Hunter × Hunter Sem Limites - Interativa
3 Exame Hunter: Primeira Fase - Parte 2
Notas iniciais
Hikari começou a eliminar suas alternativas. Primeiro desconsiderou os três homens, afinal ela buscava aliança para ter com quem contar, e não alguém para fingir ser manipulada enquanto manipulasse. Seu pensamento então se dirigiu à garota, mas novamente não viu como poderiam formar uma aliança — as duas meninas eram tão diferentes! —, além de que ela parecia ser muito mais fraca que Hikari e a órfã não podia ser altruísta numa situação como aquela, infelizmente. Então pensou no homem ruivo. Ele poderia realmente ter um lado doce e gentil por trás daquela carranca, mas algo óbvio era que ele tinha pavio curto, então conversar com alguém de força indefinida e pouca paciência não era uma decisão muito sensata. Só restava, dentro da irracional pré-seleção da menina, o garoto tímido, que naquele momento estava sentado do outro lado da sala escrevendo em um pequeno caderno.
Hikari estralou todos os dedos puxando, depois dobrando, depois puxando para o outro lado, estralou o pescoço duas vezes, respirou fundo e estapeou a própria face, tudo para tomar coragem. Finalmente se levantou e começou a a caminhar lentamente na direção do garoto. Andava devagar por dois motivos: 1 — seria bom se o menino tímido visse a órfã se aproximando, ele teria tempo para processar a informação. 2 — Pura insegurança da garota. Infelizmente, o primeiro motivo foi em vão, afinal o jovem não desgrudou seus olhos do caderno ou parou o movimento da caneta durante todo o tempo que levou para Hikari alcançá-lo. A garota se inclinou, próxima — agora com certeza era notada com a visão periférica — e abriu a boca para falar, mas não teve a chance.
— Qual é o teorema de Pitágoras? — o menino disse no limite do audível, Hikari não teria escutado se tivesse minimante mais afastada, porém o tom de voz era firme e autoritário, fazendo a menina se sentir na obrigação de responder àquela pergunta atípica.
— O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos — O tom de zumbi foi involuntário, afinal fora assim que a órfã repetira dezenas de vezes para a demoníaca professora de matemática.
— Hmmm, ok — o menino fez uma pausa — Qual é o teorema de Tales? — completou, com o mesmo tom autoritário.
— Teorema de Tales? — Hikari perguntou, confusa — Mas Tales não foi um filósofo pré socrático? O que ele tem a ver com teoremas?
— Você sabe a fórmula de Bhaskara decorada? — sua voz continuava extremamente baixa e autoritária.
— Xis é igual… B ao quadrado menos… — era praticamente visível Hikari espremendo o próprio cérebro para falar — quatro vezes A vezes C.... sobre… delta…?
— Não, você não sabe, ótimo — o menino suspirou, claramente aliviado — não confio em ninguém que tenha decorado a fórmula de Bhaskara ao ponto de ditá-la em um momento totalmente aleatório… Senta aqui.
A garota estava perplexa: aquele questionário fora um teste de confiança? A lógica do garoto tinha muito sentido, mas continuava a ser bizarra. Ainda desnorteada, Hikari sentou-se ao lado do garoto.
— Meu nome é Masuke Gurimo, é minha segunda vez no Exame, e você? — ele perguntou, agora com um tom de voz simpático, mas ainda falando muito, muito baixo.
— Meu nome é Hikari, é minha primeira vez no Exame Hunter — Até que tudo estava indo bem, mas a garota devia continuar conversando. Ela espiou o caderno, mas não conseguiu ler absolutamente nada, a letra de Masuke era ilegível — Você está aqui por quê?
— Eu já “vivi” milhares de aventuras em mundos fantasiosos, onde a humanidade foi assolada por uma terrível catástrofe, ou onde o mundo é regido por um sistema de inteligência artificial em uma ditadura ultramoderna, ou onde existem pessoas com o lindo dom da magia… — Um sorriso puro se formava em seu rosto — Mas nunca de verdade, apenas em histórias — Seu sorriso sumiu abruptamente — Então eu cansei de fingir que era o protagonista de uma aventura e resolvi tentar ser um de verdade. — Ele guardou o caderno, junto à caneta, dentro de sua não muito grande bolsa tiracolo — o único fio de esperança em transformar a monotonicidade do dia a dia em uma aventura no mundo real é se tornando um Hunter. — Sua expressão tornou-se profundamente triste — Ano passado eu fui eliminado logo na primeira fase, como todo mundo, com uma exceção. Eu fui eletrocutado e acordei duas semanas depois, no hospital. — Após alguns segundos em silêncio, Hikari já pensava em pôr a mão em seu ombro, para consolá-lo, porém um semblante determinado tomou a face do garoto, que endireitou a postura e aumentou levemente o tom de voz — Mas eu não vou desistir! Passando esse ano, não passando nunca! Eu não seria capaz de voltar a ter uma vidinha simples, retomar os estudos, repetir fórmulas como um zumbi, ir para a faculdade, cursar qualquer coisa, arranjar um empreguinho e repetir meu dia ao infinito, preso numa rotina enfadonha até o fim da minha vida, eu simplesmente não posso! — Masuke retomou o fôlego, parecia que não havia parado para respirar desde que aumentara o tom de voz. — E você? Por que está aqui, Hikari?
A órfã estava feliz, pois parecia que havia realmente feito a escolha certa de parceria, afinal o garoto tímido tinha uma personalidade forte e parecia ser muito confiável, talvez agora o Exame Hunter não ficasse tão impossível, talvez tivesse a chance de passar naquele ano! Com um sorriso no rosto, Hikari contou sua história, mesmo que esta não fosse nem de longe feliz. Masuke escutou atentamente e concordou que atender o pedido de sua mãe foi a melhor decisão que poderia ter tomado, independente do quão descarada e egoísta fosse a tal mãe. O garoto contou-lhe sobre como amava jogar RPG antigo, com dados, fichas e um mestre e Hikari contou como lera todos os livros que tinham na sua cidade e como estava desatualizada com o mundo atual. Logo não havia nem a necessidade de oficializarem a aliança: já eram amigos.
Um pouco mais tarde, Hikari ficou incomodada com um dos participantes. Ele usava roupas azuis, era velho e feio. Seu protuberante nariz batatudo tinha um tom mais escuro que o resto do seu rosto, contribuindo para a imagem repugnante que tinha. Mas, ao mesmo tempo que era asqueroso, aquele homem não teria chamado a atenção da garota se ele não a fulminasse com o olhar.
— Quem é aquele cara, Masuke? — Hikari perguntou, aborrecida.
— O de azul? É o Tonpa-san, o recordista de participações no Exame Hunter, por quê?
— Porque ele não para de encarar a gente, rancoroso ou sei lá.
— Ah, deve ser porque você é novata e ele não vai ter oportunidade de te oferecer um suco envenenado com laxante. — Masuke deu um riso discretamente maléfico — já vi uns três novatos beberem.
Então combinaram de dormirem em turnos e, no dia seguinte, saírem do casebre, também em turnos, para munirem-se de suprimentos para o Exame, e assim fizeram. Foram dormir cedo na segunda noite, logo seria a hora de começarem a própria história.
∆
— Acorda, Masuke! — Hikari cutucou seu amigo, logo de manhã — o Examinador voltou!
O garoto abriu os olhos, sonolento, e viu que sua amiga falava a verdade: o tal List estava na frente da porta por qual entrara há dois dias, olhando todos, sorrindo, e consultando o relógio de tempos em tempos.
Eles comeram, se alongaram e ainda esperaram quase uma hora até que o Examinador se pronunciasse.
— O período de admissões para o Exame Hunter está encerrado! — Uma energia animada se espalhou pela sala — Meu nome é List e eu sou o Examinador da Primeira Fase. — Ele fez uma curta reverência — Um último aviso. Caso lhe falte sorte ou habilidade, você poderá acabar seriamente machucado ou mesmo morto. Os que aceitarem os riscos, sigam-me, por favor. Do contrário, por favor, saiam pela porta logo atrás de vocês. — Alguns segundos se passaram, mas ninguém saiu — Muito bem. Todos os seiscentos e sessenta e nove candidatos participarão da Primeira Fase, logo declaro aberta a 289° edição do Exame Hunter!
List abriu a porta atrás de si, que não era muito grande, e entrou por ela. Com muita dificuldade, os mais de quinhentos participantes do Exame entraram e se depararam com uma escada de pedra, que começava estreita, mas, depois de alguns minutos de decida, se alargava ao ponto de abrigar bem a multidão. A intervalos cada vez menores, algum participante escorregava e caía em cima do próximo, que por sua vez derrubava mais três e assim por diante. Alguém muito azarado com certeza já tinha quebrado um osso, se não tivesse batido a cabeça e morrido de traumatismo craniano.
Logo que a descida suavizou, Hikari reparou uns cem participantes já não mais acompanhavam a procissão. Enquanto pensava em como só uma simples decida havia desclassificado tanta gente, a órfã se distraiu.
— Cuidado, Hikari! — Masuke a puxou pela roupa e impediu que um homem perdera o equilíbrio a atingisse.
A decisão “correta”, a mais proveitosa, seria deixar o homem cair nos participantes a sua frente e já se livrar de mais uma dezena de concorrentes, mas Hikari não conseguiu ser tão fria e egoísta, puxando o homem pelo casaco e impedindo sua queda.
— Ore! — berrou o homem de sobrancelhas atípicas, recuperando o equilíbrio — Muito obrigado, garotinha! Desculpe, foi um passo em falso e quase causei uma catástrofe!
— Tudo bem, senhor! — A menina dirigiu-lhe um sorriso angelical.
— Esses olhos... Você me lembra um amigo meu — ele disse e Masuke revirou os olhos e entrou no próprio mundo, no modo “zero presença” — Meu nome é Zepairu, prazer em conhecê-la.
— Meu nome é Hikari, prazer em conhecê-lo.
— Eu estou no Exame Hunter porque vi o quanto vale uma Licença Hunter, e você?
— Eu sou órfã e a única coisa que minha mãe me deixou foi uma carta pedindo para eu me tornar uma Hunter — a garota respondeu, feliz em ter alguém com quem conversar, afinal Masuke poderia ser um bom amigo, mas era muito quieto.
— Já é a minha segunda vez. Ano passado eu fui eletrocutado — O homem contava, pesaroso.
— Eletrocutado? Você também? O que aconteceu ano passado? — Hikari estava animada com aquilo, era bom... viver!
— Um único garoto, da sua idade, eletrocutou todos os outros participantes e passou direto na primeira fase. Mas por que perguntou se eu também fui eletrocutado?
— Porque meu amigo, Masuke, também foi eletrocutado ano passado — Zepairu não havia notado o garoto até então, quase tropeçando com o susto.
— Não tinha te visto, garoto, desculpa! — Masuke se encolheu.
— Dá para parar de gritar, babaca? — o ruivo enfezado gritou, irritado sem motivo, com uma careta de desgosto. Aquele cara era azedo, mas Hikari não conseguia não simpatizar com ele.
— Desculpe, colega! — Zepairu se desculpou como se tivesse algo a se redimir. O ruivo mostrou-lhe o dedo do meio.
O sobrancelhudo já estava abrindo a boca para falar algo, quando Masuke disse algo no limite do audível, porém Hikari não compreendeu.
— O que você disse?
— Estamos indo para o oeste — ele repetiu, não muito mais alto.
Hikari pensou um pouco, e logo viu que o garoto tinha razão: a garota estava no porto da Costa Oeste da ilha quando começara a seguir o garoto, que a levou à costa oposta. A escada ficava após a porta dos fundos do casebre, este que por sua vez ficava de frente para o mar na Costa Leste e a escada, até então, descera reto. Sim, estavam indo para o oeste, em direção às três pequenas ilhas.
— Incrível, Masuke! Isso foi muito inteligente! — a garota constatou e o menino abaixou a cabeça, envergonhado com o elogio.
Desde certo momento da descida, já era possível ver seu fim muito, muito longe, porém agora a imagem já se tornava compreensível: havia água. No final, havia água. O Examinador apressou o passo e não demorou muito tempo para que chegassem no pé da escada, que dava em um salão gigantesco. O pé direito não era muito alto, havia o que parecia ser uma piscina ocupando grande parte do chão, apenas sobrando um filete de chão logo no pé da escada e dois filetes paralelos que iam até o final da parede oposta à escadaria. Tal parede oposta apenas existia como uma moldura para um grande buraco na parede que levava para uma câmara quadrada, escura, com apenas água no chão e sem teto visível. As duas paredes paralelas estavam forradas de armários com pequenos nichos, cada qual com um painel eletrônico numeral. Após maioria dos participantes entrarem, uma porta metálica desceu, separando o salão da escadaria e prendendo dezenas de participantes do lado de fora. List se virou para a multidão atrás de si.
— A Primeira Fase do Exame Hunter consistirá em chegar nadando na próxima ilha. — O Examinador esperou os murmurinhos passarem — Como vocês podem ver, existem vários armários aqui. Vocês deverão, se precisarem, guardar pertences nesses armários que vocês não queiram molhar e então digitar no painel eletrônico o número de sua plaqueta, podendo recuperá-los quando chegarem na ilha. — Nas paredes da piscina, surgiram diversas aberturas pelas quais foram expelidas dezenas de pranchas quadradas, de borracha o talvez espuma, coloridas, que logo emergiram — Cada participante tem direito a uma prancha destas para auxiliar no percurso, porém vocês não podem negá-las ainda, apenas quando saírem desde lugar subterrâneo. Para recuperar os pertences deixados nesses armários, vocês precisarão de suas plaquetas, então as pranchas possuem um compartimento plástico para que guardem as plaquetas e dificultem seu extravio. Podem começar a se organizarem. Todos os participantes que já não estiverem dentro da piscina com sua plaqueta em sua prancha dentro de meia hora, serão automaticamente desclassificados.
Hikari achou que meia hora era muito tempo, mas logo percebeu que não tinham armários suficientes para cada participante. No início, ficou confusa com isso, porém logo reparou que, assim que um participante colocava seus pertences em um armário, fechava-o e digitava o número de sua plaqueta, tal armário se esvaziava e seu conteúdo desaparecia. A garota demorou uns dez minutos para conseguir guardar suas coisas. Pôs sua mochila, sua maleta, seu casaco e seus tênis e já pulou na água. Masuke já demorou um pouco mais, e foi a muito custo que conseguiram ficar próximos, afinal a piscina não parava de lotar e o movimento ficava cada vez mais difícil. Os dois amigos ficaram espremidos próximos à garota de cabelos rosas, que parecia apenas ter se desfeito de suas botas.
Após três participantes serem desclassificados por não estarem na água no tempo certo, List, que estava sentado de pernas cruzadas em cima de uma prancha, visível a todos, mesmo não tendo uma altura avantajada, bateu quatro palmas acima de sua cabeça. Todos o olharam, achando que ele queria chamar-lhes a atenção, porém logo perceberam que a água começou a se movimentar, levando todos à segunda sala. Hikari poderia não admitir, mas sentiu medo com a repentina escuridão e, por isso, segurou na prancha de Masuke que, achando que a garota queria se certificar que não se afastassem, segurou na prancha alheia.
Depois de alguns segundos perturbadores, uma porta maciça começou a descer, separando as salas e banhando todos nas trevas.
— A água! — Masuke sussurrou depois de ter passado quase um minuto que a porta fechara — A água, Hikari, ela está aumentando! Estamos subindo!
— T-tem certeza? Eu sinto um leve movimento, mas não sei identificar — a garota respondeu, nervosa com o breu que a cercava.
— Eu também não sei identificar o movimento, mas essa é a única explicação lógica para termos descido tanto sendo que nadaremos para a próxima ilha. — Hikari estava novamente abismada com a inteligência de Masuke se mostrando de maneira tão singela.
Passou-se quase uma hora até que o ambiente clareasse e fosse possível comprovar a teoria do garoto: olhando para cima, Hikari via uma luz saindo de provavelmente uma abertura posicionada ao oeste e cada vez mais se aproximavam daquela luz, deixando a garota um pouco mais tranquila. Tranquilidade aquela que durou apenas alguns segundos, afinal um grito agudo de puro terror fez a órfã desviar seu olhar do topo e reparar no horror que a rodeava. Quem gritava era a garota de cabelos rosas, ela estava totalmente coberta de sangue, assim como as duas crianças e alguns outros, porém maioria dos participantes que os cercavam no começo da subida haviam desaparecido.
— O que aconteceu aqui? — falou Masuke, sofrendo para manter um tom de voz audível através dos gritos da jovem. Seus olhos estavam arregalados e ele instintivamente se aproximara de Hikari. — Que chacina foi essa, Hikari? Quem fez isso?
O garoto estava visivelmente em pânico, olhava para cada detalhe daquela cena, frenético, como se fosse o último segundo que pudesse enxergar. Hikari estava ficando preocupada. Claro que aquela situação a assustava, mas, por algum motivo, ela estava empolgada. Ver a morte tão de perto e saber que por pouco não tinha morrido a fazia se sentir viva como nunca! Mas Masuke parecia reagir diferente, a órfã não gostava de vê-lo assim.
Então a expressão de puro pânico subitamente mudou, preocupando ainda mais a garota, afinal a indiferença estampada no rosto alheio era absurda.
— Hikari — Masuke disse, em se costumeiro tom baixo —, finja como se não fosse nada, o Examinador está avaliando a reação e cada um. Estamos no Exame Hunter, isso não pode ser visto como extraordinário. A Associação Hunter tem dinheiro para bancar iluminação para esta câmara, ela estava escura exatamente para possibilitar uma situação assim. — O garoto fez uma pequena pausa — Demorei para ver que ele olhava pra cá, desculpe.
A garota quase riu com o pedido de desculpas, mas resolveu não responder nada, apenas assentiu.
Quando o clima de terror estava quase sumindo, Hikari pôde ver que a luz vinha de uma aberturada quadrada na parede oeste que estava totalmente selada com um vidro espesso, impedindo a água do mar de invadir a câmara profunda. Os minutos que ainda demoraram para atingirem o topo passaram como horas, todos estavam ansiosos.
— Não há restrições para o nado, para rotas ou para equipamento, contanto que não envolva ninguém de fora do Exame — List disse quando a água que batia no vidro estava no mesmo nível que a água da câmara — a ilha que vocês têm que chegar está a exatos dezoito quilômetros desta porta de vidro, a oeste, ou seja, se seguirem reto, chegam lá. Vocês têm doze horas para chegar na ilha. O tempo começa a correr no instante que esse vidro chegar ao teto. Quem sair desta câmara antes do vidro subir até o fim será automaticamente desclassificado.
— Essa ilha que ele está nos mandando ir não é nenhuma das três ilhas do mapa — Hikari cochichou para Masuke enquanto o vidro começava a subir lentamente — Porque todas as três ficam a mais de dezoito quilômetros de qualquer ponto da Ilha Kuroshima, além de que, se não me engano, nenhuma fica exatamente a oeste daqui.
— Sim, concordo. Deve ser uma ilha secreta ou uma ilha artificial. Outra coisa que eu pensei é que sei como podemos descobrir quem é o culpado das mortes. — Masuke esperou Hikari demonstrar interesse — Eu reparei que nenhuma das pranchas dos que morreram tinham plaquetas, ou seja, o assassino não estava apenas interessado em diminuir o número de concorrentes, mas também em roubar as plaquetas e os pertences que elas garantem. Talvez tenha sido por isso que a garota escandalosa sobreviveu, afinal ela apenas deixou umas roupas inúteis. Quem ou aparecer carregado de plaquetas ou com pertences demais, é o culpado.
— É uma boa teoria, mas tem um pequeno problema: por que nós sobrevivemos, sendo que eu tenho uma maleta e uma mochila e você tem uma bolsa? — a garota perguntou sem tirar os olhos do vidro que subia — Acho que é melhor a gente pensar nisso depois, na verdade, agora vamos ter que nadar o mais rápido e estrategicamente possível. — Masuke assentiu e a dupla começou a se aproximar da saída.
Com um baque surdo, o vidro grosso regrediu ao teto e todos abandonaram a câmara em desespero. Hikari, enquanto se prendera no fato de o Examinador ter sumido, acabou perdendo Masuke de vista. Aflita, a garota nadava em círculos, procurando, no meio da multidão, mas não o via em lugar algum. Ainda procurando, ela começou a nadar para frente para não ficar para trás.
∆
Já havia passado mais de uma hora e Hikari ainda não tinha nem sinal de Masuke, já temendo o pior. A garota seguia um pequeno grupo de participantes, cujo líder aparentemente tinha uma bússola, e não via mais nenhum participante a mais de meia hora. O que adiantara fazer aliança? Fazer um amigo? Agora ela estava insegura, se sentido incompleta e preocupada com algo que não ela mesma. Me sinto o Pequeno Príncipe sentindo falta da Raposa!, ela pensou.
Quando o grupo que seguia estava começando a ficar incomodado com sua presença, Hikari avistou dois participantes a uma distância considerável. Ela ficou animada com a possibilidade de Masuke ser um deles, mas não podia se afastar muito do grupo com a bússola. Ela não conseguia identificar traços, o sol batia forte contra o mar, atrapalhando sua visão, então só poderia saber quem era se chegasse mais perto. Porém, de repente, o participante que estava mais distante da garota afundou, como se tivesse sido puxado, ainda segurando em sua prancha com seus últimos esforços, virando-a de cabeça para baixo. A garota nadou um pouco para a direção dos dois, cuidando para não se afastar demais do grupo, porém quando já estava quase próxima o suficiente para talvez ver quem era a segunda pessoa, esta também afundou e também virou sua prancha.
Hikari não sabia o que fazer. Se afastar do grupo com bússola só ia prejudicá-la, mas não podia ignorar a possibilidade de um dos que se afogavam serem Masuke. Ela então via três opções: Ignorar os afogados e continuar seguindo o grupo, o que seria seguro, mas a atormentaria até encontrar Masuke novamente; se arriscar de ir naquela área estranha para tentar salvar os participantes, o que seria perigoso e não lhe traria nenhum proveito, mas era algo “certo a se fazer”; ou se aproximar daquela área apenas para roubar as plaquetas, o que seria perigoso, mas talvez lhe desse vantagens. Ela tinha apenas alguns segundos para se decidir.
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