Humanoid Chronicles
48 Capítulo 48
Não importa quantas mortes eu morra,
Eu nunca vou esquecer
Não importa quantas mentiras eu viva,
Eu nunca vou me arrepender
(Hurricane – 30 Seconds to Mars)
09 de Setembro de 2109
Nos últimos andares da World Behind My Wall Corporation
22h17min PM
Havia barulho. Havia pessoas falando. Mas eu não conseguia entender porque estava tão grogue. Eu me sentia igual aqueles dias que bebia demais e no dia seguinte não conseguia acordar por causa dos efeitos de uma ressaca misturada com mais umas coisinhas. Senti uma pressão enorme em mim, fazendo meu estômago se revirar e logo tudo pareceu voltar ao normal e um alívio enorme me atingiu. Senti alguém beijando minha testa, fazendo queimar a minha pele tocada.
– Faltam as algemas, Gustav! – alguém gritou, fazendo algo dentro de mim ser despertado aos poucos. Aquela voz, eu gostava tanto dela e me fazia recordar de alguma sensação muito boa – Rápido!
Ouvi um barulho de algo explodindo e abri meus olhos com o susto. Eu ainda estava naquela sala bizarra, só que não havia mais nenhuma cúpula sobre mim, só as algemas ainda estavam em seus devidos lugares. Na frente do computador havia alguém que não me era estranho... era Gustav! Os Dogs Unleashed vieram realmente me salvar! Do outro lado da sala havia um robô enorme, com braços tão grossos quanto troncos de árvore que tentava em vão pegar um vulto negro que desviava de seus ataques. Quando o vulto finalmente parou, pude ver que era Bill. Ele estava vivo. Melhor do que vivo, ele havia acordado e estava tão forte quanto antes!
Agora eu estava livre da anti-gravidade, por isso, canalizei toda minha força para meus braços que estilhaçaram as algemas. Antes de retirar as dos pés, arranquei aquelas agulhas com caninhos do meu abdômen, por onde enviavam tranquilizante e minha alimentação. Quando Gustav percebeu que não precisava mais procurar um modo de abrir as algemas, ele saiu de perto do computador e correu para o meu lado, com medo daquele robô troglodita. Bill derrubou o robô com tudo no lugar onde Gustav estava, fazendo as telas holográficas apagarem e o computador virar uma massa retorcida.
Mesmo com o impacto, o robô se levantou sem ter nenhum dano. Precisava acabar logo de uma vez com isso, então corri até onde ele estava e dei um tiro direto em sua cabeça que explodiu em vários pedacinhos fumegantes enquanto ele caía no chão. De uma coisa meu pai estava certo, quando eu acordasse, me sentiria muito mais forte por causa do descanso e da alimentação a base de vitaminas.
Foi então que eu me virei, e o vi. Bill sorriu para mim, com um olhar cheio de alívio ao perceber que eu estava bem. Isso fez um desejo incontrolável tomar conta de mim, enviando informações para as minhas pernas, corri até ele o mais rápido possível e me joguei em seus braços. Ele estava bem! Só havia algumas cicatrizes em seu rosto, mas até sua pele sintética foi consertada, não mostrando nenhum dano. Será que foi a Doutora Tiersen que fez isso? Será que eles explicaram tudo para ela? Mas eu não queria saber disso ainda, só me deixei ser envolvida pelo beijo que ele me deu assim que nossos olhares se encontraram. Como eu sentia falta dele!
– Vocês dois podem maneirar um pouco? – Gustav perguntou, quebrando o clima – Se ficarmos enrolando demais, outros robôs podem vir.
Afastamo-nos ao lembrar que Gustav estava ali e tanto meu rosto quanto o de Bill ficaram rubros instantaneamente. Apesar de Tom insinuar o tempo todo que nós nos gostávamos, eu duvidava muito que os outros soubessem o quão profunda estava a nossa relação, mas acho que desconfiavam de algo.
– Temos que cair fora o mais rápido possível – Bill falou, voltando a si e me explicando a situação – Não sei se a situação nos favorece ou não, mas nesse instante está vindo um furacão para terminar de destruir Berlim.
– O que? – exclamei – Está brincando?
– Com a Mãe Natureza não se brinca – ele falou seriamente – Por isso tivemos que vir às pressas para te salvar. Não sei qual é o plano do seu pai, mas não podíamos deixá-la ser destruída com o resto do prédio da World Behind My Wall Corporation.
– E os outros médicos? Há mais alguém aqui?
– Não, nada além de nós. Seu pai também deve estar aqui em algum lugar, mas não vamos nos preocupar com isso. Precisamos cair fora daqui. Tom e Georg estão com a Doutora Tiersen procurando o filho dela, Natalie e David estão atrás de medicamentos e outras coisas que poderíamos levar a viagem. Quando tudo isso acabar, vamos dar o fora de Berlim para sempre.
Eu não precisava compreender mais nada, só tinha que aceitar. A World Behind My Wall Corporation será destruída em breve e não precisaríamos fazer nada, era praticamente uma caridade da natureza. Mesmo assim, eu me sentia triste, porque as últimas estruturas que carregavam meu passado seriam demolidas para sempre, me impulsionando para o futuro. A Humanoid que havia em mim, teria que seguir em frente, aceitar sua situação. Talvez por isso eu tivesse tanta simpatia pela Terra, nós duas fomos bastante atingidas e chegou a hora de revidarmos.
Bill olhou para o corredor a procura de mais robôs, como não apareceu nenhum, corremos porta a fora. Pelo jeito, estávamos ainda no prédio do hospital, mas nas partes mais elevadas, utilizada pelos cientistas, ou seja, se os elevadores não estiverem funcionando, teremos que descer um bom lance de escadas. Tentei dar uma olhada nas janelas, para ver como estava a situação lá fora, mas o prédio já estava em modo de segurança, por isso havia metal impedindo que algo quebrasse o vidro. Mas eu era capaz de ouvir algumas coisas batendo de encontro ao metal, fazendo um estalido fraco, ou quem sabe, fosse apenas granizo.
Natalie e David, deviam estar na farmácia do quinto andar ou pelas redondezas. Quanto a Tom, Georg e a Doutora Tiersen, eu não fazia ideia, eles poderiam estar em qualquer lugar. Precisávamos nos certificar que todos haviam saído do prédio antes de partir e se não fizéssemos isso rápido, duvido muito que sobrevivamos a fúria da natureza. Talvez Bill e eu ainda possamos sobreviver, mas os outros não teriam tanta chance.
– Tom não achou o garoto ainda – Bill falou, parando de repente – Eu posso sentir o desespero dele. Isso está ficando ruim...
– Podíamos procurar onde ficam as câmeras – Gustav disse, ele estava um bocado suado e ofegante, talvez estivesse com medo de que não desse tempo para sair antes que o furacão chegasse – Se tivermos acesso, dá para vasculhar em todos os lugares e poderíamos achá-lo com precisão.
– Não faço ideia onde fica o controle das câmeras – eu respondi, ao ver que os dois olhavam com esperança para mim – Nunca fiquei nesse andar antes, é proibida a entrada até de médicos não autorizados.
– Então é melhor usarmos a única alternativa que temos, procurar por contra própria – Bill falou, olhando para um relógio que estava em seu pulso – O tempo está se esgotando, vai ficar muito perigoso se o furacão se aproximar mais do que já está.
Droga, não podíamos deixar o garoto aqui, não quando a Doutora Tiersen curou o Bill, não quando eu tinha uma dívida gigantesca com ela. Mas o tempo estava se esgotando e se ficássemos aqui, todos iriam morrer. Eu precisava pensar em uma alternativa, alguma ideia que mantivesse todos seguros, mas sem deixar o garoto para trás.
– Eu procuro o garoto – falei rapidamente, vendo a expressão de Bill ficar confusa quando se virou para mim – Leve todos para um lugar seguro. Talvez eu não tenha tanta chance de morrer caso a situação se complique.
– Não vim aqui para deixá-la para trás – Bill retorquiu bravo – Vamos ficar juntos.
– Fui eu que causei isso. Se a Doutora Tiersen não tivesse me ajudado, não teriam sequestrado o filho dela. Preciso salvá-lo, é a única forma de eu agradecer pelo o que ela fez pela gente – continuei, sem desistir. Bill não estava disposto a ceder, mas não podíamos demorar demais – Por favor, me deixe fazer isso, se ficarmos enrolando vai ser pior.
– Você não vai sozinha, eu vou com você – ele disse decidido – Gustav, procure os outros e caíam fora daqui. Vamos procurar o garoto e tentar mantê-lo o mais seguro possível.
– Não vou deixá-los para trás! – Gustav rebateu, fazendo cara feia.
– Gustav, isso é uma ordem – Bill falou com seu jeito autoritário.
– Não fale desse jeito – falei brava para Bill, essa conversa já estava indo longe demais – Gustav, eu sei que quer ajudar, mas vocês correm risco de vida. Bill e eu somos Humanoids, vamos tentar lidar com isso. Não somos deuses nem nada, podemos morrer da mesma forma que você, mas ainda contamos com nosso corpo robótico para durar um pouco mais que humanos normais. Às vezes, precisasse se sacrificar um pequeno grupo para que outros sobrevivam.
– Isso não está certo – ele falou, se sentindo derrotado – Mas tudo bem, eu vou.
– Você fez sua parte mais do que importante, você me salvou e sou totalmente grata por isso – prossegui, tentando levantar o astral dele – Ah, e feliz aniversário atrasado! Vou ficar devendo o que te prometi no Chronos Stardate, por isso, deseje que eu sobreviva a isso.
Ele sorriu ao ouvir a menção do jogo e não sem antes abraçar Bill e eu, ele foi embora. Espero que fique seguro, na verdade, eu queria que todos eles ficassem seguros. Da mesma forma súbita que os Dogs Unleashed chegaram à minha vida, eles também se tornaram minha nova família. Eu poderia não ter mais pai nem mãe, mas agora eu contava com vários irmãos e faria de tudo por eles.
– Tem alguma ideia de como podemos chegar até esse garoto? – Bill perguntou, percebendo que eu estava afundada em pensamentos – Porque se não, teremos que procurar em todos os cantos e rápido.
– Acho que sei exatamente onde ele está, talvez não o garoto, mas a pessoa que saiba onde – eu disse, olhando para o teto, mas meu olhar ia muito além do concreto. Respirei fundo e fechei os olhos, quando os abri, eu via tudo em cores vermelhas, amarelas e azuis. Vários andares a cima que percebi uma massa vermelha, que mostrava claramente calor humano – Temos que subir.
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