A chuva está barulhenta lá fora

E aqui dentro é cinza

Paredes escuras bloquearam meu ponto de fuga

As luzes se apagam

(Lass uns Laufen – Tokio Hotel)

09 de Setembro de 2109

Tentando dar o fora

23h30min PM

– Como isso? – meu pai exclamou, apertando o botão diversas vezes, mas ele não estava funcionando mais – Não, não pode ter ocorrido um erro!

– O que foi, papai? – perguntei divertidamente – Agora posso brincar com você!

Ele jogou o dispositivo com tudo no chão, fazendo-o virar estilhaços. Um barulho do lado de fora chamou minha atenção, ao longe, dava para ver claramente um furacão avançando para onde nós estávamos. Tínhamos que nos apressar, corri para onde Michel estava, nos braços daquela mulher que eu desconhecia. Eu tinha que tomar cuidado com ela, afinal não sabia do que seria capaz.

– Michel, sou amiga de sua mãe, vim aqui para resgatá-lo – eu disse, me aproximando aos poucos, tentando descobrir quem era aquela mulher. Ela não me era estranha, parecia que já a havia visto em algum lugar...

Não podia ser verdade. A mulher se encaminhou mais para frente e pude confirmar minha dúvida. Minha mãe adotiva estava diante de mim, seus cabelos pretos e longos tão brilhantes quanto me lembrava, seus olhos escuros e seu porte altivo ao mesmo tempo delicado. Meu pai estava certo, havia um bocado de semelhanças entre ela e eu, mesmo não havendo nenhum laço sanguíneo.

– Mine? – ela perguntou, sorrindo para mim – Estou tão feliz por você estar aqui! Senti tanto a sua falta.

Ela deixou Michel de lado e correu até onde eu estava, abraçando-me fortemente. Não consegui aguentar e lágrimas despencaram dos meus olhos enquanto a abraçava de volta, sentia tanta falta dela que chegava a doer. Aquilo não podia ser real, mas eu era capaz de sentir até seu perfume, aquele que sempre me acalentou quando precisei. Minha mãe estava de volta para mim!

– Nós podemos recomeçar – ela disse, com sua voz aveludada enquanto acariciava meus cabelos – Você, seu pai e eu. Vamos ser uma família feliz como sempre fomos.

– Mãe... – eu queria dizer tanta coisa, mas agora não parecia a hora certa – Tem um furacão vindo para cá, precisamos ir embora. Tenho muitas coisas a dizer para você, mas agora não é o momento...

– Não se preocupe com isso, estou aqui agora. Apenas diga que vai vir comigo, não me abandone novamente, por favor.

– Podemos recomeçar nossa vida em Hamburgo – eu disse, tentando me afastar, mas ela me abraçou mais forte – Venha comigo, não podemos ficar aqui.

– Wilhelmine? – eu ouvi Bill chamar atrás de mim – Precisamos sair daqui, está ficando próximo demais.

– Mãe, por favor, me solte – eu disse, tentando afastá-la, mas cada vez ela me apertava mais até chegar um momento que estava quase me sufocando – Mãe! O que você está fazendo? Solte-me!

– Se eu fosse você, respeitaria sua mãe – disse meu pai calmamente – Faça o que ela quer.

Meu corpo estava sendo esmagado por ela enquanto eu me debatia, tentando afastá-la. Aquilo não era minha mãe, podia se parecer muito, mas definitivamente ela estava morta. Bill surgiu logo a minha frente e a arrancou de mim brutalmente, jogando-a contra a mesa com toda sua força incontrolável. Farpas de madeira voaram por todos os cantos enquanto Michel se encolhia contra a parede, tentando se proteger.

Desajeitadamente, a mulher começou a se levantar e pelo incrível que parecesse, não havia nenhum arranhão. Quando os olhos dela se viraram para mim que finalmente pude notar o quão eles eram sem vida. Agora eu estava fora daquele encanto que ela pregara em mim, lúcida o suficiente para perceber que se tratava de um robô. Mesmo assim, era terrível demais para mim, era demais ver sua imagem ser usada daquela forma, ser jogada naquela mesa e precisar ser aniquilada por nós.

– Não vou deixar você escapar de mim, Mine – ela disse, olhando de forma hipnotizada para mim – Você é minha, minha!

Ela correu com tudo para mim e eu nem ao menos conseguia me mover. Aquela visão fazia-me lembrar do meu passado, o meu querido passado indo direto a mim e eu não tinha vontade de fugir dele. Bill surgiu na minha frente a segurando e depois a derrubando no chão, enquanto aplicava golpes frenéticos nela.

– Pare, pare! – falei, desesperada, segurando o braço dele – Não faça isso, por favor!

– Ela não é sua mãe, Wilhelmine! Ela é apenas um robô criado para fins sórdidos! – Bill respondeu, continuando a segurá-la. Eu era capaz de ver seu braço todo decepado, cheio de fios saindo como se fossem veias humanas.

– Mas ela pode ser sua mãe, se quiser – disse meu pai, caminhando descontraído até onde eu estava – Criei-a em um momento de solidão, a ideia veio à minha cabeça meses depois de sua morte. Claro que falta vida nela, mas ela igualzinha a sua mãe, até melhor.

Eu podia não bater na minha mãe, mas quando ele disse aquilo, lancei um soco em seu maxilar que o fez voar a metros de distância. Sangue esguichou de seu machucado, empapuçando toda a sua camisa e o chão.

– Nenhum robô, de nenhuma maneira, vai ser melhor que a minha mãe! Se você acha que isso é capaz, é porque passou tanto tempo em seu trabalho do que eu ao lado dela. Quando ela mais precisou, quem estava ao seu lado, fui eu e não você! Fui eu que a vi definhar aos poucos enquanto você alegava que estava tentando procurar uma cura. Você é um doente estúpido! – gritei, sentindo uma fúria assassina dentro de mim – Nem eu, nem Bill somos seus brinquedos e nunca vai conseguir criar algo para nos controlar porque somos humanos, somos mais humanos que você. Seus jogos vão acabar essa noite, Hansen e não vai ser feito pelas minhas mãos, será feito pelas mãos da natureza. Ela está acima de nós, acima de qualquer coisa e vai mostrar que com ela não se brinca de forma nenhuma!

Virei para onde Bill estava e o puxei para longe daquela robô deitada no chão. Ela estava se levantando novamente, sem tirar os olhos de mim. Eu não conseguia mais ver minha mãe naquilo, como poderia? Até Berta exalava mais sentimento materno do que aquele monstro que meu pai criara. Ela finalmente se pôs de pé e veio correndo até a mim.

– Você não é a minha mãe! – eu gritei enquanto um jato de luz verde saiu do meu pulso e a atingiu em cheio, consumindo-a em um grito estridente. Não havia ressentimento nenhum em ver o metal ser consumido e explodido. Nada daquilo substituiria uma pessoa humana.

Encaminhei-me até onde Michel estava, encolhido e chorando a ponto de soluçar freneticamente. Com todo o cuidado, peguei-o em meus braços e o acalentei em meu ombro, deixando que suas lágrimas me molhassem como se fossem algum tipo de água milagrosa que apagaria meus pecados e ressentimentos. Olhei para Bill e ele percebeu meu olhar que dizia que estava na hora de irmos.

– Você não pode ir, Wilhelmine – Hansen gritou – Irá se arrepender! Você precisa de nós!

– A única pessoa que precisa de alguém é você e de um psicólogo – eu disse secamente, abrindo a porta e indo para as escadas.

Bill e eu – carregando Michel – descemos as escadas o mais rápido possível, sentindo os estalos que o prédio fazia por causa dos ventos furiosos lá fora. Meu coração batia desesperadamente, com medo de que não saíssemos a tempo e mesmo que conseguíssemos, como nos manteríamos longe o suficiente do furacão? Havíamos perdido tempo demais com essa besteira e não podíamos mais perder o que sobrava.

– Não podemos ficar dependendo das escadas – falei, ao ver que faltavam muitas ainda – Precisamos sair de uma forma mais rápida.

– De que forma? Pelas janelas? – Bill exclamou, também já temeroso da nossa situação – Se pularmos da altura que estamos, iremos ser levado pelo vento por quilômetros.

– Temos que tentar, somos Humanoids, Bill! Precisamos tentar! Vou manter Michel seguro o máximo que eu puder.

Ele assentiu e eu fui até uma das janelas, escolhi o lado que não ficava de frente para o furacão, ou seríamos sugados. Quanto mais empurrados fossemos, melhor, ou não totalmente, desde que não nos machucássemos muito. Dei um tiro nas janelas, fazendo vidro e metal voarem por todos os cantos enquanto um buraco enorme foi aberto. Olhei para baixo e devíamos estar a uns vinte metros do chão, o que era um bocado, mas não para mim.

– Eu pulo primeiro – Bill falou, colocando o braço na frente e me afastando – Se for perigoso demais, opte pelas escadas.

Nem tentei ser contra aquilo, afinal Bill já recebera ordens demais de mim e eu sabia que ele não estava gostando nenhum pouco. O que era um problema, já que eu também tinha esse espírito de liderança que também não gosta de ser questionado. Sem dizer mais nada, ele pulou. Um queda que deveria ser reta, foi totalmente desviada e Bill voou por uns bons metros antes de aterrissar no chão, tentando frear com os pés. Ele se virou e fez sinal para mim vir.

– Michel – eu falei, vendo o pavor nos olhos dele ao ver a altura que estávamos – Nós vamos pular, nada vai acontecer com você. Eu sou um robô e irei te proteger.

Acho mais fácil ele entender robô do que Humanoid, aquilo era demais para a cabeça infantil dele. Abracei-o fortemente e pulei, não esperando aquelas rajadas fortes que me levaram para longe sem que eu pudesse parar. Eu me sentia como se tivesse na água, bem no fundo, se debatendo desesperadamente a procura da superfície. Só que nessa situação não há superfície e eu não sabia o que diabos fazer.

Aterrissei finalmente de costas, sendo arrastada por uns bons metros, até que algo me parou. Senti uma fisgada em minhas costas e de repente um líquido quente começou a escorrer por ela. Era sangue. Eu havia me ferido. Michel estava em meus braços e saiu de cima de mim quando percebeu que algo estava errado. Levantei-me com dificuldade, sentindo algo saindo do meu torso aos poucos. Quando me virei, percebi que era uma barra de ferro lascada, com uma ponta afiada o suficiente para me matar, caso tivesse acertado uma parte mais delicada.

– Gott! – Bill exclamou ao ver minhas costas – Foi muito fundo!

– Eu estou bem – falei, tentando acalmá-los, já que Michel voltou a chorar – Não estou sentindo nada, temos que ir.

Bill arrancou um pedaço de sua camiseta e a colocou no meu ferimento, tentando conter o sangue, que mais parecia uma cachoeira. Eu era capaz de ver uma poça se formando aos meus pés e sabia que isso era perigoso, se eu perdesse muito sangue, poderia morrer. Foi quando eu ouvi um barulho que arrepiou minha espinha, quando olhei para a origem do som, vi um caminhão enorme, rolando na direção que estávamos. Tão rápido quanto uma avalanche.