Humphrey
1 Fucked Up Kids
Notas iniciais
Aeryn Craig imaginou o que a imprensa falaria se a visse naquele momento – os fios de cabelo bagunçados, o olhar com uma intensidade quase violenta e uma expressão satisfeita na face. E, é claro, quem estava bem a seu lado, tão exausto quanto ela.
Tristan Esden ofegava, os últimos resquícios de sua excitação ainda exalando de seu corpo. Aeryn virou o rosto em sua direção, observando-o acalmar-se. Se ele sentia o mesmo que ela, sabia que demoraria um pouco. Ela demorara. Mas sentira antes.
Ele pegou-a olhando e sorriu maliciosamente.
– O quê? – Aeryn questionou, a voz rouca por sua breve inutilização.
– Nada – ele respondeu, e ela levantou as sobrancelhas.
Sua estrutura rígida começava a amolecer quando ele a puxou para seus braços. Aeryn não se importou, embora o contato parecesse um tanto íntimo demais. Quando haviam chegado àquele nível?
– Você estava com um olhar de assassina, só isso.
Ela se surpreendeu.
– Você tem certeza de que sorrir para uma assassina é algo favorável?
– Se ela for vulnerável a um sorriso bonito, é claro que sim.
– Se não for, você pode ter certeza de que morrerá duas vezes mais rápido.
Tristan abaixou a cabeça para poder olhá-la.
– Será? – Ele brincou com os cabelos de Aeryn. – Talvez ela queira se aproveitar um pouco antes. – Tristan beijou-lhe o pescoço e ela se ouviu ofegar.
– E se ela for uma necrófila? – Ela soltou entre suspiros e Tristan gargalhou. O som a fez sorrir também.
– Aí ele tem um problema.
Calaram-se por alguns segundos, os dedos dele ainda a acariciando quase com cautela. Como se ele nunca a houvesse tocado. Talvez a conversa sobre assassinato o tivesse deixado receoso. Não que ela fosse matá-lo. Tristan lhe era muito agradável, mais do que ela já tinha admitido sobre qualquer homem com o qual se relacionara. Não tinha sentimentos por ele, apesar do tempo em que vinham compartilhando os lençóis – somente um desejo um tanto quanto irrefreável.
E era justamente por isso que a mídia não poderia descobrir qualquer coisa.
Aeryn detestava a obsessão dos jornalistas por encontrá-la em uma situação que pudesse comprometê-la de algum modo. Ela não era vista com rapazes fora dos momentos de gravação, causando diversas especulações; já lera matérias que diziam que era assexuada, lésbica, vítima de transtorno bipolar, traumatizada por algum evento do passado (eles não disseram a palavra, mas em todo o texto ficou óbvio que se referiam a um estupro. Tolos.) etc. Era difícil lidar com a fama e, ao mesmo tempo, tentar ser independente sob os holofotes.
Talvez fosse por isso que gostara de Tristan mais do que gostara dos outros. Ele não se importara em manter-se em silêncio, e não se importara com seu flerte silencioso. Aeryn, por sua vez, odiava flertar. Por que tinha que ser tão complicado levar alguém para sua cama? Por que precisava usar o cérebro quando tudo o que queria era unir seu corpo a um outro?
Ela imaginou que Tristan disse algo a ela um instante antes que seu corpo cedesse à exaustão, e Aeryn sequer pôde ouvir a primeira sílaba antes de adormecer profundamente.
***
– Ae-ryn, luz da minha vida, venha aqui para eu dar uma olhada nesse rostinho.
Aeryn estremeceu internamente ao atender o chamado de seu assessor, Franklin Sherman – pelo amor de todos os deuses, jamais me chame de Franklin! –, caminhando com a postura ereta e um meio sorriso perdido na face. Ela sabia que qualquer falha de sua parte renderia comentários desagradáveis de Sherman, logo antes das gravações matinais, e também sabia que não estava disposta a ouvir suas imbecilidades logo pela manhã, então lutou contra o ímpeto de deixar os ombros caírem e uma carranca se formar em seu rosto. Não tinha razão alguma para o mau humor, mas Aeryn já se acostumara com as próprias oscilações.
– Muito bem, querida – ele franziu a testa ao focar em um ponto na bochecha da jovem. – O que está usando em sua pele?
– Está tão ruim assim? – Ela retrucou, incapaz de impedir a irritação em sua voz.
– Não. Só parece mais macia – Sherman passou o polegar áspero por aquela área e virou o rosto dela novamente. – Preciso desse produto imediatamente – ele exclamou após passar as mãos pela própria face, forçando uma expressão de espanto.
Aeryn não conteve um sorriso preguiçoso. Sherman poderia ser estúpido com ela na maior parte do tempo, mas era o trabalho dele – apesar de ela ter certeza de que ele fugiria do mundo do cinema e da música se lhe oferecessem uma vaga como estilista ou modelo. Ele sempre preferira os flashes, afinal. Não que Aeryn o culpasse.
– Mas vamos falar sério, querida – ele arrumou a postura e olhou-a, a baixa estatura fazendo seus olhos estarem frente a frente e passando um arrepio nos braços de Aeryn. – Você está com alguém?
Ela engoliu em seco e ponderou a pergunta por um segundo antes de balançar a cabeça e responder:
– Não. Não estou.
– Deveria – Sherman lançou-lhe um olhar de reprovação, como se não estar namorando fosse um pecado mortal. – A imprensa vai voltar a especular logo. Você sabe daquelas coisas que já disseram. Vai piorar.
Aeryn mordeu o lábio.
– E se eu não quiser estar com alguém?
Sherman não respondeu de imediato – mas, quando o fez, ela teve dificuldade em acompanhar seu raciocínio acelerado.
– Você já leu as letras que escreve, ou percebe os papéis que aceita? Não há palavra alguma sobre amor, ou aquela coisa de um morrer por outro, ou uma paixão avassaladora. Eles falam sobre beleza, confiança, independência, poder etc., mas não de uma forma inspiradora, mas quase narcisista. Isso a faz parecer antipática. É hora de começar a falar de amor, Aeryn. Você tem vinte e um anos, não dezesseis, e eu sei que pode ser um pouco mais complicado. Mas pode ter certeza absoluta de que todos esquecerão as matérias horrendas que já escreveram quando virem o seu lado romântico. Por que não faz um cover? Isso seria fantástico, até porque você não precisaria atribuir a letra a você, mas todos entenderiam assim. Pronto, resolvido. Um cover. Ou mais. Não, com certeza mais. Vou selecionar as músicas ainda hoje. Fique atenta às suas mensagens. Tenha um bom di-ia!
Aeryn ficou estática, observando Sherman virar-se para ir embora sem sequer dar-lhe a oportunidade de responder ou contestar – talvez porque soubesse que ela certamente o faria.
Repetiu as palavras dele em sua mente. Ela realmente não gostava de falar de amor. Era algo complicado. Acreditava que nunca chegara a amar alguém de fato; sequer tivera paixões de colégio ou qualquer coisa que se aproximasse disso. Nunca os procurara, e o fato não se alterou quando ela começou a trabalhar como atriz em longas-metragens, e a cantar. As únicas relações que importavam para Aeryn eram as que ela sequer sabia o nome de seu parceiro e que não duravam mais do que algumas poucas horas. Como poderia interpretar uma personagem tola e apaixonada, ou cantar uma música tola e apaixonada, se não sabia como era isso?
Tinha uma personalidade forte e sabia disso, contudo. Sherman dissera que escolheria as músicas para ela, mas Aeryn certamente tinha uma playlist maior que ele. Sorriu para si mesma e agarrou o celular do bolso, jogando-se em uma cadeira do estúdio enquanto analisava sua lista infinita de canções, muitas das quais sequer se lembrava.
– Quanta concentração.
Aeryn levantou os olhos e precisou elevar a cabeça também para olhar o rosto de Tristan. Sentiu-se tão pequena que não pôde evitar certa satisfação quando ele sentou-se a seu lado e ambos ficaram mais corretos.
Ele franziu as sobrancelhas para ela, com ar de curiosidade.
– O que está fazendo?
A jovem balançou a cabeça, como se dissesse “nada que lhe interesse” de forma educada.
– Não é nada. Coisa do Sherman.
Tristan pegou o celular da mão dela e ignorou o olhar semicerrado que recebeu, passando o dedo pela lista de músicas. Aeryn abaixou a cabeça e cobriu o rosto com as mãos, já esperando os comentários.
Ele riu alto.
– Deus, isso é precioso. Você tem coisas da década passada que ninguém mais se lembra.
– Eu me lembro. E gosto – Aeryn recuperou o celular e sorriu presunçosamente.
Ela sorria para disfarçar o desconforto, mas esperava que Tristan não percebesse. Era estranho conversar com ele fora de um quarto; o diálogo parecia não fluir, forçado. Aeryn detestava isso, mesmo porque a fazia lembrar de seu período pré-cinema, quando ela não se esforçava em conversas e se achava extremamente tola – e, ainda assim, não mudava.
Mas estes eram outros tempos. Ela estava ali agora, em ascensão. A mídia a queria. Os produtores a queriam. Sherman a queria. Aeryn poderia passar por isso também.
Encarando Tristan pelo canto do olho, percebeu que ele poderia ajudá-la sem perceber. Não poderia amá-lo a ponto de escrever uma canção (tola e apaixonada), mas era certo que havia alguma que combinasse com o relacionamento deles em sua lista. Ele jamais saberia, porque a conhecia o suficiente para perceber os jogos midiáticos de Sherman.
Aeryn sorriu para si mesma um segundo antes de sentir a pressão em seu estômago. Contraindo-se suavemente, ela se levantou rapidamente e tentou parecer o mais tranquila possível enquanto caminhava na direção do banheiro mais próximo e, finalmente, pôde deixar a garganta chorar conforme expelia tudo o que havia em seu interior, até que somente restasse um líquido do tom mais detestável de amarelo e Aeryn quis afundar-se no chão até desintegrar-se.
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