Hunter's Instinct

84 Episódio 84 - Self Made


Notas iniciais
BOA TARDE MINHA GENTE AMADA! Como estão vocês? Tem um tempinho que não atualizo a fanfic. Vocês sabem que se eu ganhasse dinheiro com isso e esse fosse meu sustento eu provavelmente atualizaria esta história e outras no mínimo duas vezes por semana, auhsushus! Mas, infelizmente, eu não posso colocar a escrita por hobby na minha lista de prioridades. De qualquer jeito, estou sempre tentando aparecer por aqui o mais cedo possível com capítulos de qualidade. Esse, em especial, vem cheio de poder feminino, em homenagem a essa data especial que é o nosso oito de março. Não poderia deixar passar em branco. São três POVs de três personagens mulheres. Cada uma delas é BEM diferente uma da outra, e a escolha foi proposital, para explorar justamente o quanto podemos ser empoderadas com escolhas e maneiras diferentes de viver. Será um "episódio" que vai misturar desenvolvimento de personagens, diálogos intensos, reflexões, desdobramentos da história e momentos emocionantes. Se preparem para refletir, sentir e ficar "ownnn" em alguns pontos hahahaha! Como eu falei, a partir de agora não é mais "só sofrimento", a resistência já se alinhou e está se movendo. O próximo provavelmente será mais focado em ação e suspense. Quero agradecer as lindas leitoras comentaristas do capítulo passado: Dixon Girl, Mirah, Arriba, Sami, marcelammota, Kayle Ammany, AustenGirl e Babi Prongs (que sempre faz seus comentários por áudios de whatsapp). Estou feliz de ver que a Kanonzinha e a Anna L também voltaram pra história =) em breve espero que vocês se atualizem com tudo, meninas! Em suma, dedico esse capítulo a todas as minhas leitoras mulheres. Juntas somos mais fortes! Edit: Aproveito pra fazer propaganda de outro projeto meu. Eu coloquei na aba "Vikings" aqui do nyah, mas não é necessário assistir a série para entender a história, que é quase 100% original. Eu uso alguns personagens da série e dados do seriado, mas abordo um período de tempo, culturas e história que o seriado não abordou. Ou seja, é quase uma fic original de fantasia medieval. Vou falar de cultura nórdica, celta, saxã, tretas na Idade Média, machismo, bruxaria, misoginia, sororidade e empoderamento feminino. Segue o link pros interessados: https://fanfiction.com.br/historia/726114/Season_of_the_Witch/ Beijos e boa leitura!

O solado das botas martelava o piso de madeira, ao passo que ela se movia de um lado ao outro, perscrutando cada milímetro do quarto.

Puxou o rabo de cavalo centímetros acima de onde estava preso antes. Rangia os dentes sem nem perceber, ansiosa para conseguir encontrar o que buscava. A irritação que ela sentia cada vez mais intensa nos últimos dias lhe subia pelo peito, a obrigando a parar, abaixar os ombros e respirar fundo.

Abriu a cômoda dos aposentos de Eugene. Remexeu nas roupas, as jogando todas em cima da cama, mas logo bufou, desistindo daquela tática. Está fazendo errado. Ele não pensa assim, conjecturou Rosita Espinosa.

Eugene Porter era um professor de ciências e, depois do fim do mundo como antes o conheciam, terminara por ser o mais próximo de um cientista, quase um alquimista. Na falta de recursos, era sua melhor opção.

Pense como ele. Pense como ele. Repetia a latina, fazendo esforço para imaginar onde o amigo poderia ter decidido esconder o objeto que procurava.

Ela sabia que Eugene, apesar de facilmente amedrontável, era também muito esperto. Gostava de assumir um estereótipo que combinava com si próprio — o de nerd esquisito —, conseguindo enganar por muito tempo a latina, Abraham e outros, fingindo fazer parte de um projeto ultrassecreto do governo norte-americano.

Não colocaria em um lugar comum... Rosita elucubrou em sua mente, coçando a sobrancelha com um dedo mindinho. De súbito, elevou o queixo. A ideia surgira sem aviso enquanto esquentava a cabeça pensando. Torceu para estar certa.

A jovem mulher latina quase marchou até a mesa de cabeceira. Puxou a gaveta até o final. Não viu nada. Soltou um suspiro exasperado, mas não desistiu. Coçou a nuca, e logo depois, pôs mais força na tentativa de puxar a gaveta. Nada de novo.

A garota de ascendência mexicana deitou de costas no chão, olhando por baixo da gaveta de madeira. Pegou uma caneta que havia em cima de um bloco de notas depositado na mesma mesa, para em seguida cutucar o tampo do fundo. Depois de algumas batidas, ela escutou o som que lhe pareceu o de um caça-níquel liberando dinheiro.

Algo cilíndrico quicou aos fundos da gaveta. Tinha um fundo falso, e lá estava o tesouro que ela almejava encontrar.

A jovem morena sentou no chão, após se ajeitar defronte ao móvel investigado. Puxou a gaveta de novo, dessa vez de uma maneira diferente. Levantando o puxador. A gaveta se moveu até o final, revelando por trás da parede dos fundos um pequeno espaço escondido.

E ali, um único projétil escorregava.

Rosita pôs os dedos em volta da bala e a segurou entre as duas mãos, um sorriso enorme se formando em seu rosto. A sensação foi estranha. Não movia aqueles músculos há algum tempo. Deu-se conta de que não sorria há dias.

— Eu chamaria isso de invasão de privacidade e quase vilipêndio, mas suponho que você tenha um bom motivo para estar aqui.

A voz arrastada de Eugene Porter se fez ouvir da porta aberta. Ele se aproximara sem que a jovem latina percebesse, no afã de encontrar o projétil.

Rosita Espinosa virou o rosto rápido, ainda sentada no chão. Ergueu-se sem pressa, fitando o amigo com as sobrancelhas franzidas de leve.

— Um excelente motivo. Alguém tem que fazer alguma coisa, já que ninguém aqui se movimenta para mierda nenhuma — respondeu grossa, sua voz soando seca. Enquanto falava, apontava em um gesto petulante na direção da janela, querendo indicar os outros alexandrinos e seu líder, Rick Grimes.

— Passamos a tarde inteira especulando novos locais de buscas. Vamos ter de sair do estado se quisermos achar algo para Negan. Rick, Michonne e outros já saíram nessa coleta — o professor de ciências parecia querer se justificar. A voz mansa dele apenas irritava mais a garota morena.

— Isso significa não fazer merda nenhuma — ressaltou, cruzando os braços e apoiando o peso do corpo na perna direita.

— Rosie... — Eugene abaixou ainda mais o tom, e ela quase bateu um dos pés no chão, repleta de fúria. Fechou as mãos em punho e o interrompeu.

— Não me chame assim — enfatizou, entre dentes. Abraham Ford era quem mais a chamava por aquele apelido carinhoso e íntimo. E, se seu namorado estava morto, aquele apelido deveria ser enterrado com ele também.

— Perdoe-me — Porter logo se retratou, e ela apenas coçou a testa, meneando o rosto, já sem paciência para aquela conversa sem sentido.

— Olha só, apenas poupe meu tempo: além dessa — Espinosa mostrou o projétil que tirou da gaveta do amigo, e o homem apenas arqueou as sobrancelhas. — Você realmente só guardou uma das balas da “fornada-teste”? — interpelou-o. O professor de ciências escrespou os lábios. Não estava gostando do rumo da conversa, era perceptível.

— Não. E gostaria que me devolvesse esta, por favor. — Estendeu uma das mãos. Rosita fez menção de caminhar até ele com o projétil entre os dedos. Eugene lhe deu um olhar surpreso, e ela o respondeu com um sorriso debochado.

— Eu já falei: se ninguém vai fazer nada, eu cansei de esperar por vocês. Não faz mal. Eu só preciso de uma bala mesmo — assegurou, determinada de uma forma até mesmo arrogante.

— Rosita, se a sua tentativa falhar, você vai se arrepender. Ele não se vingará só de você. Você é jovem, e, com o perdão do atrevimento, muito atraente. Ele vai querer te fazer se sentir culpada. E tentará usar a sua intempestividade contra você — aconselhou-a com seus modos pomposos e exagerados. Sabia que ela pretendia atirar em Negan.

— É por isso que eu não vou falhar. Nós perdemos muito com aquela maldita japonesa. E eu jamais vou aceitar comer na mão de um cabrón branco azedo de merda. Nunca! — esbravejou, quase rugindo em uma exclamação final.

Bateu ombro contra ombro com Eugene, saindo porta afora sem lhe dar mais olhar algum.

Enquanto saía da casa que dividiam, uma lembrança de tristeza cortante se intrometeu em seus pensamentos, fazendo ela sentir como se perfurassem seu peito com uma lâmina fina e profunda.

“— Chica*, você é durona mesmo. Eu conheço o sangue latino, mas não conhecia a garra das mulheres latinas!”

A voz retumbante de Abe reverberou em sua mente, clara como se revivesse aquelas memórias. Sua garganta pareceu se apertar, e ela respirou fundo, sem conseguir se aliviar. Engoliu ar com dificuldades.

O quanto ela amou Abraham. Rosita não conseguia nem medir. Não tinha sequer consciência de que ele era tão importante assim para ela, até o momento em que o perdeu. E pensar que seus últimos momentos juntos tinham sido tão ruins. Ela desconfiava de suas interações com Sasha, algo em sua intuição lhe dizia que ele não estava mais satisfeito consigo como antigamente. Viviam brigando, e, numa mudança imprevisível do destino, o tipo de reviravolta sangrenta que a guerra trazia... Ele fora assassinado por Hashimoto. Estripado, seus intestinos cortados para fora pela espada katana daquela mulher horrorosa.

A japonesa psicopata lhe trouxera uma dor que ela sabia que talvez jamais passasse. Os traumas que vivenciaram por culpa da loucura sádica da asiática sequer tinham sido administrados direito pelos sobreviventes, quando tropeçaram com Negan no meio do caminho. Um ditador ganancioso, megalomaníaco, que se achava o deus do novo mundo.

“— Escute muito bem o que eu vou te dizer: você não abaixa a cabeça para homem nenhum. Fui clara?”

Rosita se lembrou de sua mãe. Vivia se recordando dela com frequência, nos últimos tempos.

Sua mãe lhe dissera aquilo depois da filha a encontrar em casa, já maior de idade, em uma das visitas que lhe fizera. Quando o pai da latina se aposentara, passou a beber todos os dias. Era um homem machista que tratava sua esposa desde sempre como se fosse sua propriedade. Ficou violento, e descontava as frustrações da velhice em sua mulher.

Sua mãe não tinha forças para larga-lo. Fosse porque dependia da aposentadoria dele — viera como imigrante ilegal para os Estados Unidos, e nunca conseguira um emprego decente que lhe desse segurança financeira —, fosse porque se acostumara a ser maltratada. Mas ela sempre ensinou sua filha a não seguir seus passos.

No dia em que lhe dissera aquilo, fora o dia em que Rosita descobrira sobre a violência que a mãe sofria com aquela habitualidade medonha. Seu rosto estava cheio de arranhões mal cicatrizados, inchado, um dos olhos roxos. Vivia contando os clichês de que caíra para se sair com desculpas esfarrapas, colocava a culpa em sua labirintite, na idade, mas nunca no marido abusivo.

Ela tentou com todos os seus esforços convencer a mãe a dar queixa e a deixar o pai. Um dos irmãos de Rosita poderia lhe dar abrigo. Ela infelizmente não tinha como, dividia um quitinete com outra jovem em um dos bairros mais perigosos de sua cidade. Ao menos sua mãe tinha segurança, fora de casa.

Sua mãe não cedeu. Falou que não se incomodava, e segurou o rosto da filha com as duas mãos lhe dizendo aquelas palavras, aquelas ordens. Tinha desistido de si, mas não desistiria de sua menina.

E ela sabia que teria de honrar o sacrifício da mãe.

Se Rick, Michonne, Eugene, Gabriel e até Mavelle e Daryl desistiram de enfrentar aquele misógino autoritário, não seria ela a dar o braço a torcer. Preferia estar morta antes de assumir a mesma posição de rebanho obediente ao lobo que queria imolá-los vivos.

Colocou os dedos no cabo da pistola que tinha consigo. Tinha algumas missões de vigia até o final daquela noite, que já pintara o céu de um tom azul escuro. Deveriam ser por volta de oito horas, enquanto caminhava entretida com seus pensamentos dolorosos até ser interrompida pelo som de uma buzina conhecida. Outros ruídos se fizeram ouvir: pneus pesados rolando pela estrada, vozes masculinas em um coro animado, e o motor de algumas motocicletas.

Salvadores.

Rosita comprimiu os lábios espessos, chocada. O que eles estariam fazendo ali? A próxima coleta seria apenas na semana seguinte.

Por outro lado, aquilo poderia ser bom. Desejou, com ardência, que Negan estivesse entre eles. Colocaria seu plano em prática muito mais rápido do que pôde supor.

A jovem latina quase correu na direção da murada, aproveitando a distração pela chegada daquele grupo hostil. Subiu pela estrutura, a escalando com ligeireza, e logo tinha atravessado os limites do pequeno município de Alexandria.

Correu até a casa abandonada que ficava metros próxima da entrada principal. Era uma espécie de galpão que usavam como depósito de materiais que ninguém mais queria guardar, e lá conseguiu chegar desapercebida, se escondendo entre as sombras das árvores.

Entrou por uma janela que tinha vidraças quebradas, agradecendo pela limpeza de errantes que Gabriel e ela haviam feito mais cedo naquele dia. Sabia que a área estava segura.

A jovem mulher andou até uma das janelas frontais, se posicionando de maneira estratégica, para que tivesse uma boa visão lateral dos recém-chegados. Reconheceu o homem loiro de rosto deformado, Dwight, o sujeito um pouco calvo, Simon, e, rodeado de seguidores, lá estava ele. O ditador maldito. Rosita sentiu borboletas no estômago pela expectativa concretizada. Era quase prazeroso saber que em segundos estouraria o crânio de Negan com uma bala bem mirada.

Levantou o braço com cuidado, mal ousava respirar. Tinha acabado de destravar a arma, e seu dedo estava prestar a puxar o gatilho. Entretanto, uma sombra passou correndo na frente de seu campo de visão, a levando a comprimir uma exclamação de assombro.

Seu queixo caíra enquanto ela pestanejava, tentando focar suas íris escuras na silhueta de estatura mediana que via correndo até um caminhão aberto dos Salvadores. E, aparentemente, vazio de vigias.

Rosita Espinosa atestou que Carl Grimes invadira o compartimento de carga de um grande caminhão de seus inimigos. Atônita, pôde apenas mirar o garoto pular para dentro das portas abertas, provavelmente encontrando algum lugar para se esconder lá dentro.

Ela notou que a movimentação dos homens a mando de Negan não parara.

— Não... — sussurrou com os lábios praticamente fechados, se odiando a si mesma. O portão fora aberto, e ela sequer conseguia ver o rosto de Negan, daquela direção. Apenas parte de suas costas, acobertado pela segurança de inúmeros Salvadores que seguiam em seu encalço. Estava mais em sua mira.

Perdera sua oportunidade de ouro.

*****

A noite escura não parecia convidativa para um passeio. Haviam nuvens no céu, e o caminho entre sua casa e o local que pretendia visitar não era assim tão seguro ao anoitecer.

Mas não era como se ela fosse inofensiva ou algo do gênero.

A garota ajeitou em seu cinto a faca comprida para limpar trilhas que Billy Ray lhe presenteara. Seguia em suas andanças com a mão na base da arma branca, pronta para usá-la.

Carniceiros não a apavoravam há muito. Tampouco a maldade humana. Se havia algo que a assustava, depois de tudo o que vivenciara e tivera de suportar — e superar —, era a perda do que descobrira ser sua razão privada de existir: afirmar a vida e suas múltiplas possibilidades. Tudo era fluido, tudo era devir**. Ela queria somente se sentir encaixada nisso outra vez. Capaz de seguir evoluindo, se modificando, alterando-se a si mesma conforme suas experiências. Ser o norte de si mesma.

E não jazer na estagnação para a qual quase se perdera novamente.

Passo atrás de passo, ela seguia rumo ao centro da comunidade na qual agora residia, em sua periferia. Topava aqui e ali com carniceiros desgarrados, e os livrava daquela sobrevida irrefletida. Por mais que o tempo passasse e aqueles cadáveres começassem a lhes parecer banais, ela não podia deixar de pensar no quão deprimente eram. Um símbolo do que a humanidade poderia se tornar, metafórica e concretamente, se decidisse se conformar e parar de pensar. De questionar. Se quisessem desistir. Desistir perante a morte certa, ou a realidade dura que tinham de viver, ou os muitos indivíduos enlouquecidos que se julgavam capazes de trazer verdades ilusórias para lhes dar algum sentido à vida. Mesmo que esse sentido fosse horrível. Alguns preferiam viver de certezas mentirosas do que aceitar que não existem verdades definitivas.

Hashimoto e Negan eram dois que assim pensavam, a garota de cabelos ondulados sabia. E não poderia deixá-los triunfar. Seria o mesmo que permitir que a ignorância e as ilusões nocivas que traziam enfim destruíssem o que restava de redentor na humanidade, estes seres tão limitados por natureza.

Peggy Taylor se lembrou da breve despedida que teve com Delilah Feld, na manhã daquele dia. A garota mais velha seguira rumo a uma missão de reconhecimento de terreno, junto de Ben, um rapaz que Billy e Rebecca treinaram. Morgan estava responsável por ajuda-los caso algo saísse do controle, sendo o líder da missão. Queriam chegar aos limites da Virginia, perto do oceano para arranjar mais comida, pois os Salvadores apertaram o cerco. Não estavam satisfeitos com os últimos tributos de Ezekiel, cada vez mais cobiçosos. E não poderiam tentar nada contra o grupo liderado por aquele déspota assassino se não pudessem manter as aparências de que continuavam aceitando sua ditadura.

A sobrinha de Redmond também mudara muito. Continuava com seu jeito ingênuo e pacato, mas não era mais dependente dos outros. Surpreendera os que a subestimavam — Peggy tinha de admitir que fazia parte desse grupo quando começaram a ser amigas, o que a envergonhava —, se mostrando perseverante em seus treinos de defesa pessoal e técnicas de luta. Não tinha a mira muito boa, por ser desajeitada, mas era ágil, e seu pensamento era ainda mais valoroso do que sua velocidade física. Quando pressionada, Lilah sabia se virar bem. Segundo o que confidenciara para a amiga mais jovem, aquilo se dava pelo fato de ser órfã. Fora obrigada pela vida a saber improvisar.

Peggy, desde que descobrira aquela chama que ardia dentro de si, insistia em sua busca por respostas. Precisavam agir contra Negan. Precisavam desenvolver uma forma de evitar que outros ditadores como ele surgissem, ou lhes ameaçassem. Precisavam, portanto, elaborar uma nova sociedade. Novas regras. Novas leis. Novos pensamentos.

Com sua mente efervescente de ideias e perguntas, a garota trespassou os portões da “capital” do Reino, sendo saudada pelos guardas de armadura que a vigiavam. Levantou as sobrancelhas, suspirando. Não conseguia se acostumar com toda a teatralidade daquilo, embora concordasse em alguns aspectos com Ezekiel. Algumas ilusões eram necessárias para suportar a realidade. E todo aquele clima burlesco do Reino servia para que as pessoas conseguissem seguir em frente, encontrar algum alívio na dureza do dia a dia.

Seguiu até os jardins que o Rei também apreciava. A menina tinha afeto por aquele lugar por lhe trazer a união de dois elementos que amava: água e fogo. Um laguinho artificial construído para deixar o jardim mais ornamentado ficava próximo a algumas das lanternas que o próprio Ezekiel mandava acender com fogo, tochas brilhando na escuridão. Peggy sempre gostou do fogo, desde a época em que ficava perto da lareira da casa de seus pais, se aquecendo com a família, até os momentos secretos de amor que a lenha acesa da lareira do quarto de Moritz testemunhou.

As chamas serpenteando brilhantes pela escuridão, ousando iluminar o breu, não deixavam de ter um simbolismo lindo para ela. O conhecimento tentando vencer a ignorância completa.

As tochas já estavam acesas, quando a garota chegou até os jardins. Caminhou pela grama, sentindo o cheiro úmido da folhagem, sabendo que chegava perto do lago que queria vislumbrar. Sentou no banco defronte a ele, respirando devagar, aspirando o ar noturno e o cheiro das brasas, reconfortante.

Você amaria mesmo isso daqui. Queria tanto te mostrar, não pôde evitar pensar. Entrar nas localidades principais do Reino era sempre doloroso. Sempre. Aquilo tudo era muito representativo de Moritz.

Peggy já sabia: ele fora o amor da sua vida. Talvez nunca deixasse de amá-lo.

A garota sentiu a mesma sensação pungente no peito que a incomodava há dias, como se alguém empurrasse um fardo pesado contra ele. Manter a respiração profunda e lenta não ajudava, apenas intensificava o vazio. A ausência.

Peggy Taylor abaixava a cabeça, sofrendo de saudades lancinantes, quando ouviu um ruído que a sobressaltou. Um arbusto farfalhou da raiz até as últimas folhas, e, detrás dele, surgiu uma forma volumosa e sinuosa.

A tigresa de Ezekiel se aproximava, andando em seu passo calmo e felino, estudando o ambiente. Pôs os olhos em Peggy, e passou a contornar o laguinho, caminhando até ela. A garota colocou as mãos na base de sua faca, pensando se deveria correr ou continuar imóvel.

Shiva grunhia enquanto chegava perto. A garota engoliu em seco, arregalando seus olhos grandes. Não podia deixar de manter contato ocular com os olhos alaranjados da felina. Por alguma razão, lhes pareciam hipnóticos. Como se pudesse ler seus pensamentos.

A tigresa parou ao seu lado. Sentou-se em duas patas e começou a beber água, sua língua sorvendo com tranquilidade o líquido. Parara de rosnar.

Depois de ter sua sede saciada, Shiva voltou o rosto para Peggy outra vez. Encarou-a por alguns minutos, enquanto a garota não sabia o que fazer.

— Ela quer que você estenda a mão. — A voz de um timbre sonoro e elegante familiar para a aprendiz de filósofa foi escutada. Logo o dono tanto da felina quanto daquela voz apareceu, descendo as escadas do jardim até onde a garota se sentava.

— Boa noite, jovem donzela — saudou-a o Rei Ezekiel, abrindo-lhe um sorriso discreto. A jovem não o respondeu logo, ainda atraída ao olhar da tigresa.

— Ela é um tigre. Vai arrancar meus dedos — respondeu a garota, refutando a ideia estapafúrdia.

— Sim, ela é uma tigresa. Mas não é uma fera descontrolada. Não vai atacar, até que não sinta que há razões para tanto — garantiu, pedindo licença para se sentar ao lado da estudante de filosofia. Ela consentiu, mas ainda se mantinha reticente.

Shiva se distraiu do jogo de olhares por um momento, andando lânguida até seu melhor amigo humano. Como se para provar seu ponto, Ezekiel ergueu sua mão esquerda, a qual a felina de grande porte cheirou, a analisando. Logo em seguida, abaixou a cabeça e a empurrou contra um dos joelhos do governante do Reino.

— Gatos fazem isso quando gostam muito de uma pessoa. Quando se sentem íntimos dela — comentou Peggy, erguendo as sobrancelhas. Estava de fato surpreendida. — Isso acontece com tigres também? — Ainda soava duvidosa. Deixou seus olhos focarem nos orbes escuros de Ezekiel.

— Pelo visto... — o homem respondeu, com um sorriso divertido. Peggy abriu um sorriso discreto, como o que ele lhe dera quando a cumprimentara. Percebeu que seus ânimos pareciam um pouco melhores. Por alguma razão esquisita, a companhia daquele homem a acalmava. Fazia com que se sentisse melhor.

Shiva se sentara ao lado de Ezekiel, que acariciava sua cabeça. Ela piscava devagar, como gatos costumavam fazer antes de adormecer.

— Você se sente seguro de deixa-la andar sozinha por aqui? — indagou. O Rei logo respondeu a garota:

— Sim. O jardim é um lugar tranquilo. Quase ninguém vem aqui. Eu vi que você havia chegado aqui, e sabia que Shiva estava passeando pela localidade. Achei que seria uma boa oportunidade para vocês se conhecerem melhor — disse o monarca, e não parecia brincar. Peggy franziu o cenho, incrédula.

— Eu diria que isso é uma irresponsabilidade tremenda — o repreendeu, fitando seus olhos escuros com uma expressão de censura.

— E eu diria que para uma mente tão aberta quanto a sua, você parece contraditória — Ezekiel logo articulou, fazendo com que ela abrisse a boca, indignada.

— Isso é apenas bom senso! — retrucou, ainda mais cética.

— E o que é o bom senso além de uma convicção? As convicções não devem ser questionadas o tempo todo? — Sabendo do interesse da garota por Nietzsche, o Rei citava um dos ensinamentos do filósofo. A jovem quase revirou os olhos, considerando a argumentação apelativa. — Você é um espírito livre, Peggy. Não deveria atentar contra a própria natureza. Aceite a contradição — fez a referência outra vez, em meio a um sorriso de incentivo. Dando de ombros, a garota decidiu testar os conhecimentos do Rei. Já que queria entrar em uma conversa dialética divertida, veria se ele estava mesmo bem treinado.

— E por que me julga um espírito livre?

— Porque você foi capaz de pensar diferente do que era esperado da sua idade, origem e ambiente. Você é menor de idade e já tem uma mente afiada política movida pelo impulso de conhecimento. É mais sagaz que metade dos velhos deste lugar — falou Ezekiel com mais naturalidade, sem usar de trejeitos excêntricos. A aprendiz de filósofa não respondeu tão rápido. Sentiu-se lisonjeada e grata pelo reconhecimento — algo raro — mas não tão satisfeita. Como ele sabia sua verdadeira idade? E sim, de fato o monarca conhecia Nietzsche. Citara quase um aforismo direto dele, de “Humano, Demasiado Humano”.

— Eu tenho dezenove anos — mentiu. Sustentou o olhar penetrante do Rei, que apenas deu um sorriso de canto de lábios.

— Não, não tem. Mas isso não é um problema. Você não precisa usar de convenções sociais comigo. Eu sei o mal que é subestimar os outros por meras convicções que tentam incutir em nós. — O governante, que havia desviado o olhar para fitar o lago, retornou a encarar a garota. Shiva se espreguiçou aos pés dele.

— Então quer dizer que me considera uma igual? Mesmo que eu tenha dezessete anos? — Ela foi honesta. Manteve a expressão impávida, encarando o homem de dreads compridos.

— Sim. O que nos faz amadurecer não são números. São nossas experiências. E eu posso ver claramente que você tem casca de sobra. — Sorriu de novo. Depois, fitou Shiva. — Ela também percebe. Ela te respeita. Posso notar isso — o Rei afirmou com segurança em sua voz afável e tranquilizadora.

— O que significa que tem mais experiência do que eu, de todo modo. Porque enfrentou muito, e é mais velho. — Peggy seguia lógica e cética. Piscou, mas ainda fitava o rosto de Ezekiel, que não a mirava de volta.

Ele se abaixou para coçar atrás da orelha esquerda de sua felina. A questionadora jovem reparava, pasma, que era como se Shiva fosse uma gata muito grande.

— Sim. Tenho. Mas isso não me impede de te ver como uma igual, no sentido de saber o quanto você é capaz de lidar com esta vida de uma maneira madura. Sei que enfrentou mais do que muitos homens e mulheres com mais de trinta anos nesta comunidade. E isso chega a ser triste. Você é jovem, e ao mesmo tempo não é. Eu diria que isso é uma benção e uma maldição — falou em um tom melancólico. A garota sentiu um arrepio percorrer seus braços, até sua nuca. Aquilo que ele dissera quase fizera coro as palavras de Moritz, quando atestara o quanto ela havia amadurecido.

— Eu... Isso me fez bem. Obrigada. — Peggy se viu sem muitas palavras, respondendo ao homem depois que ficaram ambos em silêncio por longos segundos.

— Não deve agradecer. Apenas fui sincero — disse o Rei, voltando o rosto para olhá-la outra vez.

— Bem... Eu digo que quero respostas, não é? Mas preciso fazer por merecê-las. Para ver as coisas queimando, preciso primeiro enxergar o fogo — concluiu a garota, tomando ar e aos poucos erguendo a mão direita, perto de Shiva.

A felina acompanhou o movimento com suas íris alaranjadas, e levantou o queixo antes apoiado em suas patas. Ergueu-se e caminhou poucos centímetros adiante. Farejou a mão da jovem desbravadora, e, ao passo que Peggy segurava um estremecimento de seus dedos, a bela felina esfregou a lateral esquerda de seu rosto contra a mão dela.

Peggy Taylor sentiu a textura macia e calorosa dos pelos de Shiva passando pelos seus dedos e não pôde conter uma exclamação alegre, junto a uma breve risada.

— Eu disse. Ela gosta de você — afirmou o Rei Ezekiel, mais sorridente. A garota o mirou, estupefata e contente como não se sentia há tempos.

— Isso é o máximo! — a aprendiz de filósofa falou com empolgação juvenil. A tigresa caminhara alguns centímetros longe dela e agora voltava, esfregando a outra lateral do rosto contra a mão dela, ainda erguida.

— Você tem um lindo sorriso, jovem donzela — o Rei elogiou-a. Peggy virou o rosto rápido, trocando olhares com Ezekiel. Ele a fitava com um semblante diferente. Como se a admirasse mais. Parecia também mais feliz.

— Obrigada — agradeceu em uma voz mais baixa e contida. A expressão mais intensa do Rei desanuviou aos poucos, enquanto ele passava a fitar a tigresa que caminhava em sua direção. Deitou aos seus pés outra vez, dando cabeçadas afetuosas na altura da canela do ex-zelador.

— Deveríamos lutar contra Negan — Peggy falou usando de um timbre bem assertivo. O monarca a olhou outra vez, devagar.

— Eu não vou arriscar fazê-lo. Não até que seja a última opção — o Rei negou, sem mais sombra de sorrisos em seu rosto. Parecia taciturno.

— Não há porque postergar isso — a garota tentou, mas o governante pigarreou, aparentando refutar tal rumo da conversa.

— Há muitos motivos, Peggy. Você deveria saber bem disso — o homem falou, se levantando. Shiva o seguiu com o olhar. Ela sentiu um frêmito súbito com aquela fala. Fora significativa, apesar de misteriosa.

— O sofrimento é inevitável, Ezekiel — a jovem insistiu, e o Rei apenas meneou o rosto em negativa.

— Não se trata de sofrimento. Trata-se da chance de estar vivo para sequer poder sofrer — falou em um tom definitivo, o que surpreendeu Peggy. Jamais o tomaria por um cínico, não a esse ponto.

Ela iria se pôr a discutir, mas o mandatário do Reino se aproximou dela e tomou sua mão direita na dele.

— Está tarde. Precisamos todos descansar. Não podemos apressar o movimento das coisas. Boa noite, jovem donzela — o Rei se despediu, e beijou as costas de sua mão.

Peggy e Ezekiel se fitaram pela última vez naquela noite. O monarca nada mais disse, e caminhou degraus acima do jardim, a deixando a sós. Shiva o seguiu, depois de dar um último olhar para a garota.

A jovem de mente e língua afiada mirou a mão que fora beijada em despedida. A mesma mão que Shiva roçara e aprovara.

Sorriu.

Ela era mesmo “Peggy, Garras de Tigresa”, como um dia dissera Aiyana.

*****

Ela secava o rosto com uma toalha lilás, cantarolando consigo mesma. Olhava seu corpo nu no espelho do banheiro, reparando que ainda nem engordara. Continuava atlética, sua cintura fina, suas curvas torneadas intactas. Se não fossem seus enjôos frequentes, ninguém teria desconfiado de sua gravidez.

Os últimos dias não eram dignos de tamanho contentamento, mas a jovem mulher não poderia negar que, por piores que fossem aqueles tempos, estava em uma situação na qual podia se sentir melhor do que de costume.

Gostava de sua nova moradia. Gostava de seus vizinhos. Gostava dos trabalhos que era encarregada. E gostava, principalmente, do fato que se sentia encaixar. Encaixava-se naquele ambiente, no conjunto daquelas pessoas, naquela vida.

Essa sensação era quase inalcançável para Rebecca Gable.

Quando chegara no Reino, tivera de passar por sentimentos ambivalentes e contraditórios. Por um lado, ficara extasiada com o ar circense do lugar. Não pôde deixar de lembrar de Moritz, não só pelos modos excêntricos do Rei Ezekiel e alguns de seus súditos, como Jerry, mas por toda a atmosfera de uma monarquia perdida no tempo, desenvolvida de maneira cuidadosa pelo governante daquela comunidade. Era quase como se aquele lugar tivesse sobrevivido aos séculos, um feudo governado por um monarca benevolente e carismático, que não deixava nada faltar ao seu povo.

A fantasia deu lugar a bruta realidade em pouco tempo, entretanto, quando a jovem loira descobrira, junto a Billy Ray, que o Rei e seus súditos estavam condicionados a ditadura de Negan. Pagavam taxas aos Salvadores, assim como Alexandria, em troca da alegada proteção que os capangas do mandatário déspota garantiam.

Por conta disso, Becky ficou revoltada. Chegou a considerar se Ezekiel não passaria de um covarde aproveitador, como Gregory, o mandatário de Hilltop, mas conforme os dias passavam, percebeu que ele realmente julgava que apenas fazia o melhor que podia com as parcas condições que tinham.

Ali, eles concretizavam o sonho de Rick e seu grupo. O sonho de Moritz. Os moradores do Reino viviam, não apenas sobreviviam.

Mas as custas de quê?

Enquanto secava seu cabelo, a garota de cabelos dourados pensava em tudo isso. Teria seu filho em alguns meses. E, por mais que aquilo a enchesse de alegria, por saber o quanto Billy se contentou com a notícia de sua gravidez, o quanto ele queria mesmo construir uma vida ao seu lado, o quanto era, de fato, amada e aceita por inteiro, o que sempre sonhou conseguir... Talvez nada daquilo se concretizasse de fato. Negan poderia chegar e arrebentar seus sonhos com seu maldito taco de baseball com arame farpado, a qualquer momento.

Tinham de convencer Ezekiel a lutar.

Rebecca saiu apressada do banheiro, mal escondendo sua nudez na toalha. Jogou-a em cima da cama de casal na qual dormia com seu amado caçador, e depois se vestiu com uma calça jeans clara e justa, colocando uma blusa e casaco leve rosa bebês. Antes, teve a concentração de escolher uma lingerie bonita para seduzir Billy mais tarde naquela noite, e depois se sentiu culpada por isso.

O mundo estava entregue a mandantes sanguinários, seus amigos sendo sitiados, ameaçados dia e noite. Poderia morrer a qualquer momento, o pai de seu filho poderia ser assassinado a qualquer momento, se Negan assim quisesse. Por tudo o que Morgan dissera, ele não era nada razoável, um perfeito e hediondo retrato do autoritarismo.

E, portanto, vivia nessa ambivalência que não passava. Por um lado, morria de medo do futuro. Por outro, estava feliz com o presente, por mais que também tivesse traços ruins. Surpreendia-se ao ver que sua doença não lhe atormentara nos últimos dias. Era como se engravidar a fizesse se sentir melhor, no sentido de que a tornasse mais normal para si mesma.

Saber que teria um filho, teria uma família com Billy, a pessoa que mais amou por toda a sua vida, era uma prova de que ela podia conseguir o que queria. Poderia conseguir tudo. Aprendera, finalmente, a se aceitar e se valorizar por quem era.

Rebecca saiu de seu quarto, indo até o refeitório de uma escola, parte da propriedade do Reino. Tinha marcado de encontrar Billy Ray ali, para cearem juntos. A gravidez lhe deixara mais faminta, precisava não só jantar como lanchar um pouco antes de dormir.

Não havia quase ninguém no local, apenas um homem de seus quarenta anos que varria o chão.

— Theo, você viu o Billy esta noite? — perguntou ao homem que fora o responsável por aquele turno de limpeza. Não haviam faxineiros ou empregos fixos do tipo no Reino. Tudo era estruturado em um sistema de rodízios.

O varredor balançou a cabeça em negativa. Rebecca agradeceu e saiu.

Preocupada, franziu as sobrancelhas, sentindo uma espiral de ansiedade crescer dentro dela. Billy Ray não era desse tipo. Não a deixaria sozinha sem avisar. Algo muito grave deveria ter acontecido.

Rebecca andou a passos largos pelas ruas do Reino, procurando o namorado em todos os cantos. Tentou nas praças, depois nos estábulos — Billy amava cavalos e o ambiente de fazendas, afinal, era um fazendeiro —, e não o achava em lugar algum. A angústia apenas crescia pesada dentro dela, estava quase se sentindo zonza de nervoso.

Foi então que passou na frente da sala de ensaio do coral. Um cartaz estava pendurado ali. Com cores chamativas, burlescas, que lembravam as listras brancas e rubras típicas de lonas circenses.

“Respeitável Público: improviso inédito inesquecível hoje, às 22 horas”.

O cartaz chamativo convidava todos a comparecer. Passara lá bem na hora. Becky estranhou aquilo. Por intuição, cruzou a porta de entrada.

Apenas as luzes do palco estavam acesas. Os membros do coral, parados ali dentro, se reuniam sozinhos, sem ninguém ocupar as cadeiras da pequena e singela sala de teatro.

A garota circense caminhou até a primeira fileira. Sentou, olhando por cima dos ombros por todo o ambiente. O que era aquilo? Algum tipo de espetáculo experimental? Billy estaria por trás disso?

Assim que se sentou, o coral começou a cantar. Rebecca conteve um som hesitante, surpreso pela interrupção do silêncio anterior. De modo simultâneo, algumas luzes do palco se acenderam, e ela pôde ver o fundo do cenário. Todo colorido em listras vermelhas e brancas, cuidadosamente montado, com trapézios improvisados em cordas, roldanas e barras de ferro, cortinas coloridas penduradas como tecidos acrobáticos e um bambolê descendo por uma corda azul, fazendo os ares de lira. O coral estava vestido com cores chamativas, alguns maquiados como palhaços, arlequins, e toda a sorte de figura circense.

Alguns deles dançavam, fingindo ser bailarinos equilibristas, contorcionistas, e diversos artistas de circo. Alguns tentavam malabarismo. Rebecca colocou uma das mãos na frente dos lábios, boquiaberta, abrindo seus grandes olhos castanhos admirados com aquela cena singular.

Ela reconheceu a música. Era famosa, e fora trilha de um filme romântico que amava. Falando de um romance improvável, também todo cheio de ares circenses.

“...And you can tell everybody that this is your song

It maybe quite simple but, now that it's done,

I hope you don't mind, I hope you don't mind

That I put down in words

How wonderful life is while you're in the world.”

O coral entoava em conjunto, suas vozes harmoniosas em uníssono. Os olhos de Rebecca se encheram de lágrimas, ao passo que ela virou o rosto para trás, assim que ouviu o estalo alto das luzes do fundo da plateia se acendendo. Piscou para se acostumar à luz e o enxergou.

Billy descia a rampa até ela, com um sorriso encabulado no rosto. Não usava seu chapéu.

A garota loira apenas pestanejava, emocionada, rindo tola consigo mesma. Não poderia ser o que ela estava pensando. Poderia?

O sulista caminhou até ela, parando defronte da cadeira ao seu lado direito. O coral, ensaiado, cantou os últimos versos mais uma vez, enquanto ele se pôs de joelhos e tirou um anel do bolso.

I hope you don't mind, I hope you don't mind

That I put down in words:

How wonderful life is, now you're in the world...”

— Rebecca, você quer se casar comigo? — Billy Ray a propôs em casamento, lhe mostrando um anel com uma pedra rosa incrustada. As lágrimas vertidas de seus lacrimais desciam por suas bochechas, enquanto ela não podia conter os risos bobos. Estava tão feliz. Tão feliz. Enquanto durou aquele momento, todos os seus medos se dissiparam.

— É óbvio que sim, seu caipira burro. Eu já sou sua mulher há tempos! — ela confirmou, sem jeito, deixando sair uma risada embevecida de felicidade de seus lábios. Billy pôs o anel de noivado em seus dedos, e ela viu os olhos dele também ficarem úmidos. Estava tão emocionado quanto ela.

Ela não aguentou mais. Se abaixou na altura dele, segurou seu rosto e o beijou.

— Sim, sim, sim! Eu sou sua esposa, meu amor. Quero estar sempre com você — Rebecca se declarou mais uma vez, colando sua testa na dele e fechando os olhos.

Ao abrir os olhos, viu que seu noivo lhe deu um sorriso emocionado, e a beijou outra vez. O coral parecia cantar, mas os dois não os escutavam mais. Não havia mais ninguém no mundo além deles, e a vida que crescia no ventre de Rebecca.

Billy sabia do quanto ela o amava, não era preciso ressaltar. Mas não se importava. Repetir aquelas palavras, sempre, inúmeras vezes, nunca cansava. Apenas a lembrava do que transformara sua vida para melhor. Um amigo, que depois virou seu melhor amigo, e por fim tornou-se um grande amor.

Billy Ray fora a pessoa que mais apoiara na vida. Quem ela mais amara, e quem conseguira o que antes lhe parecia impossível: a ajudara a descobrir que podia — e devia — amar a si mesma.

Notas finais
*Chica: garota, menina, em espanhol. **Devir: "Devir (do latim devenire, chegar) é um conceito filosófico que significa as mudanças pelas quais passam as coisas. O conceito de "se tornar" nasceu no leste da Grécia antiga pelo filósofo Heráclito de Éfeso que no século VI a.C., disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação" (direto da Wikipédia pra ficar bem explicadinho procês). ~ O título do capítulo é "Self Made", porque é uma expressão para se referir as pessoas que se fizeram por si próprias, com seu esforço, por suas boas qualidades. É o caso dessas três moçoilas que protagonizaram três pontos de vista diferentes, cada uma a sua maneira. ~ Fiquei feliz com essa minha homenagem tardia ao 8 de março. Eu jamais deixaria essa data de luta passar em branco, então considerem este um "episódio" comemorativo. Gostei de poder desenvolver mais a Rosita, e pra quem estava sentindo falta da Peggy, esse capítulo mostra bastante o quanto ela não se perdeu. Está toda aí, essa menina desbravadora e foda como nós a conhecemos. E, pra quem já estava afogado no mar de sofrimento que é a curva atual da história, tivemos esse último POV muito do fofolindo da Becky. ~ Fanart maravilhosa pela linda Dixon Girl, que além de ótima designer é uma excelente ficwriter. Conheçam: https://fanfiction.com.br/u/130343/ ~ Pra quem por acaso possa não conhecer a música citada, é trilha do filme Moulin Rouge e de autoria do Elton John: https://www.youtube.com/watch?v=-PCJ_E-cb1k ~ Aguardo reviews!