Humanidade
3 O Espreguiçar
Então, como o lento abrir de olhos de alguém que se acostuma com a claridade, eu percebi o que estava acontecendo comigo e as coisas mudaram drasticamente.
Eu passei dois dias trancado em meus aposentos me recusando até mesmo a responder ao chamado dela após fazer aquela descoberta, tentando descobrir o que fazer.
A verdade é que isso resultou no conhecimento do quanto Belle é perigosa. Não é mais questão das pessoas a usarem para me atingir: um movimento errado, uma atitude impensada, e todos os meus planos e as minhas chances de me reencontrar com Baelfire acabarão.
Estou a apenas poucos anos de finalmente viajar para o Mundo Sem Magia, quando todos os meus inimigos estão atentos a mim, esperando um momento de fraqueza para me subjugar: esse é o momento em que meu verdadeiro amor resolveu aparecer. No entanto, isso não aumentou apenas o meu medo, mas também a minha vontade de tê-la comigo, afinal, amor verdadeiro era algo que eu nunca imaginara sentir por ninguém.
Por fim, fui forçado a sair dos meus aposentos sem uma solução, pois meu corpo ainda tinha algo de humano e necessitava de comida. Não há nenhuma evidência de que Belle sinta o mesmo por mim, pensei comigo mesmo, de fato, é impossível que uma moça tão jovem e bela ame um monstro com as mãos manchadas de sangue.
Belle ficou muito feliz ao ver-me exigindo que servisse algo para eu comer imediatamente. Ela segurou meu rosto com as duas mãos e me olhou diretamente nos olhos:
- Fico feliz que esteja bem, Rumpelstiltskin.
Eu me demorei alguns segundos olhando para aqueles olhos azuis dela. É ela, é ela, meu coração berrava – e eu finalmente entendia. Afastei-me, um pouco atordoado, esperei minha voz ficar firme e novamente exigi que me servisse algo para comer. Ela me olhou por algum tempo e sorriu, dizendo que arrumaria algo imediatamente.
Ficou claro que Belle reparou que havia algo me incomodando – e não apenas porque eu havia passado dois dias trancado me recusando a falar com ela, mas também porque eu não consigo mais esconder os meus sentimentos –, as longas conversas continuam, mas ela parece cada vez mais atenta às minhas respostas e minhas reações – que são muitas, pois o meu lado humano se rebelara por fim.
Hoje, pela manhã, ela estava especialmente alegre e com vontade de conversar. Tentou se aproximar de mim várias vezes, mas eu me afastei em todas elas – adquiri o hábito de não permitir o contato físico entre nós dois, em uma vã esperança que isso ajudasse a diminuir os meus sentimentos.
Ela me fez muitas perguntas pessoais, queria saber por que eu a levara para morar com ele – essa pergunta ela já havia feito – e mais a respeito da minha história, sobre o meu filho – essa era novidade.
- Você não é um monstro!
Ela disse isso com tanta convicção que quase acreditei, mas Belle não me achar um monstro, embora me alegrasse, não mudava o fato de que havia usado e matado muitas pessoas para chegar ao Mundo Sem Magia e me encontrar com Baelfire. Tudo em vão se eu não conseguisse expulsá-la da minha vida.
Mas eu não estava pensando nisso naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era em como ela era capaz de se tornar mais sedutora a cada dia. Ela não me tocou naquele momento, mas seus olhares eram muito mais íntimos do que os breves toques dela, embora ambos fossem igualmente prazerosos de se observar e sentir.
Então, ouvimos o som de uma pessoa batendo na porta do castelo e, com um misto de alívio e decepção, eu fui atender. Era Gaston, antigo noivo de Belle. Ansioso para voltar para ela e continuar aquela maravilhosa conversa, eu sequer esperei que ele terminasse de falar: transformei-o em rosa.
Belle agradeceu e me deu um de seus maiores sorrisos quando lhe dei aquele presente, o que era um pouco engraçado. Enquanto arrumava um lugar para colocar sua rosa, Belle me contou que resolvera vir para o meu castelo porque fora a primeira oportunidade que tivera de ser uma heroína, coisa com a qual sempre sonhara.
Depois, quando ela se sentou na mesa, diante de mim, eu perguntei a respeito de Gaston – me repreendi seguidamente algumas vezes antes que ela respondesse, mas o dano estava feito e não havia como repará-lo – e Belle me disse que nunca o amara:
- Sabe, para mim, o amor tem camadas. O amor é um mistério a ser desvendado.
Ouvir Belle falar de amor enquanto olhava nos meus olhos causou em mim um sentimento estranho, simultaneamente bom e ruim: como se o meu coração tivesse parado de bater e todo o ar existente no planeta desaparecido misteriosamente. Depois, quando ela disse que nunca dera seu coração ao noivo, tudo voltou com uma força brutal: meu coração voltou a bater, dando vivas de felicidade: ela não o ama, poderá me amar?
Observei o olhar cruzar com o meu, tornando-se espantosamente sonhador, e algo em mim despertou, algo que beirava o reconhecimento: eu já vi esse olhar antes em algum lugar. Depois de poucos segundos, ela pareceu voltar à realidade e me perguntou novamente a respeito do meu filho. Aquilo me fez recordar de todas as razões pelas quais Belle deveria sair da minha vida e percebi que aquele era o momento mais propício: quando ela me fazia recordar. Eu não conseguiria mandá-la embora literalmente, ofereci-lhe então uma chance de fugir: pedi a ela que me trouxesse um pouco de palha da cidade próxima.
- Você confia que eu voltarei? – Ela perguntou com uma voz confusa.
- Não, eu espero nunca mais te ver de novo.
Naquele momento, eu estava tomado por tantas emoções que não sei ao certo se menti ou falei a verdade. Parte de mim, a parte racional, realmente desejava ver Belle longe das minhas vistas, onde não teria mais qualquer poder sobre mim; outra parte, mais significativa do que eu gostaria, desejava vê-la de novo, desejava encontrar uma maneira de tê-la sem que isso prejudicasse meus planos para encontrar Bae.
Estou sentado no cômodo que eu usava para guardar os meus livros – um lugar que ela ficara muito encantada em conhecer, eu me lembrava. Alívio por não ter que lidar com um sentimento perigoso como o verdadeiro amor, felicidade por ter finalmente sido capaz de afastá-la: esses sentimentos existiam em meu coração, mas a tristeza pelo fato de que, provavelmente, nunca mais a veria, sobrepuja-os.
Um som vindo dos portões: impossível, ela voltou! A menos que…
Notas finais
De todo modo, aqui está o novo capítulo da fanfiction. Espero que gostem desse, ele me deu um pouco mais de trabalho que os demais.
Obrigada por lerem a fanfiction. Tendo gostado ou não, não deixem de comentar!
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