Humanamente Incrível
1 Ela era...
Notas iniciais
Ela era incrível. A minha dona, sabe, ou como ela me chamava de filho acho que posso chama-la de mãe.
Desde que me lembro de algo coerente sobre mim, eu tinha ela em minha curta vida. Ela era bem ocupada, trabalhava e estudava — mas eu escutava ela reclamar que deveria estudar mais, que gastava seu tempo na internet enquanto devia terminar de ler um capitulo para algum trabalho importante. Mas ela se empenhava na faculdade, ela amava o que estudava, estava aprendendo uma nova língua e a maioria do tempo ela parecia feliz.
Ela tinha um sorriso bonito, uma risada gostosa de ouvir e ela os distribuía frequentemente. Eu gostava até dos seus sorrisos irônicos, que ela lançava aos parentes chatos, com opiniões antiquadas. Eu gostava de ouvir ela ensinando coisas a suas irmãs mais novas, e eu via o quanto as pequenas gostavam de aprender com ela. Ela ia quebrando pequenos preconceitos dentro da própria casa, vivia em uma família preconceituosa, mas ela fazia questão de não se calar, questão de mostrar que lugar de mulher não é na cozinha, que ela podia fazer qualquer coisa, ser qualquer coisa. Ela tinha voz, sabe, sabia se impor.
Eu via o quanto ela fingia. Fingia muito bem. Fingia que não se importava quando desmarcavam algo com ela. Fingia que não se importava quando paravam de chama-la pra conversar. Fingia que não ligava quando as coisas que ela mais queriam davam errado. Fingia que não se sentia uma fracassada quando errava algo, quando alguma coisa não dava certo. Era no silêncio do quarto escuro a noite, quando todos estavam dormindo que ela segredava tudo que aguentara o dia todo.
Ela não gostava do seu trabalho e achava que a culpa era inteiramente sua. Desorganizada demais para trabalhar em um escritório. Ela gostava de estudar, mas vinha adquirindo preguiça para ler os livros, e isso a assustava. Como poderia estar desinteressada na faculdade? Ela amava aquele lugar! Com o tempo a vontade de não respirar mais a tomou. Ela já tinha isso, vinha com pensamentos sobre sua própria morte desde os quatorze anos. Ela nem sabia como tinha chegado aos 18 anos viva.
E no final a minha curta vida não foi tão curta quanto dela, sabem, eu tenho idade de cachorro.
O ruim é que eu não a tenho mais, e ela era a melhor dona. Ela aceitava minha manha, me dava carinho... era maravilhoso ir ao encontro dela sempre que chegava do trabalho, eu sempre ganhava carinho antes dela entrar no banheiro pra tomar um banho. E também quando chegava da faculdade, me fazia carinho na barriga e eu dormia em seu quarto, então as vezes ela me chamava e fazia carinho na mina cabeça, ou me coloca em cima da sua cama e ficava me abraçando. Quando eu mordia seus sapatos ela não brigava comigo, apenas dizia que enquanto eu não os estragar, não tinha problema, principalmente porque eu colocava meus dentes em seus sapatos de salto e ela nem os usava mesmo. Quando eu a mordia, mesmo que um pouco forte ela reclamava de dor e sorria, eu sei que eu não devia fazer isso, porque era errado ela gostar de sentir dor, mas eram apenas meus instintos. E eu preferia que ela tivesse dor com minhas mordidas leves do que a ver se machucando outra vez.
Era incrível. Realmente.
Ela não queria se suicidar. Ela sabia que era tudo questão de tempo, que uma hora ela ia morrer de qualquer jeito então sempre torcia pra que algum acidente fatal lhe ocorresse, pois assim não seria sua culpa. Mas a tristeza se acumulou tanto que houve uma hora que ela se partiu e não conseguiu evitar. E então ela se foi.
E ela nunca mais vai voltar para fazer carinho na minha barriga, ou para ensinar as irmãs coisas novas, ou quebrar tabus dentro de casa e fora dela.
É triste o quanto ela se odiava, sem perceber que ela era só jovem demais e que devia pensar um pouco menos e se permitir errar um pouco mais. Ela não era perfeita, longe disso, ela era humana e ser humana é tão cheio de possibilidades... é uma pena que alguém tão humanamente incrível tenha partido antes mesmo de começar a viver.
Fale com o autor