Humanoid Chronicles
41 Capítulo 41
Notas iniciais
Seja o primeiro no mundo a entender
E o último que sente alívio
É um tempo de melancolia
Mas juntos ficaremos bem
(Hurricanes and Suns – Tokio Hotel)
05 de Setembro de 2109
Laboratório de meu pai
14h45min PM
No fim daquele mesmo corredor havia o laboratório do meu pai, por eu confiar nele, só havia entrado naquele local com sua presença. Como não o respeito mais, agora eu tinha direito o suficiente de me infiltrar no lugar mais pessoal dele. O principal motivo de eu ter conseguido aprender a detonar protetores de portas dos Dogs Unleashed é porque eu detonava o do meu próprio pai. Eu passava horas abrindo e fechando aquela porta sem realmente entrar, apenas por experiência. Agora eu iria usar minhas habilidades de verdade.
Conectei meu Idiary no dispositivo e rapidamente a porta abriu. Berta ficou parada no corredor sem saber o que fazer, mas logo optou por me seguir, talvez querendo me impedir de fazer algo mais errado do que já fiz. O laboratório do meu pai estava tomado pela penumbra, mesmo assim dava para ver as bancadas contendo provetas e béqueres cheios de líquidos que eu desconhecia. Encostei a porta para que ninguém desconfiasse de nada e fui até um dos armários do meu pai, procurando por algo que seria bastante útil: clorofórmio. Vasculhei um bocado até encontrá-lo. Também procurei nas gavetas por paninhos e os coloquei em minha mochila. Claro que não pude me esquecer de seringas e tranquilizantes que encontrei, seria ótimo ter mais inimigos inconscientes.
A última coisa e mais importante, encontrava-se na salinha adjacente ao laboratório: o computador principal do meu pai. Eu nunca havia entrado lá e tinha certeza que devia ser o lugar mais protegido da casa, o que poderia ser um problema.
– Não podemos arrombar a porta, tenho certeza que deve ter algum alarme – falei para Berta, analisando todo o local em busca de alguma coisa que me ajudasse – Mas nada passa despercebido para mim.
Havia uma tubulação de ar acima das nossas cabeças e eu tinha quase certeza de que através dela poderia chegar à outra salinha, afinal, aquilo devia ser um respiradouro para evitar que um lugar que ficasse a maior parte do tempo fechado, não cheirasse a mofo. Peguei uma das banquetas e subi em cima dela, estiquei meu braço até tocar as grades e comecei a fazer força para que saísse.
– Berta, você precisa me impulsionar para cima – eu disse, quando finalmente arranquei a grade – Não conseguirei fazer sozinha.
– Não posso, isso é contra as ordens do seu pai – ela disse com uma expressão de puro terror. É nessas horas que eu realmente penso que Berta é humana.
– Você irá se auto-desligar se ir contra uma ordem?
– Não, porque há exceções. Por exemplo, se eu recebesse a ordem de manter um bebê dentro de casa, mas de repente a casa pegasse fogo, eu teria que ir contra as regras.
– Então essa é uma exceção e estou fazendo isso por você. Se eles virem os vídeos das câmeras, irão descobrir que você me ajudou. Estou tentando salvar sua pele, mas não posso sem sua ajuda.
– Você já me ferrou demais – ela lançou-me um olhar bravo, mas pegou outra banqueta, subiu nela e me ajudou a chegar até a tubulação – Vou te ajudar porque não há alternativa.
Já dentro da tubulação apertada e com cheiro estranho, comecei a me arrastar em direção – pelo menos era o que eu esperava – a sala secreta de meu pai. Não demorou muito a achar outro respiradouro protegido por uma grade, meus olhos robóticos logo se acostumaram ao escuro e pude ver uma cadeira flutuante abaixo. Impulsionei a grade para baixo até ela ser arrancada e pulei dentro do local escuro.
Decididamente era a sala adjacente e pude confirmar que havia um dispositivo de alarme piscando perto da porta. Comecei a ligar o computador e logo as telas holográficas acenderam, pedindo uma senha. Já havia passado por isso antes e não iria demorar, ainda mais que a proteção era tão fraca, meu pai com certeza não contava que um hacker invadiria seu local sagrado. Ele nunca deu muita atenção aos meus talentos e duvido muito que ele saiba sobre isso.
Quando consegui me infiltrar, comecei a procurar o programa das câmeras de segurança, eu precisava apagar todas as provas de que Berta me ajudara, além de usar isso ao meu favor. O programa abriu e mostrou várias telas de várias partes da casa, eu podia ver claramente Berta no laboratório, olhando para todos os lados e um tanto impaciente do seu jeito robô. Também dava para ver soldados na sala e os robôs rondando a casa lá fora. Comecei a apagar toda a memória das câmeras e quando finalizada, desliguei-as completamente.
Voltei para a página inicial e cliquei em um programa denominado Projeto Humanoid, logo uma tela cinza surgiu pedindo uma senha. Novamente consegui dar um jeito e o programa permitiu minha entrada. Como eu suspeitava lá estavam diversas informações, mas eu só precisava de uma, por isso digitei na busca: Localizador. Uma nova janela abriu explicando tudo sobre o tal aparelho e no final, havia links, um deles era nada menos que Humanoid 483.
Eu cliquei ali e uma nova aba abriu, mostrando uma animação do meu corpo em transparência, deixando apenas as partes robóticas expostas, que depois foi avançando até mostrar o meu olho robótico direito. Uma flechinha apontou para um dispositivo atrás do meu globo ocular e a palavra Localizador apareceu logo em seguida e mais um monte de informações surgiram. Isso me lembrava um bocado Jogos Mortais, o único jeito de arrancar aquilo de mim, seria tirando meu olho primeiro.
Quando já estava para desligar o computador, uma mensagem surgiu dizendo que havia um novo e-mail. Esperei um pouco para clicar, possivelmente a mesma coisa havia surgido na tela do Idiary de meu pai e seria estranho se avisasse que o e-mail já fora lido. Quem havia o enviado era um tal de Peter Roth.
Langebahn
O problema com aquele Humanoid filho da puta foi resolvido. Ele está fraco o suficiente para não causar mais problemas. Também fizemos um interrogatório, o único que parece saber de alguma informação é ele, mas o maldito não abre a boca, nem sob tortura. Você não tem ideia do quanto sarcástico o maldito pode ser.
Apesar dos problemas, está tudo sobre controle e eles não vão conseguir fugir. Se não conseguirmos informações, em breve iremos acabar com aqueles vermes, talvez assim, o nosso inimigo se revele.
Atenciosamente
Delegado Roth
Não acreditava no que havia acabado de ler. Por mais que não fossem novidades boas, elas eram suficientes para por um sorriso no meu rosto: eu havia descoberto com quem os Dogs Unleashed estavam. Tratei de pesquisar onde ficava a delegacia pertencente a Roth e em segundo já tinha anotado a informação em meu Idiary. Tudo estava cogitando para que desse certo para o meu lado, a World Behind My Wall Corporation mal podia esperar.
Desliguei o computador e com a ajuda da cadeira flutuante, tratei de subir novamente pela tubulação de ar, fechando a grade de forma que não caísse e denunciasse minha visitinha. Berta estava ainda no laboratório e esboçou um sorriso quando me viu descendo.
– Conseguiu? – ela perguntou com seus olhos enormes que me lembravam vagamente um gato.
– Sim, está feito. E consegui mais informações que precisava – falei, abrindo gavetas e procurando o que eu precisava – Berta, o que vou fazer agora é uma tremenda loucura, por isso preciso que fique calma e em silêncio, não me atrapalhe.
Ela fez que sim com a cabeça sem ao menos questionar. Quando achei um espelhinho, luvas de plástico e uma pinça, sentei na bancada e me preparei mentalmente e fisicamente para minha primeira cirurgia. Com meu polegar e indicador plastificado, peguei meu olho direito e comecei a puxá-lo. As primeiras tentativas me deram um bocado de medo, mas eu não tinha tempo para ficar enrolando, então tratei de puxá-lo cuidadosamente apesar das fisgadas.
Pelo olho esquerdo, pude ver a expressão assustada de Berta, mas ela não abriu a boca nenhuma vez. Confesso que eu estava a ponto de vomitar, ao ver meu olho em minhas mãos e estava agradecendo por não poder enxergar o buraco que havia ficado no lugar. Contando apenas com a outra visão, achei o pequenino localizador grudado atrás do meu globo ocular.
Peguei a pinça e comecei a tentar retirá-lo, mas ele estava muito bem grudado. Decidi que faria isso com meus próprios dedos e mesmo temendo o resultado final, puxei o localizador com toda força que tinha e ele saiu. Eu ainda estava enxergando, o que era uma boa coisa. Tratei de colocar meu olho em seu devido lugar, pisquei algumas vezes sentindo aquela sensação estranha de vazio preenchido.
– Como estou? – perguntei a Berta.
– Vesga – ela falou ainda com expressão de pânico.
Pus-me a rir e com ajuda do espelhinho consegui ajeitar o meu olho. Olhei para o localizador e percebi que havia conseguido a maior proeza de todas. Agora minha localização só dizia respeito a mim.
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