Notas iniciais
-Por quê? – foi a única coisa que consegui dizer, minha voz saiu baixa e falhando.

Estávamos a 500 metros da mansão da Associação, escondidos nas sombras, mas eu podia ver muito bem o que acontecia nos jardins.

Dez vampiros tentavam entrar, mas meus pais lutavam com eles com toda sua força e habilidade. Eles eram os melhores, por isso eram os presidentes.

Os membros do Conselho estavam cuidando para que ninguém fosse até lá.

-Por que ninguém está ajudando mamãe e papai? – perguntei para mim e me levantei para ir ajudá-los.

Mas o vampiro segurou meu braço — Fique aqui – ele ordenou sério.

-Me largue! Eu tenho que ajuda-los! Mamãe e papai vão morrer se ninguém fizer nada! – tentei me soltar, mas ele era mais forte – Me larga! Dez contra dois é covardia! Por que ninguém os ajuda? – me virei para ele e berrei irritada sentindo as lágrimas caírem pelo meu rosto – por que ninguém os ajuda? Por que você não me larga? Deixe-me ir! – implorei caindo de joelhos no chão.

-Não posso – ele respondeu sério, levantei os olhos para ele. Imaginei que ele estava apreciando isso, mas não, ele apenas observava a luta que acontecia às minhas costas. Parecia até sentir-se um pouco culpado.

-Por quê? – foi a única coisa que consegui dizer, minha voz saiu baixa e falhando.

-Não posso te contar – ele não me encarava, apenas olhava para o campo. Ele se ajoelhou na minha frente e me abraçou.

-Hey! Por que você está fazendo isso? Me larga! – mandei.

-Não.

-Para de falar não! O que está acontecendo? – perguntei, ele não me deixava virar a cabeça para ver o que acontecia.

-Seus pais morreram – ele sussurrou, mas eu ouvi. Será que eu ouvi certo? Não podia ser verdade, ou podia?

-Você está mentindo não é? – diga que sim. Por favor! Diz que eles estão bem, você que estava tirando com a minha cara, por favor.

Ele ficou quieto. Não... Não... Consegui me soltar dele, levantei e me virei.

Mamãe e papai estavam no campo. No chão. Mo. Mor. Não. Eles podem ter apenas caído, mas então qual o porquê do sangue em volta dos seus corpos? Eles não estavam se mexendo. Por que eles não se levantavam?

Cadê os vampiros que os mataram? Será que fugiram? Não. Eles devem ter matado aquelas criaturas nojentas!

O ar começou a faltar. Eu simplesmente me recuso a respirar. As lágrimas corriam em correntes pelo meu rosto, mas eu não ia berrar, eu não ia chamar seus nomes. Não adianta mais.

-Você! A culpa é sua! Você disse que eles não iam morrer se você ficasse vivo – comecei serrando os punhos, ainda de costas para aquele vampiro. Virei-me, a raiva me dominava, eu quero mata-lo – você. Você me enganou! Eu vou te matar! Nem que para isso eu precise ir para o inferno! Mas você irá morrer! – anunciei com ódio.

-Faça como quiser – ele falou de cabeça baixa e saiu correndo.

-VOLTE AQUI! ENFRENTE-ME COMO HOMEM! – berrei para o nada – VOLTE! DEIXE DE SER COVARDE E ME ENFRENTE! PROMETO QUE SUA MORTE SERÁ BEM DOLOROSA!

-Ana? – alguém me chamou, virei para trás e vi uma das pessoas que menos queria ver. Ou será que eu queria?

-Will! – exclamei e o abracei – A culpa é toda dele! Ele disse que ia deixá-los vivos se eu não o matasse! Ele me enganou!

-Calma. – ele me abraçou e colocou a mão na minha cabeça afagando meus cabelos – tudo vai ficar bem. Nós vamos o encontrar.

-Nós não vamos nada! Quem vai matar ele será eu! Só eu! Apenas eu! Essa briga é minha! Ele é meu! O sangue dele é meu! A vida dele é minha! O prazer de acabar com ele será só meu! – anunciei confiante me afastando dele e o encarei.

-Vingança não leva a nada.

-Leva sim! Leva a auto-gratificação! Ele merece! Ninguém! Eu repito: ninguém! Engana-me, e sai impune! Principalmente se este alguém for um vampiro nojento e idiota! – discordei.

-Vamos. Preciso te levar para a Associação – ele informou pegando no meu pulso e me puxando – se acalme.

Por alguma razão ficar perto dele, me deixava mais calma. Era como se todas as coisas ruins deixassem de ocupar o lugar de destaque na minha mente. Não resisti, apenas me deixei ser guiada.

Começou a chover. Uma daquelas chuvas finas, porém intensas. Era incrível como sempre que algo extremamente ruim acontecia com você começa a chover.

Demoramos a chegar à mansão, não era muito longe, mas Will fez um caminho que passava o mais longe possível de onde meus pais estavam.

Eu estava completamente molhada. A chuva lavou o sangue do meu corpo. Então entramos na casa.

-Belle! – Melissa correu e me abraçou derramando lágrimas quentes no meu ombro – isso foi tão horrível! Eles. Eles. – ela não conseguiu terminar, pois os soluços não deixavam.

-Mel. Você não está me ajudando em nada – comentei para ver se animava ela com um pouco de humor negro. Porém não deu certo, pois ela chorava mais e mais, eu entendo. Afinal, mamãe e papai eram como pais para muitos de nós. Foi papai que aconselhou Josh a se declarar para Mel, e mamãe a ajudou a controlar a timidez que sentia perto do loiro. – Mel, eles eram ótimas pessoas, mas garanto que não ficariam felizes de nos ver sofrendo por eles – disse tentando parecer segura do que dizia. Ou talvez tentando acreditar nestas mesmas palavras.

-Nossa, nunca achei que você agiria de maneira tão madura. – Josh comentou ao se aproximar. Pude perceber que seus olhos estavam vermelhos e levemente inchados além de haver caminhos de lágrimas em suas bochechas.

-Eu já chorei. Agora preciso encarar que a única coisa que posso fazer para recompensá-los de algum modo será me tornar a caçadora mais forte que já existiu para poder matar um por um os assassinos deles – contei decidida.

-Estaremos aqui para o que você precisar! – Josh anunciou sendo motivado por acenos de concordância de Mel e Will.

Eu me emocionei, não esperava isso deles. Nunca tivemos conversas longas, dividimos segredos, ou qualquer uma dessas coisas de amigos, mas mesmo assim eles estavam ali. Apoiando-me no meu momento mais difícil. – Obrigada! Vocês conseguiram me alegrar neste momento de tristeza! – agradeci sorrindo.

Mas mesmo assim ao entrar no meu quarto aquela noite senti uma tristeza muito grande.

Senti como se parte do meu coração tivesse sido arrancado de mim. Lágrimas não vinham. Seria até melhor chorar, mas eu não conseguia. Apenas sofria em silêncio. Tentando dormir, desejando que os sonhos levassem minha mente para longe dessa triste realidade.

Não consegui. Nesta noite. Meus sonhos ficaram conturbados. Sempre acabavam direcionando para a morte dos meus pais. Cada vez uma morte diferente. Foi como se eu assistisse ao filme de terror da minha vida. Incessantemente. Sem que conseguisse acordar e sair daquele inferno.

-Ana! Ajude-nos! – eles berraram pela quinta vez aquela noite. Eu via os vampiros os cercando e atacando-os de uma vez, mas minhas pernas estavam duras. Eu não conseguisse me mexer.

Meu rosto estava estranhamente quente e tudo passou a ficar claro demais.

Abri os olhos e percebi que aquilo era um pesadelo. Estava suada e ofegante. Percebi o sol na minha cara, pelo jeito esqueci de fechar a janela antes de dormir.

Virei a cabeça para ver as horas. Sete da manhã, já estava atrasada, mas não senti vontade de sair da cama. Fiquei deitada.

Meu corpo doía muito, eu estava com frio e minha cabeça latejava. Parecia que o mundo iria explodir — Atchim! – espirrei, mas que ótimo, estou gripada.

Bateram na porta. Deveria ter sido uma batida baixa, porém quando se está com dor de cabeça, qualquer barulho fica insuportavelmente alto – Entre – falei com a voz estranha. Acho que isso se devia ao fato do meu nariz estar entupido também.

-Você está bem? – Will indagou entrando no meu quarto.

Eu lancei um olhar “o que você acha?” e ele se aproximou e colocou a mão no lençol da minha cama.

-Por que sua cama está úmida?

-Dormi com a roupa molhada – respondi olhando para minhas mãos, e assim impedindo de ter de olhar para aqueles olhos verdes.

Ele me encarou, colocou a mão na minha testa. Caramba que mão gelada! Falando nisso eu estou com frio. Muito frio. – sua mão está gelada! – reclamei.

-Isso é por que você está queimando em febre. Suas roupas estão molhadas? – ele sempre foi direto, mas pude perceber pela voz dele que ele estava preocupado, ou será que estava tão mal que já começara com as alucinações?

-Um pouco. Meio úmidas – falei enquanto checava a minha roupa – ta frio! Você podia pegar um cobertor? – pedi, meu nariz estava entupido, então minha voz saia um pouco esganiçada e fanha.

-Cobertor nada! – ele berrou enquanto ia até o meu guarda-roupa.

-Ai! Fale mais baixo.

-Saia daí e se troque! – ele mandou me entregando uma troca de roupa.

-Mas sair da cama vai ser ruim. Ela está tão mais quentinha. – reclamei grogue.

Will pegou meus pulsos e me puxou para fora da cama, ele era forte. Digamos assim, ele perderia fácil para o Josh, mas ele conseguiria me carregar no colo sem muita dificuldade.

Ele finalmente conseguiu, fiquei em pé com certa dificuldade, senti uma tontura insana, mas mesmo assim consegui ficar de pé com a ajuda dele, ele me levou até o meu banheiro.

-Você... Vai... Pre... Precisar de ajuda? – ele perguntou corando.

-Will, se eu não precisasse da tua ajuda, eu não estaria me apoiando em você – respondi sarcástica, sinceramente eu não entendi o porquê dele corar. Afinal eu estava doente, preciso MESMO de ajuda para me trocar.

Ele me colocou encostada no beiral da porta para que eu não caísse e ficou de frente para mim, seu rosto tinha atingido um tom de vermelho que eu achei impossível que alguém pudesse atingi-lo.

Ele tirou minha blusa de olhos fechados, coisa que eu achei absolutamente fofa da parte dele. Ele pegou a blusa seca e tentou me vestir, ainda com os olhos fechados. Não preciso dizer que ele não estava tendo sucesso.

-Hey! Pode abrir os olhos – eu autorizei, se eu ficasse mais tempo de sutiã minha gripe iria piorar. Ele abriu os olhos e me encarou, ao contrário dos garotos de 17 anos normais, Will era bem puro. Eu acho, pelo menos ele tentou manter o máximo o olhar em meus olhos.

Ele colocou a minha blusa-vestido, sabe aquelas camisetas enormes que vão até uns quatro dedos abaixo do bumbum? Então era uma daquelas.

Meu corpo doía tanto que não conseguia me segurar de pé direito, mas fiz uma tremenda força para ajudá-lo quando ele começou a tirar meus shorts. Fiquei com um pouco de dó dele. Afinal ele estava tão envergonhado que suas mãos até tremiam.

-Eu posso ficar só com a blusa, não tem problema, ela é bem comprida, não preciso do short – falei com a minha estranha voz de gripada.

-C. Certo – ele gaguejou – agora você precisa de um remédio para abaixar esta febre e de descanso.

-Mas eu já descansei a noite toda. E você não mediu minha temperatura para saber se eu realmente estou com febre – reclamei, eu simplesmente ODEIO tomar remédio.

Ele deu uma risadinha – você parece uma criança – ele comentou – mas pela sua temperatura não é preciso um termômetro para se saber que você está queimando de febre – ele garantiu – mas não se preocupe, vou pegar um remédio com sabor de tutti-frutti para você – informou rindo.

-Você está tirando com a cara de alguém doente? Você verá a minha vingança! Deixe-me só melhorar! – ameacei irritada.

-Você é assim até doente? – ele comentou e me pegou no colo, do mesmo jeito que aquele vampiro maldito me pegou no dia anterior. Agora a pergunta que não quer calar: Qual a maldita graça de me carregar no colo? Isso me trás lembranças tão ruins.

-Para onde você está me levando? – perguntei brava, detesto ser carregada. Sinto-me tão impotente.

-Para o meu quarto, sua cama está molhada, você precisa descansar – ele contou como se fosse uma coisa tão óbvia que só alguém muito trouxa não perceberia, mas minha cabeça está doendo, eu estou deprimida, acabei de perder meus pais, estou com frio, minha cabeça lateja cada vez que penso. Eu não estou com paciência, ou condições para ser lógica.

Fechei a cara para ele, por que de todas as pessoas do mundo, logo Will tem de ser quem se preocupa comigo para vir checar se eu ainda estou viva depois do que aconteceu ontem?

Ele abriu a porta com um chute, coisa que fez um tremendo barulho, o que resultou em mais dor de cabeça. Ele me colocou na sua cama, pegou um cobertor e me cobriu — Agora me espere aí quietinha – ele mandou e saiu do quarto.

Será que ainda tinha o remédio para febre com sabor de Tutti-frutti? Se não tiver, será um problema. Mas aí ele pode pegar o que tem gosto de chocolate... Ou o de bala... E, por que exatamente, eu estou pensando nisso? Será que minha febre está realmente alta a este ponto?

A porta se abriu, e o rangido ecoou na minha mente como se eu estivesse embaixo de um sino de igreja. Will entrou segurando uma caixinha de remédio e uma pequena bacia.

Ele deixou a bacia no chão ao lado da cama e tirou o xarope com o copinho de medida da caixa.

-Então, quanto você pesa? – ele me perguntou abrindo o xarope.

-Er. Cinqüenta quilos, por quê? – respondi com uma pergunta, o que meu peso tinha a ver com a situação?

-Bebe – ele me entregou o copinho cujo conteúdo era dez ml de um líquido rosa e viscoso.

-Eu preciso? – olhei do potinho para ele com cara de cachorrinho sem dono.

-Sim.

-Mas eu não quero!

-BEBE! – ele mandou me olhando sério. Nossa os olhos dele ficam assustadoramente bonitos quando estão com um brilho irritado.

-Tudo bem – murmurei derrotada e virei o copinho de uma vez na minha boca. Senti aquele líquido doce passar pela minha boca e descer pela minha garganta, logo após minha boca ficou completamente amarga -ODEIO REMÉDIO!!!! – reclamei irritada.

-Eu sei, mas graças ao seu tão odiado remédio você vai ficar melhor – ele tentava me consolar. O que me lembrou do meu pai, ele sempre falava isso. – Hey! Por que você está chorando? – ele parecia preocupado, quando enxugou a lágrima que caiu dos meus olhos.

-Nada. É que agora você lembrou muito meu pai. Ele sempre me falava isso – contei com os olhos novamente presos aos dele. Como eu odeio esse poder que ele tem sobre mim.

-Me desculpe – ele pediu sinceramente arrependido, percebi que ele não queria que eu pensasse muito neles.

-Olha o lado positivo, você pelo menos conseguiu me fazer tomar o remédio na primeira tentativa – comentei para animar o clima.

-Tenho que ir! Vê se você descansa um pouco – ele anunciou e foi até a porta – até mais tarde – se despediu.

Não demorei muito para adormecer ali naquele quarto agora silencioso. Não sonhei. Apenas mergulhei num sono profundo, daquele que você descansa o corpo e a mente.

Notas finais
Espero que vocês gostem
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