que nós sobrevivemos. Nós vamos agir como precisarmos agir e fazer tudo o que tiver de ser feito, para, depois, vivermos. – Depois de uma breve pausa, sua voz continuou:
– Porque nós somos os mortos errantes.”
– Isso são provas – o idoso sardento falou com deboche claro, e Rick entendeu que ele tinha o início da gravação, no qual ele próprio falava do golpe que pretendia dar em Jed. – Eu sempre soube dos seus intuitos desde o começo, Rick Grimes. Mas não achei que fosse ser tão tolo de um dia concretizá-los. De contestar minha autoridade – o líder do Aquário o ameaçava claramente, dessa vez, suas duas mãos postas sobre a mesa, agora. O rosto idoso levemente tombado, mas seus olhos fixos nos olhos azuis do policial, que, mesmo atônito, se esforçava para não demonstrar emoção alguma.
– É melhor andar na linha, Rick Grimes. Ou seus dias por aqui terão um fim prematuro – o idoso garantiu.
Rick, por um momento sem reação, fez o que deveria ser feito, por via das dúvidas. Desmontou a bomba na maior parte de pedaços que conseguiu, tendo certeza que aquele dispositivo jamais viria a explodir.
Sem resposta para o que de fato não havia como se responder, ele voltou as costas para Jed. E agora? O que faria? Como poderia superar Jed, que parecia estar sempre um passo a frente?
– Continue se provando útil, Rick. E talvez eu possa perdoar esse... Deslize – o idoso sardento se fingiu misericordioso. – Mas não se esqueça nunca. – Jed parou por alguns segundos, para continuar depois. Ele e Rick Grimes se encararam por todo o tempo.
– Eu sou o chefe – Jed disse a última palavra, e o perigo evidente em sua frase se fazia gritante em todas as sílabas.

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