Human World Observation

21 Capítulo 19: Agregando-se ao desconhecido


Notas iniciais
Essa história não tem relação com fatos, pessoas ou lugares da vida real. É uma obra de ficção com puros fins de entretenimento.

Eileen estava sentada na cadeira da mesa da cozinha, olhando o lado de fora através da janela de vidro fechada. Chovia e as gotas de chuva se acumulavam e escorriam pelo vidro. Ela podia ver seu próprio reflexo, misturado com a imagem das gotinhas de água. Passou a mão pelo vidro, com uma expressão melancólica. Parte do vapor acumulado sumiu.

O que eu estou fazendo...?

Ela olhou para trás, na direção da porta de entrada do cômodo, encolheu ombros, e voltou a fitar a janela.

Ultimamente Siv só tem ficado em casa... Ele saiu algumas vezes para suas “observações”, mas não parecia muito animado ou concentrado... Sempre que ele volta, sua mente está em outro lugar, e ele senta lá no sofá da sala, e fica olhando pela janela, pensando em algo que não consigo desvendar...

Sempre que pergunto ele responde com outra pergunta e um sorriso, como se estivesse tentando evitar dizer a verdade... Isso é tão injusto! Por que ele pode esconder as coisas de mim, mas não posso esconder nada dele?!

Ela fez uma expressão emburrada, e levantou-se da cadeira, saindo dali e indo em direção à seu quarto. Quando passou pela sala, lançou um olhar sobre Siv, que estava sentado num dos sofás, distraído. Ela irritou-se ainda mais, ele de fato não prestava mais atenção a nada, havia se isolado num mundo que só ele compreendia.

. . .

Nos dias após a partida de Crow-Hreimdar, o governo havia entrado num estado de agonia contínua. Todos estavam estressados, buscando entender o porquê da visita repentina e o porquê da partida súbita.

Interrogaram Siv Borghild, o alien pioneiro, ele deu a mesma explicação sobre “inspeção de trabalho” e simplesmente foi-se, alegando que não havia mais nada a ser declarado. O governo, no entanto, relutava em aceitar que algo tão superficial e mal elaborado seria o real motivo, então passaram a investigar ainda mais a fundo, mas não conseguiam resultados. Perceberam então certa mudança no comportamento do alienígena, ele estava saindo para observar os humanos com menos frequência, e quando saía, parecia desinteressado em assistir a raça humana.

“O que teria levado a essa mudança?” era o que o governo se perguntava, e com isto em mente, os líderes do país se reuniram para discutir mais uma vez sobre o alvo da atenção deles: o odiado alienígena invasor.

– Ele não quis nos dar nenhuma informação, bem como quando se negou a compartilhar as pesquisas da raça dele com a nossa... –o ministro da Saúde falou-

– Ele está planejando algo ruim! Os superiores dele podem ter ordenado uma invasão e aquele outro deve ter vindo para planejar com ele! –O Ministro da Segurança gritou-

– Invasão alienígena?! Nós já fomos invadidos e estivemos dançando na palma da mão dele por muito tempo! Já chega! Não podemos permitir a abertura do planeta para mais deles! Devemos fazer uma reunião urgente com os líderes mundiais!! –O Ministro do Bem-estar social sugeriu-

– Não é como se outros países pudessem tomar contramedidas! Eles estão na mesma situação que nós! A verdade é que aceitamos tudo até agora porque não sabemos como lidar com aquela criatura! –O Ministro da Justiça alterou-se, batendo na mesa-

– Ele tem que ter alguma fraqueza! Não existe nenhuma criatura, animal ou seja lá o que ele for que não tenha fraqueza! Tem que ser indefeso contra algo! Por que ainda não descobrimos?!-O Ministro da cultura se enfureceu-

O presidente se manteve calado durante toda a reunião, refletindo sobre possíveis soluções. Os Ministros debateram, estressaram-se, mas de nada adiantou. Todos estavam cansados daquela situação, o medo, a ansiedade, os sentimentos que se misturavam dentro daqueles homens.

. . .

Horas depois

No gabinete de um dos Ministros

. . .

O cabo Blake novamente se apresentava em frente à mesa do ministro, fazendo continência.

– Senhor, me chamou? –ele pôs os braços para trás-

– Blake! Aquele maldito, aquele maldito!–o homem se descabelava-

–...

– Ele fez de novo! Trouxe um deles para a terra e agora quer se esquivar! Se eu soubesse como dissecaria os dois! Mas eu não sei, -ele olhou para o soldado- Sabe o porquê, Cabo?

– Não Senhor.

– Porque você é um incompetente!! Já faz mais de seis meses que aquela criatura está na terra e você o espiou por todo esse tempo, ainda assim, não conseguiu descobrir nenhuma fraqueza!! -gritava descontrolado-

– Mas, Senhor-

– Seu inútil!! Imbecil!!! Não quero desculpas!!! Ache logo algum ponto fraco ou quem vai ser dissecado é você!!

O Ministro respirava ofegante e com a garganta seca após a gritaria, enquanto o soldado mantinha-se com uma postura firme, silenciado pela opressão do chefe. O político acalmou-se, passando a mão pelo pouco cabelo que lhe restava na cabeça, estressado.

– Senhor... –o cabo pigarreou-

– O quê?

– É verdade que estive observando aquele alienígena e mesmo depois de um longo tempo não encontrei nenhuma fraqueza, nem os agentes do governo encontraram... Ele é invencível fisicamente e é muito inteligente para ser enganado...

– Aonde quer chegar?

– Não importa o quão inteligente ou poderosa uma criatura seja, sempre há uma fraqueza...

– Você conseguiu achar uma fraqueza depois de tanto tempo?! Como não descobriu antes?!

– Sim... A princípio eu pensei que ele era imbatível psicologicamente também, mas ele passou tempo demais na terra e parece que sofreu influências humanas...

– Está insinuando que ele mudou?

– Sim, Senhor. Depois de observar muito, foi á esta conclusão que cheguei: ele se tornou mais humano...

– Aquela coisa?

– Sim.

– E qual seria a fraqueza da criatura que revirou o país e pôs o governo a seus pés?

– É tão simples que me dói pensar que só notei agora...

O soldado suspirou pesadamente, com o olhar frio e retirou do bolso uma fotografia.

– Qual a maior fraqueza de um homem, Senhor?

A voz do Cabo Blake soou sombria enquanto o ministro chocou-se com a imagem registrada na foto.

. . .

Na residência de Eileen Sanders

. . .

A mulher se aproximou a passos apressados do homem sentado no sofá, e foi diretamente à pergunta:

– O que aconteceu, de verdade, naquele dia, Siv?

Ele a fitou chocado e ela continuava com uma expressão firme, disposta a interroga-lo até obter alguma resposta razoável.

– Quero saber por que um alien que veio todo o caminho para buscá-lo, repentinamente desistiu e foi embora sem nada em mãos... –ela franziu o cenho-

–... O que foi? Agora até você vai me interrogar, Eileen?

– Não é um interrogatório, só estou curiosa, porque pelo que ouvi dizer da sua raça, eles não parecem ser do tipo que saem assim, sem um bom motivo...

– Bem, eu disse... Ele só veio para uma inspeção, estava tudo bem e ele foi embora, só isso... –deu de ombros, suspirando como se fosse uma pergunta chata de se responder-

– Siv Borghild... Eu posso não ler pensamentos, mas sei bem quando está mentindo... Não pode me enganar com uma resposta arbitrária dessas.

Ele manteve o sorriso cínico enquanto encarava a mulher, e ela cruzou os braços, se negando a desistir do inquérito.

– Desde que voltou, está voando no mundo das nuvens, e não me pareceu muito interessado em observar os humanos como antes... Então eu passei a me perguntar “o que realmente aconteceu naquele dia?”...

– Perspicaz...

– Não precisei de muita perspicácia para perceber isso, e se eu não precisei, imagino que o governo deva estar no mínimo, curioso sobre seu comportamento recente...

– Isso é verdade...

Ele manteve o sorriso, mas um tom de dúvida estava expresso em seu rosto, e ela também estava confusa.

– Tudo bem... Você me pegou, é claro que ele não sairia tão pacificamente assim só por ver que estou fazendo meu trabalho... Mas é uma longa história...

– Estou disposta a ouvir.

– Crow-Hreimdar, como você mesma viu, veio aqui para me levar, mas as ordens dele era que verificasse como meu trabalho estava sendo feito...

– Verificar?

– Vocês confiam nos presos de seu sistema? Não os chamam de “reeducandos” quando estão fora da prisão?

– Sim...

– Na minha raça acontece algo parecido... Ainda mais, para alguém como eu, considerado um prisioneiro de alta periculosidade... Foi pra isso que enviaram Crow-Hreimdar, para averiguar minhas intenções e como eu estava fazendo meus relatórios... O nosso líder sabia que ele era justo e que sempre cumpre infalivelmente o dever, porém, ele esqueceu-se de que, essa justiça toda e senso de responsabilidade do mensageiro podem ser sua fraqueza...

– Fraqueza...? Pensei que tinha dito que ele não possuía fraquezas... –a mulher assustou-se com o ar maldoso com que Siv falava-

– Bem, todo mundo tem uma fraqueza, não é? Mas no caso dele, eu certamente não poderia vencer numa luta, então eu o provoquei e o fiz usar a habilidade que ele controla melhor... A leitura de memórias...

– Você o deixou ler suas memórias...?Isso foi bem corajoso... Mas posso saber por que queria que ele visse suas memórias...?

– Isso não é óbvio? Se ele visse o que eu tenho feito aqui na terra, perceberia que meus relatórios não estão errados...

– E ele viu isso? Foi por isso que ele voltou?

O homem abaixou o olhar, com um tom reflexivo e sério, respondendo seco:

– Não.

– Não?

– Em parte, quero dizer, tenho certeza de que ele viu como passei esse período aqui na terra, no entanto, não foi só isso que ele viu... Eu acho que ele foi ainda mais fundo e viu outras memórias... Algumas que ele não deveria ter fuçado...

Um brilho sombrio estava expresso no rosto de Ahcsar juntamente à voz de desagrado que ele utilizava. A mulher assustou-se com o tom raivoso com que o alien empreendeu àquela frase.

– Bem, -ele voltou a ter o sorriso leve e cínico de sempre- Parece que ele vai ter que resolver alguns assuntos pendentes com o Comandante antes de voltar aqui pra me levar de volta... E acho que vai demorar um longo tempo...

A mulher suspirou e hesitou antes de prosseguir com o diálogo.

– Eu entendi agora... Mas... Ainda não compreendo por que você mudou seu comportamento em relação à sua missão...

Ele olhou-a nos olhos por alguns segundos antes de responder, deixando-a com algumas expectativas sobre o que ouvir.

–... Bem, isso é... Segredo. –disse num tom de zombaria

– Tá brincando comigo?!

A reação de Eileen foi um choque. Ela irritou-se. Ele parecia estar disposto a contar tudo e de repente evitava a pergunta assim.

– Não, é um segredo. Já teve respostas o bastante por hoje, não foi?

– O-o quê?

– Não que eu consiga me sentir aliviado só porque ele foi embora... –inspirou ar preocupado-

_...?

Preocupado...? Bem, ele deveria estar... Mesmo não conhecendo muito, é bem visível que isso é incomum, mesmo para a raça deles...

O que de tão grave ele viu dentro das memórias de Ahcsar...?E por que decidiu voltar assim, tão repentinamente?

– Agradeço suas análises, Eileen, mas você não entende a gravidade disso tudo por completo...

– H-hein?

– De qualquer forma, eu não quero o seu governo ciente de nada disso, então fique quieta. Se não, vai se arrepender.

–... Isso foi uma ameaça? –recuou abismada-

– Não que eles consigam descobrir mesmo... Ah, -ele deitou a cabeça no sofá, desanimado- Não ter nada para fazer é realmente tedioso...

O clima de insegurança perdurou por mais alguns dias. A mulher estava ansiosa com o que poderia vir a seguir. Suspenso das atividades? O que estariam agora os alien discutindo sobre Siv? Que efeito isso traria a terra?

– A propósito, tem tempo sobrando? –ele perguntou calmo-

– Hã? Bem, eu tenho...

– Ótimo... –ele se levantou do sofá- Eu estava entediado mesmo...

Eileen recuou um passo, desconfiada. O que seria desta vez? Será que mais uma vez, ela seria algum tipo de cobaia para os experimentos dele? Ou ele estava pensando em fazer análises sociológicas e ouvir a opinião dela sobre assuntos que ela desconhecia?

– Espere um minuto... Siv Borghild, no que está pensando...?

Ele alargou o sorriso, fazendo um calafrio percorrendo a coluna espinhal dela.

. . .

Num lugar longínquo do espaço

. . .

Dentro da nave-prisão Brisingamen, Crow-Hreimdar o recém-chegado, ainda em sua forma humana. Os estalos metálicos da nave eram o único som de fundo no ambiente silencioso. O sapato do alienígena fazia barulho entrando em contato com o chão, um som ritmado e apressado.

Encaminhou-se até uma porta que se abriu automaticamente. Ele entrou, e após alguns passos, prostrou-se diante do outro indivíduo que se encontrava ali na sala, num sinal de respeito. E ficou ali, apoiado num dos joelhos.

– Meu Lorde...

– Crow-Hreimdar, finalmente voltaste... –o outro respondeu em sua voz grave- Diga-me, trouxe de volta Ahcsar?

–... Meu Lorde eu fui à terra como ordenado e quando aterrissei, embora alguns imprevistos tenham acontecido, eu observei e tirei conclusões. Por mais de uma semana, assisti aqueles humanos e entrei em contato com Ahcsar...

– Os comportamentos dele são estranhos... Será bem tratado na prisão, precisamos entender que anomalia acomete o cérebro dele...

– De fato os comportamentos dele contrariam os padrões tarantianos. Porém, meu Lorde, quando o enviou o senhor já devia esperar isto sabendo que ele é um prisioneiro de alta periculosidade cuja mente parece funcionar de forma diferente da nossa.

– Estás tentando me advertir, Crow-Hreimdar?

– Não, meu Lorde, apenas acredito que criticar a personalidade dele quando sabia como ele agiria é perda de tempo.

–...

– Sobre as conclusões que tirei após a observação... –continuou num tom calmo e impecavelmente educado- Embora em alguns pontos os relatórios de Ahcsar estivessem equivocados, muitas das informações são verossímeis. Não se pode dizer que ele mentiu inteiramente, suas falhas na análise eram esperadas tendo em vista que ele pensa de forma diferente de um tarantiano saudável...

–... Entendo. Teu julgamento foi este. Isso é verdade. Então, o trouxe de volta à cela...?

–... Tem algo que eu gostaria de falar-lhe Lorde, em relação ao prisioneiro Ahcsar Angsaw IV...

–... Diga.

–... Durante a missão, fui coagido a entrar nas memórias do réu em questão, e vi algumas que me incomodaram...

– Memórias...?

– Sim, meu Lorde... As memórias de Ahcsar...

– E o que lhe perturba?

– Sobre o caso de 14 ciclos solares atrás... No qual Ahcsar Angsaw IV foi julgado como culpado da morte de Meldevich Arthurian III...

– O que há com este caso? Anos atrás nós perdemos um de nossos melhores pesquisadores e descobrimos que a instabilidade mental de Ahcsar o fazia ter um perfil criminoso. E ele acreditava que estava sendo injustiçado...

– E pode ser que esteja, Meu Lorde...

– O que quer dizer com isto? Implica que nosso julgamento foi injusto, Crow-Hreimdar?

– Não quero dizer que foi proposital, no entanto, meu Lorde, pelas memórias que vi, houve um equívoco no julgamento de Ahcsar e gostaria que analisasse... Após observar as ações e conferir a verdade contida nos relatórios dele, peço que reavalie o julgamento dado naquele tempo.

– Reavaliar? Nunca na história de nossa raça foi preciso reavaliar um caso... Não pode haver erros, fomos criteriosos e comprometidos com a justiça durante todo o processo do julgamento...

– Não quis dizer que foram desleais, meu Lorde, apenas que pode ter acontecido algum engano durante o processo, porque pelas memórias que Ahcsar possui, ele não foi inteiramente culpado pela morte do irmão.

– Memórias... Confiar nisto é um erro, Crow-Hreimdar... Sabe que para nós, tarantianos, não é incomum ter o poder de alterar memórias...

– Pensei sobre isto, Lorde, mas aquela memória... Estava selada até dentro da própria mente dele... Ele parecia desejar que a memória estivesse imóvel e inacessível dentro de si.

– Ainda assim, há riscos de ter sido alterada...

– Os especialistas de nossa raça podem descobrir isso, meu Lorde... Se houver uma se quer alteração, eles saberão... Porém, se a memória dele estiver correta, meu Lorde... Temo que nossa raça tenha cometido uma injustiça tremenda contra um cidadão inocente...

– Crow-Hreimdar...

O superior encarou o lado de fora, o espaço, pelo vidro da janela da nave, ponderando sobre o assunto.

– Por este motivo, eu suspendi a observação de Ahcsar Angsaw IV ao mundo humano e o ordenei que esperasse novas ordens enquanto seu novo julgamento seria debatido. Assim, ele está exilado temporariamente no planeta terra, até que seja decidido se ele voltará a ser um cidadão ou continuará como presidiário.

– Compreendo... Uma sábia decisão...

–...

– Eu conversarei com os juízes do caso... Providenciarei uma assembleia para debate do caso e quando ordenado, o réu em questão será trazido e receberá o julgamento final...

– Entendido, meu Lorde.

– É o suficiente, pode se retirar agora.

– Com sua permissão, milorde. –o alien cumprimentou e saiu cordialmente-

E a silhueta de Crow-Hreimdar sumiu da sala, restando apenas aquela sombra enigmática que sempre mirava o lado de fora com um ar inexpressivo, vagueando pelas constelações do lado de fora.

. . .

De volta à terra

Nas ruas da cidade

. . .

Numa cafeteria, nas ruas da cidade. Era um lugar mediano, fechado, com paredes de vidro de película preta. Havia mesas de madeira dentro e mesas de metal do lado de fora. Dentro do ambiente, era possível sentir o cheiro da madeira misturada ao do café. E do lado de fora, uma fresca brisa que passava espalhando o aroma dos bolos e o cheiro das plantas verdes que adornavam a entrada.

Eileen e o alien estavam sentados em uma das mesas de fora. Ela, com os olhos estreitos, temendo as intenções do homem sentado à sua frente, que olhava calmamente para o céu.

– Então, -ela pigarreou- Por que me chamou aqui, Ahcsar?

– Ei, não fale meu nome assim em lugares públicos, sabe que seu governo pode estar espiando... –ele voltou-se para ela, com um sorriso no rosto- E eu já lhe respondi a esta pergunta... Estava entediado.

– Espera que eu acredite que me chamou pra sair só porque não tinha nada melhor pra fazer? –arqueou uma das sobrancelhas, intrigada-

– Sim.

– Sabia que se o Comandante ou qualquer soldado do governo descobrirem sobre nossa pequena viagem até a cidade sem aviso prévio, a culpa vai recair toda sobre mim?! Está tentando me causar problemas?

– Longe de mim, Eileen. –ele deu um riso abafado e irônico-

– Então por que você quis sair da casa e teve que me arrastar junto?

– Hum... –ele voltou apoiou o rosto numa das mãos e olhou o céu ao longe- Eu não sei...

A mulher bebericou um pouco do café e olhou na mesma direção que ele. Era difícil ler as intenções de Ahcsar, mas agora a expressão dele era tão clara. Um semblante distante, perdido, como se estivesse procurando algo ao longe e não conseguisse encontrar.

– Ahcsar...?

Um tom preocupado se esboçou na voz dela e ela observou o próprio reflexo que se fazia turvo nas ondulações do café.

– Eileen, você... –ele direcionou o olhar para ela, e falou num tom hesitante- Já chegou a odiar alguém que amava? Eu não sei se isso acontece com humanos, mas...

–... O quê...? –ela estava surpresa com a pergunta-

Mas que tipo de pergunta é essa? Isso foi súbito... Por que ele perguntaria isso à mim...? Por que...?

Os pensamentos dela travaram quando o entendimento chegou à mente. E ela ficou ali, com a expressão assustada com a conclusão precipitada que acabara de tomar...

– Ahcsar... –ela disse receosa, com o olhar vidrado no homem- Você odeia o seu irmão...?

A expressão dele imediatamente mudou, e ele ficou perturbado. Não pela conclusão de fato, mas em como Eileen havia chegado a um fechamento tão bárbaro.

– A-ah, eu não... –ela gesticulou nervosa-

– Não Eileen, eu não odeio meu irmão –respondeu indignado- Mas...

– Mas...? –ela induziu-o a continuar-

–... –ele respirou fundo, com os olhos fechados- Não importa... Foi apenas uma pergunta sem nexo... Deve ser por causa do que aconteceu recentemente... –quando abriu os olhos, estavam frios- Nada mais me importa nesse planeta monótono...

Ela encolheu os ombros, ainda sentada na cadeira e teve certo temor do homem. Porque os olhos dele pareciam exatamente como quando ele havia chegado a terra. Olhou para o céu, imaginando o espaço, para onde Crow-Hreimdar havia partido.

Siv... O que vai acontecer daqui pra frente...? Se aquele alienígena voltar, então...

. . .

No espaço sideral,

À anos-luz da terra

. . .

Naquela mesma sala onde antes Crow-Hreimdar havia ido, agora entrava outra figura. Um alienígena de cor branca, e embora sua cor se destacasse, as sombras o cobriam quase que completamente. A passos lentos e calmos, se aproximou de seu líder, e ajoelhou-se.

– Milorde, mandastes me chamar?

– Sim... Preciso de teus serviços, Fafnir...

– A teu dispor, Milorde. Diga-me e realizarei com prazer.

–... Creio que lhe comuniquei antes sobre o caso de Ahcsar...

– Pensei que Crow-Hreimdar tivesse sido delegado à tarefa de trazê-lo de volta, milorde...

– E foi...

Os olhos ferozes e inclementes de cor carmesim de Itzala pousaram no albino que continuava ajoelhado num tom respeitoso ao líder.

–...

– Temo que ele tenha sido influenciado por Ahcsar... Sabes como aquela criança é influenciável pelas emoções... Talvez tenha o contagiado...

– Até Crow-Hreimdar, Milorde?

– É uma pena... Mas um exímio mensageiro se deixou influenciar pelas palavras sem sentido de um criminoso... Ele até veio me ver naquela forma desprezível daquelas criaturas baixas que vivem no planeta o qual visitou... Nós subestimamos Ahcsar, permitimos que ele tomasse para si uma liberdade imprópria a um preso... E agora... Ele está livre.

– Diga-me o que preciso fazer, e o farei, Milorde...

– Fafnir Meijall IX, seus serviços de mantenedor da ordem serão necessários... E seus poderes, também... Eu quero que me traga Ahcsar Angsaw IV.

– Imediatamente, Milorde... E quanto à Crow-Hreimdar?

– Ele ficará sob observação enquanto continuar a sustentar tais argumentos contraditórios às propostas de nossa espécie...

– Entendo... –ele levantou-se e curvou-se num gesto de despedida- Com sua licença, Milorde...

Parou na porta e olhou para trás, na direção do líder, perguntando antes de sua saída:

– E para onde devo ir, Milorde? Onde está Ahcsar...?

– Ah, isso... Ele está num planeta chamado Terra.

– Entendo... Voltarei em breve...

– Assim espero... Traga-o aqui, mesmo que tenha de usar sua força...

– Com prazer, Milorde.

E o alienígena saiu da sala deixando um rastro obscuro por onde quer que andasse. Sumiu por entre os corredores da nave que passavam uma sensação de claustrofobia.

– Em direção à terra...

Disse num sussurro, caminho até seu veículo de viagem, para o planeta terra.

. . .

Eileen voltava para casa com o alienígena, parou na frente de uma vitrine, interessada em algo que viu numa loja.

– Ah, Siv, pode ir na frente, acho que irei ficar mais um pouco pela cidade...

–...?

Ele a fitou desinteressado e prosseguiu, dando de ombros.

Já faz um tempinho que não consigo vir assim, para comprar algo ou andar pela cidade... Hoje é uma boa oportunidade para fazer isso... Além do mais... Não me sinto muito no clima para voltar para casa e ficar parada.

Ela entrou na loja, surpreendentemente, encontrou sua amiga, Halley, que a cumprimentou com um abraço.

– Eili!!

– Hail, que coincidência!

As duas saíram da loja, foram conversar enquanto andavam pelas ruas.

– Que tal um café? –a amiga sorriu-

– Desculpe, mas acabei de tomar um. –recusou com um sorriso amarelo-

– Hã? Ah, então veio aqui fazer compras também, ou só resolver assunto pendentes?

– Ah, na verdade, o Siv queria conversar então eu vim- ela foi interrompida-

– Espera, espera um segundo! –gesticulou abismada- Está falando daquele estrangeiro que estava na sua casa?! Ele te chamou pra sair?

– Não, não “pra sair”, ele queria conversar, bem pra ser mais exata, estava um pouco depressivo por causa do trabalho, mas foi só isso, Halley. –cortou a conversa, sabendo onde a amiga queria chegar-

– Sei... Bem, de qualquer forma, eu quero um café, me acompanhará também, Senhorita Sanders?

– Eu irei, Halley. –a outra sorriu-

As duas foram até a cafeteria mais próxima e sentaram-se para conversar, se divertiram, como se ainda fossem adolescentes, falando sobre a vida, sobre trabalho. Quando haviam rido muito, Eileen suspirou, seu ânimo estava de volta. Ultimamente, conversar somente com Siv a estava deixando preocupada. Era uma lufada de ar fresco ter mais alguém com quem conversar, embora não pudesse contar exatamente o que acontecia para a amiga.

– Você está com um sorriso e tanto, Eileen. Está muito feliz? Ou é... –a amiga fez um tom insinuador-

– Pode parar de insistir nisso? –suspirou profundamente-

– Mas é que parece muito feliz, só posso imaginar que sua vida tem ido muito bem...

– Ah, que bom que parece isso, mas infelizmente não tão bem assim, Halley... Não sabe o quanto minha vida foi revirada...

– Revi... Do que está falando?

– Nada, nada... Estava apenas resmungando sozinha...

– Tendo muitos problemas em casa?

– Não apenas em casa, mas a minha vida toda tem sido uma bagunça, sabe... Trabalhar e prestar contas ao governo... E ter que ajudar o Siv a resolver problemas... Tudo tem sido tão exaustivo...

– Bem, acho que todos nós temos momentos da vida que acreditamos serem cansativos, mas problemas não duram para sempre Eileen, uma hora ou outra, vão acabar sendo resolvidos, não se estresse tanto ou vai acabar ganhado rugas mais cedo...

– Não diga isso nem de brincadeira!!

– Enfim... Tem ido ao trabalho, mas parece que as preocupações não param de pesar nas suas costas...

– É que... –ela olhou para o céu, ponderando- Não é tão simples quanto parece...

– Você que complica tudo, Eileen...

A outra disse num comentário que vinha da amiga, com certo divertimento, e ela teve que admitir.

– Talvez tenha razão, Halley.

Olhou para o céu mais uma vez, mas uma sombra cobriu sua visão, e então, o rosto de Siv apareceu em frente a ela. Quase saltou da cadeira.

– S-Siv? O que está fazendo aqui?

– Você estava demorando, vim te buscar...

– Hã?

A amiga dela juntou as mãos e abriu a boca, surpresa, como se tivesse notado algo importante. Siv deu um pequeno sorriso e acenou.

– Eu ainda não entendi... –Eileen revezava olhares entre o alien e a amiga-

– Tchau, Eili! –a outra se despediu adiantada já saindo do local-

– E-espera.

– Vamos. –Siv a arrastou pelo braço-

Ele largou o braço dela após alguns metros, e os dois continuaram andando, com uma Eileen irritada.

– O que pensa que está fazendo?! –reclamou indignada- Eu estava falando com a minha amiga!

– Eu acho que aqueles agentes do governo querem te ver e ter uma conversa...

– Foi por isso que me arrastou, não podia ter esperado?

– ...

– Você foi mesmo até lá porque achou que eu estava demorando?

– Sim. –respondeu direto e apressou o passo-

– Es-espera aí! S-Siv! –ela gritou- Ahcsar!

Quando o alcançou, ele subitamente parou e se virou, segurando a mão dela e olhando-a diretamente nos olhos.

– Vamos voltar para casa, Eileen.

–... O que...?

E ele seguiu caminho, de mãos dadas com a mulher, sem que ela abrisse a boca para dizer uma só palavra para contestá-lo.

O que ele... Está fazendo...?

Ela segurou firme na mão dele. Sabia que aquele momento era breve, e que logo, ele não estaria mais na terra. Imaginava por quanto tempo mais ele estaria por perto. Mas ambos ainda não tinham se dado conta de que, de muito longe, alguém já os observava com olhos afiados e intenções malignas, com um binóculo, do alto de um prédio.

O homem que estava ali, no alto do edifício, pegou o celular, e discou um número, e então iniciou um diálogo:

– Como eu havia dito, Senhor... Ele tem uma fraqueza...

E o cabo Blake, o homem que estava ali, levantou-se, com os olhos frios, maquinando em sua mente como iria cumprir a missão. Uma conspiração se formava por todos os lados, deixando-os sem saída.

Season 3/End

Notas finais
Fim da terceira parte da história! Seguindo para a quarta e última parte do conto do nosso querido alienígena cínico!