Hunters
3 A Morte de “Ninguém”.
Notas iniciais
A iluminação de minha cela na solitária era horrível, era quase um breu completo, porém a escuridão foi cortada por uma forte luz que entrava por aquela porta que se abria.
A luz parecia queimar meus olhos, conseguia apenas enxergar dois vultos um maior, da altura de um homem médio e outro menor, parecia ser um pouco maior que um anão, porém com uma cabeça muito grande.
Ouvi uma voz rouca que soava como um trovão me dizendo:
“Desculpe lhe informar, mas se quiser se matar vai precisar de algo mais firme, acredito que esse lençol fino como um guardanapo não vai suportar seu peso.”
Atordoado com aquela luz achei que estava morto e algo havia vindo ao meu encontro e retruquei:
“Deus é o Senhor”
Foi quando uma risada ecoou fortemente parecendo estremecer a prisão inteira.
“Hahahahahahahahahahahahaha”
“Você ouviu isso Sr. Jojo”
“Não seu idiota, eu não sou Deus”
Meus olhos se acostumaram com a iluminação e pude ver que na minha frente estavam, um homem com uma barba branca e longa, vestindo um terno branco com estrelas no lugar de botões e possuindo um porte físico atlético, entretanto sua aparência era tão velha quanto a idade do planeta Terra, era possível ver as veias por meio de sua pele fina e enrugada, logo ao seu lado estava o que parecia ser um anão vestindo um terno preto, todavia com uma cabeça imensa, oval e careca.
“Meu nome é Zargos e esse ao meu lado é meu secretário Sr. Jojo” – disse o homem velho que possuía a voz estremecedora.
“Como você entrou aqui? Você é algum advogado do governo? Eu já disse que não importo mais com merda nenhuma, foda-se seu miserável” – retruquei-o.
“Advogado? Não, acho que também não.” – respondeu-me o homem coçando a cabeça.
“Bom, como entrei aqui foi fácil, foi com essa chave.” – falou-me mostrando um pedaço de ferro cilíndrico de cerca de treze centímetros da grossura de uma baqueta, com um fio amarrado na ponta.
“Isso é apenas um pedaço de ferro, é impossível usar isso para abrir uma porta, não tem nem formato de chave essa merda.”
“Sr. Jojo, tem certeza que estamos conversando com o alvo certo?”
“Sim Sr. Zargos, é ele mesmo, vitima de um massacre de uma criatura ainda não reconhecida, onde perdeu sua esposa e sua filha, resgatado, preso pelos humanos e sentenciado à prisão perpétua.”
Quando aquele pequeno homem disse isso fiquei espantado e indaguei saltando em direção a eles, agarrando o homem velho pelo terno:
“Vocês? O que são? Como sabem disso? O que matou minha família? Eu preciso saber diga agora.
“Idiota, acalme-se, tudo ao seu tempo” – respondeu-me o homem velho.
“Ao seu tempo, você não entende o que é perder sua esposa e sua filha, miserável” – esbravejei, soltando-o.
Acariciando lentamente sua barba o homem me disse:
“Perder sua esposa e sua filha, bom minha esposa morreu há muito tempo, vitima de uma doença terrível, mal consigo lembrar do rosto dela e meus filhos... um deles está em algum lugar por aí do mundo e o outro infelizmente tive que matá-lo a um tempo atrás, é realmente, acho que não sei como você se sente.”
“Tenho que dizer que raramente recebo indicações tão veementes como a sua, por isso, venha comigo.”
“Ir com você? Para onde?” – perguntei ao velho homem.
“Para aquilo que você tanto busca, sua morte.”
“Minha morte? Você vai me matar?”
“Não exatamente, mas é uma possibilidade disso ocorrer. O que estou lhe oferecendo é a oportunidade de abandonar essa sua vida humana e renascer, em uma nova vida, com a chance de evitar que aconteça com outras vidas inocentes o que aconteceu com sua família.”
“Se acredita nisso me siga, se não, permaneça desperdiçando seu tempo tentando se matar, quando seu destino lhe nega essa possibilidade.” – falou-me o velho virando suas costas junto com seu secretário deixando a cela.
“O que devo fazer?” – me questionava.
“Não tenho nada mais a perder mesmo” – falei para eles levantando-me e acompanhando-os.
Ao sair da cela, tudo parecia estar parado, os guardas pareciam não se mover, pareciam não me enxergar.
“O que está acontecendo aqui? Porque eles não se movem? Como fizeram isso com eles?” – perguntei.
“Não fizemos nada com os guardas, a única coisa que fizemos foi pedir para um amigo nosso abrir um canal entre os intervalos do tempo e estamos nos movimentando nele e eles não estão parados, estão se movendo, mas no tempo normal.” – respondeu o velho.
“Mexer nos intervalos do tempo é muito complexo, pois vidas podem serem afetadas, por isso é necessário vasta experiência.” – complementou.
Ao chegarmos lá fora havia um pequeno avião com três lugares nos esperando, parecia um avião normal, porem sua hélice era na parte trás.
“Aperte os cintos, o Sr. Jojo não pilota muito bem.” – falou Zargos.
“Porque a hélice está virada.” – perguntei a Zargos.
“Porque assim ele voa mais rápido.”
O avião levantou voo, se movia tão rápido quanto qualquer veículo que já havia visto. Dentro de algumas horas pousamos em uma montanha cercada por uma floresta, com um prédio enorme em seu topo.
Acompanhei-os para dentro do prédio, havia um corredor escuro e imenso com apenas uma porta no final e um homem sentado do lado da porta.
Andamos em direção a porta e ao chegarmos lá o homem nos disse abrindo-a.
“Boa noite senhores.”
Aquela porta era um elevador e o estranho é que havia apenas quatro opções para um prédio imenso como aquele, térreo, primeiro, segundo e subsolo.
Zargos pressionou o botão do subsolo, que nos levou até mais um corredor imenso com uma porta no seu fim, o secretário Sr. Jojo foi na frente, abriu a porta e pediu para mim entrar.
Ao entrar na sala, não havia nada, era apenas uma sala quadrada toda branca e extremamente clara.
“Então é isso? Uma sala de hospício?” – questionei.
“Aqui é o lugar onde você irá morrer, psicologicamente ou literalmente.” – me disse Zargos pedindo para Jojo fechar a porta.
Ao fechar a porta, fui jogado ao chão por uma força invisível enorme que continuava me pressionando, parecia que a gravidade do ar havia aumentado.
Comecei a ouvir gritos de papai e a sala começou a escurecer, em meio à escuridão vi a silhueta de minha filha usando um vestido, porém ao se aproximar de mim ela estava completamente desfigurada e começou a me dizer.
“Onde estava você papai?”
“Porque isso aconteceu comigo?”
“Eu lhe chamei mas você não veio.”
“Agora você vai sentir a minha dor.”
“Me desculpe.” – falei chorando e imóvel ainda.
“Desculpe?”
“Vou lhe desculpar no inferno.”
Ao dizer isso ela parou em minha frente e começou a cortar seus braços com suas unhas, o sangue dela espirava em mim, podia sentir o cheiro e a textura dele em mim.
Foi quando olhei para meu corpo. Ele parecia estar todo cortado e comecei a sentir uma dor, uma dor terrível, mas não em meu corpo, em minha alma.
Enquanto isso aquilo que parecia minha filha ria e foi então que tudo ficou claro novamente.
Achei que havia acabado, todavia escutei uma voz.
“Querido.”
“Cadê você?”
“Porque nos abandonou?”
Olhei e era algo que parecia minha esposa, da mesma forma que minha filha estava completamente desfigurada.
Novamente a dor em minha alma voltou e eu comecei a gritar, foram horas, talvez dias dessa forma, não sei, nada fazia sentido naquele lugar.
Quando tudo aquilo acabou ainda estava vivo, ainda estava respirando, mas meus sentimentos pareciam estar mortos.
Foi quando a força desapareceu e abri meus olhos, lembrei-me das flores de Janis, eram camélias a mais bela das flores, assim como ela, e lembrei de Becky, o dia em que fomos viajar para a praia e fizemos um castelo de areia e ela sorria feliz por estarmos ali, todos juntos e lentamente isso tudo foi desaparecendo.
A porta da sala se abriu e Zargos entrou e falou.
“Não é que ele sobreviveu. Agora está pronto idiota, você não pertence mais ao mundo dos humanos, venha vou lhe levar para seu novo mundo.”
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