Hoje completa uma semana que eu não durmo direito, pois dormir num banco de ônibus ou de trem, não pode ser considerado como dormir bem. De qualquer modo, consegui viajar quilômetros nessa semana, sem parar tempo suficiente em nenhuma cidade.

No momento estou em Barcelona, no aeroporto acertando os últimos detalhes da burocracia existente para que eu não tenha nenhum problema legal nos estados Unidos.

Consegui depois de muito esforço comprar minha passagem para às sete horas da noite de hoje mesmo.

Fui correndo para o hotel arrumar minhas coisas, embora fosse nove horas da manhã, quero me livrar de tudo que me prende a esta cidade e passar minhas últimas horas na Europa dentro do grande aeroporto de Barcelona.

Entrei no quarto do hotel e comecei a arrumar minha mala, na realidade apenas chequei se não estava nada fora dela e coloquei minha arma no topo das roupas, no caminho do hotel até o aeroporto terei que me livrar dela.

Coloquei minha mochila nas costas, fiz o check out e saí do hotel, caminhei apenas umas quadras até achar um pequeno beco, não havia ninguém nele, apenas uma grande lata de lixo.

Não pensei duas vezes antes de enrolar a arma nunca roupa qualquer e joga-la no lixo, pode parecer burrice o que fiz, mas só tinha duas balas. E mesmo que para mim isso pode ter sido quase como se despedir de um filho, não valia a pena me arriscar a causar escândalo por entrar num aeroporto armada.

Quanto mais imperceptiva mais segura, este é meu mais novo lema.

Chamei um táxi que me levou ao aeroporto, paguei o taxista, peguei minhas malas e fui à direção do aeroporto.

Embora este aeroporto, como todos os que conheço, parece um shopping, ele nunca iria me livrar completamente do tédio.

Comi um salgado qualquer numa lanchonete, não quero, nem preciso perder tempo nos restaurantezinhos cheios de fila apenas para ter uma refeição decente. Consegui sobreviver todo este tempo na base de salgados, lanches, saladas ou vitaminas, não preciso agora começar a me preocupar com uma alimentação saudável.

Comprei um livro, daqueles de terror, bem grossos que me manteriam distraída por um bom tempo. Sentei-me num banco qualquer e comecei a ler.

A história era meio clichê, sabe um grupo entra numa casa estranha e abandonada, mas começam a ver que ela não é tão abandonada assim. Várias tragédias começam a acontecer, sangue jorrando para todos os cantos, mortes uma mais cruel que a outra. Nada além do bom e velho clichê.

Quando eu estava chegando ao capítulo 15 meu relógio começou a apitar, olhei-o e vi que já era seis horas.

Levantei-me e peguei minhas malas, procurei a bancada onde eu faria o check in e entrei na fila.

Não demorou mais de dez minutos para já estar com tudo pronto, peguei a passagem, deixei minha mala lá e foi até o portão de embarque que estava indicado na passagem.

Os minutos passavam num ritmo enjoativamente demorado, posso jurar que se passaram três horas para o ponteiro dos segundos se mexer.

Quando finalmente o embarque começou acabei sendo a última da fila, que andava a passos de tartaruga, e que me fez desejar ardorosamente ter comprado passagem para a classe executiva ou para a primeira classe.

E antes que minha paciência se esgotasse eu finalmente entrei no avião e me sentei na pequena cadeira da classe econômica.

Devo admitir, ir à classe econômica causa claustrofobia, para minha sorte eu sentei na janela então pude ficar olhando a asa do avião ao invés de me importar com o fato de não poder esticar as pernas.

Olhei para o lado e vi que meu companheiro de viagem seria um velhinho, sabe daqueles que parece um maracujá de gaveta? Com os cabelos brancos e óculos mais grossos que cofre de banco? Então, este era meu companheiro de viagem.

O comissário de bordo parou do lado do banco do senhor e olhou para mim, dando uma pequena tosse para chamar minha atenção.

-Você é a senhorita Stevens? – ele me perguntou com uma voz séria.

-Sou, por quê? – eu estava confusa, mas alguma coisa me dizia que isso não seria boa coisa.

-Poderia me acompanhar? – ele pediu solene.

-Por quê? — bom eu poderia ter ficado sentada e exigido uma explicação, mas a curiosidade foi mais forte.

Levantei-me e o segui, ele não se deu ao trabalho de me responder apenas andou pelo avião. Passamos por toda classe econômica, chegamos à executiva, mas continuamos andando, até que chegamos à primeira classe e ele parou do lado de uma poltrona.

Olhei para quem estava sentado lá e me surpreendi. Era. AQUELE vampiro! O culpado pela morte dos meus pais, pela minha demissão, por todas as desgraças que aconteceram comigo. Era ele! E me olhava com um olhar indiferente e um sorriso cinicamente simpático.

-Sente-se – ele me pediu apontando para a poltrona do seu lado.

Como todas as poltronas da primeira classe ela era muito espaçosa, virava uma cama e tinha espaço suficiente para esticar as pernas, além de a TV ser muito maior que a da classe econômica.

-Não, prefiro voltar para o meu lugar – respondi sem o encarar, mas minha voz não saiu tão fria e seca como eu queria, nem teve o mínimo de confiança que as palavras requeriam pra frase ter o efeito desejado.

-Você vai mesmo recusar um acento na primeira classe? Sente-se, juro que não lhe farei mal algum – ele estava sério e seus olhos não pareciam mentir.

-Certo, eu me sento aqui.

-Sempre soube que faria a decisão mais sábia.

Mal sentei na poltrona super confortável e coloquei o cinto, o avião levantou vôo.

-Por que fez isso? O que quer comigo? – não pude deixar de perguntar, essa história estava muito mal contada, um vampiro não deveria fazer boas ações assim para com uma caçadora.

-Sinceramente? Não faço idéia, mas algo me disse que você estaria em grande perigo quando chegasse ao seu destino e não sei o porquê, mas senti uma necessidade insana de te proteger – ele contou olhando e teto de maneira sonhadora.

Eu não consegui responder, parecia que algo tomou conta da minha garganta e a impediu de produzir qualquer som que fosse, será que ele está falando a verdade? Porque será que ele quer me proteger, ele não era meu inimigo?

-Está sem palavras? Isso é uma novidade – ele retomou seu ar zombeteiro e todo o momento cósmico mágico e profundo acabou, e com isso minha voz voltou.

-Você tinha conseguido subir no meu conceito, mas acabou de voltar para onde estava.

-Não acho. Você ainda está confusa pelo que eu te falei. O problema é que nem eu mesmo sei por que sinto esta necessidade de te proteger – ele me encarou sério, mas seu sorriso permanecia cínico.

Foi então que eu percebi que seus olhos estavam cinza esbranquiçados, mas brilhavam de um jeito intenso, acho que nunca vi um brilho tão vivo nos olhos de um vampiro, seus cabelos estavam mais bem penteados e sem resquícios de sangue e no seu sorriso só se podia ver o brilho branco de dentes perfeitos. Usava roupas comuns. Uma camiseta justa que marcava seu peitoral bem definido e uma calça jeans básica. Tudo nele caía de maneira tão perfeita que era difícil não admitir que ele fosse muito bonito.

-Sabe, você estaria num grau um pouco maior se desse ao menos o trabalho de dizer seu nome – comentei sorrindo igualmente cínica.

-Richards, Vincent Richards – ele se apresentou fazendo uma pequena reverência.

Richards. Eu conheço esse sobrenome de algum lugar. Mas de onde? Eu já conheci alguém com esse sobrenome, mas quem?

-O meu você já sabe. Então Vincent o que planeja fazer nos Estados Unidos? – decidi por tentar ter uma conversa civilizada com ele, afinal passarei onze horas do lado deste. Vampiro.

-Já disse que vim para te proteger, lá é um continente novo, com leis novas, será difícil para você se acostumar o perigo lá será três vezes maior para você – ele explicou como se fosse algo muito óbvio.

-Não preciso de ajuda – reclamei e virei o rosto para olhar pela janela, por que será que todo mundo quer me proteger?

-Não fique brava. Sei que você não precisa, mas eu não me sentiria bem se algo de ruim acontecesse com você – ele falou as minhas costas, sua voz tinha um tom um tanto. Culpado.

Virei-me e o encarei ele estava com o olhar baixo perdido em pensamentos, o que será que o deixava tão culpado com relação a mim? Será que ele se arrepende pela morte dos meus pais? – não fico brava – dei meu melhor sorriso e quando ele levantou a cabeça me devolveu o sorriso.

-Vamos assistir um filme? – me perguntou mudando o rumo da conversa.

-Claro, escolhe um aí – concordei dando de ombros.

Ele colocou um filme de comédia, me disse que não gostava dos de suspense e terror porque davam sede, então pegou o menos sangrento possível.

Apoiei o braço no braço da poltrona dele para enxergar melhor o filme, não tinha muito sentido, era daqueles filmes de pura tiração de sarro com tudo então assisti sem prestar muita atenção.

Não sei o porquê, mas tudo ficou escuro, minha cabeça pesava, fechei os olhos e dormi. O cansaço desses dias finalmente começou a pesar.

-Hey! Anabelle! Acorde! – alguém me cutucava e chamava, mas meus olhos não queriam abrir – Vamos Anabelle! O jantar será servido! – ou ouvir a palavra jantar minha barriga começou a roncar e fui obrigada a acordar.

Descobri que estava deitada na minha poltrona, que fora inclinada até parecer uma cama, fiz a poltrona voltar a ser poltrona e esperei pelo comissário de bordo chegar com a comida.

-Carne ou massa? – ele perguntou para nós.

-Carne para ela e massa para mim, e para beber vinho tinto para nós dois – Vincent pediu antes que eu pudesse abrir a boca.

Ele arrumou aquela mesinha embutida para que eu pudesse comer e pôs o prato com arroz, carne com molho madeira e salada e do lado uma pequena garrafa com vinho tinto e um copo plástico.

Para Vincent a única diferença era que no prato dele tinha macarrão com bastante molho vermelho.

Comecei a comer, e estava muito bom. Sabe posso não admitir mas uma comidinha de verdade faz bem de vez em quando, o único problema é que este prato é muito pequeno, minha fome só foi um pouquinho minimizada.

-Pode comer – Vincent pegou o meu prato vazio e colocou o seu prato intocado.

Não pensei duas vezes antes de devorar o prato, acho que nunca comi com tanta vontade, ou nunca comi tanto, mas devo admitir, para uma comida de avião até que estava delicioso.

-Você sujou o rosto – Vincent comentou rindo e limpou o que estava sujo com seu guardanapo, logo depois abriu o vinho e encheu meu copo.

Observei o vinho ele tinha uma tonalidade de vermelho escuro um tanto arroxeado que me lembrava muito a sangue. Peguei o copo e temei um grande gole – Vinho tem cor de sangue – comentei.

-Tem mesmo – Vincent concordou tomando um pouco do vinho que ele acabara de por no seu copo.

-Será que sangue tem gosto de vinho? – perguntei pra ele observando uma gota de vinho passar pelo seu queixo e cair na camiseta causando uma pequena mancha.

-Não – ele murmurou e colocou a boca perto da minha orelha – sangue é mais saboroso – sussurrou.

Um arrepio percorreu toda minha espinha, não sei como é que estava minha cara, só sei que ele começou a rir assim que se afastou.

A viagem continuou agradável, Vincent era alguém com quem você poderia falar de assuntos sérios, cotidianos, engraçados... Sobre qualquer tipo de coisa sem precisar se esforçar muito.

Notas finais
espero que gostem deixem reviews!!plz!!!