Eu te vejo chorar

E ninguém limpa as lágrimas

Eu te ouço gritar

Porque o silêncio está te sufocando

Eu sinto seu coração

É solitário como você

(Für Immer Jetzt – Tokio Hotel)

27 de Agosto de 2109

No meu novo quarto

14h12min PM

Consegui um novo quarto, não preciso mais ficar na enfermaria já que Natalie falou que está tudo bem comigo. Graças aos céus que não se compara em nada com a prisão que eu fiquei no começo, é muito mais aconchegante e ainda posso andar livremente por aí. Na minha cama tem uns três cobertores – enquanto no outro havia apenas um –, tenho uma poltrona, uma mesinha e também um banheiro interno com chuveiro de água quente.

Eu realmente estou pensando em dar uma olhada por aí e tentar achar uma saída, afinal vou precisar de uma quando decidir dar o fora. Outra coisa que preciso descobrir é minha atual localização, já que sair daqui é uma coisa, outra coisa é conseguir chegar em casa e contar tudo ao meu pai.

Só consegui sentir uma fagulha de esperança quando fui requisitada para ir à sala de Gustav novamente. Ele havia arrumado todo o estrago que eu havia causado da última vez, espero que não esteja tão bravo comigo, pois precisarei da sua ajuda, mesmo que ele não saiba. Coloquei minha mochila nas costas e olhei para um Bill sem paciência, me esperando na porta.

– Para quê a mochila? – ele perguntou, lançando um olhar desconfiado para mim.

– Não interessa – eu respondi da forma mais grosseira possível – Vou bater um papinho com Gustav.

– Não sei o que você está planejando – ele falou, segurando o meu braço fortemente – Mas não vai dar certo. Ótimo que está se comportando e eu tentei mudar sua cabeça para ela começar a raciocinar, mas, pelo visto, você continua tão idiota como sempre.

– Aprendi com você, meu chapa. Quando a convivência é muita, acontece esse tipo de coisa – eu retruquei, puxando meu braço do aperto dele e saindo do meu quarto com meu humor já estragado.

Bill iria me escoltar como sempre, percebi que seu choque-elétrico estava em seu bolso, pronto para ser usado caso eu causasse algum problema. E eu não ia causar. A verdade é que eu precisava que tudo estivesse ao meu favor, então teria que me comportar e convencer a todos que posso ser de confiança. Sério, as pessoas não me olhavam mais como se eu fosse uma ameaça.

Caminhei do lado dele como se fosse a pessoa mais comportada do universo, mas percebi que ele não acreditaria nunca em mim. Foi nesse instante que eu notei que estava fazendo tudo errado, eu estava sendo má com ele, quando devia estar conquistando sua confiança. De todas as pessoas, Bill era o único que podia acabar comigo em segundos e ele faria isso.

– Sabe, você cozinha muito bem – eu disse, decidindo começar meu teatrinho, só que a parte da comida era verdade. Ele não disse nada, apenas me ignorou – Sério, não estou brincando. Onde você aprendeu?

– Não interessa – ele falou, usando o mesmo tom de voz meu quando falei isso e dando um sorriso sarcástico.

Filho da puta. Odeio esse cara mais que tudo. Calma, Mine, você precisa se acalmar e levar o plano adiante. É sua única chance de conseguir informações, enganar esse idiota da pior forma possível e ajudar o seu pai.

– Eu sei que começamos tudo da forma errada – eu disse voltando para aquele diálogo clichê de relacionamentos insatisfatórios – Mas não precisamos ser tão rudes como sempre somos.

– Ótimo, podemos começar tudo de novo. Eu te escolto e você cala a boca, não vejo nada de errado nisso – ele disse com seu sarcasmo corrosivo esguichando para todos os lados e quase me deixando cega.

– Por que diabos você é assim? Um idiota da pior espécie? Não sabe tratar as pessoas bem?

– Wilhelmine – ele suspirou, me tratando como uma criança de cinco anos que não sabe por que os pássaros voam – Meu papel não é se socializar com você.

Tudo bem, desisto. Invento outra coisa para dar um jeito nele, mas não dá para conversar com uma pessoa dessas. Ele deve ter algum poder especial que faz todos a sua volta se afastarem e os outros só o tratam bem por que ele é tenente, grande coisa. O plano B é descobrir um ponto fraco dele, realmente preciso achar algum jeito de acabar com todo aquele ego, sem precisar de violência.

Finalmente chegamos a sala de Gustav, aguentei todo aquele silêncio mórbido entre nós sem xingá-lo mais. Talvez o plano B seja ignorá-lo totalmente, é uma ótima. Gustav estava de pé, olhando para uma tela gigante enquanto andava e seus braços se mexiam. Percebi que estava jogando Chronos Stardate, porque estava usando aquelas botas e luvas especiais que ficam conectadas ao jogo. Foi então que surgiu uma ideia.

– Tudo bem, Bill, pode ir. Não precisamos mais de você por aqui – eu disse indo em direção a cama flutuante que me prenderam da última vez e me deitando nela – Você não precisa de algemas e eu me comporto.

– O que aconteceu com ela? – Gustav exclamou, olhando estranho para mim – Por que ela não está quebrando tudo como antes?

– Não quebrarei tudo se Bill for embora, ele é o problema – eu retorqui, colocando meus braços atrás da minha cabeça e fingindo uma posição relaxada – Toda vez que ele está presente, eu enlouqueço.

– Não vou sair – Bill disse de forma ríspida – Gustav não teria força suficiente para lidar com você.

– Que eu saiba, não matei Natalie, Georg nem nenhuma das milhares de pessoas que estão por aí. Agora, quando se trata da sua pessoa, minha vontade muda completamente. Gustav, prometo me comportar e se você quiser, jogo Chronos Stardate e te ajudo a subir de nível, mas Bill tem que ir embora.

Vi os olhos de Gustav brilharem com aquela oportunidade. Claro que ele ficou pensativo por um momento, me analisando, talvez com medo de que isso tudo fosse uma emboscada e na verdade vou matá-lo.

– Pode ir, Bill – Gustav disse, finalmente chegando a conclusão de que eu era inofensiva – Acho que está tudo bem, ela não parece mais ameaçadora.

Bill lançou um olhar bravo para Gustav e depois para mim, mas não retrucou, apenas saiu da sala e fechou a porta com tudo. Eu ainda acho que ele deve estar atrás da porta, esperando o momento que vou fazer algo imprudente só para ele me torturar como sempre faz. Claro que não vou dar esse gostinho a ele.

Gustav veio até mim, um pouco hesitante e me mandou deitar de forma que meus braços não tocassem meu tronco e que minhas pernas ficassem separadas. As máquinas em cima de mim começaram a se mover novamente, raios lasers passando por todo o meu corpo enquanto as telas holográficas se enchiam de informações. Tenho que dizer que também estou curiosa para saber um pouco mais sobre meu corpo, acho que meu pai não me disse tudo que sou capaz de fazer.

– Então, o que acha? – eu perguntei a Gustav, que olhava as telas com profundo interesse.

– Seus dispositivos são realmente modernos, nunca tinha visto algo como isso antes.

– Modernos como? – continuei instigando ele a falar.

– Sabia que você pode pular de grandes alturas sem causar nenhum dano? Suas pernas possuem amortecedores – ele respondeu, me olhando como se eu fosse algo incrível. Bem, isso explica como consegui pular do segundo andar quando tentei quebrar o crânio de Bill – E suas costelas estão preparadas para proteger o coração de qualquer tipo de coisa, é quase impossível um tiro matá-la. E... e... há algo no seu braço também...

– O que?

– Não tenho certeza – ele se virou para mim e pegou meu braço direito, o robótico, e começou a dar uma olhada nele – Não dá para vê-lo desse jeito...

– Se você me abrir, juro que te quebro – eu disse, tirando meu braço das mãos dele – Se quiser descobrir algo, que descubra através dos seus aparelinhos. Nada de experiências malignas que envolvam cortes.

– Tudo bem, tudo bem – ele disse se afastando de mim e voltando a olhar para as telas – Há algo no seu cérebro também, um dispositivo. Não sei para o que serve, mas dá para ver, olha...

Olhei para a tela e vi uma foto perfeita do meu cérebro, e havia realmente um dispositivo prateado ali. Não parecia nada perigoso, na verdade devia ser apenas algo que ligava meus neurônios a minhas partes robóticas para que funcionassem perfeitamente, algum tipo de microssensores. Mas para Gustav, aquilo devia ser a coisa mais curiosa em mim, porque ele ficou um bom tempo analisando a tela. De repente, ele se virou e pegou alguns dispositivos que estavam por perto, sendo dois deles pinças gigantes que conectou a um negócio redondo que ficava acima da minha cabeça.

– Eu vou colocar essas pinças em sua cabeça – Gustav disse, já as colocando sem realmente pedir minha permissão. Na ponta das pinças havia uma espécie de borracha que se fixou em minha testa e a outra parte, na minha nuca – Quero descobrir o que está no seu cérebro. Você poderá sentir alguns pequenos choques, nada realmente que irá te machucar.

Apenas assenti, mesmo não gostando nada daquela sensação. Eu me sentia um alienígena sendo examinado, como se a qualquer momento Gustav fosse me abrir para ver como eu era por dentro. Tenho certeza que ele realmente queria fazer isso, mas sabia que eu não deixaria nunca.

Comecei a sentir os tais choquinhos que Gustav havia falado, não incomodavam nem um pouco comparado aos choques-elétricos de Bill. Olhei para a tela holográfica e podia ver os raios atravessando meu cérebro, tentando atingir o dispositivo para se conectar a ele. Eu estava realmente calma, esperando que alguma informação surgisse na tela, quando raio atingiu o dispositivo.

A dor que eu senti naquele momento, não se comparava em nada com os choques elétricos que já senti antes. Meu cérebro parecia que ia explodir a qualquer instante enquanto eu me contorcia de dor e tentava desesperadamente tirar aquelas pinças malditas da minha cabeça. Bill entrou na sala de Gustav empurrando a porta com tudo – é, ele realmente estava me esperando do outro lado – e ficou com cara de surpresa quando viu que quem estava sofrendo era eu.

Bill arrancou aquele negócio da minha cabeça com a maior facilidade, o que me fez levar minhas mãos até ela, para que parasse de latejar. Não conseguia nem controlar as lágrimas que saíam do meu rosto, por mais que a dor tivesse acabado, havia algo realmente ferido dentro de mim.

– Desculpe-me! – Gustav exclamava, colocando suas mãos em meu ombro, tentando me acudir – Eu não sabia que isso ia acontecer! Por favor, desculpe-me.

– Espere... – Bill disse, franzindo o cenho quando eu abri os meus olhos banhados em lágrimas e olhei para os dois – Seus olhos estão vermelhos... literalmente.