Humanoid Chronicles
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Aproxime-se de mim
Aproxime-se de mim
Quando o mundo
Corta a sua alma em pedaços
E começar a sangrar
Quando não conseguir respirar
(Zoom into me – Tokio Hotel)
29 de Agosto de 2109
Na cozinha. Tortas são divinas!
08h34min AM
– Apesar de a guerra ter sido horrível, eu conheci pessoas incríveis no exército, e uma delas era Eikens Westerholt – Bill disse, enquanto colocava a calda em cima de outra torta – Ele devia ter quase uns quarenta anos e foi arrancado de sua família para participar da guerra e só não foi para o campo de batalha porque tinha um dom: cozinhar. Ninguém sequer falava enquanto comia o que ele fazia, era como se fosse o momento mais sagrado do dia, a única hora que nos esquecíamos que estávamos em guerra.
E pelo visto, Bill aprendera bastante com ele, afinal estava acontecendo a mesma coisa comigo, ou talvez, eu nunca tenha comido algo realmente bom durante minha vida toda.
– Uma vez, eu acabei criando briga com outro cara e fui obrigado a ajudar Eikens na cozinha por um mês. Pensei que teria que descascar batatas ou limpar peixes, mas simplesmente fui obrigado a aprender cozinhar do jeito dele. Antes da guerra, ele tinha um restaurante famoso em Desdren, mas o perdeu durante um furacão, mesmo assim nunca parou de cozinhar. Eu nunca havia tentando cozinhar em toda a minha vida e de repente, lá estava eu seguindo as ordens dele e aprendendo a fazer os mesmos pratos que ele fazia.
– Você se deu bem – eu disse, terminando de comer o meu pedaço e olhando para a torta que estava na mão de Bill. Mine, pare de ser gulosa, um basta – Se fosse eu, nunca daria certo. Cozinha e eu não nos damos bem.
– Eu pensava a mesma coisa, mas sempre que eu passava o dia todo treinando e atirando, a única forma de descarregar todos os momentos ruins era, pelo incrível que pareça, cozinhando. Logo eu peguei o jeito e não precisava mais da ajuda de Eikens, conseguia fazer tudo por conta própria – Bill colocou a travessa de torta em cima da mesa e sua expressão ficou sombria e pensativa de repente. Ele voltou a si e percebeu que eu estava olhando para as tortas com certo interesse – Pode pegar mais.
– Você cozinha para todos daqui? – eu perguntei, pegando mais um pedaço da torta. Tudo bem, deixe-me engordar.
– Não, eu só cozinho por diversão, são eles que cozinham de verdade – Bill apontou para a porta que dava para a grande cozinha – Eles vão fazer torta alemã hoje, decidi dar uma mãozinha também.
– E o que aconteceu com Eikens? – eu perguntei, querendo retomar a história e não voltasse aquele silêncio constrangedor.
– Ele morreu – quando ele disse aquilo, me engasguei com a torta automaticamente – Quando o tempo que fiquei de castigo acabou, fiquei revoltado, mas meus superiores não queriam perder um ótimo atirador e ganhar um novo cozinheiro. No meu último dia, Eikens me entregou seu livro de receitas, eu senti como se aquilo fosse um adeus. Fui enviado para uma nova base e no mesmo dia, um grupo de rebeldes explodiu a base antiga e todos morreram. Fui o único que sobrevivi, por causa do meu dom: matar.
Fiquei olhando abismada com a naturalidade que ele dizia aquilo. Claro que sua expressão não era de felicidade, lá estava ele sombrio e pensativo de novo, mas depois retomando a torta e sua calda. Foi aí que percebi que realmente cozinhar era uma maneira dele esquecer tudo que aconteceu e acontece em sua vida. Eu já fiz isso também, mas não tinha nada a ver com cozinhar.
Depois que minha mãe morreu ao contrair uma dessas milhares de doenças sem cura que surgem a cada dia, eu meio que desandei. Lá estava uma garota de quatorze anos tentando preencher a falta que sentia de sua mãe e de seu pai, que trabalhava demais, com festas, bebidas e drogas. Comparando com o que Bill fazia, o hobby dele era bem mais saudável que o meu. Bastou um acidente quase fatal para que tudo mudasse.
Percebi que talvez não fora só eu que sofrera algum acidente, olhando para os braços e ombros de Bill, podia-se ver dezenas de cicatrizes, que com a luz, ficavam mais evidentes. Com certeza se tratava de ferimentos de guerra, algo que eu não entendia as proporções já que meus ferimentos foram causados por mim mesma.
– Sinto muito – eu disse tristemente.
– Pelo o que? – ele perguntou, parando de mexer a cauda das tortas e olhando para mim sem entender.
– Por Eikens, pelos momentos ruins que você passou na guerra. Eu não sei o que é isso, não faço ideia de como é passar por tudo que passou, mas sei que você não pode continuar dessa maneira. Você tem que parar de ter raiva das pessoas, achar que elas são culpadas pelo seu sofrimento...
– E muitas delas são – ele retorquiu com sua voz endurecendo – Você realmente não faz ideia do que aconteceu comigo. Se fosse só a guerra, eu poderia superar, há muito mais em jogo e não vou parar até finalizá-lo.
– E vai ser machucar mais ainda, sem falar nas pessoas ao seu redor. Você está vivo, longe da guerra, mas está aqui, torturando pessoas e pretendendo acabar com uma empresa e eu não sei nem ao menos o porquê! – eu falei, mas pensando que estava falando ao vento, afinal ele estava procurando nos armários um monte de coisas.
– Você não precisa saber o porquê de nada – ele disse ficando bravo e colocando todos os utensílios e ingredientes em cima da mesa de metal.
– Preciso sim – eu disse também ficando mal humorada, tudo estava indo muito bem e agora já estávamos prestes a nos atracar até a morte – Por que me sequestrou? O que estou fazendo aqui? Por que precisam de mim?
– A resposta é tão simples – ele suspirou e falou naquele tom como se eu fosse a pessoa mais tola do mundo – Você é a Humanoid 483, simplesmente a arma mais perigosa criada até agora. Enquanto sua humanidade estiver aparecendo, você é dócil como Tom disse, mas se perdê-la, irá descobrir que matar é seu segundo nome. Igual a mim.
– Está mentindo! Só porque sou metade máquina não quer dizer que sou perigosa. Ainda sou humana apesar de tudo. Você tem uma ideia errada sobre os Humanoids só porque acabou assistindo alguns filmes babacas.
Ele se encaminhou até a mim e pensei que ia me dar um choque-elétrico ou qualquer coisa do tipo, mas Bill apenas pegou meu braço direito e o forçou até que um cano surgisse em meu pulso. Engoli seco. Como ele sabia disso? Será que ele ouvira minha conversa com Starkey? Ou Gustav sabia exatamente o que havia em meu braço quando sua máquina fez um mapeamento de mim?
– Não é perigosa, não é? – ele falou, analisando a arma em meu pulso – E ainda queria aprender a atirar para auto-proteção? Sempre há algo por trás das suas ações, pode enganar Tom, Gustav, Georg, Natalie, qualquer um, mas a mim, você não engana.
Tentei tirar meu braço do aperto dele, mas eu tinha medo de que algum movimento brusco pudesse dispará-la. Bill virou meu pulso para que o cano voltasse para dentro e apertou fortemente em volta para que eu não tentasse nenhum movimento ousado. Eu não sabia o que esperar, só fiquei encarando seus olhos castanhos duramente, não abaixei minha cabeça em nenhum momento.
– Solte o meu braço! – eu exclamei, tentando puxá-lo, não dando mais a mínima se aquilo fosse disparar ou não. Mas ele não soltou, me puxou para perto dele, me prendendo contra o seu corpo – Como descobriu sobre isso? Até quanto ouviu da minha conversa com Starkey?
– Infelizmente não cheguei a tempo de ouvir algo que valesse a pena – ele me encarava de forma divertida, como se fosse uma aranha que ficasse feliz ao ver o sofrimento de uma mosca presa na sua própria teia – Sabe o dia que você se arrependeu de ter me socado e me ajudou com o gelo? Foi naquele dia que descobri que havia algo a mais no seu braço. Como eu descobri? Deixarei para a sua imaginação.
Como? Eu me lembro muito bem daquele dia, ele havia encostado a boca em meu pulso. Não vai me dizer que ele possui uma alta sensibilidade nos lábios, porque isso é a coisa mais ridícula da face da Terra. Ele está tentando me deixar confusa, mostrando coincidências absurdas para que eu não descubra que aquele computador do Gustav tem todas as respostas. Bill quer apenas me enganar, ele gosta de brincar com as presas antes de acabar com elas.
Forcei novamente, tentando fazer com que ele me soltasse e finalmente me visse livre do contato, mas eu não sabia que ele ia soltar de propósito. Caí de volta no banquinho e tive que me segurar na mesa para não tombar para trás, enquanto ele ria baixinho de mim.
– Você não acabou de comer seu pedaço de torta – ele disse zombeteiro para mim.
– Na verdade, você vai fazer isso por mim – peguei o pedaço de torta com a mão, não importando o quão delicioso estava, esfreguei com tudo no rosto dele, com toda a força que eu tinha para que aquele alimento dos deuses fosse para todos os cantos e que ele levasse séculos para tirar a calda de chocolate – Seu imbecil, coma o pão que o diabo amassou!
Antes que ele conseguisse tirar a massa dos seus olhos, saí de lá e atravessei a cozinha grande. Ninguém deu a mínima dessa vez, quando eu corri o mais rápido que eu podia para longe dali, com meu coração aos pulos. Eu não estava com medo do que ele podia fazer comigo, descobrira hoje o quão fraco ele era por dentro que simplesmente perdera o medo. Mas outro medo surgira no local daquele, no instante que ele tocara em mim.
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