Humanoid Chronicles
34 Capítulo 34
Eu odeio minha vida
Eu não posso
Ficar sentado por um único dia
Eu fiquei aqui esperando
Por algo pelo qual viver e morrer.
(In your shadow – Tokio Hotel)
02 de Setembro de 2109
Em meu quarto
09h03min AM
Acordei com batidas insistentes em minha porta. Devia ser o maldito café-da-manhã que chegava todos os dias às nove horas. Pensei seriamente em ignorar, pois estava muito mais com sono do que com fome, além de estar com uma maldita dor de cabeça por causa da bebedeira de ontem.
– Mine? – ouvi a voz de Bill me chamando através da porta e saí da cama em um pulo, correndo até ela e a abrindo. Ele estendeu a bandeja de café-da-manhã para mim o que eu achei estranho, porque desde que eu estive na cela, ele nunca trouxe mais nada – Posso entrar?
– Claro – eu falei, meio desconcertada por ele ter me pego em um estado decadente. Ele foi até a escrivaninha e colocou a bandeja ao lado do meu Idiary e depois se virou para mim.
– Eu quero que você coma e se arrume o mais depressa possível – ele disse em um tom parecido com os dos médicos quando querem encobrir uma doença realmente perigosa.
– Por quê? – perguntei. Eu não estava com vontade nenhuma de fazer qualquer coisa às pressas depois dessa noite cansativa.
– Porque tenho quase certeza que nossa base vai sofrer um ataque a qualquer instante e quero que você esteja segura e não se meta.
Aquilo era um bocado de informação para alguém que acabara de acordar. Como assim a base ia ser atacada? Que eu saiba, estávamos seguros o suficiente e meu pai nunca descobriria o local exato, ainda mais por ficar na Berlim destruída. Mas Bill estava extremamente sério para ser brincadeira.
– Como eles podem saber? – eu perguntei ainda descrente.
– Lembra quando eu disse que não importava para onde você fosse, eles iam te encontrar? Descobri que eles só não te localizaram antes porque quando nós a sequestramos, você estava desacordada, meu choque-elétrico foi o suficiente para deixar o localizador que haviam colocado em você em pane. Além de que, uma base no subsolo dificultou também sua localização por satélite. Mas nada os impediu de localizarem você nessa madrugada.
– Oh, Gott! Eu não sabia disso! Não queria que tivesse acontecido dessa forma! – eu exclamei assustada – Se eu soubesse, não teria saído!
– Não, não foi sua culpa. Eu planejei isso. Temos armas e pessoas o suficiente para fazer um ataque surpresa.
– Espere um momento, você quer dizer que saímos ontem à noite porque planejava tudo isso? Que me localizassem para virem atrás de mim? – eu falei, finalmente sentindo as engrenagens em meu cérebro começarem a funcionar (o que é irônico para uma Humanoid). Bill assentiu – Você me usou, sem que eu soubesse! Fazendo todo aquele teatrinho de que eu deveria ir embora!
– Não totalmente – ele continuou com sua voz calma e séria, enquanto eu estava quase prestes a explodir – Realmente te dei a oportunidade de ir embora, mesmo sabendo que eles iriam te achar de qualquer maneira. Mesmo assim, o plano original era atraí-los para cá. Se você fosse embora, provavelmente depois que eles te pegassem, eles iriam atrás de nós porque o localizador indicaria o lugar de onde você veio.
– Você me usou – eu disse firmemente.
– É, eu te usei, mas você aceitaria participar do plano se soubesse? Você ainda está confusa e em dúvida com todas as informações que recebeu. Mine, eu quero ir para Hamburgo com você, mas preciso terminar isso aqui antes e quanto mais rápido, melhor. Você pensa que eu gosto dessa vida? Essa é a única maneira de manter Tom e vocês seguros. Já perdi muitas pessoas importantes e não quero perder vocês dois.
Minha raiva por ele ter me usado se esvaiu. Eu acreditava no que ele havia dito, com certeza Bill queria recomeçar uma vida que ficasse longe de conspirações e problemas. E eu quero a mesma coisa. Hamburgo, minha cidade natal, seria uma ótima possibilidade, ainda mais que a cidade ainda estava inteira. Ela é quase a prova de furacões e terremotos, com prédios e casas que aguentam as forças da natureza o máximo que podiam. A maioria das cidades é assim, mas algumas insistem em continuar com suas construções antigas, como aconteceu com Berlim.
– Acho melhor você se arrumar – Bill falou, vendo que eu estava quieta – E você precisa se alimentar ainda.
Fiz que sim e fui em direção ao banheiro. Tomei banho e comecei a me arrumar o mais rápido possível que uma ressaca e sono permitiriam. Eu estava com medo do que poderia acontecer enquanto eu estivesse escondida. Será que muitas pessoas morreriam? Pessoas que eu gosto muito como Bill, Tom, Georg, Gustav e Natalie? Será que meu pai morreria? Ou ele estaria no conforto da World Behind My Wall Corporation? Eu tinha tantas dúvidas e meu futuro mudaria a partir de hoje dependendo do lado que acabasse ganhando.
Saí do banheiro com minha cabeça pulsando de dor e encontrei Bill ainda no meu quarto com sua atenção se fixada no meu Idiary ao seu lado, na escrivaninha. Meu coração saltou desesperado, a página que estava aberta era a última coisa que eu havia escrito. Claro que eu tinha senhas e mil proteções contra invasões, mas quando se deixa a página aberta, nada impede da pessoa ler o que está escrito. Bastava ele passar o dedo na tela touch e ele ligaria automaticamente.
– O que aconteceu com Petrova? – foi a primeira pergunta que veio a minha mente para impedir que ele fizesse aquilo – Você não me contou como... ela morreu.
Arrependi-me de ter feito a pergunta, porque ele me olhou surpreso e de forma amargurada. Pelo menos, o meu plano inicial funcionou, Bill perdeu todo o interesse pelo meu Idiary e se eu fosse esperta o suficiente, conseguiria tirá-lo dali sem que ele percebesse.
– Desculpa pela pergunta – eu falei, aproximando-me cuidadosamente da escrivaninha – É que eu estava curiosa quanto a isso, mas se não quiser contar, tudo bem.
– O último dia que a vi, estávamos mudando de base – ele respondeu, um tanto hesitante – Estávamos sobrevoando um local que segundo nossos superiores estava totalmente livre de rebeldes. Havia armas e suprimentos que levaríamos para a nova base e uma das nossas sacolas acabou caindo do nosso carro e eu decidi recuperá-la. A sacola estava a alguns metros de onde nós estávamos e eu nem vi de onde veio o ataque, a única coisa que escutei foi a explosão e meu corpo voando pelos ares. Segundo as pessoas que ma salvaram, apesar de grande parte do meu corpo estar queimado e de eu ter perdido minha perna e meu braço esquerdo, eu ainda estava vivo.
– Foi por isso que você virou um Humanoid? – eu perguntei finalmente entendendo – Você sofreu um acidente igual a mim!
– Sim, o que minha mãe lutou para que não acontecesse, aconteceu. Ela me mandou para a guerra, querendo que Tom e eu ficássemos escondidos e trabalhando na parte segura, apenas como operários ou ajudantes. Dessa vez, ela teve que aceitar o destino, eu não a culpo por ter me transformado no que sou hoje, minha mãe se sentia culpada o suficiente para deixar-me morrer daquela maneira, por isso aceitou a ajuda da World Behind My Wall Corporation. Ela preferia que eu fosse usado nos experimentos porque realmente preciso do que como uma cobaia.
– E porque mataram sua mãe? – eu perguntei realmente interessada, mas prestando atenção também no meu Idiary que cada vez estava mais próximo.
– Meu corpo recusou as partes robóticas, mas com a medicação certa, eles perceberam que eu podia conviver muito bem com esse problema. Só que eles queriam Tom também, eles queriam que meu irmão também se tornasse um Humanoid como eu, mas sem realmente precisar. Imagine dois robôs de guerra que conseguem se comunicar por telepatia, sem precisar de nenhum dispositivo? Eles queriam irmãos gêmeos Humanoids. E minha mãe era contra, por isso me sequestrou do hospital e pediu ajuda aos únicos que poderiam nos manter protegidos: os Dogs Unleashed. Como “pagamento”, ela deu informações para eles e quando a World Behind My Wall Corporation descobriu a traição, mataram-na.
– E você teve notícias da Petrova? O que aconteceu com ela?
– Sim, eu acordei um mês depois do meu acidente e em uma semana já estava na base dos Dogs Unleashed junto com Tom. Procurei informações sobre Petrova e achei o nome dela em uma lista de mortos do dia 12 de Maio de 2108. O corpo dela foi levado de volta para Rússia e já tinha sido sepultado. Parecia que tudo foi um sonho que termina de forma súbita quando você acorda. Em um momento eu estava do lado de Petrova e ainda me correspondia com minha mãe, no outro, eu acordava em uma cama de hospital na forma de Humanoid, com Petrova morta e com minha mãe indo na mesma direção. Nessa guerra que é pior que a outra, eu perdi o amor da minha vida, minha mãe, meu lar e meu corpo. Confesso que muitas vezes pensei em me suicidar, mas se eu fizesse isso, Tom também faria o mesmo. Decidi viver por ele.
Eu não sabia o que falar, na verdade, não havia nada o que fazer. Consolar seria idiota, aquelas mesmas frases – “Vai ficar tudo bem” ou “Não se preocupe” – não valiam nada quando eu não sabia a dor que ele sentia. Por isso foquei minha atenção no meu Idiary, dava para eu pegá-lo e tirá-lo da página sem que Bill desconfiasse...
– O que você está fazendo? – Bill perguntou, acordando daquele transe que ele se encontrava. Seus olhos fitaram o Idiary que se encontrava a milímetros dos meus dedos e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Bill o pegou – Está tentando evitar que leia o que está escrito, não é?
– Não! – eu falei tentando encobrir meu medo por relaxamento fingido – Eu só queria verificar que horas eram. Agora pode me devolver?
– Está mentindo – ele riu e encostou seu dedo na tela do Idiary, fazendo-o ligar instantaneamente – Você estava escrevendo! Deixe-me ver... Fiquei um tempo ali, olhando para os lados, que mostravam a resposta para minhas dúvidas como se fossem letreiros de néon...
Não sei se foi o desespero, só sei que meu corpo pulou com tudo em cima dele tentando retirar o Idiary de suas mãos antes que ele lesse o último parágrafo até o final. Bill não podia saber que eu estava apaixonada por ele, ainda mais depois de contar toda essa história triste que mostra o quanto ele valoriza seu passado. Bill ainda amava o fantasma de Petrova e eu não podia competir com uma morta quando ela parecia estar mais viva que eu.
– Devolve! – eu exclamei quando Bill e eu caímos com tudo no chão. Eu estava segurando o Idiary, mas tinha medo de puxar e destruí-lo já que não estava conseguindo controlar minha força naquela situação.
– Gott, não precisava destruir tudo! O que tinha aqui de tão constrangedor que eu não poderia ler?
– Devolve meu Idiary, agora! Não quero você lendo minhas privacidades.
– Você leu o meu, por que não posso ler o seu?
– Seu Idiary é de um ano atrás, o meu são de coisas que acontecem atualmente. Não quero que você saiba nada sobre o que eu penso e sinto! – eu disse, tentando arrancar o Idiary dele, mas Bill o afastou mais de mim.
– Por quê? – ele insistiu. Gott! O que eu vou falar? Preciso de um plano urgente!
– Porque... porque se você ler, vai descobrir que sou louca por você, que estou extremamente apaixonada e que cada partícula do meu corpo deseja você.
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