Hunters
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Violet
O sinal que indicava o intervalo tocou. Levantei as pálpebras devagar, acostumando-me a luz do sol, que invadia a sala de aula sem permissão, através da cortina barata que acompanhava as janelas. Passei a mão pelo rosto, procurando vestígios de baba, ou qualquer coisa que pudessem ter colocado na minha cara enquanto eu dormia. Prendi meu cabelo castanho — que quando solto chegava até a metade das minhas costas, isso se não resolvesse se rebelar — e ajeitei as mangas do casaco, as levantando até a altura dos meus cotovelos.
Esperei que o acúmulo de pessoas na saída da sala cessasse para que eu pudesse sair. Sempre odiei tumulto e aglomerado de gente e definitivamente, não seria agora que eu começaria a gostar.
Respirei fundo e levantei. Segui rumo ao refeitório e esperei na fila, na expectativa de pegar um hambúrguer. A fila foi andando, e eu continuei com minha bandeja em mãos, vazia.
- O que vai querer hoje, Ewan? — Jennet, a cozinheira, perguntou.
- Hambúrguer, Jen.
Ela comprimiu os lábios de uma forma estranha, os entortando, fazendo uma careta descontente.
- Sinto muito querida — ela lamentou. — Mas aquele rapaz pegou o último. — Ela apontou para um garoto que estava mais a minha frente. Deveria ser novato, quem sabe. Vestia uma jaqueta preta e calças jeans escuras. Tinha pele caucasiana e cabelos negros curtos, até o começo do pescoço, mais ou menos. Ao menos pelo seu perfil, seu rosto era lindo.
Ele saiu da fila, satisfeito com seu hambúrguer e uma latinha de Coca Cola, e foi se sentar em uma mesa vazia, no canto do refeitório, isolado.
E eu fui atrás. Alcancei a mesa e pigarreei. O filho da mãe fingiu que não ouviu, portanto, cutuquei lhe o ombro.
- Perdão?
Então ele finalmente olhou para mim.
Ele tinha olhos tão escuros, que o contraste com sua pupila era quase imperceptível. A pele, entretanto, parecia ainda mais branca de perto, chegando perto da palidez. Tinha feição séria, mesmo com os lábios curvados num meio sorriso.
- Se veio aqui pelo hambúrguer, — ele me respondeu, simplesmente. — sinto dizer que veio a toa.
Arfei incrédula, estreitando os olhos.
- O quê?!
- Pois é, desculpe. — Mas pelo tom dele, era claro que ele não sentia culpa nenhuma.
Senti que esse seria o momento perfeito pra socar aquele rosto perfeitinho e sair correndo, sequestrando o hambúrguer.
Mas no segundo seguinte, quando ele sorriu abertamente para mim — ou riu da minha cara de pateta, o que talvez seja mais provável -, eu não me importei em comer ou deixar de comer o hambúrguer. Meu único desejo, por aquele momento, foi ver aquele sorriso novamente.
Savannah
Recolhi todos os livros das aulas que não teriam no dia seguinte do armário e coloquei na mochila. Assim que terminei, fechei a porta do armário e puxei o zíper da mochila para fechá-la. Entretanto, a Lei de Murphy não me deixou imune.
O zíper da mochila soltou o que fez com que a mochila abrisse e todos os livros caíssem no chão.
- Droga! — resmunguei, me abaixando pra recolher os cadernos.
Instantaneamente, como se fosse proposital, levantei o olhar. Algo chamava minha atenção, sem que eu soubesse ao menos o que era.
- Isso realmente é fruto de falta de atenção — um rapaz atrás de mim falou, irônico. Levantei-me com o susto. — Fez mesmo uma bagunça no corredor, ruiva.
Respirei fundo e contei até três. Definitivamente, deviam distribuir para a pequena porcentagem de ruivos uma placa com a seguinte frase: "Não me chame de ruiva(o)!"
Extremamente necessário.
- Cale a boca, babaca — disse. — E meu nome não é ruiva.
Ele sorriu pra mim e, chegando mais perto. Ele tinha cabelos cor de chocolate e olhos verdes claríssimos. Vestia um casaco claro, jeans e All Star. Quando se aproximou o suficiente de mim, além de perceber o quão alto ele era, pude ouvir seu cochicho em meu ouvido:
- E o meu não é babaca.
E de repente, toda a raiva que eu senti foi por água a baixo, só por sentir o perfume daquele idiota sarcástico.
Violet
A biblioteca da escola era, definitivamente, o lugar mais tranquilo, quieto e entediante daquele colégio. Ou seja: uma raridade. E era por isso que eu sempre ia pra lá.
Se há algo que eu odeio mais que aglomerado de pessoas, é um aglomerado de pessoas conversando. Murmúrios é a última coisa que preciso depois de sair de uma sala de aula.
Entretanto, meus planos foram arruinados quando Anastasia, a recepcionista da biblioteca, trancou a entrada.
- O que aconteceu? — questionei, arqueando uma das sobrancelhas. Anastasia mordiscou o lábio inferior, fazendo uma careta triste.
- Sabe a chuva de ontem a noite? — ela perguntou e eu assenti. — Acabou que tiveram várias goteiras na biblioteca que prejudicaram certos livros de algumas seções. A diretora pediu para que fechássemos mais cedo hoje. Sinto muito.
Pois é, eu também sinto muito. Porque aparentemente, essas são as palavras que eu mais estou ouvindo hoje.
Olhei pela janelinha de vidro que havia na porta de entrada da biblioteca sem querer e não acreditei quando vi que havia alguém lá dentro sem permissão.
Muito menos quando percebi, olhando nos olhos dele, que era justo o cara de hoje de manhã.
O cara do hambúrguer.
Notas finais
Então, espero que gostem, e, por favor, mande um review me contando sua opinião! Isso é muito importante, tanto pra mim quanto pra qualquer autor.
:D
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