Hunters
5 Kidnapped
Quando acordou, notou que estava em um quarto escuro e desconhecido, apenas com uma luz azulada vindo da janela. Então se lembrou do enorme pesadelo. Sawyer havia a sequestrado, e em breve a mataria. E ela nem sabia o porque. Então lembrou do que ele disse; iriam atrás dos outros garotos. Thomas, Sebastian e sua irmã Katherine e Joey. Ou talvez, eles já teriam sido pegos.
Ridley afastou o pensamento.
Ela se levantou da cama dura de solteiro e foi até a janela. Afastou as cortinas negras e tentou ao menos identificar aonde estava. Seria difícil. Tudo o que via era um terreno baldio do outro lado e uma estrada esburacada. O prédio em que se encontrava, era cinzento e velho, e ela podia ver que seria uma longa e mortal descida até lá em baixo se tentasse pular.
Tateou a calça jeans mas não achou seu celular. Olhou em volta do pequeno espaço. Sua mochila também não se encontrava em lugar nenhum. Deu um salto quando escutou abrirem a porta.
— Boa tarde, raio de sol — um garoto loiro e com uma voz um tanto insana abriu a porta. — Eu a conduzirei até... Hm... seus novos aposentos.
O sorriso que ele havia colocado no rosto era um tanto parecido com o do Gato de Cheshire. Infinito e curvado.
— Você quer dizer o comodo em que irei morrer, certo? — perguntou ela ironicamente. — Eu quero falar com Sawyer. Agora.
— Irá falar com ele quando chegar lá, querida.
— Não — seu queixo tremeu e ela gritou. — Agora!
O garoto então desfez-se da máscara. Sua verdadeira face, olhos sombrios e lábios contraídos, aparecera. Ele caminhou pisando duro em sua direção, mas antes de poder encostar nela, Ridley transferiu um soco certeiro em seu nariz.
— Ai! Garota estúpida! — ele resmungou enquanto levava as mãos no nariz que sangrava.
— Chame Sawyer. Chame-o!
O loiro hesitou, mas acabou dando meia volta e fechando a porta com um estrondo.
Uns momentos depois, Sawyer entrou no quarto com seus olhos sonolentos naturais.
— Eu tenho que contar uma coisa.
Ele fechou a porta atrás de si e a encarou.
A única luz que entrava era da janela, e ainda assim era pouca, devido o tempo nublado. Deixava o lugar e a Sawyer com um ar azulado e sombrio. O garoto estava pronto para escutar, mas ela não tinha muita certeza se deveria falar.
Pensara no assunto desde que acordou e viu que não tinha saída. Mas condenar os Caçadores, sua família, para salvar a própria pele, seria justo? Ok. Não só a própria pele, ela não sabia ao certo se Thomas e os outros estavam bem ou não. Mas se falasse que fora Duhann que matara aquelas duas pessoas, transferiria a guerra de Demônios e Espíritos para Demônios e Caçadores. E ela não tinha muita certeza se seria uma luta justa.
— Você vai me matar? — perguntou angustiada.
Sawyer franziu o cenho, sem muita paciência.
— Sim... Não tenho escolha.
E ao dizer isso, ele pareceu absurdamente humano. Um humano frio e sociopata, mas humano. Na verdade, Ridley se lembrou que Espíritos apenas se tornavam monstros em sua forma animal. Talvez ele pudesse ajudar. Talvez Sawyer entendesse a situação.
— Mas não se faça de vítima — continuou ele se recostando na parede. —Afinal, são vocês que nos matam sem motivo nenhum.
E isso destruiu toda a sua esperança. Mas mesmo assim, não se calou.
— E vocês são os que matam humanos só por diversão — acusou ela.
— Sim — concordou, tranquilo. — Eu nasci assim. Não tenho escolha.
— É claro que tem! Escolha não matar pessoas inocentes. Simples.
— É a mesma coisa que pedir a um leão para virar vegetariano. É a minha natureza. Não posso ficar sem me transformar e, se me transformar, eu mato.
— Colocando assim, parece até que vocês são as vítimas da história — ela murmurou.
— Humanos matam. Caçadores matam. Espíritos matam — então ele se virou. — É sobre isso que queria conversar? Sobre porque as coisas são como são? Quer uma explicação mais detalhada? Mais filosófica?
Apesar da frieza das palavras, ele não estava irritado. Continuava genuínamente calmo. Ridley também percebeu que ele estava certo. Caçadores matavam, Duhann matou. Ela conhecia o tio, e sabia que apesar de tudo, não era flor que se cheire.
Além do mais, o garoto pareceu sincero em toda essa conversa. E em todo o momento, apesar de pouco, em que estiveram juntos. Isso ou ele era um ótimo manipulador.
— Duhann matou George e Sara. Quer dizer, eu acho. Will, conselheiro da minha mãe, o achou com as mãos lotadas de sangue no dia da cena do crime.
— E o zelador? — Sawyer ainda estava de costas, com a mão na maçaneta.
— Bem... eu e Thomas demos um jeito de coloca-lo lá para livrar Duhann das acusações. Eu mesma fiz a ligação para a polícia.
Quando terminou, sentiu-se como Atlas se livrando do peso dos céus. Ela respirou fundo e fechou os olhos.
Quando os abriu, Sawyer já não estava mais no quarto.
Sentia-se presa e arrependida. Não deveria ter contado aquilo a Sawyer. Mal o conhecia! Provavelmente ele a mataria do mesmo jeito, só pela guerra que, tecnicamente, sua família havia formado.
Quanto mais as horas se passavam, mais perguntas se formavam em sua mente. Thomas e os outros estavam bem? Sawyer iria ajuda-la? E seus pais, estariam a sua procura? Que horas são?! Provavelmente iria perder a aula de hoje na ACA. Iriam perdoa-la, é claro, mas era estranho só de pensar. Nunca havia faltado a nenhuma.
Mas e a guerra? Os demônios iriam se voltar contra eles? Será que ela acabara de criar uma guerra?! Não. Mandou todas essas perguntas para longe e se concentrou na única verdade. Não era sua culpa.
Se fosse para culpar alguém, culparia Duhann. Culparia a Sara e George por serem simpatizantes. Talvez esse tenha sido o motivo de seu tio para mata-los.
Culparia qualquer um, menos ela própria. Ela era apenas uma adolescente de 17 anos que queria sobreviver o suficiente para participar do baile de Halloween. E principalmente, para se formar como caçadora.
Tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Chutou-a, inúmeras vezes, mas a maldita resistiu bravamente. Nem se mecheu. Chutou as paredes, chutou a janela.
Que claro, se quebrou.
— O que foi isso?! — Sawyer entrou no quarto. — Enlouqueceu?
Ridley observou bobamente os pedaços de vidros enormes no chão.
— Talvez.
— Cate isso.
— Não.
Sawyer avançou no quarto parecendo cansado da garota teimosa e petulante.
Ele mal havia se abaixado para catar os pedaços quando ela disparou em direção a porta. Foi tão rápido que deu de cara com a parede do outro lado, e acabou percebendo como o corredor dali era estreito. Continuou avançando até encontrar escadas cobertas por carpete cor verde-musgo e descer de dois em dois degraus.
Assim que chegou no primeiro andar, viu um pequeno espaço que dava em direção a porta, e era dividido por paredes amarelas dos dois lados. Haviam duas portas; uma na esquerda e outra na direita, mas ela não se importava em saber aonde levavam.
Ela levou a mão a maçaneta e saiu. Diminuiu apenas um pouco o passo, para conseguir tomar folego.
Agora, atravessar o terreno baldio, seguir pela direita repleta de árvores ou a esquerda nebulosa? Antes que pudesse se responder, um pequeno redemoinho a impediu de correr e em um piscar de olhos Sawyer estava ali.
— Sabe, eu estava apenas esperando você lá de cima.
Quando ela lentamente se deu conta que havia sido pega, começou a soca-lo, frustada. Ele segurou seus pulsos.
— Pare.
— Você não me matou. Viu? Não é tão difícil se controlar — indagou como uma louca, e com a respiração falhando.
Ele deu uma risada.
— É. Eu consigo me controlar por dez segundos.
Eles entraram novamente na casa e deram de encontro ao garoto loiro, que estava com uma atadura manchada de sangue em seu nariz. Esse, olhou com ódio para Ridley e avançou em sua direção, mas Sawyer se prostou em sua frente em forma de proteção.
— Controle-se, Frank.
O garoto apenas saiu andando, carrancudo.
Ridley se perguntou quantos mais sobrenaturais haveriam naquela casa.
Sawyer a guiou até a cozinha, que ficava atrás do lance de escadas. Era uma cozinha normal, aonde qualquer família decente de Doddge poderia viver. Ele a empurrou até a pia e abriu um dos armários.
— Não vai fugir de novo, vai?
— Para que? Você provavelmente me perseguiria pela casa na forma de um rato.
O garoto deu um sorrisinho, como se tivesse achado aquilo engraçado. Mas Ridley falava sério. Ele pegou uma vassoura e uma pá, e entregou-os para ela. Ridley os pegou, mas não parecia satisfeita.
— Agora está adequado — disse ele examinando-a. — Por favor, arrume aquilo.
Ela suspirou.
— Não posso simplesmente deixar ali? Não me incomoda.
— Para você enfiar na minha jugular da próxima vez que eu entrar? — perguntou arqueando as sobrancelhas. — E mais uma coisa: para uma caçadora, você é bem preguiçosa.
Ela empurrou as coisas para ele e soltou. Ofendida, saiu andando.
— Quando irá me tirar daqui?! — berrou ela como uma adolescente rebelde proibida de sair de casa.
— Hoje à noite.
Ela se virou. Ele falava sério.
— Então você acreditou em mim?
— Sim. — ele disse largando a pá e a vassoura no chão. — Mas quero leva-la a um lugar antes.
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