Humanoid Chronicles
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Quando nós finalmente chegarmos
Não sei por quanto tempo posso continuar lutando
Através do fogo frio e solitário
Chamas me levam a você
E depois lutamos juntos
Na luta do amor
(Kampf der liebe – Tokio Hotel)
25 de Agosto de 2109
Na enfermaria, totalmente surpresa
23h30min PM
Continuando a história. Quando percebi que estava passando a maior vergonha da minha vida, eu me joguei com tudo para o lado, tirando Bill de cima de mim e acertei-lhe um soco no seu estômago, para ver como era bom. Ele caiu, mas não parecia ter sofrido tanto quanto eu, afinal logo já estava de pé.
– Decidiu me matar agora? Porque está sendo humilhada na frente de todo mundo? – ele zombou de mim – Pobrezinha, você supera.
Avancei nele, dando um soco em seu ombro e um chute em seu joelho, o fazendo vacilar novamente. Era impressão ou ele estava mais fraco? Ele nem ao menos tentava se proteger, apenas deixava que o espancasse. Quando consegui acertar seu rosto, seu lábio que já estava quase cicatrizado, partiu-se de novo, voando sangue em cima de mim. Bill caiu no chão, colocando a mão em seu rosto.
– Parabéns – ele disse sorrindo para mim com seu rosto cheio de sangue, mas seus olhos estavam carregados de sarcasmo – Pode me matar agora, o que acha? Duvido que consiga.
Ele estava se entregando para mim? Era isso? Ou ele simplesmente queria saber se eu era capaz de seguir em frente. O problema não era matá-lo, era achar alguma forma de fazer isso. Eu não podia simplesmente espancá-lo, achando que depois do quinquagésimo soco ele perderia os sentidos. Olhei para os lados, procurando alguma espécie de arma, mas não achei nada, então voltei a encarar os olhos cruéis dele.
Tudo bem, eu não podia matá-lo e nem era por falta de vontade. Realmente imaginei na minha cabeça o que aconteceria caso conseguisse, talvez logo depois eu fosse morta por seus pupilos, ou quem sabe, levada a solitária para morrer de verdade dessa vez. Eu não sairia ganhando nada se o matasse, além é claro, do meu orgulho de volta.
– Não posso matá-lo – eu disse de má vontade.
– Por quê? Não me vai dizer que pensa que vai me escravizar? – ele disse cruelmente, rindo novamente de mim junto com o resto.
– Não, idiota – eu disse pensando que eu poderia estar errada, talvez matá-lo fosse um bem para humanidade – Não ganharia nada matando um verme como você. Pronto, pode ir torturar seus pupilos, ensinar a eles como ser um idiota sem coração, estou vendo como está fazendo um bem para o mundo. Pelo menos meu pai está pensando no bem das pessoas, ao contrário de você.
– Você sabe como é matar uma pessoa? – ele perguntou, finalmente se levantando.
– Não, não sou como você – eu disse dando um passo para trás, talvez ele fosse me matar agora.
– É, você não é como eu. Matei pessoas e não me orgulho disso. Fui arrancado de casa com apenas 16 anos para servir o exército, tive que matar pessoas em guerra, porque elas estavam matando outras pessoas por água e comida. Você sabe como é difícil dormir todos os dias, sabendo que posso ligar a torneira do meu banheiro e sairá água de lá, sendo que vivi uma guerra em meio a um lugar onde não há água e as pessoas morrem por isso?
Senti o sangue se esvair do meu rosto. Eu não achava Bill a melhor pessoa do mundo, ele era o cara mais arrogante e cruel que já vi na minha vida e tudo isso tinha um porquê. Nunca parei para pensar, que por trás daquela barreira que ele construíra em volta de si, escondia um ser com um passado terrível. Ele não era assim porque quis, o mundo o havia tornado daquela maneira.
– As pessoas morrem o tempo todo, umas na guerra, outras por fome e sede e outras por problemas climáticos. Algumas ainda morrem porque se drogam demais, porque acham que com isso a farão esquecer os problemas. Outros se suicidam, achando que é melhor morrer pelas próprias mãos. Não estou interessado em mortes, eu quero dar um motivo para todas essas pessoas viverem. Humanoids não salvarão essas pessoas, elas não estão interessadas em viver por muito tempo, elas querem viver o suficiente e da melhor forma possível. Eu vi robôs na guerra, robôs matando pessoas sem hesitar nenhum segundo, aquele ser sem vida matando pessoas cheias de vida. A única coisa que conseguia ver, era World Behind My Wall Corporation escrito nas jaquetas militares que eles usavam. Seu pai promete um novo mundo atrás da sua parede, e eu só vejo um mundo de sangue.
Não conseguia falar. Eu estava mais envergonhada do que quando riram de mim ao falar que tornaria Bill meu escravo cozinheiro. Claro que sabia que meu pai criava robôs, eu tinha uma empregada robótica em casa – que cozinha muito mal, se quer saber –, mas não fazia ideia que muitos deles eram mandados para guerra.
– Seu pai não está interessado em ajudar o mundo, ele está interessado nos lucros que isso trará. O que ele vende de robôs e armas para guerra dá para alimentar todo esse povo que sofre sem água e comida. E ele ainda quer nos tornar Humanoids, sendo que não precisamos de braços robóticos porque temos os nossos saudáveis, que estão lutando realmente para mudar esse mundo. Não sou contra o avanço tecnológico, sou contra o mau uso dele.
Ninguém dizia nada, nem eu conseguia dizer qualquer coisa. Eu havia recebido o maior soco que podia de Bill e ele nem usara as mãos. Droga, o que eu estava fazendo de errado? Há alguns minutos eu estava quase caindo fora daqui. Há alguns minutos eu estava com a vida dele em minhas mãos. Agora ele havia me pego de guarda baixa, jogando toda aquela suposta verdade em minha cara.
– Você passou três dias dentro daquela solitária – ele continuou – Há pessoas passando por isso todos os dias e eles lutaram como você pela vida. Se sozinha conseguiu destruir uma porta, juntos podemos destruir uma muralha.
– Está me convidando para ajudá-lo? – eu exclamei sem entender mais nada.
– Não, não estou esperando sua ajuda, sei que ela não virá. Você foi criada em um mundo completamente diferente do meu, nunca vai entender – ele disse se afastando de mim – Pessoal, encerrado o treinamento.
Bill foi embora, subiu as escadas para o andar de cima, me deixando livre para ir aonde eu queria. Fiquei parada ali, enquanto todos se afastavam, olhando e cochichando para mim. Eu realmente queria acreditar nele, mas havia uma parte de mim que o odiava e se recusava a aceitar o que ele dizia. Realmente queria cair o fora dali, mas não fiz isso, voltei para enfermaria, com vontade de me atirar na cama e dormir para sempre. Quando cheguei lá, me deparei com Bill sentado em uma das camas, com Nathalie colocando gelo em seu lábio cortado.
– Você é um descuidado! – ela exclamou – É a segunda vez que se machuca dessa forma.
– Brigue com ela, não comigo – ele disse, fazendo sinal para mim. Legal que para todos os lugares que eu vá, sempre acabo encontrando com aquele maldito. Só que dessa vez eu estava realmente com a consciência pesada.
– Deixe comigo – eu disse pegando o gelo da mão de Natalie – Foi minha culpa.
Coloquei o gelo novamente no lábio de Bill e me arrependi novamente. Ele fitou aqueles olhos escuros em mim – não tão escuros quando se vê com uma luz forte igual da enfermaria, na verdade eles eram castanhos esverdeados – como se fosse um juiz e estivesse decidindo se me mandava para a forca ou para a cadeira elétrica.
– Não pense que me convenceu – eu disse rapidamente antes que pensasse que eu estava na dele – Não tenho provas do que você disse, mas acho que pode ter acontecido uma dessas coisas com você, afinal você é o cara mais desalmado que conheço.
– Preciso de um pouco de gelo na minha clavícula – ele disse sem ao menos prestar atenção no que eu havia dito.
Olhei feio para ele e coloquei o gelo aonde eu havia socado. De perto e tão inofensivo, ele parecia bem mais humano. Talvez descobrir um pouco o que ele pensava ou sentia, o havia tornado humano para mim, por um momento, eu realmente pensei que não passasse de um ser ambulante, sem sentimentos, guiado apenas pela sua crueldade.
– Se não gosta de ver pessoas sofrendo, porque vive usando esse choque-elétrico em mim? – eu perguntei, realmente curiosa em saber o que se passava na cabeça dele.
– Sofrimento vem com aprendizagem – ele disse secamente.
– Ah, conta outra! Até parece que levar choques elétricos irão me ensinar alguma coisa de boa. Você precisa se tratar, meu chapa, depois de tudo que aconteceu com você, com certeza precisa de um psicólogo.
– Você não está fugindo – ele respondeu – Não precisa de algemas. Está totalmente domada.
– Domado vai ficar você, quando eu quebrar seu crânio – eu disse, levantando o saco de gelo, pronta para atirar na sua cabeça.
– Se você me matar, vai ficar sem cozinheiro, pode ter certeza que Tom não cozinha nada bem comparado a mim – ele disse segurando minha mão antes que eu realmente quebrasse sua cabeça.
Então ele pegou o meu braço e aproximou meu pulso – gelado por causa do gelo derretido – do seu lábio cortado. Um arrepio percorreu meu corpo e eu puxei meu braço para longe dele. Quem ele pensava que era para me usar como gelo? E ainda tocar meu braço naquele rosto sanguinolento?
– Acho que você pode passar gelo em si mesmo muito bem – eu disse jogando o saco de gelo nele – Preciso descansar agora, pode ir embora.
Bill se levantou, sorrindo ao ver minha expressão, e foi embora da enfermaria. Estranho que minha raiva por ele, até agora não sumiu, continuo o achando o maior idiota de todos e vou continuar a odiá-lo para sempre. Anote o que eu digo, ou melhor, escrevo.
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