Hunter - A caçada começou

5 Mentira tem perna curta


Notas iniciais
Nos falamos lá embaixo ;*

Bufei. Era sério isso?

Eu não podia acreditar nas tentativas dos jovens de La Push em sair da mesmice. Eu tinha ido, só nesses dois últimos finais de semana, a duas festas mal sucedidas. Qual era o problemas deles? Será que não entendiam que quando os pais diziam: “vou voltar tarde”, significavam que iam no vizinho ou algo parecido? Que a música alta e a gritaria e bebedeira, com toda a certeza do mundo, chamaria a atenção de uma vizinhança conservadora? Que, obviamente, os pais iriam saber antes de qualquer outra pessoa?

Chegava a ser engraçado se eu não tivesse que correr todas as vezes que os pais entravam na casa. Era engraçado até um ponto. E eu estava cansada disso. Queria um pouco de modernidade, de capitalismo exacerbado. Queria andar nas ruas e sonhar com as roupas de grife que eu nunca poderia comprar, namorar aqueles sapatos caros e bonitos. Não andar pelas lojas de pescaria, lanchonete, papelaria, esportiva e essas coisas que eu nunca compraria.

– O que foi? – Colin perguntou enquanto eu jogava minha bandeja na mesa do refeitório.

A semana tinha passado voando, e eu passei automática por ela. Fazia duas semanas que eu tinha ido conversar com Jacob Black e constatei, com alegria, que me livrar do peso da mensagem foi a melhor decisão que eu já tomara. Fazia tempo que eu não me sentia assim tão... Despreocupada.

Mas não totalmente.

Eu ainda me sentia paranoica. Ainda olhava por cima do ombro para ver se alguém estava me observando. E isso estava acontecendo com mais frequência do que antes. Eu não entendia o motivo. Já não tinha dado o recado? Então estava tudo bem! Mas isso era só na teoria, era o mantra que eu repetia todos os dias enquanto andava pelas ruas de La Push. E essa paranoia estava me tirando o humor.

– Não é nada. – respondei ao me jogar na cadeira, remexendo em meu lanche. Eu não queria ter comprado nada, mas Austin ficou no meu pé por que eu ainda não tinha comido desde que acordei.

– Ah, qual é! – Brady trombou de leve em meu ombro. – Você está com a cara fechada desde a semana passada.

– É, já está me enchendo o saco. Então abre o bico de uma vez. – Lali rolou os olhos para mim.

Adorava essa amizade dela. Tão motivadora!

– Estou de saco cheio, só isso. – apoiei o queixo nas mãos. – Preciso de civilização. Sem ofensas.

Eles riram. Já fazia um tempo em que minhas piadas sobre a cidade pequena e as reclamações não os afetavam. Não passavam disso, comentários sem intenção de machucar. Voltei a remexer em minha comida com um pequeno sorriso no rosto.

Tinha momentos em que eu olhava ao redor e não me incomodava com o que via. Na verdade, via beleza naquela simplicidade deles. Nas risadas puras e verdades, na amizade e confiança em cada troca de olhar, troca de palavras, brincadeiras e provocações. Tudo isso ainda estava um pouco balançado por causa do dia na praia, em que Colin e Brady agiram daquela forma tão estranha. E Lali não os tinha perdoado por completo, mas acho que eles estavam chegando lá.

Pelo menos estavam se esforçando.

No entanto, havia dias em que eu não suportava aquela quietude, a simplicidade do meu dia, sem grandes eventos. Eu sempre me mantive em movimento, em Los Angeles costumava correr na praia, fazer alguns dias de academia com amigos, ir a boas festas, andar de bicicleta, skate e qualquer outra coisa que me fizesse sentir bem. Na verdade, eu gostava da pouca liberdade que tinha nesses momentos de esporte. Era isso o que eu mais buscava na minha vida: liberdade.

– Podemos ir até Port. Angels! – Austin disse de repente. Seus olhos castanhos brilhavam de emoção. – Acho que minha mãe não vai se importar. Podemos ir hoje de tarde! Depois da escola.

– A festa do Drill vai ser daqui algumas semanas, eu bem que precisava de algumas roupas novas. – Lali disse terminando de tomar seu refrigerante. Drill era um rapaz da reserva, um ano mais novo que nós, mas que gostava de dar festas. O que atraía a todos não era a popularidade do rapaz, mas sim que todos tinham uma desculpa para ir à reserva quileute misteriosa.

Minha animação pareceu crescer um pouco mais. Eu estava saindo de La Push depois de muito tempo andando sem rumo pela pequena cidade. Eu já a conhecia como a palma da minha mão. Menos a floresta. Eu a estava evitando depois da minha experiência nada confortável com o estranho.

– Sim! Por favor! – eu estava quicando na cadeira.

– Bom, sei que o convite não se estende a nós, mas eu acho que não vai dar para ir – Colin disse relaxado, em sua posição habitual com os braços atrás da nuca e os pés na cadeira da frente.

* * *

Eu estava mais do que feliz em servir de motorista até Port. Angels. Tinha demorado um tempo para convencer John em me deixar ir. Eu não entendia qual era o problema dele. Até pouco tempo ele não teria nos barrado. Mas nessas últimas semanas John andava mais chato e rabugento do que antes. Por isso, quando saímos, já era mais do que três da tarde, então não iríamos retornar tão cedo.

Era sexta-feira, de qualquer forma. Eu não teria nada de importante para fazer no dia seguinte. O som estava ligado, as janelas abertas e o sentimento de liberdade ecoando dentro de mim. No banco de trás Lali lixava as unhas enquanto cantarolava, Austin estava concentrada em um livro que precisávamos ler para a prova de Inglês. Eu brigaria com ela se não estivesse tão feliz com o meu breve momento livre.

Após sairmos de Forks o tempo mudou drasticamente. Não estava mais tão frio, dava para tirar a blusa. O que era bom. Eu estava estreando o meu vestido de inverno e gostaria de mostrar. Era negro, de mangas longas e um decote fechado, batia esvoaçante em meus joelhos. Eu usava uma meia preta grossa por causa do frio, e botas de salto. Sim, botas de cano curto fechadas de salto. Eu não tinha muitas chances de usá-la e não ia desperdiçar essa.

Nunca andei por Port. Angels, mas Austin e Lali sim. Quando entramos na cidade, as duas já começaram a traçar uma rota das lojas mais baratas e com maior qualidade. O que para mim estava ótimo, eu tinha minhas economias quando recebia mesada da minha mãe, mas como não trabalhava e meu pai não me dava mesada, então essa era a única renda extra que eu tinha. O que não era muito.

Estacionamos o carro de frente para o píer. As pessoas corriam por ele, andavam, brincavam. Havia muitos quiosques com luzes fortes para chamar a clientela. Era um risco para os turistas. Eu era uma, mas estava muito bem acompanhada. Por isso fui rapidamente afastada de lá. Demos os braços e começamos a andar, parando de loja em loja para ver se algo interessava. Entramos em algumas, compramos em outras. As coisas não eram tão caras por que as lojas não eram tão conhecidas assim, mas vezes ou outra eu via uma C&A, Sephora ou qualquer outra dessas grandes.

Eu tinha algumas sacolas comigo, blusas mais simples e uma calça de cintura alta que eu tinha me apaixonado. Também parei para ver uns tênis que eu estava de olho na internet. Eles quase levaram todas as minhas economias, mas valeriam a pena. Austin e Lali também compraram alguns sapatos.

Deixamos as sacolas no carro e fomos andar pelo píer, procurando por algum lugar para comer. Eu estava tão bem que até o humor de Lali melhorou. O píer tinha muitas ruas adjacentes, com restaurantes, lojas, lanchonetes, sorveterias e esses comércios. Havia becos que levavam para outras ruas, ou ruas sem saída. Eu com certeza me perderia ali. Austin estava me explicando o quão fácil era se perder em Port. Angels, principalmente por que o píer era muito próximo dos galpões de caminhões e carregamentos. E essas ruas poderiam ser perigosas.

Entramos em um restaurante italiano, mas que só tinha o ambiente inspirado na Itália. A maioria do cardápio era feito de comida comum americana. Com alguns pratos de massas. Nos sentamos ao lado da janela que dava para o píer. As duas estavam escolhendo a meia hora o que comer, eu já tinha feito meu pedido e a garçonete já tinha até se retirado.

Enquanto observava as pessoas passando, rindo, andando de skate e correndo, notei uma sombra ao lado de um quiosque de água de coco. Franzi o cenho. A forma da sombra não me era estranha. Alta, corpulenta, parada de uma forma desconfortável, ao mesmo tempo que perigosa. Por um breve momento achei que fosse Jacob Black, mas Jacob não era tão corpulento assim. Ele era mais esguio. A forma como a sombra estava parada indicava que tinha o corpo virado para o restaurante em que eu estava.

Na verdade, estava virado diretamente para mim.

A sombra deu um passo para frente e eu vi quem era. Sentindo um frio no estômago.

Farad.

O que ele estava fazendo aqui? Por que estava me olhando?

Eu já tinha passado o recado para Jacob Black, ele não tinha mais que me importunar. Eu tinha pedido para Jacob fazer com que ele me deixasse de fora dessa bagunça que era a vida dele. Não precisava desse tipo de preocupação. Nem achei que teria algo parecido em uma cidade insossa como La Push.

A raiva dominou toda a minha mente. Eu tinha a completa noção de que agia a maior parte do tempo mais por impulso do que por razão. Mas não era como se fosse fazer algo com isso. Pedi licença para as meninas, avisando que ia ao banheiro. Quando elas não estavam olhando eu mudei meu rumo, indo em direção a porta. Ia tirar essa história a limpo. Ia tentar descobrir, de uma vez por todas, no que os meninos de La Push estavam metidos e depois iria mandar Farad me deixar em paz. Seguir com o rumo da vida dele.

Sai do restaurante. Eu via a forma de Farad se movimentando sem dificuldade pelo mar de pessoas que saiam de seus trabalhos e resolviam fazer o happy hour agora. Eu trombava com algumas pelo caminho. Meus olhos estavam nas costas de Farad, para não o perder de vista. Ele virou em uma rua. A princípio eu nem notei onde ele estava me levando. A rua era bem iluminada, mas não tinha movimento.

Vi o ombro de Farad virando nela e não pensei duas vezes antes de entrar. Para depois parar. Ué. Onde ele estava? A rua na minha frente estava vazia, sem nenhuma alma viva. Era bem iluminada em alguns pontos, escuras em outros. O beco era a lateral de dois grandes e movimentados restaurantes. Com latas de lixo enorme. Do outro lado, uma rua cheia de carros transitando dava sinal de vida.

Talvez ele tenha ido para lá.

Coloquei as mãos no bolso do vestido negro enquanto caminhava, tentando colocar de lado a sensação que pinicava na minha nuca. Não consegui entender o que era, provavelmente pela rua estar muito vazia e o sentimento de abandono e solidão me acompanhavam a cada passada barulhenta dos saltos. Tentei andar o mais rápido que conseguia, para chegar ao outro lado sem problemas.

Os meus saltos faziam barulho pelo chão úmido. Cachorros corriam por mim a todo o momento, uns atrás dos outros ou apenas caçando comida nas caçambas de lixo. Por um momento estava tudo bem tranquilo, mas depois eu ouvi outras coisas. Mais passos. Atrás de mim.

Meu coração bateu mais acelerado dentro do meu peito. Meus ouvidos ficaram aguçados e consegui distinguir que não era Farad, os passos eram pesados demais, como se o modo de andar fosse gingado. E era mais de um. Passei a mão nos cabelos e consegui jogar uma rápida olhada por cima do meu ombro. Eram três rapazes, todos altos, suas cabeças viradas para mim. Parei por um segundo, puxando a bota para cima, fingindo arrumar o zíper. Eles pararam também, esperando. O modo como andavam era estranho, quase sincronizado.

Apertei minhas mãos em meus bolsos quando senti o pânico começar a tomar conta de mim. Minha nuca pinicava, nublando um pouco minha visão. Trabalhei minha respiração, concentrando toda a minha mente naquilo, deixando o caminho e os homens em segundo plano. Eu não podia entrar em pânico agora. Eu deveria ficar mais calma, não perder o controle da situação, chegar do outro lado da rua e me embrenhar junto a multidão. Sim. Tudo ficaria melhor com isso. Voltei a caminhar com uma urgência visível. Minhas mãos tatearam por um breve momento dentro dos meus bolsos, para constatar o que eu já sabia: tinha esquecido o celular na mesa do restaurante.

Mais senti do que vi. Eles estavam mais perto. Uma sensação estranha pinicou minha pele, como se um campo invisível se estendesse alguns metros de mim e eles tivessem acabado de ultrapassar esse limite. Joguei a calma para cima e comecei a correr, escutando os passos correndo também. Eles não disseram nada, apenas corriam. Sem brincadeiras, gozações.

Meus saltos não estavam me ajudando nesse momento, mas eu estava estranhamente firme para quem nunca correra de salto antes. A rua estava mais próxima a cada passada e eu sentia um sorriso de alívio se abrir em meu rosto, eu ia conseguir. Provavelmente depois entraria em choque ou algo parecido, mas esse era o menor dos males. Eu só precisava chegar até lá e tudo ficaria bem. O sorriso morreu quase instantaneamente quando mais dois homens apareceram do outro lado do beco. E estava óbvio que eles estavam ali para me bloquear. A forma como ficaram parados parecia que estavam apenas aguardando que eu chocasse contra eles.

Consegui parar a uma distancia considerável, mas eu já não estava mais tão positiva. Tentei imaginar quando foi que eles começaram a me seguir, se foi no píer, se foi desde que eu cheguei. Não conseguia encontrar na minha cabeça qualquer vez que senti estar sendo seguida. E olha que eu vinha tendo essa sensação há um bom tempo.

Os homens que corriam conseguiram chegar perto de mim, mas não me tocaram a princípio. Só ficaram me olhando, como se esperasse que eu fizesse alguma coisa. Recuei para trás, sentindo minhas costas bater no muro de tijolos do restaurante. Minha garganta estava seca demais para gritar. No entanto, eu não estava completamente em pânico. Tinha algo muito claro em minha mente, que vinha nas ondas de pânico que assolavam o meu corpo: lutar. Eu não ia desistir fácil, fosse o que fosse que eles estavam planejando para mim.

O mais alto chegou perto. Eu não conseguia ver direito suas feições por causa do boné, todos eles usavam algo para cobrir um pouco o rosto, embora eu visse aqui e ali um nariz maior que o outro saindo das sombras. Travei meu maxilar. O mais alto se aproximou e colocou as mãos em minha garganta. Eu o chutei no meio das pernas e ele recuou, soltando um gemido de dor. Então foi uma confusão, todos vieram ao mesmo tempo e eu me defendia como podia, mas notei, em meio ao caos, que a intenção era pegar na minha garganta.

Eles nao estavam procurando por diversão. Queriam me matar.

Uma mão fina e firme agarrou meu pescoço e me encostou de novo na parede. Apertando. Meus braços eram curtos demais para chegar em seu rosto, mas arranhei até onde conseguia. Os cantos da minha visão já estavam começando a nublar, com alguns pontos negros pintando de vez ou outra. Algo se moveu na sombra atrás dos homens. Silencioso o suficiente para nenhum dos homens se virar.

Um a um eles foram caindo. O cara que me segurava foi arrancado com brutalidade dali, quase me levando junto. Cai no chão de joelhos, incapaz de manter meu equilibrio. Coloquei as mãos na garganta, que ainda parecia estar sendo apertada. Eu não conseguia respirar direito. Meus ouvidos zuniam, mas consegui levantar a cabeça o suficiente quando um par de botas se aproximou de mim. Ele agachou e consegui ver seu rosto.

– Jacob. – falei com a voz em um fio.

– Você está bem? – ele perguntou, havia tensão em sua voz, uma raiva mascarada e impossível de localizar se você não estivesse prestando atenção.

Assenti com a cabeça, tentando me levantar sem cair novamente. A mão de Jacob pegou em meu cotovelo e me auxiliou. Era engraçado como, em meio de tudo isso, eu ainda sentia sua pele quase fervendo contra a minha. Mas deveria ser por que eu estava prestando atenção demais nele.

– Vou tirar você daqui, vamos. – ele passou o braço na minha cintura enquanto praticamente me carregava dali.

Aos poucos, enquanto caminhávamos para a rua movimentada pelos carros, eu consegui recobrar o equilibrio. Assim como a seriedade do que tinha acabado de acontecer. Tive que parar um pouco, na boca para sair do beco. Meu corpo tremia com o choro silencioso que escorria de meus olhos, eu também tremia de medo. Acho que estava entrando em choque. Em nenhum momento Jacob me ofereceu consolo, ele só ficou ali, esperando passar.

Acho que seria muito pedir isso para ele também.

Mordi meu labio e apertei minhas mãos em meus joelhos, tentando fazer o choro cessar, concentrando minha mente naqueles dois pontos. Eu não podia perder o controle agora, precisava chegar até o carro, ou até o restaurante. Precisava chegar em casa. Agora não era hora para parar. Escutei um arrastar estranho e alguns gemidos. Os caras estavam acordando. Ergui o rosto. Jacob não me olhava, analisava a rua em que os agressores estavam começando a levantar. Também olhei. Eles não pareciam dispostos a uma briga, viraram para o píer e começaram a correr para lá.

– Preciso tirar você daqui. – Jacob disse.

Assenti.

Caminhamos pela rua cheia de carros. Ele ainda mantinha uma mão em meu cotovelo, por vezes ou outra eu começava a tropeçar. Era difícil andar em saltos quando suas pernas pareciam gelatinas. Durante o caminho fiz um novo trabalho de respiração. Eu ia me desesperar, estava sentindo isso borbulhar dentro de mim. E eu precisava me desesperar. Era só assim que eu conseguia seguir em frente e apagar esse episódio horrendo da minha mente. Eu chorava, deixava o pânico vir, perdia o controle por alguns minutos, e então tudo estaria bem de novo. Colocaria a situação no passado e seguia em frente.

Mas para isso eu precisava estar sozinha.

– O restaurante fica para lá. – sussurrei, minha garganta parecia ferida, ainda formigava.

– Vou te levar de volta.

Eu tinha que correr um pouco para conseguir me manter ao lado das passadas longas de Jacob. Seus olhos estavam, discretamente, em todos os lugares, em todas as pessoas proximas. Estava em alerta. Era o tipo de olhar que só se adquiria com o tempo e com muita experiência, não era qualquer um que conseguia se manter tão calmo enquanto andava, mas com os olhos atentos. E eu não queria saber como Jacob tinha conseguido esse olhar.

– Austin e Lali...

Ele não disse nada, puxou seu celular e ligou para Austin. Como ele tinha o número dela eu não fazia ideia. Explicou bem rápido que tinha me encontrado e que estava me levando para casa. Foi então que pense em quanto tempo eu tinha ficado fora. Provavelmente mais do que uma rápida ida ao banheiro. Não queria ter que preocupar Lali e Austin com isso. Não queria estragar a minha noite dessa forma.

Mas também me sentia mais segura com a figura calma e experiente de Jacob do que com Lali e Austin. Se bem que Lali poderia ser muito protetora quando queria, eu tinha que admitir isso. O carro de Jacob era preto e simples. Um Opala com as rodas prateadas. Parecia muito bem conservado, embora a pintura estivesse um pouco gasta aqui e ali, mas isso eu atribuía ao tempo nada solícito de La Push.

Não fiz objeção ao entrar no carro. Meu peito ainda tremia e eu ainda mais sentia instável, mas estar saindo daqui também me deixava aliviada. Eu só precisava ficar sozinha, só precisava liberar esse pânico que me consumia de uma vez por todas, então eu realmente ficaria bem.

Jacob dirigiu sem falar nada, ligou o aquecedor, imaginando que o meu corpo tremendo era sinal de frio. Mas eu sentia um frio interno, que não tinha nada a ver com o clima. Encolhi-me no assento, pousando a cabeça no vidro enquanto assistia a cidade passar veloz por nós. O ronco do motor era quase inexistente, de uma suavidade impressionante para um carro tão antigo.

– Como você está? – Jacob perguntou depois de um tempo, quando já estávamos na estrada. Eu notei que suas mãos apertavam o volante com força e que seu braço, vez ou outra, tinha espasmos. Como se ele também estivesse tremendo, mas tentando segurar os tremores.

Dei de ombros. Não conseguindo achar minha voz para dizer. Se eu abrisse a boca, minha voz ia sair tão tremula quanto eu estava e eu ia começar a chorar de novo, não queria isso. Não gostava de chorar na frente das pessoas, preferia fazer isso sozinha. Então não respondi nada.

– Que ir ao médico? – ele perguntou.

Balancei negativamente a cabeça. Tentei tirar todo o sentimento da minha voz ao responder ele, para que Jacob não se preocupasse com mais uma crise de choro.

– Só quero ir para casa. – foi impressionante a obediência do meu corpo. Minha voz estava monótona, quase cansada, mas não trazia nenhum sentimento.

Jacob não disse mais nada, por um breve momento eu notei o quão rápido ele estava dirigindo pela estrada, mas não fiz nada sobre isso. Se fosse outro dia, em outra situação, eu provavelmente reclamaria. Quero dizer, seria quase impossível eu estar dentro do mesmo carro de Jacob Black em qualquer outra situação. Tentei concentrar meu cérebro no caminho a frente, em enxergar as árvores, o que era um desafio e tanto pela estrada escura. Eu fazia isso para reprimir a sensação da mão na minha garganta, dos passos atrás de mim, da forma como eles me cercaram... Engoli em seco, sentindo meus olhos lacrimejarem ao me lembrar. Forcei meus olhos mais um pouco, tentando enxergar as formas.

Não demorou muito para entrarmos em Forks, a velocidade do carro de Jacob me ajudando nessa parte. Eu só precisava chegar em casa, chorar, espernear, entrar em pânico e depois tudo ficaria bem. Eu percebia, em segundo plano, que Jacob abriu a boca para falar alguma coisa, vez ou outra, mas tornou a fechar. Era muito claro que ele não sabia como consolar alguém, ou pelo menos nunca se importou com isso. Talvez tenha perdido a prática. Às vezes as pessoas faziam isso, depois de passar por muita coisa perdiam a habilidade de ser gentil.

Nunca achei que chegar em La Push fosse me trazer tanto alívio, como se eu pudesse respirar novamente. A floresta que nos rodeava balançava um pouco com o vento forte, mas para mim parecia uma saudação, uma forma de me dizer que eu estaria segura agora. Que nada poderia me acontecer enquanto a floresta estivesse ali. Era um sentimento estranho para com uma floresta.

A cidade já estava começando a ir dormir. Não era por ser final de semana que todos ficavam até mais tarde na rua, só alguns bares com suas músicas cafonas e seus frequentadores barulhentos que permaneciam fora de suas casas. O resto estava com a família. Então as ruas estavam silenciosas. Abri o vidro, sentindo o cheiro de mar e ouvindo o barulho das ondas. Era mais relaxante do que qualquer remédio que eu tomasse ou qualquer abraço que alguém me desse. Deixei que o barulho das ondas do mar me acalmassem, fazendo o pânico parar de borbulhar um pouco, mas ele ainda estava lá, só esperando a brecha para entrar.

Quando voltei meu olhar para frente, notei que estávamos tomando o caminho contrário para a minha casa.

– Esse não é o caminho para a minha casa. – falei. Olhei para trás enquanto continuávamos em movimento.

– Seu pai não está. – ele disse simplesmente, como se isso fosse explicação suficiente para mim.

– Posso ficar sozinha.

Eu precisava ficar sozinha. Estava desesperada para ficar sozinha. E acho que deixei isso transparecer em minha voz, por que Jacob me olhou com os olhos preocupados, como se estivesse tentando ver se eu desabaria agora. E era provável que eu realmente desabasse. Eu só queria a segurança daquela casa minúscula como um ovo e resmungona como uma velha. Eram os sinônimos de segurança para mim. Nenhum outro lugar seria melhor do que aquela casa.

– Não vou deixar você sozinha. – ele franziu o cenho e voltou seu olhar para a estrada.

Fechei os olhos com força. Tudo bem, eu só precisava reprimir por mais um tempo, só precisava me controlar. Eu poderia ir chorar no banheiro, algum lugar quieto e calmo. De preferência pequeno o suficiente para que me sentir segura. Foi então que notei que estávamos entrando na Reserva Quileute.

– Onde está me levando?

– Seu pai está com o meu. – ele disse curto de novo.

Mas passou direto pela vila onde morava. Eu não estava entendo onde ele iria me levar e isso colocou o pânico de lado novamente, como o barulho das ondas. Mas desta vez deu lugar a uma raiva que eu não entendia o motivo. Acho que era uma forma de liberar um pouco também.

– E onde é que você está me levando?

– Para a minha casa. – o seu tom de voz deu a impressão dessa ser a resposta mais óbvia do mundo.

– Não pedi para ir para sua casa, Jacob. Eu nem te dei permissão para me levar para a sua casa! – e eu estava gritando, com os olhos cheios de lágrimas. – O que é que se passou na sua cabeça para, deliberadamente, me levar para a sua casa. Como se você fosse tão seguro quanto o grupo de homens anterior!

Jacob trincou os dentes.

– Então você acha que ficar sozinha na sua casa é a melhor opção? Logo depois de ser atacada e de estar entrando em choque? Eu não ia conseguir dormir de noite se fosse tão estúpido assim.

– Não quero que tome as decisões por mim! – gritei de novo, gritar era bom, fazia minha garganta doer, mas aliviava o peso em meu peito. – Eu não te dei permissão! Eu não fui consultada! Você não pode me levar para qualquer lugar que ache correto só por que sua consciência vai ficar pesada! Eu quero ir para a minha casa! Quero ir agora... – eu já não conseguia mais falar pelas lágrimas que escorriam.

Uma parte da minha mente estava me repreendendo, por que eu sabia que Jacob não era como os agressores. Ele podia ser muita coisa, mas não faria algo daquilo. Era uma das poucas certezas que eu tinha sobre ele. Então ele estar querendo me ajudar era algo bom, eu deveria agradecer. Mas estava tão desesperada para ficar sozinha, tão em choque, que gritar e brigar parecia ser melhor do que ficar em silencio dentro do carro enquanto ele me levava para onde achava que deveria. Honestamente, eu odiava que ele estivesse decidindo por mim, que eu não tive nenhuma participação nessa ação.

Jacob então pegou na minha mão. Em um ato tão espontâneo e rápido que eu perdi ainda mais a fala. Sua mão grande e quente apertou a minha, em uma forma de consolo.

– Fique calma. – pediu, sua voz mais suave do que eu jamais ouvi.

Era como mágica. Meu corpo automaticamente relaxou um pouco, embora eu ainda tremesse, ainda soluçasse e ainda estivesse prestes a me desesperar para valer. Suas palavras tinham algum poder sobre mim que eu não entendia, eu não estava exatamente calma, mas também tinha conseguido adiar um pouco mais meu pânico.

Eu nem notei o caminho, continuei a olhar para Jacob como se tentasse buscar por respostas em seu rosto firme. Tentar encontrar uma entrada em seus olhos fechados, saber algo mais em seus lábios pressionados. Eu queria saber porque eu tinha sido atacada tão gratuitamente. Por que isso aconteceu comigo e o que eu fiz para que acontecesse. E não entrava na minha cabeça que, em algum momento, eu tenha sido responsável pelo ataque. Mesmo se eu estivesse com o vestido mais curto do universo, mesmo se eu estivesse pelada, a culpa não era minha que aqueles caras tiveram a ideia de tentar me matar ou talvez fazer pior.

O carro desacelerou. Olhei ao redor e só via a floresta nos rodeando em uma trilha. A casa crescia a minha frente. Não era muito grande, e não tinha andares, era plana. Mas era muito bonita. De madeira escura, com uma varanda larga, na qual tinha alguns bancos de balanço, janelas grandes. A garagem não era fechada, mas tinha um teto reto. Jacob parou o carro ali, onde já tinha sua moto estacionada. Eu riria das lembranças daquela moto se não estivesse tão tensa.

Jacob desligou o carro, mas não abriu a porta. Ele se virou para mim. Parei de encarar a moto quando notei que ele não iria falar nada até que eu o olhasse.

– Não vou obrigar você a entrar. – disse suavemente, sua voz rouca produzindo uma eletricidade no ar. – Mas não vou deixar você sozinha. Posso deixar você na casa do meu pai e lá você segue com o seu. Mas se precisa ficar sozinha para se recompor, minha casa está a disposição.

Ele estava me dando a opção que eu pedi antes. E ele estava me dando mais do que uma opção, estava me dando a chance de me desesperar e depois seguir em frente. Por mais que fazer isso na frente dele não estivesse nos meus desejos, seria melhor do que fazer na frente do meu pai, que provavelmente não conseguiria lidar com a situação. Jacob era diferente, eu sabia que ele aguentaria o tranco.

– Posso entrar? – perguntei com um fio de voz.

Jacob assentiu sério, saiu do carro enquanto eu também saia. O vento ali era gelado e havia um pouco de sereno. Pela casa ser rodeada pela floresta, a temperatura caia drasticamente. Cruzei os braços ao meu redor para evitar tremer tanto. Eu já estava tremendo antes, não queria duplicar isso.

Jacob tirou a sua jaqueta preta e a colocou em meus ombros. Ela estava extremamente quente, como se ele a tivesse deixado de frente para o aquecedor antes de me dar. Eu me agarrei a ela, tentando adquirir um pouco desse calor também, trazer ele para dentro do meu peito gelado. O cheiro amadeirado e terroso invadiu minhas narinas. Quase me acalmava. Não era nenhuma colônia que eu conhecia, parecia ser puramente Jacob Black.

Subimos os poucos degraus da varanda. Jacob abriu a porta, que nem estava trancada. Eu rolaria os olhos para esse desleixo que o pessoal da reserva tinha se não estivesse tão gelada por dentro. Jacob ascendeu as luzes e eu fiquei momentaneamente surpreendida pelo local. Não era enorme, a sala de estar estava a minha direta, com lareira, sofás e televisão, a esquerda tinha a cozinha com a sala de jantar. Mas o que me impressionava mesmo era a parte latera traseira da sala de estar. Ela se estendia para um píer bonito, com mesas e cadeiras de madeira, com uma parede de vidro, mostrando a imensidão da floresta. O corredor ficava ao lado da cozinha. Com três portas, duas em um lado e uma em outro.

Não era uma casa extremamente moderna, mas tinha um conceito.

– Fique a vontade. – ele disse. – Quer tomar alguma coisa?

– Posso ia ao banheiro? – perguntei, meus dentes batendo agora que eu não conseguia mais adiar.

– Primeira porta à esquerda. – havia preocupação em sua voz, mas eu não reparei o suficiente para me importar.

Caminhei até onde ele indicou e abri a porta. O banheiro não era grande, o que era ótimo. Fechei a porta. Por um breve momento eu não soube o que fazer, por um breve momento eu não senti absolutamente nada. Parei de tremer, parei de soluçar. E então tudo veio de uma única vez. Junto e misturado. Apoiei-me na parede ao lado enquanto me encolhia no chão, juntando bem as pernas no peito.

Eu não era de chorar escandalosamente e dessa vez não foi diferente, mas tentei reprimir os soluços ao tampar a boca. Quanto mais eu me encolhia mais segura eu parecia me sentir. Deixar o desespero sair foi a melhor coisa que me aconteceu desde o ataque. Parecia que um peso estava esvaindo com as lágrimas. Não sei quanto tempo fiquei chorando, chegou um momento em que achei que não estava sendo tão silenciosa como pensava, foi quando o desespero veio em uma onda renovada, com a ajuda da memória.

Foi nesse momento também que Jacob entrou no banheiro. Eu percebi que ele entrou por que se sentou ao meu lado e me puxou para os seus braços, se não fosse por isso eu não o teria visto, pois minhas vistas estavam muito embaçadas. Ele não disse nada, como no beco e no carro. Só manteve os braços ao meu redor, uma de suas mãos passeando suavemente pela minha cabeça.

Isso não ajudou muito e era por isso que eu preferia chorar sozinha. Quando as pessoas consolavam isso parecia alimentar o sentimento. E eu não gostava que alimentassem um sentimento que me machucava tanto. Quanto mais me abraçavam, mais eu chorava.

Acho que passei um bom tempo ali, por que meu corpo já doía em ficar nessa posição. Também decidi que era hora de parar. Hora de entrar em ação e recobrar o controle. Comecei pelas lembranças, era como se eu as arrastasse mentalmente para a lixeira, eliminando cada uma delas. Depois eliminei o sentimento que elas me traziam para depois poder lidar com o que estava sentindo agora. Funcionou como eu sabia que iria. Meu choro foi cessando durante todo esse processo e quando chegou a hora de controlar o sentimento, eu já tinha parado de chorar.

No entanto, outras dores entraram em foco. Uma em particular, a parte detrás da minha cabeça. Eu nem reparei que tinha batido a cabeça, mas a dor pulsante estava lá.

Fiquei em silêncio, esperando a reação de Jacob. Eu não sabia o que esperar dele e nem sabia o que fazer depois dele ter me visto dessa forma tão descontrolada. Eu tinha, e não sabia como, um lenço branco nas mãos. Acho que foi ele quem me deu. Sequei meu rosto e qualquer resquício de lágrimas, até algumas que tinham escorrido pelo pescoço. Mas notei que a camiseta preta dele não tinha como secar. Senti meu rosto corar com aquilo.

– Quer beber alguma coisa? – ele perguntou. Sua voz não trazia aquela suavidade com pena que eu esperava ouvir. Ela estava normal, simples.

– Por favor. – minha voz saiu fraca por que minha garganta estava seca e também doendo.

Ele se levantou com uma elegância quase cômica para um corpo tão alto e forte. Estendeu a mão e me ajudou a levantar. Eu retirei os saltos, não poderia mais andar com eles dentro da casa, e minhas pernas estavam um pouco fracas pelo estresse. Saímos do banheiro em silêncio, eu procurei não me olhar no espelho para não confirmar o caos que eu sabia que estaria.

Jacob puxou um banquinho da ilha da cozinha para que eu me sentasse, no balcão já tinha um copo de água e um sanduiche para mim, mas eu não estava com nem um pouco de fome. Tomei a água em grandes goles, não notando antes o quão sedenta eu estava. Jacob abriu um pequeno sorriso enquanto me servia mais água.

– Coma algo, você precisa. – disse arrastando o prato na minha frente.

Pensei em negar, mas ele estava me oferecendo sua casa para entrar em pânico, seria errado da minha parte. Peguei o pão e dei uma mordida.

– Deixe-me ver esse galo. – ele disse se aproximando de mim, ficando quase entre minhas pernas.

O sanduiche desceu com dificuldade quando ele se aproximou assim, mas acho que era apenas a dor na garganta, não tinha nada a ver com a presença dele. Jacob moveu seus dedos com delicadeza na parte detrás da minha cabeça, eu estremeci um pouco quando ele tocou no galo dolorido. Mas estava notando outras coisas no momento. Em como ele era alto, mas não um alto estranho. Era um alto bonito, elegante em cada movimento.

Fixei meus olhos em seu rosto enquanto ele pegava um pano e colocava gelo nele. Jacob era realmente muito bonito. Tinha o queixo quadrado, os olhos negros bem redondos, a boca era um pouco grossa e vermelha, as maças do rosto eram altas, sobrancelhas grossas. O mais lindo de tudo, no entanto, era o tom de cobre de seu rosto. Tão incomum e tão parecido com os outros da reserva.

Ele voltou a se aproximar de mim e eu desviei os olhos, para não encarar muito. Decidi morder outro pedaço do sanduiche enquanto ele colocava o gelo no local exato, estremeci de novo. Ele afastou um pouco o cabelo do meu ombro, em um ato bem espontâneo.

– Obrigada. – eu disse assim que terminei de engolir. – Por tudo.

– Não precisa agradecer. Consegue segurar o gelo? – perguntou. Coloquei a mão sobre a dele, sentindo o calor que ela exalava... O gelo estava derretendo um pouco. Franzi o cenho. – Deixe-me ver seu pescoço.

Senti a garganta um pouco tensa, mas afastei mais os cachos do pescoço e ergui a cabeça. Jacob se abaixou um pouco mais e, embora seus olhos estivessem em meu pescoço, eu senti meu coração acelerar com aquela proximidade. Ele estava mais próximo do que jamais esteve. Seus dedos tocaram de leve o comprimento de meu pescoço. Senti meu coração redobrar os batimentos.

– Aqui do lado vai ficar um pouco marcado. – ele disse mal movendo os lábios, seus olhos possuíam apenas uma única emoção: raiva.

– Vou ficar bem. – disse e, por uma infelicidade, minha voz saiu mais trêmula do que eu gostaria. – Sou boa em reprimir essas coisas.

Voltei a cabeça ao normal, ficando por breves segundos com o rosto bem próximo dele. Foi sem querer, mas senti um arrepio na espinha. Com a outra mão apertei o casaco dele em mim, como se o arrepio fosse de frio. Virei minha cabeça para o sanduiche.

– Está muito bom. – mudei drasticamente de assunto.

Jacob soltou uma risada baixa e gutural, sentou-se na minha frente. Bom, na verdade ele se apoiou na cadeira e cruzou os braços, me observando. Ele fazia muito isso. Eu estava bem o suficiente para fazer perguntas que me surgiam agora.

Olhando para meu lanche, comecei com elas.

– Como me encontrou? – perguntei.

Acho que Jacob não esperava nada menos de mim, pois abriu um sorriso divertido, embora seus olhos tivessem voltado a se fechar. Ele pensou para responder, eu podia ver isso com muita clareza. Tive a impressão de que ele ia mentir também.

– Eu estava em Port. Angels. Encontrei com Austin na frente do restaurante e ela disse que viu você saindo e que não tinha voltado. – deu de ombros. – Decidi ir atrás, ela parecia bastante perturbada. Disse que já fazia um tempo que você tinha saído e que era sua primeira vez na cidade.

– E a última. – murmurei estremecendo, então fechei as mãos as punhos para reprimir a memória. Eu a tinha excluido, mas levaria um tempo para deletar completamente. Concentrei minha mente na tensão da minha mão.

Jacob a pegou e me sobressaltei com isso. Ele a abriu delicadamente, tocando os meus dedos finos com suavidade. Olhei para as minhas mãos, as suas tão maiores. Mas não era essa a curiosidade. Era a sensação delas nas minhas, uma sensação que eu sempre tentei reprimir ao máximo desde que ele me segurou na casa de seu pai. Era eletrizante, fazia meu peito estremecer de emoção e meu coração bater mais forte. Fazia minha pele ficar sensível a qualquer outro toque dele. Fazia com que eu ficasse muito consciente de sua presença, de seu toque.

Subi meus olhos para ele, curiosa para ver se era a mesma coisa. Provavelmente não, por que Jacob ainda estava fechado em seus próprios segredos. Mas havia intensidade nos olhos. Ele agora acariciava minha mão, como se desamassasse um papel. Garantindo que eu não as fechasse novamente.

– Posso ir atrás deles. – ele disse em uma voz baixa, suave. Essa suavidade era letal, eu mesma a senti, por mais que ela não fosse dirigida a mim. – Quero ir atrás deles.

Eu nunca tive dúvidas que Jacob fosse letal, perigoso. Mas ter isso tão escancarado, ter isso como opção não me fazia sentir melhor. Eu sentia raiva sim, raiva e medo do que tinha passado, mas não o suficiente para mandá-lo atrás deles. Pelo menos eu não queria sentir isso. Para mim, isso não justificaria nada, não me traria um bom sono de noite, nem justiça e nem nada de bom.

Neguei com a cabeça.

Jacob soltou o ar com força, mas parece que minha resposta encerrou a questão para ele. Como se ela realmente tivesse alguma importância.

– Como me encontrou no beco? – perguntei.

Jacob suspirou quando o assunto virou para isso de novo. Eu trocava de assunto para não me focar nos sentimentos que estavam me assolando. Afastei minhas mãos das dele, voltando a segurar o gelo em minha cabeça, mas ele já pingava no meu cabelo.

– Os vi entrando no beco. Achei estranho e fui ver. – deu de ombros novamente. – E o que é que deu na sua cabeça em ir andando pelos becos de Port. Angels? – ele perguntou e eu notei que ele estava segurando essa pergunta há algum tempo, pelo modo como a soltou. Tão pronta e sem hesitação.

– Vi seu amigo da janela do restaurante. – falei – Ele estava ao lado de um quiosque e estava me olhando. Fiquei com raiva e sai para chutar a bunda dele. Mas quando saí ele estava se afastando então decidi seguí-lo – eu estava mais do que editando, estava omitindo. Omitindo a parte em que eu planejava fazê-lo me contar sobre sua relação tensa com Jacob. – O vi entrando no beco e então entrei em seguida, mas ele não estava mais lá. Supus que tivesse entrado na rua do outro lado e segui naquela direção. Foi quando comecei a ser seguida.

Jacob entrou naquele silêncio mortal novamente, eu poderia sentir medo, mas já tinha me desesperado antes e passado por um tipo diferente de medo hoje, então só me encolhi um pouco, esperando sua reação. Ele franziu o cenho.

– Farad não estava lá. Eu o teria visto, acredite em mim.

Dei de ombros.

– Sei o que vi.

Jacob voltou a cruzar os braços.

– Então você deliberadamente tentou seguir um cara problemático? Dez vezes o seu tamanho e cinco vezes mais forte que você? Só para ver no que ia dar?

Dei de ombros novamente.

– Sou mais impulsiva do que racional. – revelei, um pequeno sorriso se abriu no canto da minha boca. – Mas acho que você já reparou isso. – a lembrança da lama na moto, na ida à oficina veio na minha mente.

Por um momento a diversão cobriu os olhos de Jacob. Então ele balançou a cabeça.

– Você procura por perigo. Será que está tão deprimida nessa cidade que está se arriscando de propósito?

Bufei e rolei os olhos.

Então notei em algo nas suas mãos. Ele socou os caras, eu sabia que o tinha feito por que os agressores não cairam no chão por vontade própria, não era brincadeira de fingir de morto. Eu sabia algumas coisas sobre socos, o suficiente para saber que quem socava também ficava machucado. E parecia justo, quando se machuca alguém, você também se machuca. Mas as mãos de Jacob estavam limpas, completamente perfeitas e sem qualquer marca.

Franzi o cenho.

– Você os socou? – perguntei, acho que ele não notou para onde minhas ideias estavam indo.

– Sim. – ele não parecia se arrepender.

Subi meus olhos para seu rosto, um olhar um pouco afiado.

– Então por que suas mãos não estão machucadas?

Isso o pegou desprevenido. Eu sabia que sim pelo leve arregalar de olhos dele. Por um breve momento eu ultrapassei sua barreira de segredos. Eu conseguia ver surpresa, medo e desconfiança em seu olhar. Para logo em seguida ele se fechar novamente.

– É uma pergunta interessante para quem salvou sua vida. – falou rispidamente.

Não me abalei com isso, mas também não insisti no assunto. Ele tinha uma certa razão, como meu “salvador” era muito errado ficar fazendo essas perguntas sobre a estranheza dele. Mas não significava que eu deixaria passar. Na primeira oportunidade que eu tinha tentaria descobrir o motivo. Não era por Jacob ser durão, era algo físico. Ele socou cinco caras, alguma marca ele deveria ter.

De repente eu me senti extremamente cansada, exausta. Meus ombros caíram um pouco para frente com o peso do cansaço. Jacob retirou o prato vazio do lanche da minha frente e me fez tomar um pouco mais de água.

– Quer que eu te leve para casa? – perguntou.

Assenti. Minha cama parecia ser o melhor lugar para se estar no momento.

Jacob nos guiou para o carro em silêncio. Ele parecia muito quieto, muito pensativo. Minha mãe costumava dizer que quando as pessoas estavam assim elas queriam ser deixadas em paz, e foi o que fiz. Quando criança, costumava sempre perguntar o que as pessoas estavam pensando, o que estavam sentindo. Parei depois que minha mãe, sutilmente, me deu esse toque.

Ele dirigiu rápido como sempre, as árvores passando velozes por nós. O carro estava completamente quieto a não ser por nossas respirações. Eu acho que adormeci no trajeto, por que Jacob balançou um pouco meu ombro para que eu desencostasse da janela do carro.

– Nós chegamos. – disse suavemente.

Havia luz no segundo andar, que vinha do meu quarto. Eu também vi Austin discretamente olhando pela janela, para depois entrar rapidamente no quarto. Suspirei, eu estava dolorida e com vontade de voltar a dormir, mesmo que fosse no carro de Jacob. Comecei a retirar o casaco.

– Fique com ele. Você está sem. – ele disse com suavidade.

Seus olhos negros pareciam brilhar na rua mão iluminada. Eu assenti, sem forçar para resistir ter qualquer coisa dele comigo.

– Obrigada por tudo, Jacob. – falei novamente, tentando acordar um pouco mais. – Obrigada mesmo.

Ele sorriu e dessa vez eu despertei. Era um sorriso grande, bonito e que chegava ao seus olhos. Eu soube de imediato que estava ganhando um dos raros sorrisos de Jacob Black. Ele continha malícia, travessura e... Sol. Parecia iluminar o carro. Não consegui não sorrir.

– A gente se vê por aí, Gaele. – falou.

Assenti, um pouco atordoada pelo sorriso tão inesperado, que me pegou de guarda baixa. Abri a porta do carro e pisei na lama com minha meia fina. Eu não ia colocar os saltos, só se fosse para chegar rolando na porta de casa. Corri para a entrada, tentando minimizar os estragos na minha meia.

Silenciosamente o carro de Jacob deu a volta e foi em direção à reserva.

Eu nem tinha encostado a mão na maçaneta quando Austin abriu a porta com tudo e me puxou para dentro. Ela tinha um brilho animado na casa. John e Jane ainda não tinham chegado, mas a casa estava iluminada e parecia ter uma energia alegre tão poderosa e diferente da minha, que por um momento parecia que eu estava olhando diretamente para a luz.

– Oh meu Deus! – ela disse eufórica, então olhou pela cortina da sala. Vendo a rua vazia. – O que foi que aconteceu com você? Você disse que ia no banheiro e nunca mais voltou!

Isso era diferente de Austin. Ela geralmente era tão calma e discreta. Essa energia dela me fez franzir o cenho.

– Como assim? Você me viu saindo do restaurante, encontrou Jacob na rua e ele veio atrás de mim. – minhas sobrancelhas se juntaram ainda mais. – Jacob disse que você estava preocupada.

– O que? – Austin se distraiu, voltando a normal com sua energia baixa e calma. – Não, quero dizer, ficamos preocupadas que você estava demorando no banheiro. Lali achou que você finalmente tinha se afogado na privada, mas quando fomos ver você não estava mais lá. Nós decidimos ir comendo enquanto você não chegava, a recepcionista disse que voce tinha mesmo dado uma saidinha. Logo depois Jacob me ligou e falou que estava com você.

Era muita informação para um dia só.

– Você nunca falou com ele?

– Só pelo telefone. Ele disse: “Estou levando a Gaele para casa”, e desligou. Terminamos de jantar e viemos embora. Ah, Lali está bem brava com você, aliás, por ter desistido do nosso passeio para ir embora com Jacob.

Bufei. Eu não estava nem aí para Lali e suas reclamações do povo da reserva no momento. O que rondava minha mente era: como Jacob sabia onde eu estava então, se não tinha falado com Austin?

– E aí? O que aconteceu? – ela ficou eufórica novamente. Isso não era típico da Austin, ela não era tão aberta assim. Sempre procurava deixar que eu tomasse a decisão de falar, nunca me forçou a nada.

E eu não estava com paciência para isso.

– Você está andando muito com a Lali. – falei e subi para meu quarto.

Eu poderia parar para ver que magoei Austin, quando a vi franzir o cenho. Mas tinha coisas mais importantes rondando a minha mente. Com ele sabia onde eu estava então? E por que ele estava no mesmo lugar? Jacob estava me seguindo? Era por causa dele que eu sempre olhava por cima do ombro, com a sensação de ser observada? Se ele estava lá, como não viu Farad do outro lado da rua? Será que eles estavam juntos?

Notas finais
Olá! Eaaaaaae, gostaram?!! Deixem seus comentários, people! Obrigada Amando novamente, sempre fiel! Beijo pra você!! Vamos laaa, suposições sobre quem é Farad e o que ele quer? Alguém ai tem alguma ideia? Nos vemos no próximo cappp!