Humanoid Chronicles
46 Capítulo 46
Você era livre
Você era inocente
Você acreditava
Em um final feliz
(Noise – Tokio Hotel)
06 de Setembro de 2109
Com problemas
02h27min PM
– Gott... o que você é? – a Doutora Tiersen estava totalmente macilenta, petrificada sem saber o que fazer. Eu tinha medo de que alguém fosse dar uma espiada pelo vidro e visse aquela cena e descobrisse tudo que estava acontecendo, por isso precisava ser rápida – Você é um robô? Não pode ser, parece demais com uma humana...
– Dê-me o medicamento, agora – falei firmemente, tentando manter meu braço direito apontado para ela, mas até ele parecia pesar chumbo como o resto do meu corpo – Não estou para brincadeira.
Quando ela me viu inclinar a arma mais ainda, jogou desesperadamente o potinho de remédios em minha direção, fazendo-o despencar em meu colo. Abaixei minha mão direita, mas levantei a esquerda até a arma em seu pulso também surgir, o que não foi boa ideia, porque esta doía de forma lancinante. Com apenas uma mão, comecei a abrir o potinho e peguei uma das pílulas e coloquei em minha boca, engolindo-a inteira por causa da prática que eu adquiri em um passado negro.
A dor não ia passar de imediato, talvez minha febre chegasse a aumentar a ponto de eu ter alucinações iguais a de Bill. O tremor começou a tomar conta de mim e grande parte era por causa do medo de ser pega, de não ter oportunidade de fugir e salvar a vida de Bill, que podia morrer a qualquer instante. Eu nem sequer conseguia mexer meu corpo direito, como conseguiria essa proeza?
– Não quero esse medicamento para dar para empresas inimigas – disse, quebrando aquele silêncio pesado que se instalara entre nós – Quero para salvar minha vida e de outra pessoa que amo muito.
– O... o... que você é? – ela perguntou novamente e foi então que eu percebi que poucas pessoas realmente sabiam sobre o Projeto Humanoid. A maioria dos médicos devia trabalhar com a World Behind My Wall Corporation sem saber ao certo seu objetivo.
– Sou uma Humanoid – os olhos dela se arregalaram ao ouvir o que eu tinha a dizer – E fui criada pela essa empresa. Acho que uma pequena quantidade de médicos e cientistas daqui trabalha nesse projeto exclusivo, o de transformar humanos em robôs. Talvez, no começo fosse para ajudar, mas agora é para lucro, para desenvolver pessoas com força sobre-humana para guerras.
– Isso é incrível! – ela exclamou, fazendo-me empalidecer – Quero dizer, nunca pensei que estivessem tão avançados. Já tinha ouvido falar que houve algumas tentativas, mas todas foram falhas. Essa descoberta poderá ajudar milhares de pessoas que perderam partes do corpo!
– Eles não se importam mais com isso, estão destruindo vida humana só para conseguirem chegar a seus objetivos. Milhares de pessoas estão morrendo na guerra por causa dos robôs criados aqui e vão nos usar para a mesma finalidade. Não fui muito atingida até agora, mas a pessoa que quero salvar teve sua vida completamente aniquilada por eles, não posso permitir que o lhe sobra, acabe morrendo.
– Como assim, o que eles estão fazendo?
– Comigo eles simularam um acidente onde meu corpo se machucasse tanto a ponto de precisar de novos membros robóticos. Eles acreditam que usar cobaias saudáveis não dê tão certo quanto um corpo lutando para viver. Um dos problemas é que o corpo acaba rejeitando todo esse material inusitado, o meu corpo foi o primeiro a não ter esse problema. Mas recentemente recebi um novo braço robótico e meu corpo o está rejeitando.
– E há outro como você? Outro Humanoid? – ela perguntou, parecendo um pouquinho mais relaxada, mesmo lançando vários olhares para o meu pulso.
Eu sei que poderia não dar em nada, mas eu precisava encontrar um jeito de sair e o mais viável era conseguir uma aliada. Doutora Tiersen não parecia ser de todo mal, talvez eu conseguisse sua confiança, assim ela poderia me ajudar a escapar.
– Sim e a história dele é muito, muito pior que a minha. Ele foi mandado para a guerra e também da mesma forma que meu acidente foi simulado, o dele foi também. Seu corpo foi atingido por uma bomba e ele precisou virar quase completamente um Humanoid, mas isso não foi de longe o pior. Sua mãe e a mulher que amava foram mortas pela World Behind My Wall Corporation, além de que seu corpo rejeita os dispositivos robóticos e ele precisa tomar os medicamentos o tempo todo.
Meu braço abaixou e o cano da arma entrou novamente dentro do meu pulso. Eu não aguentava mais ficar naquela posição, precisava deitar e quem sabe dormir por horas. Minha cabeça parecia prestes a explodir e minhas esperanças estavam se esgotando.
– Por favor – falei, sem perceber que já estava chorando – Ele vai morrer se eu não entregar esse medicamento. Eu não posso perdê-lo, não quando já perdi tudo. Sei que você trabalha aqui e deveria ser minha inimiga, mas eu preciso da sua ajuda.
Vi a expressão dela se tornar plangente e ela se abaixou até pegar minha peruca vermelha. Com todo cuidado, Tiersen se encaminhou até mim e começou a arrumar alguns fios desalinhados até finalmente colocar a peruca vermelha o mais ajeitado possível. Ela passou um braço pelas minhas costas e me ajudou a levantar, o que foi um bocado difícil já que minhas pernas pareciam gelatinas.
– Você vai ter que confiar em mim – ela falou – Não sei se estou fazendo a coisa certa, mas como me sinto terrível quando um paciente meu morre, também vou me sentir terrível se o rapaz que você ama morrer.
Não acreditei que havia conseguido! Ela estava realmente me ajudando, mesmo depois de eu quase explodir sua cabeça! Com todo cuidado, Tiersen me levou para fora da farmácia e fechou a porta antes de partimos. Nós nos encaminhamos até o balcão onde entregamos a chave para a secretária que me olhou espantada.
– Gott, como você está horrível! O que aconteceu?
– Já vi isso antes, se chama “se dedicar demais”. Eu era igualzinha ela, ficava horas estudando e me dedicando demais e me esquecia de comer e dormir – a Doutora Tiersen falou calmamente, pensando em algo mais rápido que eu – Estávamos procurando o medicamento e ela quase desmaiou e alegou que só tomou café o dia inteiro, vê se pode!
– Garota, não dê duro demais – a secretária exclamou, me olhando com pena – Sei que aqui só escolhem os melhores médicos, mas tenho certeza que você consegue sem precisar se esforçar dessa forma. Melhor você comer e descansar um pouco.
– Tessa, você viu o que está passando na televisão? – falou uma secretária loira e gordinha, interrompendo a conversa – Aqueles Dogs Unleashed fugiram da prisão! Todos! Encontraram a delegacia inteira inconsciente, mas ninguém morreu. Isso é realmente o fim dos tempos.
– Será que vamos ser atacados de novo? – Tessa perguntou, fazendo o tom moreno de sua pele ficar pálido – Aqueles filhos de uma figa!
– Depois de ouvir que mataram o Starkey, não duvido mais de nada.
Antes que eu pudesse ouvir o resto da conversa, a Doutora Tiersen me levou para longe do balcão, essa era a hora de sairmos sem que ninguém percebesse. Nós entramos dentro do elevador e encontramos mais quatro médicos ali, que me olharam de forma interessada. Eu estava chamando atenção demais, isso era um problema.
– O que aconteceu com ela? – perguntou um moço loiro, segurando um Idiary parecido com o meu.
– Trabalhou demais sem dormir e comer, ela quer trabalhar aqui quando concluir o estágio, típico – ela disse, falando a mesma desculpa de antes.
– Pelo visto, hoje o dia está cheio – ele comentou – Acabaram e achar a Doutora Benzner desmaiada na frente do prédio. Suas roupas e seu crachá foram roubados e está rolando o rumor de que tem algum intruso aqui no hospital. Deve ser um daqueles Dogs Unleasheds malditos! Mas logo vão descobrir quem é, tem câmeras por todos os lugares, não é questão de tempo.
Senti a doutora tremer ao meu lado, talvez agora ela fosse me entregar. Gott, eles vão me descobrir, se virem o vídeo da farmácia, irão notar algo de muito estranho! Quando o elevador abriu no térreo abarrotado de pessoas, pude ver o quanto eu estava ferrada. Estavam colocando o corpo da Doutora Benzner em cima de uma maca voadora enquanto várias pessoas impediam a passagem direto ao elevador que estávamos. O local também estava cheio de seguranças, vistoriando cada pessoa com choques-elétricos prontos para atacar e máquinas de raio-x que identificariam facilmente meu corpo robótico.
– Eles vão descobrir que sou eu – falei desesperada, tentando arquitetar alguma coisa – Doutora, sei que não confia em mim, não depois de ouvir o que aquele médico disse, mas só posso contar com você. Por favor, leve esse medicamento até ele e me entregue aos guardas, se descobrirem que me ajudou, vão matá-la também.
– O que? – ela exclamou atônita, enquanto eu passava o potinho de pílulas para a sua mão.
Retirei também meu Idiary escondido dentro do jaleco e comecei a escrever rapidamente uma mensagem para Gustav. Se o identificador do computador dele for igual ao do seu Idiary, ele iria receber a mensagem e minha missão seria efetuada com sucesso. Entreguei também o meu Idiary para ela.
– Aqui está o endereço, espero que recebam você – falei calmamente, vendo-a guardar tudo em seu jaleco – Eu confio em você. Nessa conspiração não existe vilão ou vítima, mesmo assim não irei perder mais ninguém por esse motivo.
Ela havia entendido tudo. Começou a me arrastar até os guardas e me jogou neles, alegando que eu era a intrusa que procuravam, que fui pega entrando em salas indevidas. Bastou uma olhada do raio-x em mim para que fosse detectado material robótico abaixo da minha pele. Não precisou nem de choque-elétrico, simplesmente caí nos braços de um dos homens enormes enquanto via um vulto vermelho sumir pela porta, sem que ninguém percebesse já que toda a atenção estava voltada para mim. Claro que ela poderia me trair, poderia dedurar o local onde estavam os Dogs Unleashed e Bill nunca receberia o medicamento. Mas aquela era a única alternativa e eu precisava acreditar. Talvez isso fosse o suficiente para me dar paz para atender ao pedido que minha cabeça enviava, então desmaiei.
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