Dentro da sua pele

Infinitivamente longe

Submerso em ti

O teu coração bate fortemente

(Komm – Tokio Hotel)

29 de Agosto de 2109

Em meu quarto

07h06min AM

O céu nunca foi vermelho, mas ele estava agora e não era por causa do pôr-do-sol. Havia sangue escorrendo pela minha testa e caindo em meus olhos, um deles ardia demais para conseguir enxergar algo e o outro estava empapuçado de sangue. Eu não conseguia sentir meu corpo e para todos os lugares que eu olhava, só havia metal retorcido e um cheiro forte de algo queimando. E eu não sentia dor alguma.

Percebi que havia luzes e vultos se movimentando, falando e olhando para mim. As ferragens ao meu lado começaram a se mover e um vulto apareceu, me olhando atentamente enquanto eu tentava descobrir quem era.

– Ela está viva! – o vulto exclamou se virando para mim – Sente alguma dor?

Eu fiz que não, não conseguia abrir a boca para dizer algo. Então, como magia, o vulto foi tomando forma e se transformou em um rosto bastante conhecido.

– Vou tirá-la daí – Bill disse, tirando seu choque-elétrico do bolso – Juro que não vai doer.

No instante que ele aproximou o choque-elétrico de mim, eu me contorci de dor e caí da cama, atingindo o chão duro feito pedra. Era apenas um sonho, mas me deixou completamente assustada. Confesso que era comum eu ter sonhos sobre meu acidente, só que era a primeira vez que Bill aparecia em um deles, sendo que quem me salvou, na realidade, foi um policial, pelo menos, eu acho. A realidade estava misturando fatos demais em minha cabeça.

Levantei-me do chão e voltei para a cama, mas não consigo dormir, por isso estou aqui em plenas sete horas da manhã escrevendo em meu Idiary. A verdade é que o que aconteceu comigo ontem me deixou bastante confusa com toda aquela aproximação de Bill, já que meu lema é “Quanto mais longe, melhor!”. Sem falar que ele é meu inimigo principal e o causador da maioria dos meus problemas.

Tudo bem, eu não devia ter saído daquele jeito, afinal, não era para se socializar? Eu tinha conseguido, ele me deu uma arma sem hesitar, sem medo de que eu atirasse nele, me ensinou como usá-la e eu simplesmente caí fora. Talvez os meus sonhos estivessem certos, não posso confiar nele, tenho que ficar alerta, já que ele é o maníaco de sempre. Preciso fingir que há confiança em nós, porque quando eu descobrir uma forma de sair daqui, vou fazê-lo.

29 de Agosto de 2109

Procurando a cozinha

07h41min AM

Eu saí do meu quarto e dei uma olhada nas redondezas e tudo estava extremamente quieto e vazio. Minha barriga roncava de forma ruidosa e eu precisava comer algo, mesmo que não fosse propriamente a hora do café-da-manhã. E talvez, quem sabe, eu poderia topar com uma saída e dar o fora daqui o mais rápido possível?

A verdade é que eu não fazia ideia de onde ficava a cozinha e o lugar era tão grande que eu poderia me perder e só ser achada um mês depois. Mesmo assim, decidi me aventurar pelos corredores, procurando referências de onde poderia ficar algum lugar que tenha comida, nem que fosse uma dispensa ou qualquer coisa do tipo. Ao meu ver, a cozinha devia ficar nos andares debaixo, naquela escada que ficava do lado direito do saguão e que eu nunca desci.

A base dos Dogs Unleashed era muito melhor de manhã, quando não havia ninguém a vista, já que a maioria acordava a partir das oito horas. Eu tinha que ser um pouco rápida, pois tinha poucos minutos para tudo isso aqui encher de pessoas que me olham de maneira que não gosto. Não que fosse o principal problema, mas eu podia achar uma saída.

Foi quando descia as escadas que notei uma placa, onde estava escrito:

Depósito à -8º andar

Cozinha à -7º andar

Celas à -6º andar

Quer dizer que a construção se estendia até o subterrâneo? Em que andar eu estava? Quanto eu deveria descer? Continuei a descer as escadas, tentando localizar alguma outra placa que me dissesse em que andar eu estava, mas como não achei nenhuma, atrevi-me pelo corredor, procurando a cozinha. Ali havia dezenas de portas de metal, que por acaso, eu já conhecia muito bem.

Eram as celas, eu devia estar no -6º andar, e as reconheci porque nos primeiros dias, passei a maior parte do tempo nelas. Um arrepio passou pela minha espinha, eu me lembrava como o local era frio e tão abandonado, que não duvidava nem um pouco de achar uma alma penada por ali. E foi com esses pensamentos que quase tive um treco ao ouvir sussurros baixos.

Pensei em gritar e sair correndo, mas isso seria um absurdo! Comecei a localizar de onde estava vindo aquela voz e logo percebi que era de uma das portas, tentei abri-la, mas com certeza ela estava trancada.

– Quem está aí? – gritou uma voz roufenha, com um alemão cheio de chiados – Vão vir me torturar novamente?

Meu coração começou a disparar. Era outro prisioneiro! No começo, pensei que podia se tratar do meu pai, mas a voz dele não era daquele jeito, por isso, devia ser outra pessoa qualquer. Abri a portinhola que ficava no alto da porta e dei uma olhada no que havia ali dentro. O homem que encontrei, estava em um estado detestável, com os cabelos desarrumados e grisalhos, barba por fazer, olhos azuis contendo enormes olheiras e roupas em farrapos. Percebi que seu rosto estava cheio de hematomas e ele fedia a urina e suor.

– Quem é você? – eu perguntei temerosa.

– Eu? – ele riu em escárnio, percebi que lhe faltavam dentes – Você não sabe quem sou eu? Sou o renomado cientista Starkey Kopatz.

Eu sabia quem ele era. Fiquei impressionada ao me lembrar dele sempre na companhia de meu pai, com o cabelo grisalho bem penteado, olhos azuis penetrantes e bem vestido em seu uniforme branco de costume. Ele era um dos principais cientistas criadores do Projeto Humanoid, enquanto meu pai criava os dispositivos robóticos, era Starkey Kopatz que fazia as cirurgias. Meu pai havia me dito que ele tinha viajado para os Estados Unidos, para dar palestras e logo o substituiu por outro cientista. Ou meu pai havia mentido, ou ele realmente não sabia que fim levou Starkey.

– Você deve saber quem eu sou! Sou filha de Hansen Langebahn, ele era seu parceiro nas pesquisas do Projeto Humanoid.

Seus olhos brilharam de repente, é como se alguma lucidez atingisse aquele buraco mental aonde ele tinha se enfiado. Ele olhou para mim abismado, como se eu fosse algum anjo ou qualquer coisa divina.

– Humanoid 483 – ele disse mais afirmando do que perguntando – A primeira Humanoid perfeita, que o corpo não recusou nenhum material robótico. Eu mesmo fiz a cirurgia em você, vi sua carne decepada se transformar na tecnologia mais perfeita já criada. Cada parte adicionada tem extrema importância e você acabaria com qualquer robô, contendo apenas 60% do corpo robótico.

– Descobri que tenho uma arma em meu pulso – eu disse extremamente feliz por tê-lo encontrado, ele poderia me explicar muita coisa – Tenho certeza de que posso fazer muito mais coisa do que realmente sei, mas não faço ideia de como descobrir.

– Está tudo em seu cérebro – ele falou, se aproximando da porta para me ver melhor, mas seu bafo horrível me atingiu, me fazendo ir para trás – A única coisa que máquina nenhuma pode substituir, é onde fica tudo que torna uma pessoa humana. Do mesmo jeito que uma pessoa descobre seu corpo, você precisa descobrir o seu. Há uma teia de possibilidades em suas mãos.

– A arma em meu braço – eu disse, mostrando o cano prateado que saía de meu braço – Qual a força disso? O que posso fazer?

– Você pode destruir qualquer coisa, dependendo da quantidade de vezes que você usa. O primeiro tiro é o maior forte de todos, os tiros seguidos vão ficando cada vez mais fracos até que a energia acabe. Ela volta depois de um tempo de descanso, mas temo que a parte robótica possa tentar sugar energia humana, como nunca foi testado, não tenho certeza – ele disse pensativo e depois acordando subitamente – Seus olhos! Já descobriu que pode dar zoom? Que pode usar visão de raios-X? Visão ultravioleta? Que tem uma lente tão potente quanto de um microscópico ou de um telescópio?

– Não – eu disse pasmada – Não sabia disso. Claro que eu enxergo muito bem com os olhos robóticos, mas não sabia que eles podiam fazer tudo. Meu pai nunca me deu algum manual ou qualquer explicação sobre minhas partes robóticas.

– Suas pernas aguentam uma queda de cinquenta metros sem causar danos, também podem correr uma velocidade de 200 km/h e possuí maior resistência a escaladas. Você também pode flutuar a um metro do chão e também sobre a água, mais do que isso é impossível para qualquer carro ou moto já inventada – então ele suspirou – Simplesmente a máquina perfeita, pena que eu só pude cuidar das partes inúteis do seu corpo, queria poder ter feito pelo menos 80% do seu corpo robótico.

– Isso não é contra a ética médica? O certo era apenas substituir as partes do meu corpo que estavam lesionadas.

– E perder a chance de que seu organismo não rejeitou nada? Claro que tivemos que substituir apenas o necessário e ter certeza de que sobreviveria. Se eu não tivesse parado nesse buraco nojento, teria feito você a melhor máquina de todas, seria o modelo perfeito de Humanoid e duraria por anos.

– Há mais uma coisa – eu disse, me lembrando rapidamente – Os Dogs Unleashed descobriram um dispositivo em meu cérebro, mas nenhum deles me contou ou simplesmente não sabem o que é. Como fez minha cirurgia, você sabe do que se trata?

Seus olhos brilharam novamente, mas ele não disse nada, apenas riu igual a um louco de manicômio. Não me sentia nada bem na presença dele, não igual à antes, quando ele tinha o mínimo de sanidade e parecia o homem mais certo que eu já vira. O que diabos os Dogs Unleashed fizeram com ele? Será que Bill foi um pouco mais misericordioso comigo, mas com Starkey Kopatz não?