Hunter's Instinct
67 Episódio 67 - Extemporaneous
Notas iniciais
To live is to suffer, to survive is to find some meaning in suffering.
~ Friedrich Nietzsche
Um gosto amargo tomava conta de sua boca seca. Sentiu seus dedos tremelicarem, para logo em seguida fechar as mãos em punho, tentando pelo gesto controlar seu emocional aturdido.
Piscou os olhos, vendo por um segundo a figura de Hashimoto em seus pensamentos. Ela riria dele, gargalharia de todos eles se pudesse testemunhar aquilo.
Pelo que Tucker Hayes pudera entender, a alta cúpula da comunidade decidira, de certa maneira, seguir os passos da conquistadora de Wyoming County.
— Se esse porra de Negan é uma outra Hashimoto, como que comprar briga com ele vai resolver alguma coisa?! — o arquiteto bradou, nervoso. Eles não podiam estar falando sério. Mas, pela determinação deles, Hayes já antevia... A decisão já tinha sido tomada.
— Eu me arrisquei uma vez com Hashimoto. Duvidei da força dela, e paguei para ver. Quase morremos todos. Não vou arriscar novamente — Rick Grimes retrucou, parado do outro lado da mesa de jantar que um dia fora de Deanna. Suas mãos estavam espalmadas na madeira, seus olhos claros firmes no rosto do rapaz.
— Por que vocês precisam resolver tudo na porrada? Não é possível que... — Tucker tentou, mas Paul o interrompeu.
— Se houvesse alguma forma diplomática de resolver, eu já teria conseguido. Lido com Negan há anos — afirmou o embaixador de Hilltop. Sua voz parecia cansada, diferente do ar jovial que havia adotado quando invadiu o quarto de Hayes momentos antes.
— Ele não me parece um sujeito razoável. — Eugene mirou o amigo, seus lábios torcidos em uma expressão incomodada. O professor de ciências jamais fora dos indivíduos mais belicosos de Alexandria, o que deixava Tucker em uma posição ainda mais difícil. Seria minoria ali, percebia. — Jesus nos contou que ele levou alguns moradores de Hilltop para uma base na qual são escravizados. Só param de trabalhar para dormir e para se alimentar. São tratados como animais de carga, gerenciados por alguns dos homens de confiança de Negan. — Porter respirou fundo, encarando agora Paul Rovia, dando ao diplomata a chance de falar. Mavelle, Daryl, Rick, Michonne, Rosita, Tara e até mesmo o novato, Andrew, continuavam em silêncio, seus olhares distantes, todos compartilhando feições aflitas. Como se mal pudessem esperar para agir.
— Isso aconteceu quando eu estava atrás do Exército de Wyoming County. Fiquei sabendo quando voltei para Hilltop. — Paul pigarreou, pestanejando. Parecia desconfortável, mas tentava não demonstrar.
— Meu namorado, Gaspar. — começou Jesus. Seus olhos tremeram a menção do nome latino. — Era um dos responsáveis pela agricultura, em Hilltop. Perdemos algumas colheitas por mau tempo e por conflitos na produção. Algumas vezes, Negan reclamou que estávamos lhe dando muito pouco. Achou que estava sendo enganado. Por isso, mandou alguns de seus homens investigar nossa comunidade. Descobriu que estávamos mesmo com problemas na administração, e resolveu do jeito dele. — Rovia passou os olhos por todos os presentes, demorando-se nos orbes de Tucker, por fim.
— Decidiu que não éramos capazes de gerir tudo sozinhos. Por isso... — Jesus passou os dedos pela barba longa, fitando o chão. — ...Puniu alguns dos trabalhadores envolvidos. Pegou pessoas próximas responsáveis por outras atividades, e as levou para uma base. Filhos de pais que deveriam ter produzido mais, esposas, maridos, parentes em geral de quem ficou na comunidade. Ou pessoas que julgava “inúteis” e as colocou para trabalhar forçadamente. — O diplomata bufou, incomodado.
— E fez precisamente o que com eles? — Carol cortou o silêncio. Tucker a olhou, tentando estudar sua reação o mais discretamente possível. Como era de se esperar, Peletier parecia impassível. Hayes, contudo, imaginava que seu exterior não refletia o que poderia estar se passando com ela realmente.
— Esta base fica em uma pequena cutelaria industrial — relatou Andrew, passando os dedos pela têmpora direita. — É mais artesanal do que de larga escala, porque é um lugar realmente pequeno. Eles passam os dias armando os Salvadores, e produzem mais e melhor do que os nossos ferreiros. Peixeiras, facas de caça, lâminas de todo o tipo. — O morador de Hilltop encrespou as sobrancelhas, também aparentando ansiedade.
— O cara produz as próprias armas? — Tucker Hayes olhou para Eugene Porter, que acenou levemente com o rosto, em confirmação. Aquilo era um mau sinal. Talvez a fábrica de balas de Alexandria fosse mais do que necessária. Talvez produzir munição fosse, de fato, uma urgência.
— Sim. Fora o material que eles recebem para aperfeiçoar. Facas antigas sem fio e tudo o mais. Testam as lâminas com os carcomidos — Paul se referia aos errantes — isso se estão de bom humor. Caso sejam desobedecidos, ou alguém tente fugir... — Rovia fitou Andrew, que fez um gesto como se cortasse a própria garganta com o dedo indicador.
Tucker passou as mãos no rosto. Sentiu-se exausto, exaurido física e emocionalmente. Não tinha jeito. A perversidade do novo mundo não daria trégua. Não tão cedo.
— Só dez por cento da produção da base volta para Hilltop. Craig foi escravizado, porque achavam que já havia criadores de porcos o suficiente na nossa comunidade — Andrew disse, uma sombra perpassando seus olhos escuros. — Não pude fazer nada. Matariam ele se eu tentasse impedir — confidenciou.
— Negan finge que não se mete nos nossos negócios e que é apenas nosso “segurança”. Mantém os carcomidos longe do Alto do Morro em troca de metade das nossas produções, mas, no fundo, ele já se infiltrou em tudo. Ele é o dono do estado da Virginia, o miliciano que comanda, agora que vocês derrubaram Hashimoto. E tenho certeza que está mais confiante, achando que não tem mais cachorro grande para disputar seu território — aferiu Jesus, voltando os olhos para Tucker outra vez.
— É uma questão de tempo até que nos descubra — Rick atestou, sério. — E não vamos ficar esperando por isso — garantiu.
— Ok, já entendi. — Hayes quase suspirou, ainda aflito. — Não temos escolha. — Olhou de relance para Carol, que ainda estava sem reação revelada.
— E vocês querem produzir a porra de uma bomba?! Vão explodir os reféns junto! — continuou o rapaz, lembrando do que haviam dito.
— Não é bem uma bomba. É fulminato de prata. Vamos entregá-lo e detoná-lo de uma maneira pouco convencional, quando os reféns já estiverem do lado de fora — sugeriu Eugene, fitando o amigo. Uma centelha esperta brilhou em seus olhos castanhos.
— Vamos fingir negociar com o gerente da base — acrescentou Paul. — Andrew vai nos ajudar. Arranjaremos uma cabeça de errante que se parece com Gregory, Negan quer ele morto. — Rovia começou a mexer nos bolsos, até achar uma fotografia do líder. Reparou que Carol focou os olhos atentos na foto. Tucker deu uma olhada, vendo um idoso com ar arrogante parado na frente de uma grande casa colonial, cercado de seu povo.
— Ok... Mas pelo que eu estou vendo, a porra do lugar era uma indústria pequena, certo? — perguntou Hayes, vendo agora as plantas mal desenhadas. Não teria tempo para melhorá-las para algo menos amador e mais realista. — Quantos andares?
— Um — disse Andy, estalando os dedos.
— É. Não vai rolar de literalmente demolir um troço desses com uma explosão só. Deve ser uma estrutura rígida. E como vão fazer para negociar? Digo, pra deixar os “Neganianos” dentro e os nossos de fora? — Franziu as sobrancelhas, fitando os outros.
— Salvadores — corrigiu Paul. — Vamos fingir levar parte da comida que trouxemos, bem como algumas lâminas. Apresentaremos Alexandria como “amigos de Negan” que eu descobri. Pessoas interessadas em negociar com ele. Queria que, especificamente, você e Eugene me acompanhassem, além de Andy. Temos uma ideia. Quanto de maconha você ainda tem? — indagou Jesus, sem tato algum.
— Quê?! — exclamou Tucker. Michonne revirou os olhos, perto de Rick, que meneou a cabeça de leve.
— Escute, ninguém aqui está julgando você. Para nós tanto faz o que você fuma ou deixa de fumar, se não atrapalhar seu trabalho. — Grimes levantou as mãos, austero. — Andrew nos contou que a maior parte dos Salvadores faz uso de drogas. Negan também. E que eles valorizam este tipo de comércio — explanou o líder de Alexandria.
Tucker Hayes se manteve silente, entre o ofendido e o incrédulo. Era agora o drogado oficial da comunidade?
— Será uma forma de convencê-los a nos deixar entrar. E, no momento oportuno, vamos detonar o fulminato — complementou Eugene, desviando os olhos de Tucker. Provavelmente previa a revolta do amigo.
— O resto de nós estará à espreita. Vamos invadir a base pelos fundos e mataremos os Salvadores que tentarem impedir a liberação dos reféns — disse Rosita, coçando a bochecha.
— Você vai ter a maconha de volta depo... — Mavie tentou, com seu sotaque irlandês, e foi a vez de Tucker levantar as mãos.
— Eu estou pouco me fodendo pra maconha! Será que vocês não entendem... — Tucker iria retorquir, mas não encontrou as palavras. Não sabia como dizer que era muito escroto da parte deles exigirem que se arriscasse assim só porque tinha cara de drogado, sem parecer ser um covarde. Não sabia como dizer que era no mínimo bizarro entrar em um lugar e sair matando pessoas lá dentro.
Novamente imaginou as feições de Hashimoto se divertindo às suas custas.
— Tucker, você nos ajudou muito contra Hashimoto. Boa parte da razão de estarmos vivos agora é por sua causa. Só que precisamos da sua ajuda outra vez. Não pediríamos se não precisássemos. É pelo bem de todos. Podemos contar com você? — perguntou Rick Grimes. Michonne, Mavelle, Daryl, Andrew, Jesus, Tara e Rosita o fitavam. Carol olhava pela janela, quase parecendo alheia aquela discussão.
Tucker respirou fundo.
— Podem — respondeu, desmotivado. Não tinha o menor ímpeto para ajudar naquela missão, mas não podia dizer não para eles. Contavam com ele. Se todos estavam decididos a sujar as mãos pelo bem de Alexandria... Não tinha como recusar.
— E você, Carol? É uma das nossas melhores atiradoras — indagou Grimes, parecendo menos incisivo. Talvez não tivesse coragem de pressioná-la, reparou Hayes.
A mulher piscou seus olhos. Focou-os nos de Rick.
— Não. Eu não concordo com isso. Não vejo como seria diferente de tudo o que aconteceu contra Hashimoto — respondeu. Sua voz saiu calma, equilibrada, tão diferente do ar tenso daquela sala. Tucker se conteve para não soltar uma exclamação. Aquela reação não o surpreendeu, mas era outro sinal lamentável.
Rick passou a mão na cabeça, como se tentasse pensar em uma forma de convencê-la. Mas ela não deu tempo. Carol Peletier deu boa noite a todos, saindo da sala como se discutissem algo trivial. Tucker a seguiu com os olhos, agora sim quase boquiaberto.
Daryl olhou para o rapaz. Seus olhos estreitos faiscaram, como se tentasse passar alguma mensagem com o olhar. Talvez quisesse que ele fosse atrás dela tentar trazê-la de volta para a reunião. Mas Hayes não faria isso. Também estava cansado.
— Bem, então o plano é efetivamente o seguinte — Paul começou a discursar sobre todos os planejamentos para o dia seguinte. Hayes prestou o pouco de atenção que conseguia. Ainda estava ferido pela indiferença de Carol.
Depois de acertarem tudo o que participaria, Tucker saiu cerca de quarenta minutos depois da casa que era dos Monroe. O grupo ainda discutia maiores detalhes, mas sua mágoa recente dera lugar a raiva.
Foi caminhando rápido até a residência de Carol. Saiu entrando sem pedir licença.
Como imaginava, ela estava lá, guardando na cozinha as sobras do jantar.
— Que merda foi essa? — perguntou, enfurecido. Peletier nem se dignou a olhá-lo, guardando um tupperware na geladeira.
— Não concordo com essa ideia — respondeu Carol, ainda tentando manter aquela voz falsamente tranquila. Irritou-se ainda mais.
— Você sabe do que estou falando. Por favor, para de fingir que não se importa! — O rapaz passou uma das mãos na bochecha esquerda, controlando a fúria.
— Que não me importo com o quê? — Carol Peletier continuou se fazendo de sonsa, fechando a porta da geladeira e enfim o encarando.
Tucker abriu a boca, espalmando as mãos, estupefato. Ela iria mesmo insistir naquilo? Era inacreditável.
— Sério? É sério mesmo? —o rapaz perguntou, com raiva debochada. — Então quer dizer que amanhã eu posso morrer carbonizado numa explosão do Eugene brincando de cientista maluco, e que se foda? Você realmente vai fingir que está pouco se fodendo pra mim? Pros seus amigos? — insistiu o arquiteto, apontando para a janela da cozinha, mais ferido do que já estava.
Os olhos de Carol cintilaram, ao passo que ela franziu os lábios. A máscara já estava caindo.
— Eu não posso te dizer o que fazer. Só posso definir as minhas escolhas — redarguiu, tentando se virar de costas.
Hayes quase esbravejou de frustração. Andou rápido até ela, e segurou sua mão. Peletier se virou para ele outra vez, já franzindo o cenho. Finalmente mostrava honesta preocupação.
— Para de fugir — Tucker murmurou, como uma súplica. Os olhos de azul celestial dela desviaram dos dele. Baixou-os para a bancada. Hayes viu que ficaram marejados.
— Não posso. Eu... — Carol apertou a mão dele, a soltando depois. — Tem de haver outro jeito, eles não querem ver, mas não é possível, tem de ter. Eu não discuti porque eles já estavam decididos — afirmou, e o rapaz sabia que ela estava certa.
— É por isso que temos que ir. Não podemos virar as costas para eles. Não participar também não vai evitar nada — contrapôs, e Carol Peletier meneou a cabeça. Hayes tentou tocar seu rosto, mas ela evitou o contato. Aquilo magoou o rapaz.
— Estão querendo te usar como faziam com Glenn antes de ser pai. Sempre era a isca. Você não... Você não precisa fazer o que eles querem. Não é justo — disse a mulher, fazendo algo se retorcer dentro do estômago de Hayes.
— Não estão me us... — Tucker tentou rebater, mas Carol o cortou, enfurecendo-se também.
— Estão! Não seja ingênuo. Eles sabem que você é bom, leal, sabem que vai obedecê-los. Eles não te respeitam! Não viu como Jesus subiu até seu quarto, revirou suas coisas, achou aquela foto que você tinha guardada... —Peletier desviou os olhos outra vez. Hayes percebeu que ela tentou esconder algo, soltando aquelas afirmações ferinas.
— Ah, entendi — falou com deboche, movendo a cabeça para a esquerda e a fitando com a raiva crescente. — Eles não me respeitam, mas confiam em mim para ampliar a comunidade, para protege-los com o meu trabalho, para ser a porra do chefe das construções, para ir em missões importantes! É claro, faz todo o sentido! Eles realmente me acham um merdinha! — Abriu os braços em sarcasmo. Carol cruzou os dela, o encarando com o cenho franzido.
— E é você quem me valoriza para caralho, querendo que eu fique aqui, bonzinho, como seu cachorrinho obediente! — Apontou para ela, magoado. — Depois de ter de aturar o seu descaso naquela porra da reunião e nos outros dias, sempre se fazendo de sonsa, escondendo de todo mundo o que nós temos! — Soltou suas frustrações em cima dela. Carol ficou boquiaberta, surpresa com aquela reação.
— Eu sei que você tem reservas. Eu entendo isso. Não quero apressar nada ou te forçar a nada — falou, mais contido. — Mas eu não vou deixar você pisar em cima de mim por isso — acresceu. Carol Peletier pareceu ainda mais chocada com aquela última frase.
— Eu sei que você não quer ter de matar ninguém de novo. Eu sei que você sofreu muito. Eu realmente entendo tudo isso. Eu não queria também. Mas eu não vou negar ajuda para eles. Não acho certo. — Ele parou e respirou fundo, coçando a nuca.
— Eu não sei se você teve ciúmes da foto da minha irmã e da Cathy ou algo assim, mas ela está guardada na minha gaveta e não em cima da cômoda por um motivo — admitiu o rapaz, dando um olhar intenso para a mulher a sua frente. Sabia que ela entendera.
— Eu continuo vivo e sinto vontade de viver porque me apeguei a esse lugar. As pessoas que vivem aqui. A você — confessou, mantendo o mesmo olhar. Os olhos de Carol se fixavam nos dele, parecendo confusos.
— E você tem razão. Não podemos decidir pelos outros. Eu vou amanhã, Carol. — Ele deu alguns passos até a porta dos fundos. Peletier se manteve parada, o fitando em silêncio.
— Espero que encontre as suas respostas e se decida também — falou, dando a ela um último olhar. Se comovia com os olhos marejados de Carol, com a postura frágil que ela finalmente revelava, mas não poderia resolver tudo por ela. Assim como ela não poderia fazê-lo por ele.
Tucker Hayes abriu a porta e saiu rumo a noite de inverno. Caminhou para sua própria casa, tirando um cigarro do bolso e o acendendo. Todos tinham seus próprios monstros, escondidos dentro deles. Hayes julgara ter achado uma forma de domar os seus.
Gostava muito dela. Muito mesmo. Mas Carol Peletier tinha de decidir suas prioridades. Pelo que lutaria. Pelo que viveria. Pelo que, se preciso fosse... Se sacrificaria.
Como ele faria por ela.
****
[NA AURORA DA MANHÃ SEGUINTE]
Chovia.
A água plúmbea descia sobre as terras herdadas pelos mortos-vivos. Com os cabelos, a nuca e parte das costas empapadas, ele tentava se concentrar naquela tarefa. Seus olhos estreitos exploravam a região, buscando qualquer sinal de movimento. Já estava atrasado.
Tentava se esforçar para pensar somente naquilo. Achar um errante que lembrasse aquele velho almofadinha escroto de Hilltop. Não poderiam sequer começar a missão se não encontrassem alguém que pudessem fazer passar — literalmente — pela cabeça de Gregory, o líder do Alto do Morro.
Mas seus pensamentos se perdiam em outro problema que assolava sua mente. A imagem de um sujeito encontrado na beira da estrada. Um homem branquelo, de cabelos cacheados e olhos escuros.
O filho da puta do ex-noivo de Mavie.
Daryl Dixon rangeu os dentes, se lembrando de como a mera visão daquele maldito ainda vivo mexera com a Esquila. Era inegável o quanto ela ficara movida com aquele reencontro, despertando dentro dela traumas, mágoas e feridas, que, pelo visto, ainda não tinham sido superados. Não tinham cicatrizado.
Tentava negar para si mesmo uma espécie de emoção conflitante que o acometia. De alguma forma patética, aquele sujeito o fazia se sentir diminuído. Como se fosse uma lembrança de que, não importasse o que Dixon fizesse, ele não poderia proteger Mavie de tudo. Que havia boa parte da vida dela que ele não fizera parte. O relembrava da sua insignificância para ela, que teria tido uma vida bem diferente se nada daquilo tivesse acontecido.
Tinham passado a noite anterior juntos. Agora que melhorara um pouco de humor, a Esquila parecia estar mais do que disposta a recuperar o tempo perdido. Voraz, não lhe dera trégua até a madrugada, e é claro que Dixon adorara aquilo. A química que tinha com Mavelle era algo que ele ainda não tinha experimentado. O sexo com ela era o melhor que já fizera na vida.
Contudo, era irônico, tragicômico, no mínimo, pensar que os dois jamais teriam se encontrado se não fossem a doença dos errantes. E, ainda que tivessem, provavelmente Mavelle não lhe daria atenção. Um caipira burro, limitado, pobretão, ignorante. E ele também a julgaria mal. Uma patricinha metida, mimada, uma idiota bem cuidada que não saberia nada do mundo.
No fundo, Daryl julgava que ela era boa demais para ele. Sempre soubera disso. E a figura de Jeffrey aparecera para jogar na sua cara essa verdade que ele tentava esconder.
Em meio à sua amargura, Dixon fora surpreendido com um som não muito longínquo. Estava desatento. Isso era ruim. Sendo um exímio caçador, não podia se distrair em uma missão de rastreio.
Talvez nem para isso prestasse mais.
Escutou outro ruído abafado, se misturando ao som da chuva pingando pelo amplo matagal. Ergueu mais a balestra, escondendo-se por trás de uma árvore e avaliando o terreno. Pelo barulho, calculou que encontraria o responsável pelo som em poucos segundos.
Levantou mais a balestra e começou a contar. Vinha na sua direção.
Três, dois, um...
Carol Peletier quase trombou contra ele, que, por muito pouco, não disparou uma flecha em sua testa. Soltou uma expiração aliviada, abaixando a arma.
— Geez, tome cuidado com isso — falou sua amiga, em tom de sermão.
— Você vai ficar mesmo? — perguntou Daryl, avaliando a expressão incomodada da mulher.
— O que você acha? — Carol ergueu uma sacola plástica. Lá dentro, Dixon viu a cabeça em início de decomposição de um idoso, com cabelos compridos grisalhos. Passaria facilmente como Gregory.
— Acho que você fez meu trabalho. — De brincadeira, o arqueiro arrancou a sacola das mãos de Carol, andando de volta para Alexandria. Sua amiga soltou um “hey!” afrontada, passando a segui-lo.
Alguma coisa — ou alguém — fizera Carol Peletier mudar de ideia. Não deve ter sido fácil. Daryl conhecia bem a teimosia da amiga.
Talvez ele não fosse mesmo o único brindado com encontros inesperados. Que se revelavam, além de surpreendentes... Bastante frutíferos.
****
[DURANTE A TARDE]
O dia de frio, acompanhado de uma chuva incessante, não trazia consigo muita luminosidade. O cinza era uma cor contínua, erguido acima deles, esmorecendo o verde daquelas terras abandonadas.
Era janeiro, e tinham acabado de passar por uma fazenda de pinheiros, usados como árvores de Natal. Um triste errante vestido de Papai Noel cambaleava pela estrada, seguido de outros ex-funcionários em decomposição, vestidos com jardineiras. A Evergreen Christmas Tree Farm era a referência que Andrew lhes dera para saberem que entrariam na estrada 717 em breve, chegando na pequena cutelaria que agora era a sede de alguns dos Salvadores.
Estavam próximos a Verona, uma pequena cidade dos limites entre West Virginia e o estado da Virginia. Desceram mais alguns quilômetros, enquanto os pensamentos dele passavam em flashes tão rápidos por sua mente quanto a paisagem que corria ao largo do veículo que dirigia. Atrás deles, seguia Carol Peletier, motorista do trailer RV de Alexandria. Daryl e Mavie a acompanhavam lá dentro.
Eles são bons, vai dar tudo certo.
Paul Rovia refletia e se motivava. Fizera um trabalho de campo excelente em Alexandria, melhor do que em qualquer outra comunidade. Os moradores, liderados pelo paranóico, porém diligente Rick Grimes, acabaram aceitando sua estadia por semanas, na qual pôde acompanhar, mesmo que da prisão, o dia a dia de todos.
Eram boa gente. Pessoas pró-ativas, que não só lutavam para sobreviver, mas para manter o restante da humanidade em algum tipo de estado social minimamente democrático. Eram o tipo de pessoas que Jesus gostaria que repovoasse aquelas terras. E não parasitas autoritários como Hashimoto e Negan.
Sabia que uma guerra se aproximaria. Outra. Uma que talvez eles não estivessem preparados ainda. Mas não havia como evitar. O confronto seria necessário, enquanto ainda houvesse ditadores tentando se aproveitar daquele estado de natureza colapsado.
Paul pensou em seu namorado. Haviam se encontrado há pouco mais de um ano, em circunstâncias no mínimo... Inusitadas. Rovia lembrou de como gostava do sotaque mexicano forte dele, de como ele gargalhava alto e contagiava a todos com seu bom humor. Era um homem extrovertido, simpático, que sempre tentava ver o lado bom de tudo, mesmo em meio aquela realidade desconfortável.
Sentiu-se culpado. Se estivesse em Hilltop, talvez não o tivessem levado. Se não tivesse decidido seguir o Exército de Wyoming County, para descobrir o nível de risco que traziam... Talvez tudo pudesse ter sido diferente.
Pelo que Andy dissera, fora levado há quatro semanas. Teria sobrevivido? Teria achado que o abandonara?
Paul sentiu um pungente aperto no peito. Atacar a base de Negan era uma forma de fazer Alexandria declarar resistência contra ele, e, naturalmente, haveria retaliação. Poderia ser muito egoísta de sua parte, mas Rovia torcia para que, internamente, nada acontecesse com Gaspar. Esperava que Negan jamais descobrisse o quanto estava profundamente envolvido naquilo, pois saberia que ele tentaria dar o troco à altura, e sobraria para o homem que amava.
— Rick, estamos chegando. Em menos de cinco minutos vamos estacionar — advertiu Andrew, pelo walkie-talkie. Sentava-se ao lado de Jesus.
— Ok. Já estamos aqui. Vamos esperar meia hora e começamos — assegurou o pai de Carl. Jesus respirou fundo. Precisava se controlar e usar sua melhor postura diplomática. Essa seria sua atuação mais arriscada.
— Yo, tem uns babacas ali na frente — disse Tucker, do banco de trás do Toyota Camry acabado que dirigiam. O rapaz apontou para a entrada da pequena produtora de lâminas, uma microindústria perdida na periferia daquela cidade pequena. Dois homens armados com rifles pareciam conversar enquanto dividiam um cigarro.
— Acho que já nos viram — falou Eugene, nervoso. Jesus viu pelo retrovisor que o professor de ciências suava frio.
— É só seguirem o que combinamos, beleza? — Jesus deu como certo, ao passo que Porter fechou os olhos e soltou a respiração, nervoso.
— Ainda acho que essa ideia é meio escrota... — resmungou Hayes, fixando os olhos nos dois guardas membros dos Salvadores.
Em poucos minutos, perceberam que um dos vigilantes, um cabeludo moreno com barba tão grande quanto a de Jesus, levantou um walkie-talkie, provavelmente informando alguém dentro da base que haviam chegado. Pararam o carro na estrada, erguendo as mãos em sinal de que não queriam confronto assim que saíram.
— Hey, Jesus! Andrew! Seus cornos filhos da puta, achei que não veríamos vocês nunca mais! E chegaram com amiguinhos... Quem são o “gordo e o magro” aí? — indagou dubiamente um dos guardas, mandando que lhes entregassem suas armas. Obedeceram-no de pronto.
O homem estudou Tucker e Eugene com suspeita. Era um sujeito também moreno, parrudo, alto, com um cavanhaque malfeito e olhos estreitos espertos. O vigilante com o rádio comunicador se aproximou, jogando o cigarro no chão e o pisoteando.
— Quem é que está chegando ali atrás? — perguntou o barbudo, apontando para o trailer. — Espero que sejam paradas das boas, hein! — Animou-se, com um sorriso amarelo sardônico.
— Espera aí, Howard — disse o vigilante de olhar sagaz. — Só tem negócio se recebermos outra coisa primeiro — lembrou.
— Está aqui, Zachary. Só queremos o Craig de volta. — Andy passou ao guarda atento a sacola plástica com a cabeça falsa de Gregory. Suas feições fechadas poderiam ser confundidas com raiva e tristeza por aquela humilhação a que sempre eram submetidos, o que deixou Jesus aliviado. Não entenderiam que na verdade Andrew estava profundamente aflito.
Os dois guardas olharam a cabeça. Howard soltou uma risada gutural. Seus olhos de peixe morto revelavam seu senso de humor doentio.
— Hey, Liam, eles trouxeram a encomenda — confirmou o vigia barbudo pelo walkie-talkie. Ouviram estática, e logo o tal sujeito respondeu.
— Bom. Trouxeram alguma coisa a mais? — perguntou o homem pelo comunicador.
— Tem um trailer parado aqui. Vamos verificar — disse Howard.
— Espera um pouco. Vou mandar Oliver e Cameron. Vão checar com vocês — ordenou o líder da base. Desligou a chamada, e logo o cabeludo fez o mesmo.
— Não deve ter sido difícil. Gregory era um filho da puta, mas covarde para caralho — comentou Zachary, cuspindo no chão. Ninguém falou nada.
— Ok, suas bichinhas, o que tem no trailer além da coroa gostosa? — O mesmo homem apontou para Carol sentada no volante, esperando ser revistada. Jesus, perto de Hayes, reparou que a respiração do rapaz se modificara.
— Comida — Andrew respondeu rápido. — Aceleramos a produção para Negan saber que estamos trabalhando bem. E juntamos algumas lâminas — garantiu, enquanto Howard dava mais uma risada.
— Estão resolvendo tomar jeito, hein? E esses filhos da puta? Nunca vimos mais gordos, ou mais viado, no caso do pivete aí. — Apontou para Tucker.
— São de uma comunidade que eu descobri. Querem trabalhar com Negan — ratificou Jesus. Agora foi a vez de Zachary rir, enquanto Howard ficava sério.
— E você quer que eu acredite nessa merda por quê...?
Tucker não esperou. Era a deixa.
— Por causa disso. — O garoto retirou uma quantidade considerável de maconha embalada do bolso de seu casaco.
— Wow, wow, wow! — Howard abaixou o rifle que tinha acabado de levantar. — Não mete mais a mão no bolso sem avisar, fedelho, ou vou ter que estourar pipoco na sua cara.
Zachary ignorou o outro vigia, arrancando a droga das mãos de Hayes. Olhou com cuidado, apertando o volume.
— Vocês que produzem? — o vigilante perguntou, duvidoso.
— Sim. Maconha sou eu. — Hayes mentiu, apontando para si mesmo. — E cocaína é com ele. Faz uma sintética muito boa. É a parada. — Indicou Eugene como se fosse um cozinheiro da droga.
Zachary e Howard se entreolharam. O capanga risonho desatou a gargalhar mais uma vez.
— É a porra do “Breaking Bad” do fim do mundo... O gordo até parece aquele ajudante nerd, e o pivete é a cara daquele outro lá, aquela bichinha que só chora e apanha a série inteira. — Sorriu, se divertindo às custas do nervosismo deles.
— E cadê a coca? — perguntou o vigilante mais contido, ao passo que Eugene retirava um saco ziploc cheio de um pó branco idêntico a droga, até mesmo em textura. Zachary abriu, retirou um pouco com os dedos. Jesus sabia que não iria cheirá-lo. Aquela tarefa era de Liam, que não deixaria seus capangas estragarem sua festa.
— Parece que é cocaína mesmo — refletiu o homem de olhos espertos. Howard se entusiasmou mais.
— Jesus nos contou que Negan faz a segurança de vocês. Nós viemos de uma comunidade pequena aqui perto — Eugene continuou a mentira. — Nossa munição está acabando e temos pouca gente, está complicado lidar com os errantes. Produzimos nossa própria comida, temos uma plantação boa, algumas galinhas, mas estamos preocupados com os mortos caminhantes — disse Porter, demonstrando aflição, o que deixava sua fala mais honesta.
— Vamos ver. Se Liam gostar de vocês, podem esperar a visita do chefe, e ele decide. Mas se isso for da boa mesmo... — Zachary mexeu o saco ziploc. Jesus engoliu em seco, nervoso pelo que realmente estava ali contido. — ...Se for tudo o que estão falando, podemos pensar em um negócio proveitoso para os dois lados. Mandou bem, Jesus! — O vigilante elogiou Paul com um sorriso sarcástico.
As portas da base se abriram, e delas saíram mais dois sujeitos. Um homem também bastante alto, musculoso, de barba por fazer, olhos verdes e cabelos compridos castanhos claros, e outro careca, mais baixo, a barba escura cheia. Fortemente armados com duas AK-47s.
— Cameron, Oliver, dêem uma olhada no trailer — Zachary orientou, e os dois homens seguiram até o RV. Carol desceu e lhes entregou a pistola que usava, enquanto eles abriram a porta, levantando as metralhadoras. Daryl e Mavelle desceram, lhes passando suas armas brancas.
— Está cheio pra porra! — Cameron, o homem loiro, falou à distância.
— Pelo visto o Natal chegou mesmo atrasado para nós... E cheio de neve — Zachary zombou, indicando a suposta cocaína em suas mãos. Howard ligou o walkie talkie, e passou as informações para Liam. O líder da base determinou que Andrew esperasse por Craig do lado de fora, e os outros entrassem. Howard ficou vigiando as portas, enquanto Zachary os guiou para dentro da base.
Se defrontaram com um corredor comprido, cinzento, cheio de teias de aranha no teto. Um rato passou correndo entre as pernas de Tucker, que levou um susto, fazendo o vigia dar uma risada de deboche.
Zachary abriu uma das portas de empurrar, do gênero de depósitos industriais. Logo entraram em uma sala comprida, com algumas máquinas que zumbiam alto. Luzes de emergência estavam acesas, dando um aspecto pálido, doente aquele local.
Cerca de dez pessoas vestidas com uniformes de limpeza andavam de um lado ao outro cuidando de seus afazeres. Não olhavam nos olhos de Zachary nem dos visitantes, era como se não estivessem ali.
Jesus os reconheceu a todos. Eram, sem exceção, ex-habitantes de Hilltop.
Zachary os levou até uma máquina específica. Um homem de olhos azuis arregalados, aparência acabada e cabelos ralos se tornando grisalhos afiava uma peixeira comprida, o afiador gritando em sons ensurdecedores junto as forjas funcionando. O local era quente, fedia, e os ruídos eram insuportáveis.
Perto dele, uma garota de cabelos castanhos escuros presos em um alto rabo de cavalo e olhos da mesma cor limpava o chão. Alguém cortara a própria mão — ou a tivera arrancada — e ela recolhia os pedaços ainda sangrentos com uma pá. Paul se sentiu profundamente apiedado. Era a única vestida com um casaco justo e roupas de ginástica apertadas, decotadas, ressaltando seu corpo curvilíneo.
Negan dizia ser contra estupro, mas será que na base seus homens seguiam seu alegado código de conduta?
Rovia reparou que aquele homem era Redmond Lewis, um engenheiro civil muito querido em Hilltop. Fora um dos principais responsáveis por armar os muros ao redor da comunidade. E aquela era sua sobrinha. Paul esquecera seu nome, e se sentiu ainda pior.
— HEY! — chamou o vigia. Redmond continuou a trabalhar, focado. — Hey, Red, para com essa merda agora! — exigiu Zachary, dando um estalado tapa na cara de Lewis. Jesus viu que Tucker fechara as mãos em riste, enquanto Eugene abria a boca, espantado.
Redmond sequer mudou de expressão. Apenas moveu seus olhos grandes para o vigilante, largando a peixeira e parando o afiador. O diplomata reparou que a sobrinha dele tentava disfarçar um olhar de ódio para Zachary.
— Nós vamos levar a Lilah para ter uma conversinha com o Liam e esses visitantes. Continue com o trabalho dela. Tudo bem pra você? — satirizou o sujeito. Era claro que Redmond não tinha escolha. Jesus repulsivamente viu que o escravo tinha seus pés acorrentados. Uma humilhante punição.
O walkie talkie de Zachary passou a fazer um ruído incômodo. O vigilante gritou a todos: “parem com essa porra” e os escravos pouco a pouco pararam seus trabalhos.
Atendeu. Era Liam, mandando que os moradores de Hilltop fossem ajudar na retirada dos muitos produtos alimentícios. Continuariam a trabalhar depois de descarregar tudo.
— É o seu dia de sorte, Lilah — brincou Zachary com um olhar sádico para a sobrinha de Redmond. O tio apenas olhou para o chão, para a pá.
— Não vai...? — Lewis perguntou, indicando seus pés.
— Óbvio que não, velho. — O capanga riu seco. — Você consegue andar. Só não consegue correr. — Deu um tapa debochado nas costas de Redmond, e colocou uma das mãos nas costas de Lilah, a guiando consigo. Jesus viu a garota franzir os lábios, uma expressão contida de asco em seu rosto.
Zachary os levou até uma sala próxima, silenciosa, com grossas paredes escuras. Era mais iluminada, e um homem se sentava atrás de uma escrivaninha de madeira. Tinha cabelos castanhos até os ombros, sobrancelhas grossas e barba por fazer. Seu olhar calmo e simpático parecia esconder bem seu sadismo.
— Cadê a parada? — Liam pediu, coçando a barba no pescoço, sem dar mais do que um olhar de soslaio para os visitantes. Zachary levou a ele as drogas, deixando em cima da mesa também as armas de Paul, Andrew, Eugene e Tucker.
— Essa história de mortos-vivos realmente deixou as coisas diferentes... — Liam abriu um sorriso, enquanto Zachary se moveu para trás do grupo. O chefe da base pediu para que se aproximassem. Lilah andou até ele, parando ao seu lado.
— Antigamente, tinha toda essa merda de lei anti-drogas, e todas as baboseiras do governo... Ninguém confiava no discernimento das pessoas! Hoje, voltamos a essa política de trocas. — Ele cruzou as mãos em cima da escrivaninha. — Todo mundo tem algo para oferecer. A única coisa que varia é o preço e o valor de cada produto. Não é mesmo, Lilah? — o homem deu um sorriso lascivo para a garota ao seu lado. Ela olhava para o chão.
O líder da base deu um sonoro tapa nos glúteos da garota. Ela fechou os olhos, assustada, tentando se conter.
— Eu te fiz uma pergunta. Espero que me responda, e responda sorrindo.
A jovem voltou os olhos devagar para ele. Estavam marejados, suas bochechas vermelhas pela humilhação. Paul se sentiu arrasado, o que apenas adicionava emoções piores à sua já gritante preocupação por ainda não ter avistado Gaspar.
Ela forçou um sorriso e respondeu.
— Sim, é, você tem razão.
Jesus aferiu que Tucker, ao lado dele, não conseguia conter feições revoltadas. Esperou que o rapaz o encarasse, para lhe dar um olhar significativo. Aquilo acabaria em instantes.
— Delilah é muito convencida — Liam disse. Jesus finalmente se lembrou do nome todo da garota. Delilah Feld.
— Sabe que é a mais bonita daqui, e vive cheia de privilégios — aquele homem repulsivo falou. — Deixamos ela se vestir com essas roupas bonitinhas e não os uniformes das velhas. Afinal, isso também deixa nossos dias mais floridos. Não sei se repararam, mas esse lugar é feio pra caralho! E ela sempre fica fazendo essa cara de choro, mesmo tendo os trabalhos mais leves. Nunca vou entender as mulheres, não ficam satisfeitas com nada! — Liam riu, e olhou para a garota. Parecia esperar que ela risse, porque Lilah forçou uma risada também. A tristeza de Paul apenas aumentou.
— Você está certo, me desculpe — a sobrinha de Redmond disse, sua voz frágil, contida, como toda a expressão tensa que tinha.
— Ah, coração, eu estou sempre certo. — Liam acariciou as costas da garota, que piscou nervosamente. Jesus só ficava mais e mais horrorizado. Percebia que Hayes, próximo dele, estava perto de pular no pescoço de Liam. Eugene também se mostrava incomodado, desviando os olhos do líder da base sempre que podia.
— Bom, bonequinha. — Liam fez um carinho ainda mais devasso nas costas da garota. — Pode voltar para a limpeza. Estava com saudades. Falo com você hoje de noite — falou, debochado.
— Até logo — Delilah respondeu em um fio de voz. Deu um olhar aflito para cada um dos visitantes, como se pedisse silenciosamente por ajuda. Em seguida, saiu da sala.
— Então... Vamos provar essa porra daqui! — O Salvador líder da base esfregou as mãos, abrindo o saco de ziploc e deixando uma carreira de “cocaína” em cima de uma superfície lisa, um peso para papel feito de vidro.
— Vem, Zachary, vou deixar você experimentar também. Ganhamos na loteria hoje, e vou comemorar mais tarde também — falou, e Jesus teve certeza de que ele mencionava aquela pobre garota.
— Você só precisa saber de uma coisa — Eugene finalmente disse algo. Paul calculou a distância da porta. Daria tempo.
Liam e Zachary o fitaram com expressões desconfiadas. O vigia quase fez menção de se afastar da escrivaninha, mas Tucker também se manifestou, quase rosnando.
— Isso é fulminato de prata, vadia! — esbravejou, enquanto Jesus, se movendo na sua rapidez surpreendente, jogou uma de suas bombinhas, preparadas com pólvora, na direção da mesa. Correu com seus amigos para longe no mesmo ato.
A bombinha ativou a reação explosiva do fulminato de prata em pó. A mesa de Liam foi explodida em uma detonação estrondosa, o fogo se espalhando pela sala, fazendo a construção tremer do chão ao teto. Rovia, Porter e Hayes foram atirados para longe, metros distantes da sala.
Paul ficou sem equilíbrio por alguns segundos. Olhou na direção de Tucker e Eugene, também largados no chão, torcendo as feições pelo som que reverberava em seus ouvidos. A fumaça já se espalhava para fora da sala de Liam.
Demoraram alguns segundos para se levantar e começar a correr. Paul ouviu tiros relativamente próximos. Tinha de ser Rick.
Tucker, que se recuperara mais rápido, já corria na frente deles, olhando agoniado para os lados. Cruzaram as portas até a sala industrial, e Hayes trombou contra Delilah, que se apressava na direção deles. A garota foi jogada no chão, enquanto Jesus e os outros a olhavam, surpresos.
— Vamos embora! Viemos salvar vocês! — Tucker avisou, estendendo a mão para que ela se levantasse. Lilah hesitou por alguns segundos e aceitou, segurando na mão do rapaz e se erguendo.
— Onde está Gaspar? Você sabe? — Paul perguntou, aflito, e a jovem respondeu.
— Estava cuidando do lixo! Deve estar lá fora! — Escutaram mais uma rajada de tiros. Os quatro pararam.
— Alguém aqui usa um colt python? — Jesus reconheceu o ruído do revólver de Rick.
— Não! — Lilah disse, nervosa.
O diplomata fechou os olhos, aliviado, os guiando para fora. Correram até chegar ao último corredor, topando com Tara e Rosita.
— Está livre! Matamos todos! — disse a enfermeira de Alexandria, secando o suor da testa.
— Tem alguém lá dentro? — Chambler indagou, olhando por cima dos ombros deles.
— Não. Eu fiquei por último! — garantiu a garota de Hilltop. Jesus percebeu o cheiro de fumaça cada vez mais intenso.
— Vamos embora! — o diplomata urgiu, insistindo para que todos saíssem. Ao se verem do lado de fora, o queixo de Paul Rovia caiu.
Todos os capangas de Negan estavam mortos. Mavelle, Daryl, Michonne e Rick vagueavam de um lado ao outro, as armas em punho, preparados para qualquer surpresa. Carol estava ajudando os moradores de Hilltop a entrarem no trailer.
Jesus reparou que Delilah viu seu tio, ainda preso pelos grilhões. Ela correu até ele, chorando, e se jogou em seus braços. Aos prantos, os dois se abraçaram, finalmente livres. Paul reparou que Peletier disse algo para alguma pessoa já dentro do trailer. E então seu namorado desceu pela porta.
Foi a vez de Rovia sentir seus olhos marejarem. Lágrimas de alívio, de alegria, de regozijo depois de testemunhar tantos horrores. Negan era capaz de despertar o pior no ser humano. Mas ele não iria pará-los. Não iria escravizá-los em seu terror. Não iria humilhá-los.
Nunca mais.
Gaspar Sandoval correu até ele, segurando seu rosto, enquanto ele acariciava os cabelos do homem que amava. “Te amo demás”, repetia ele em espanhol, enquanto Jesus não conseguia dizer nada, apenas rir, abraçá-lo e beijá-lo.
Depois que todos os reencontros se deram e todos se preparavam para voltar, a base de Negan já quase totalmente em chamas, Rick se aproximou da parede.
Tinha uma lata de tinta vermelha, do tipo das usadas por grafiteiros. Desenhou um enorme “A” na parede. Circulou-o, e deu as costas para a base derrubada.
Alexandria vencera a primeira batalha, e já deixara sua marca.
****
[NO DIA SEGUINTE]
Ela ajeitou os ombros para trás, sentindo seus músculos estalarem. Uma pontada de uma curta dor nas costas a deixou desconfortável, mas até esse incômodo era bem-vindo.
Sorriu, olhando para a construção alta. Ainda demoraria um pouco até que estivesse pronta, mas já se sentia orgulhosa do seu trabalho. De todos eles.
Passou a mão nos cabelos suados, puxando seu rabo de cavalo mais alto. O sol já iria se pôr, e seu turno de trabalho acabaria. Descansaria com a cabeça leve, sabendo que se ocupara de forma tão produtiva. Para si e para todos os outros.
— Vai terminar agora? — Tucker Hayes perguntou para Peggy Taylor. Ela confirmou em um aceno de cabeça.
— Beleza. Billy vai assumir meu lugar hoje à noite. Devem trabalhar mais algumas horas. — Hayes jogou um gatorade para Peggy, que sorriu em gratidão. O rapaz abriu um para si, também exausto por tanto trabalho.
Os dois entraram na comunidade pela porta improvisada construída em uma das placas de metal. Tucker se pusera a contar das desventuras e de toda a adrenalina do dia anterior, fazendo caras e bocas, e Peggy ouvia atenta. Ficara amiga daquele rapaz. Ele a lembrava de seu irmão mais velho.
— Esse pessoal novo vai ficar por aqui? — perguntou a adolescente. Hayes confirmou.
— Jesus não acha seguro que eles voltem para Hilltop. Negan vai descobrir que a base foi destruída. É melhor que não saiba que eles sobreviveram, ao menos por enquanto — esclareceu o construtor. Peggy compreendeu, anuindo com o rosto.
— Será que eles topariam ajudar trabalhando? — Peggy Taylor não sabia como dizer que talvez pudesse ser indelicado já colocá-los para trabalhar, sabendo que eram escravos recém-libertos de Negan.
— Ah, sim, parece que essa galera de Hilltop é gente boa, só tiveram... Muito azar, eu acho. — O rapaz levantou as sobrancelhas. Taylor franziu os lábios, sem saber o que dizer.
— Tem uma garota que deve ter mais ou menos a sua idade. Você podia falar com ela. Delilah, Dalia, Lilah, algo assim — comentou Hayes, e Taylor levantou as sobrancelhas, duvidosa. Não era do tipo que ficava amiga de alguém facilmente.
Lembrou-se de Aya.
— É, pode ser... — falou por educação. Tucker se despediu dela, virando uma esquina para seguir para sua própria casa, lhe dando um tchauzinho. Peggy o saudou em retorno, e continuou a caminhar para sua residência. Precisava de um bom banho.
Contudo, ao se voltar para seu caminho, piscou os olhos, surpreendida. Moritz estava parado no fim da outra esquina. Deu-lhe um olhar melancólico, com um sorriso triste.
Ela sentiu seu coração ribombar em seu peito. Não falava com ele há alguns dias. Polidamente, se aproximou do homem. Seu coração acelerou.
— Hey — cumprimentou-o.
— Boa tarde, Peggy — respondeu o ex-palhaço, mantendo o mesmo sorriso triste. Ela ajeitou uma das madeixas atrás da orelha, sem jeito.
— Você sabe quando vão julgar o seu... Caso?
Moritz se surpreendeu com a pergunta direta. Pestanejou e pigarreou.
— Hoje às oito da noite, na praça em que julgaram Rick. — Sua voz soou roufenha.
— Ótimo. Eu vou testemunhar — afirmou a garota. Alvintzi pareceu ainda mais surpreso.
— Como...? — Peggy não o respondeu. Apenas lhe disse um “até logo” e seguiu caminho.
Depois de se banhar e tentar descansar, as horas se passaram vagarosas para Peggy Taylor. A ansiedade crescia dentro dela conforme o momento daquela audiência improvisada se aproximava. As quinze para as oito, enfim, saiu de casa. Mavelle a esperava no pórtico de entrada, seu rosto fechado. Parecia ter adivinhado que a garota compareceria.
Em silêncio, as duas seguiram para a praça. Uma fogueira estava acesa, e Rick estava no centro, perto de Michonne, Padre Gabriel, Maggie e Glenn. Do outro lado, Moritz se sentava sozinho. Não chamaram mais pessoas. Talvez estivessem pensando em ocultar aquilo tudo de algum jeito. Isso afligiu Peggy ainda mais.
— Peggy? — Rick perguntou, surpreso. Os outros a olharam hesitantes, como se não soubessem se era aceitável que estivesse ali.
— Antes de começar... — a adolescente falou. — ...Eu queria dizer que vocês foram extremamente injustos por não me chamarem da primeira vez. Se vocês querem julgar algo da vida privada de duas pessoas, é fundamental que essas duas pessoas estejam presentes. É lógica simples — reclamou com propriedade. Todos ainda pareciam chocados com a sua presença, à exceção de Mavelle, que se sentou perto de Maggie. Bethalie dormia no colo do pai.
— Eu tenho lido bastante Friedrich Nietzsche. E acho que a idéia de extemporaneidade que ele defende se aplica aqui. Não importa o que eu disser, o que Moritz disser, acho que nada vai aclarar as dúvidas e os preconceitos de vocês — pontuou a garota, séria.
— E é por isso que eu falo em extemporaneidade. Eu vou tentar agir aqui por uma justiça que não vai funcionar na nossa realidade. Não vai mudar tudo o que vocês moldaram em suas cabeças. Eu vou defender, no meu tempo contemporâneo, uma justiça que talvez só seja real no futuro, quando as pessoas estiverem mais preocupadas em compreender antes de julgar — disse, ferina, perpassando o olhar em todos os rostos presentes.
— Peggy, acho que... — o líder de Alexandria tentou cortá-la, mas ela continuou.
Moritz a olhava com um olhar inédito. Tinha genuína admiração em suas íris castanhas.
— Esse homem não fez comigo nada do que eu não quisesse. Estávamos juntos porque ambos queriam. Não estamos mais. E com quem eu me relaciono ou deixo de me relacionar não deveria ter a menor relevância para vocês — defendeu a garota.
— Então, eu me responsabilizo pelos meus atos, tanto quanto querem responsabilizá-lo. Se o julgam, me julguem também. A sentença que derem para ele deverá ser dada igualmente para mim.
Rick pestanejou, enquanto todos os presentes ainda fitavam Peggy, assombrada, que terminou de falar.
— Somos todos adultos aqui.

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