Human World Observation
10 Capítulo 09: Conspiração
Notas iniciais
_Não… -respondeu seco o comandante das forças especiais- Não... Desculpe...
Ele falava ao telefone, de pé na sala de Eileen Sanders. Estava lá para falar com ela sobre a visita que os pais fizeram à casa da mulher, aproveitou que eles haviam ido embora e foi até ela, para trocar pontos de vista.
Desligou o celular, e suspirou profundamente num gesto de cansaço. A mulher o chamou, peocupada:
_Sr. Gilbert?
_Perdoe a displicência, onde paramos? –encarou-a-
_Bem, sobre a visita repentina de meus pais...
_Nós estivemos monitorando a estadia deles, nada aconteceu dentro dos limites da casa, mas e fora? Vocês saíram algumas vezes, eu mandei alguns soldados, mas queria ouvir da Senhorita... Algo interessante ou ruim aconteceu? –perguntava calmo-
_Não... –respondeu insegura- ... Na verdade ele ficou confuso sobre o conceito de “família” que temos na terra... Ele não entende o significado de família além do âmbito de “instituição”.
_...
_Parece que as emoções humanas são difíceis para que ele compreenda. –pontuou –
_E onde ele está? –o comandante olhou em volta da sala-
_Não sei... Como sempre ele sumiu... –suspiro- As câmeras mais modernas do governo não conseguem captar os movimentos dele? –perguntou num tom de incredulidade-
_Bem... Não é que não consigam, elas captam um movimento, mas para vê-lo temos que reduzir a velocidade em, no mínimo, umas cem vezes... E sempre a imagem é mostrada cortada, como se a câmera só fosse rápida o suficiente para captar apenas a réstia do movimento dele...
_Ele é um alien assustador...
_O que me preocupa é o que ele faz nestes espaços de tempo vagos, que não o estamos observando... Alguns homens meus tentaram segui-lo uma vez, mas o perderam de vista...
_Temos que descobrir aonde vai e o que ele faz... –pôs a mão no queixo- Já tentaram monitorar os horários que ele desaparece?
_Sim... Tínhamos pensado nisso, que poderia haver alguma conexão com o que ele faz e o horário que sai, mas estes horários são irregulares, quero dizer, um dia ele sumiu a noite, hoje foi de manhã, na semana passada, de tarde... Não conseguimos estabelecer uma linha de lógica, mas tenho uma suposição: ele some em horários irregulares para nos confundir.
_Hum... –disse entendida- Então ele faz de surpresa para que assim nunca saibamos quando será seu próximo sumiço... Maldita criatura inteligente...!
_O que me preocupa mais é... Se ele esteve mantendo contato com sua raça... –franziu o cenho preocupado- Ele sempre mencionou “relatórios” que faria, mas ele está mesmo fazendo-os? Comunica-se com seu povo? Será que este tempo que ele some é para este fim? Ainda há muitas perguntas no ar, que não fomos capazes de responder até agora...
_...
. . .
Enquanto isso
Dentro da cabine de comando da nave espacial, Gjallar...
. . .
O extraterrestre em forma humana olhava a estranha pulseira em seu pulso silenciosamente.
_Por que não consigo me comunicar com a nave principal? –encarava levemente pensativo o objeto — Será que isto é uma interferência...? Não... Nem a distância poderia interferir neste tipo de comunicação... Um sinal de algum satélite humano, talvez...? Ou será...
Mexeu em algumas teclas do teclado de luz azul que pairava no ar, fazendo com que alguns mapas da galáxia aparecessem. Quando viu os dados que apareciam nos mapas, bufou, sentando na única poltrona metálica que havia na sala.
_... Eles estão evitando contato comigo...? –disse com certo desprezo na voz- Engraçado... Requisitam-me fazer um relatório dos humanos enquanto eles fazem um relatório sobre mim pelas minhas costas...?
_ Bem... Era de se esperar que eles tramassem algo longe da minha vista... Afinal, eles têm sempre muito a esconder de alguém como eu...
(Gjallar, pesquise todos e quaisquer objetos e ondas dentro e fora da atmosfera terrestre num raio de 300km que podem causar interferência nos sinais de comunicação.)
Disse em uma língua estrangeira que a nave pareceu reconhecer perfeitamente. Apoiando o rosto na mão esquerda, acomodando-se na cadeira da nave, ele disse:
_Parece que terei de passar a noite aqui...
_Ainda não confiam plenamente em mim... É lamentável... Realmente lamentável...
E com esta frase, o rosto do homem escureceu, deixando uma fúria nunca antes vista em seu semblante transparecer.
. . .
Nossa... Ele some do nada, agora o Sr. Gilbert está com dores de cabeça, se não correr atrás do alien, o governo despede o coitado, e olha que nem é culpa dele!
_Ah! E eu finalmente poderei ter um pouco de paz...
Jogou-se na cama e começou a olhar o teto de gesso de seu quarto.
É... Não acho que possa chamar isso de paz... Um E.T. perigoso está à solta; comandante Gilbert e o governo não podem fazer nada sobre ele, e a criatura simplesmente sumiu, sem dar notícias... Eu deveria estar feliz por ele estar longe da minha casa (eu acho), mas... Não consigo quando penso em quantos problemas outras pessoas estão enfrentando por causa disso...
_O que eu deveria fazer...?
Perguntou para si mesma, numa pífia tentativa de encontrar uma resposta, revirando-se na cama.
. . .
O comandante Gilbert apareceu novamente mais tarde, naquele mesmo dia, para conversar com a jovem Eileen. Ela o olhava, esperando alguma notícia.
_Nós ainda não o encontramos... –disse expirando-
_...
Os dois sentaram-se no sofá. O homem tirou os óculos pretos que sempre usava e esfregou os olhos, cansado.
_Tem uma cópia dos relatórios impressos? –o comandante solicitou-
_Sim, na verdade não impressos, tenho os esboços dos relatórios que lhe envio. –disse incerta- Mas para quê os quer agora?
_Não faço ideia... –disse sem pensar muito- Eu já os li diversas vezes, mas não consigo me acalmar pensando que talvez, se eu ler de novo, possa haver algo que não notei antes... E que isto seja uma pista de onde ele possa estar...
_Tudo bem, os trarei aqui...
A jovem apressou-se em pegar os rascunhos de seus relatórios. Toda semana ela enviava relatos do acontecido diariamente, mencionando os atos e comportamentos, até mesmo algumas falas do alienígena que habitava em sua casa. A funcionalidade era que através dos relatórios dela o governo pudesse entender melhor a criatura e tomar uma medida contra o alien.
O comandante Lorran pôs os óculos de leitura, o que o deu um aspecto muito menos severo do que antes, apesar de que ainda tivesse traços rígidos na feição. Ele lia concentrado linha por linha dos escritos. Eileen observava a dedicação que o homem aplicava em entender, mas se distraiu.
Ele tem olhos verdes... Nunca tinha notado antes porque ele estava sempre de óculos escuros...
Sr. Gilbert e toda sua equipe estão trabalhando duro para encontrar o Siv... Imagino o que ele estava pensando quando decidiu sumir assim, causando um alvoroço tão grande... Para onde um alien como ele iria? E por quê? Nada aqui na terra seria mais interessante para se observar do que os humanos que ele tanto deprecia...
Graças aos atos dele, agora esses homens estão desde cedo sem voltar para casa... Eles já ficam 24h assistindo dos monitores os comportamentos daquele alien maldito, e ele ainda foge, assim do nada! Agora eles têm que trabalhar em dobro e sair pela rua procurando-o...
Coitados. Sinto pena deles. Todos eles devem ter uma família, mas tem que ficar longe das pessoas que amam para fazer trabalhos assim para o governo, e pior, aposto que as famílias deles nem sabe que tipo de trabalho fazem... Não devem ter nem uma sombra de ideia de que seja algo tão perigoso...
Será que você consegue entender isto, Siv? Acho que não... As noções de “família” que temos aqui não são as mesmas que você vivenciou no seu planeta...
Por que é que estou falando sozinha? Aquele E.T. nem está aqui mesmo pra escutar meus pensamentos, claro que ele não vai responder. No entanto, seria bem conveniente se ele estivesse escutando isso, quem sabe assim ele não dava as caras por aqui e acabava logo com a sofreguidão destes trabalhadores.
Suspirou cansada de seu próprio ritmo de pensamento, ela decidiu se distrair.
_Eu vou preparar um café, Sr. Gilbert, parece que vai precisar...
Olhou a papelada sobre o centro de vidro, que o comandante teria de ler. E assim foi a noite. Um comandante ocupado lendo relatórios, recebendo e fazendo ligações para descobrir alguma informação do “fugitivo”. Eileen o acompanhou na virada da noite, fazendo café e pensando num lugar onde Siv poderia estar.
Pela manhã, o comandante saiu da casa da mulher para uma reunião com os principais líderes do país.
. . .
Na sala de reuniões do prédio central do governo...
. . .
_Como assim ainda não o encontraram?! –dizia o ministro da saúde nervoso-
_Acalme-se Sr. –o ministro da infraestrutura disse sério-
_Não podemos ficar tão calmos, se ele fizer algo enquanto estiver longe de nossa vista, como poderemos reagir? –franziu o cenho irritado, o Ministro de relações exteriores-
_E os pesquisadores? Não conseguiram descobrir nenhuma fraqueza ainda?! –o ministro da segurança se exaltou-
_Estão pesquisando... –respondeu o ministro da saúde preocupado- Infelizmente não puderam descobrir muito, ele é uma criatura muito complexa, só com aquelas poucas amostras... Muitos exames e pesquisas meticulosas tem que ser feitas para chegarmos a uma solução eficaz...
_Nosso exército não pode com ele... –o ministro da defesa cerrou o punho- Nossas armas são ineficientes... Como poderemos lidar com uma criatura tão forte assim?
_Senhores, — o presidente se levantou batendo na mesa- Voltem a si! Pensar de forma negativista não vai resolver nossos problemas! Concentrem-se em descobrir uma nova solução! Ele é resistente, não imortal! –sentou-se com um olhar furioso- Mais tarde me reunirei com alguns líderes mundiais, discutiremos como acabar com esta situação.
. . .
Algumas horas depois, longe dali,
Num prédio afiliado ao governo...
. . .
O cabo Blake, entrou na sala e fez continência para o superior sentado na cadeira que estava de costas para ele. O homem sentando parecia encarar através dos vidros, a cidade e o céu azulado.
_Chamou, Senhor?
_Cabo, quero que continue vigiando aquela criatura imunda. Descubra mais suas fraquezas... Quero ter vários planos em mente caso algum deles falhe...
_Sim, Sr.!
Respondeu o subordinado com a voz forte. E o chefe riu seco, de uma forma sinistra e arrogante.
_Eu tenho o plano perfeito, já que me contou sobre uma das fraquezas dele...
_...
_Quero que esteja por perto e me diga os resultados do “plano”... Quanto antes esse alien estiver morto, melhor...
E assim, o cabo Blake foi dispensado, enquanto algo maior era elaborado para se livra de uma vez por todas do invasor invencível.
. . .
Exausta, Eileen foi mais uma vez até a cozinha, que havia sido sua companheira fiel à noite toda, só que desta vez, iria preparar algo para si mesma. Com olheiras, cabelo bagunçado e as pálpebras pesando, ela entrou na cozinha e encarou a figura sentada à sua mesa: Ele, que até então estava distraído com a paisagem através da janela fitou a recém-chegada.
A cena era: a mulher acabara de entrar na sua cozinha, e encontrara o homem que todos estiveram buscando a noite toda. Siv Borghild estava sentado na mesa da cozinha dela, olhando para o lado de fora como se nada tivesse acontecido.
_Siv... –piscou os olhos repetidamente- Onde você estava...?
_Hmm? –grunhiu, com o rosto apoiado numa das mãos- Do que está falando?
_Preciso explicar que você sumiu durante toda a noite e causou um rebuliço para o pessoal do governo...?
_Vocês ficaram preocupados?–ele riu sem emoção- Me sinto lisonjeado.
_Não se sinta!
_Devo explicar os motivos de minha ausência apenas por não confiarem em mim?
_Sabe que tem um tratado com o governo! Tem que prezar pelo bem dos cidadãos e cumprir algumas outras regras!
_E estou cumprindo rigorosamente. –disse confiante- Tenho certeza de que nunca me viu matando qualquer humano que fosse, apesar de muitas vezes demonstrarem comportamentos extremamente desaprovados por mim. E nunca verá. Tenho esse tanto de compostura, humana.
_E como saberemos se não estava realizando ações suspeitas longe de nossa vista? –contestou-
_Bom, têm minha palavra.
_Palavra? –disse num dom desacreditado com certo sarcasmo-
_Pelo que vejo palavra não é o bastante em sua sociedade, contudo, lhe garanto que de acordo com meus princípios e o que me foi ensinado, tenho o costume de manter a palavra, e embora vocês humanos não o façam, solicito a confiança de vocês neste ponto. Tenho educação o suficiente para cumprir com meus acordos.
Ela continuou encarando-o irritada e ele suspirou, dando prosseguimento ao discurso:
_Somente por que humanos não têm estes princípios básicos de honrar palavras, não significa que todas as outras raças do universo tenham este mesmo costume. –disse com seu leve sorriso no rosto- A propósito, você está com uma aparência assombrosa. -debochou-
_Seu...! –cerrou os punhos- Quem é você para me dizer isso?!
Alien maldito!
Ele riu do xingamento mental que a mulher vociferou no pensamento.
_Viu só? Bastou falar da sua aparência que se irritou facilmente, vocês humanos gostam mesmo de valorizar elementos secundários... –balançou a cabeça negativamente- Não estava prestando atenção quando eu disse que não sou igual a vocês? –suspirou pesadamente- São mesmo criaturas que tem que ser condicionadas para aprender algo... Que incompetência...
Ele levantou-se da mesa, passando por a mulher, e antes de sair do cômodo, disse mais:
_Poderiam ter ficado tranquilos enquanto eu estivesse fora, pois eu não estava fazendo nada que pudesse prejudicá-los. Mas me parece que ainda não perceberam que eu não sou como vocês, por isso ainda se preocupam tanto...
A mulher o fitou irritada, com sua expressão torcida em rugas de raiva.
_Lembre-se bem humana, apesar desta aparência eu sou extremamente diferente de um ser humano, e espero que nenhum de vocês se deixe enganar por este disfarce temporário. Seria terrível se isto acontecesse.
A última frase saiu num tom seco e áspero, e de alguma forma, parecia direcionada principalmente para ela.
_...
_Ah, falando nisso, eu gostaria de prosseguir com minhas observações, desta vez, planejo estudar os “grupos” sociais que tanto falam... –pôs o sorriso cínico no rosto- Parece interessante...
. . .
Na sede do Governo,
Uma reunião com os líderes mundiais
. . .
O prédio central do governo estava movimentado, pois ali, os maiores líderes mundiais se reuniam, numa agitação frenética que inquietava a todos os presentes.
_Não obtiveram resultados?! –indagou um presidente de um país asiático-
_Infelizmente não... Não é tão simples quanto pensam... Estamos falando de uma criatura nunca antes vista pela humanidade! –o líder nacional disse indignado-
_É verdade... –apoiou o líder de um país Norte Americano-
_E disse que este é só um deles? A criatura alienígena afirma que há mais da espécie dele no espaço? –se apavorou um líder de um país Africano-
_Sim, ele nos contou que se não formos “valorosos o bastante” para que gaste seu tempo pesquisando, a raça dele poderá nos destruir... –o presidente da nação suspirou aflito- Devemos nos preparar para o pior...
_Mas se diz que não está sequer lhe dando com um deles, quanto mais com os outros que estão lá fora no espaço! –se desesperou o líder de um país europeu-
_Isso é... Ridículo... –o líder de um país do oriente médio se atemorizou- Quantos mais deles existem no espaço?!
_Não temos ideia... Ele apenas mencionou a existência de uma “sociedade” deles em seu planeta, mas não citou em momento algum o número de habitantes, nem especificou onde está esse planeta onde viveu.
Um silêncio geral e um clima pesado preencheram a sala. Todos estavam com medo do futuro que poderia acometer a terra.
. . .
Enquanto isto, em algum longínquo lugar do espaço...
. . .
O som abafado das turbinas da nave compunha a trilha sonora ambiente juntamente a estalidos metálicos. Na cabine escura, a silhueta de uma criatura de pé, oculta na escuridão do local, olhando pelo vidro da nave uma paisagem incomum: o espaço sideral.
O som de uma porta automática foi ouvido. Alguém entrou na sala, e o que encarava a janela percebeu , virando-se ligeiramente para fitar o recém-chegado, dizendo:
_Crow-Hreimdar...
_Meu Lorde...
O recém-chegado, em reverência, se apoiou em um dos joelhos e curvou-se um pouco. Os dois se comunicavam por uma língua estranha, diferente dos idiomas utilizados por humanos.
_Quero que vejas os relatórios de Ahcsar e analise-os... –disse o que estava perto do vidro-
_Sim...
_Tenho visto observações inadequadas nos relatórios dele...
_Quais palavras escritas nestes relatórios te afligem Lorde?
_Tu que tens uma habilidade especial deveria ver com os próprios olhos...
_Gostaria que eu lhe emprestasse minha habilidade de julgamento?-perguntou Crow-Hreimdar-
_Sim... –olhou novamente para o espaço ao longe- Ahcsar nunca foi de extrema confiança... Temo que ele não fosse realmente o mais adequado para a tarefa incumbida... Se tivéssemos enviado Meldevich antes, ele teria feito tudo corretamente... –pausou por alguns segundos- Mas não creio que seja o momento para mencioná-lo...
_...
_Enfim, desejo que observes bem o que ele tem escrito, e após isto, julgue por si mesmo se ele está ou não seguindo nossas ordens...
_E o que fará se ele estiver desviado, Milorde?
Os olhos negros e sem fundo da criatura que estava de joelhos olharam para as costas do outro que encarava o espaço sideral com afinco.
_... Tomaremos as providências necessárias... E se a situação exigir... –virou-se para o que estava ainda ajoelhado- Crow-Hreimdar, irás pessoalmente sob minha autoridade para solver a situação...
_Entendido... –reverenciou novamente-
Ele pôs-se de pé, e saiu da sala. Deixando novamente a criatura que encarava a janela sozinha.
Ahcsar, o que estás a planejar se prolongando neste lugar chamado “terra”?
E solitário, continuou a observar e refletir enquanto se perdia na imensidão do espaço.
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