Humphrey
3 Kennedy Curse
Notas iniciais
Tristan falhou.
***
Aeryn Humphrey caminhava tranquilamente pelos corredores do estúdio quando ouviu sons em uma das salas. Franzindo as sobrancelhas, ela se esgueirou contra uma parede e lançou os olhos para dentro – e se perguntou se também parecia tão ridícula quando estava com alguém como aquela garota.
Tristan empurrava o corpo de Violet Nigel – uma atriz morena sem graça (ou nem tanto) – enquanto a agarrava em partes do corpo dos quais Aeryn sequer se lembrava da existência. Eles se beijavam com tanta intensidade que Aeryn quase se sentiu constrangida antes de puxar o celular do bolso e rapidamente captar o momento com a câmera. E a jovem saiu dali tão sutilmente quanto chegara, transferindo a imagem para um celular sem sua verdadeira identificação e enviando-a ao maior portal midiático que conhecia antes que pudesse se arrepender.
***
Aeryn pusera uma peruca, mudara sua face com um quilo de maquiagem mal aplicada e caçou peças que nunca usara em seu guarda-roupas antes de dirigir-se ao consultório médico no qual marcara suas duas consultas anteriores, munida de sua documentação falsa e uma dor estranha no abdômen. Ficou tão preocupada com aquele incômodo crescente que exigira à lenta e desinteressada secretária um atendimento emergencial.
Ainda assim ela precisou esperar. Dez minutos. Dez longos e impossíveis minutos que por pouco não fizeram Aeryn gritar com a dor cada vez mais forte que a afligia.
Mais tarde, ela se encontrava em uma maca, num leito improvisado. Lágrimas escorriam por seu rosto, e Aeryn se via tão traumatizada que era incapaz de pensar em qualquer coisa.
O doutor aproximou-se, e ela não virou-se para olhá-lo. Ao invés, manteve o teto como seu foco para que não precisasse ouvir suas condolências.
– Lamento muito.
***
Uma semana. Havia uma semana desde que Aeryn não saía da cama para nada além de tomar longos e preguiçosos banhos e comer besteiras. Se havia algo que doía mais do que a sua alma, era seu estômago. Mas ela não se importava – não quando já não havia alguém dentro (e junto) dela para que nutrisse e protegesse. Aeryn sentia-se tão sozinha que seu apartamento parecia uma enorme floresta sem céu e árvores – um espaço vazio e sufocante.
Quando soube que perdera a bebê, se viu imersa em uma confusão e choque tão profundos que não compreendeu imediatamente o fato. Aeryn apenas pôde pedir uma licença médica com um diagnóstico diferente do que realmente ocorrera, contudo com tempo equivalente. Precisara de um pouco de conversa, mas conseguira. Como um zumbi, removeu a maquiagem e a peruca, dirigiu até o estúdio e esgueirou-se pelos corredores até encontrar a sala de Sherman, felizmente vazia, onde pôs o documento médico assinado em cima da mesa. Então, saiu de lá e voou até o apartamento, onde, após trancar a porta, sentiu os ombros despencarem. Um soluço alto escapou de sua garganta e Aeryn arrastou-se até a cama; enrolou-se em um cobertor e ali ficou.
***
Sua licença terminou pouco depois e Aeryn precisou voltar às gravações. Desligara o celular assim que deixara o atestado na sala de Sherman, e quando voltou a ativá-lo, sentiu uma torrente de mensagens e notificações de redes sociais explodir em vibrações no aparelho que quase a fizeram lançá-lo para longe. Não estava disposta para aquilo. Não estava disposta para qualquer coisa, então apenas foi.
Ela terminou as gravações, cada dia seguido de represálias de Sherman – apesar de mal ouvi-las de fato. Iniciou e encerrou outras. Passou por elas sendo uma atriz melhor do que era nos papéis que interpretava. Gravou uma ou duas músicas amorosas para agradar a Sherman. Sorria nos vídeos e entrevistas e ensaios como se estivesse nos momentos mais felizes de sua vida. Passava os dias cantando e as noites paralisada na cama – exceto quando estava com alguém.
Aeryn não se envolvera antes, e não se envolveria agora. Estava satisfeita com suas relações aleatórias, em muitas das quais agia mecanicamente apenas para acabar de uma vez com aquilo. Eram poucas as noites nas quais conseguia sentir algo, se entregar ao êxtase – e o fazia com maestria, ainda que acabasse no canto de algum cômodo qualquer, encolhida e em transe, os olhos encarando o nada. O peito doía, muitas vezes a dor física por tapas que dava em si mesma como uma obsessão até que a pele se avermelhasse, e a que não era.
Sherman eventualmente voltou a adorá-la, mesmo porque Aeryn vinha permanecendo tão obediente a suas ordens. A mídia nunca estivera tanto sobre ela quanto estava agora. Era um bom momento. Um momento ótimo.
Não havia um dia sequer em que Aeryn não pensasse em sua bebê. Àquela altura, a garotinha já estaria em seus dois anos, quase três – e Aeryn muitas vezes sorria ao imaginá-la, ao personificá-la. E muitas vezes chorava ao fazê-lo, também. Evitara mesmo olhar para Tristan depois de tudo o que acontecera. Ele não viera procurá-la desde que aquela foto comprometedora fora divulgada – sequer tivera tempo para isso, uma vez que Aeryn sumira em sua licença quase que imediatamente depois de enviar a imagem àquele portal. E ela não suportava olhá-lo e pensar, de novo, em como sua bebê pareceria. Inferno, mal se encarava no espelho.
A lembrança, os fatos – tudo doía incessantemente e a cada dia mais. Aeryn não mantinha diálogos produtivos. Não produzia memórias. Não vivia. Apenas dormia para acordar no dia seguinte e escrever, esporadicamente, seus pensamentos, de modo a deixar anotados seus dilemas para que alguém os lesse um dia.
E foi com esse pensamento que Aeryn arquivou seus escritos em um pen drive, posicionado cuidadosamente sobre uma cômoda, a qual, na primeira gaveta, possuía várias cópias de exames realizados durante a curta gestação, organizados com rígida cautela e zelo.
Estes, é claro, não foram notados imediatamente. Não demorou, mas o foco inicial se localizou no corpo inerte de Aeryn Humphrey de bruços no chão, um copo quebrado a seu lado, uma caixa de comprimidos vazia ao outro. À explosão das notícias, do conteúdo do arquivo, do conhecimento da jovem, o mundo pareceu ser varrido por uma tempestade de confusão e choque. Exatamente o que ela já sentira.
Não foram as últimas palavras que pusera no arquivo, mas sabia o que Sherman pensaria sobre aquilo.
Um pouco de sangue teria tido mais impacto.
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