Humanos

1 Capítulo Único — Tu-tum Tu-tum Tu-tum.


Notas iniciais
Boa leitura!

Eles são humanos.

E como humanos, estão desesperados. Aflitos, curiosos, esperançosos. Eles precisam de ajuda, ajuda essa, que não cai do céu. Eles precisam se apoiar em algo, uma crença, uma promessa de que tudo está e terminará bem. Mesmo que não esteja. Mesmo que não termine. Porque se ele viver e morrer acreditando em alguém bondoso e maior, ele vai estar em paz. Ele vai ter a dignidade e a coragem necessárias para seguir em frente, com as mãos entrelaçadas nas costas e o queixo erguido. Um certo brilho nos olhos.

E o esboço de um sorriso nos lábios.

Eles são humanos, e como tal, podem vir a desacreditar. Ou a pôr em prova esse poder maior. Porque eles são inseguros, teimosos e cabeças-quente. Não é algo que se possa mudar. É pensando nisso que neste momento que eu sinto uma preocupação inquietante subir-me pela espinha e tremer em meus dedos.

Porque é nesse momento que eu estou testemunhando um humano.

São dois, na verdade. Ele está segurando a mão dela com uma mão, e com a outra, sua perna. Porque ela está de pé na grade da Golden Gate, em San Francisco. A taxa de suicídios de lá é grande. Mas eu nunca tinha visto. Eu estava ali, agora, porque ela me chamou. E chamou você também.

Ela quer uma prova de que ela está viva por algum motivo.

E vendo as lembranças dela como estou, eu não a culpo. Não vejo exatamente flashes de sua vida; isso é uma coisa que só você pode ver, porque é sua especialidade. Eu posso sentir a pressão dessas lembranças que passam na sua cabeça, porque você está segurando a minha mão.

É. Essas lembranças doem.

Sinto dor de cabeça e solto sua mão. Gritos ecoam nos meus ouvidos, mas eu não estou ouvindo eles. Só sei que estão gritando. A dor da menina percorre todo meu corpo e eu estremeço. Você também; fecha as mãos em punhos porque elas estão tremendo.

Você me fita, e eu sei que você quer que eu a salve.

O garoto também quer.

― Desça daí, é perigoso.

― Eu sei disso.

― Por favor, eu estou implorando, desça daí.

O corpo dele está brilhando. A intenção é pura.

Ele ama ela, quer protege-la, mas sente que falhou miseravelmente.

Eles são irmãos.

Ela só tem quatorze anos.

O pai deles é um alcóolatra e a mãe está morta.

Você pega minha mão novamente, e eu resmungo. Mas seus dedos estão frios, então eu os acolho entre os meus.

As lembranças dela estão embaçando sua visão. Praticamente esmagando meus dedos, você me pergunta:

― Você não vai ajudá-la?

Sua voz é chorosa.

Eu não sei o que fazer.

Frio. Eu estou com muito frio, e sei que você também. Sentimos o vento morder nossos braços. Alfinetando nossa pele, fazendo nossos corpos estremecerem. É um frio ardiloso, vindo de um vento cruel. O ar ruge, secando nossos lábios e nos fazendo piscar mais rápido. Seu braço encostado no meu está arrepiado. O ar condensa na nossa frente, as duas nuvenzinhas que saem de nossas bocas se juntam e rodopiam.

A morte é fria.

Você já deve ter ouvido isso.

Na ponte, os joelhos da menina fraquejam e ela bambeia para frente. Talvez você esteja se perguntando por que o irmão não a tira dali. Ele tem dezoito anos, é mais alto e forte que ela, mas parece igualmente exausto.

Isso. Exaustão.

A vida fez isso com eles.

Eles têm cicatrizes, olheiras e expressões vazias. Nem Deus pôde fazê-los sorrir. Mas o garoto ainda tem vontade de viver, ainda está determinado a proteger sua irmãzinha do pai abusivo e do mundo sombrio.

Você sobe a mão pelo meu pulso e puxa minha manga.

Está bem.

Eu já entendi.

Quando nossos pés tocam o chão, o asfalto chia. O garoto olha ligeiramente para nós, de rabo de olho, mas não nos vê. Seus olhos se desfocam e ele se volta para a irmã.

― Vamos pra casa.

― Eu não quero voltar pra lá.

― Por favor. Você vai desistir tão rápido assim? Não seja fraca ― a voz dele falha. Está tão desesperado que quer feri-la com as palavras que luta para que saiam no tom mais calmo que ele consegue usar. Ele não pode perder a calma. Ele sabe que tem que ser forte, pelos dois. ― Não me abandone aqui.

― Cala a boca ― agora, eu percebo que a voz dela não é somente triste e deprimida. Agora ela está chorando. Posso ouvir as batidas dos corações deles.

Tu-tum.

Tu-tum. Tu-tum.

Tu-tum.

Tu... tum...

Ouço o seu coração também. Cada vez que ele bate, o vento se silencia. Você estende a mão na direção deles e me encara. Eu já sei, droga, é o que tenho vontade de dizer. Mas tudo o que faço é pegar sua mão novamente, a que está caída ao lado do corpo. O vento volta a rugir.

Mas você está respirando devagar mais uma vez.

Acalme-se. Mantenha a calma.

É tudo o que eu quero que você faça.

― N-não faça isso ― a voz do garoto esganiça consideravelmente quando a irmã estende um dos pés, balançando na escuridão lá de baixo. ― Ei, volte pra cá.

― É tão bonito, não é? ― sinto meus olhos arderem e minha garganta se fechar quando ela se vira para olhar o rosto do irmão. Ela comprime os lábios. Seu rosto pálido está brilhante de lágrimas.

Elas escorrem sem parar dos grandes olhos verdes. A voz dela está embargada, um murmúrio dolorido.

Tu-dum, tu-dum, tu-dum, tu-dum.

― E-ei... N-não solte a minha mão... ― ele diz. Seu queixo treme.

Tu-dum.

Ela sorri.

Tudum tudum tudum tudum tudum tudum..

― Eu te amo

Tu-tum.

Ela cai.

.

Tu... tum.

Tu-tum tu-tum tu-tum.

Tu... tum...

A mão dele ainda está estendida. Seus olhos ainda estão lacrimejando, arregalados de surpresa.

Os dedos tremem e se fecham no ar. Ele grita.

Um grito.

E ele cai de joelhos.

.

Tu-dum. Tu-dum. Tu-dum.

― Tudo bem ― eu digo. Minha mão brilha, dourada, contra a camiseta preta do garoto. Ele ergue os olhos para mim. Estão vermelhos, cheios de lágrimas que não caem e gélidos.

Ele não queria ver ninguém neste momento.

― O-o quê você quer? ― rosna para mim. Mas é tão baixo, tão ríspido e duro que eu finjo que foi inaudível. Porque ao um ouvido humano seria.

Meus dedos apertam mais. Na minha outra mão, sinto que você está tremendo violentamente. Ao invés de ficar de mãos dadas, agarro seu pulso, porque está se tornando realmente insuportável essa sua agitação.

― Não seja fraco ― sussurro. Ele olha para o chão, abre e fecha as mãos apoiadas nas coxas, e depois ergue o olhar para mim de novo.

Não está mais tão frio.

Eu balanço a cabeça afirmativamente para você. E todo o seu corpo se arrepia de uma única vez, um arrepio que eu conheço, que começa da base da coluna e se espalha como um formigamento por todo seu corpo, sibilando no alto da nuca.

Tudo está quieto.

.

Suas asas mordem o ar diante do meu rosto, o farfalhar tão alto que esconde o rugir do vento.

Sua mão escapa da minha.

Tu-dum.

E o som que suas asas fazem quando você se adianta na direção da grade é como o cochichar de uma mãe no ouvido do filho, seguido de uma risada calorosa.

Você olha para mim, e eu sorrio.

Você mergulha na escuridão atrás da garota, deixando-me para trás. Estamos os dois sorrindo. Eu estou confortando o garoto, ouvindo e fazendo-o ouvir a canção murmurada que o bater de suas asas provocou. Eu estou sorrindo, porque é um canto muito bonito.

Você está sorrindo por puro prazer. Porque você gosta de sorrir. Isso é algo muito humano da sua parte. Eu gosto disso.

Mas ao mesmo tempo em que você está sorrindo, voando na direção do corpo que cai ligeiramente na direção do mar ― não tão rápido a ponto de cair antes de você pegá-lo ―, você está chorando.

E isso também é algo humano.

E também é por isso que eu estou sorrindo.

.

Eles são humanos.

Corpo, alma, coração. Sangue, carne, um cérebro. Voz, olhos, lágrimas.

Eles são humanos, e eu tenho um pouco de inveja deles.

Inveja, que também é um sentimento bastante mundano.

Não é um sentimento do qual eu deveria me orgulhar, mas, estranhamente, eu me orgulho dele. Assim como você se orgulha de suas lágrimas.

Porque isso nos faz humanos.

.

Seu peito subia e descia em uma velocidade agoniante. Sentado sobre as pernas, com a cabeça da menina em suas coxas, você parece ter se acalmado, pelo menos um pouco. Já não está mais tremendo, e seu olhar se suavizou. O irmão dela está ajoelhado ao seu lado, diante da irmã inconsciente, chorando, chorando e chorando. O choro mais puro e verdadeiro que eu já ouvi. Ele solta ruídos e soluços altos, o corpo tremendo violentamente e as lágrimas banhando o rosto.

Ele é um humano. E como tal, ele chora de alegria e alívio pela irmã estar ali novamente. Porque humanos são feitos de sentimentos. Podem ter carne e líquidos, mas são compostos de sentimentos e sensações. Por isso somos diferentes deles.

Você sabe disso. Por isso quando eu me agacho para checar se a menina está recuperando a cor de seu rosto, automaticamente eu ergo o polegar para limpar uma lágrima teimosa que está escorrendo pela sua bochecha. Você me olha, agradecendo em silêncio, apertando os olhos antes que mais alguma escape.

Eu só posso sorrir.

― Vamos ― é engraçado que isso seja tudo o que eu tenha a dizer quando me levanto. Estendo minha mão para ajudar você também. Suas asas recolhem-se atrás de você e seus olhos me fitam novamente, curiosos. Você estava tão preocupado com a possibilidade de não ter chegado a tempo que havia se esquecido delas.

Mas o importante é que você a salvou.

Você se assusta consideravelmente quando é puxado para trás. E eu também, afinal, estamos de mãos dadas, então você praticamente me iça junto.

― Como eu posso agradecê-los? ― é o garoto. Ele apoiara a menina na grade para ela não ficar deitada no meio da ponte, e agora estava de pé, agarrando-se à manga da sua roupa, com o rosto vermelho do choro e os braços trêmulos. ― S-seja lá o que diabos vocês f-forem, e-eu quero agradecer... v-vocês salvaram a-a minha irmã e... e...

― Não precisamos de agradecimentos ― volto a sorrir. Sinto seus olhos queimando na minha nuca, aparentemente indiferentes, mas no fundo, curiosos e intrigados. Afinal, meus sorrisos são apenas complementos. Eu sorrio porque esse é um bom momento para sorrir; porque sorrisos confortam pessoas. Mas eu não sinto a felicidade que traria um verdadeiro sorriso.

Isso é algo exclusivo dos humanos. Mas também é algo que, curiosamente, você tem, então orgulhe-se disso.

Porque eu não tenho esse prazer.

― Isso quer dizer que foi apenas uma boa ação? ― a voz dele está mais firme. Ele está respirando mais devagar. Assim como você, eu vejo.

― Ela disse que queria saber por que está viva. Ela queria saber se há alguém olhando, esperando por ela ― meu sorriso morre, e eu aperto sua mão na minha. ― Ela nos chamou aqui, e nós viemos. Ela sabe disso. Vai seguir em frente agora. Por favor, tome conta dela.

― C-como se você precisasse pedir uma coisa dessas ― ele desvia o olhar de nós. ― O-o q-que são vocês...?

Dessa vez, quando você olha para mim, é um olhar diferente. Isso me surpreende um pouco.

Sua mão aperta a minha com mais força. Você nega com a cabeça.

Seu olhar está confiante. Seu peito que antes subia e descia freneticamente, sobe uma única vez, porque você está suspirando para mim.

Está bem, eu já entendi.

― Somos você, o mundo, Deus e todas as coisas vivas ― você me puxa para que eu me vire, dando as costas para o garoto. ― Normalmente ninguém deveria saber disso. Mas aparentemente é importante que você saiba. Eu não irei discutir com esse aqui ― olho-o por cima do ombro e aponto para você com o queixo. ― Proteja essa garota. E cuide de si mesmo. Não me faça vir até vocês de novo para repetir isso.

Então você me puxa. Nossos pés saem do chão, e qualquer familiaridade com sentimentos humanos são varridos de nossos corpos. Mas está tudo bem. Porque não é justo roubar algo tão perfeito como os sentimentos e os simplórios gestos mundanos.

No entanto, quando eu rodopio no ar para encarar você, eu me surpreendo.

Porque você está chorando de novo.

Mas você também está sorrindo. E a felicidade que emana de você é quase palpável.

De algum jeito que eu nunca irei compreender, isso também me deixa feliz.

+++

Humanos são humanos. Eles têm a existência limitada, e inúmeras possibilidades à sua frente. Humanos são tudo aquilo que Deus nunca irá ser, seja isso bom ou ruim. Humanos são as coisas que eu mais invejo no mundo inteiro.

Humanos são humanos, e como tal, não foram feitos para desistirem tão facilmente de coisas tão preciosas como a vida.

Notas finais
Entããão. Como foi a experiência? xD Esse conto segue o mesmo "tipo" de personagem do meu outro conto, Aceita um Chá?, onde o narrador pode ser um Deus, um anjo ou qualquer coisa do gênero, embora os dois contos não tenham nada haver um com o outro. Tentativa de escrita em segunda pessoa. Obrigada a vocês que leram ^u^ Se acharem que vale a pena, deixem um comentário :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!