Howsoever
4 Cap. 4 - A ligação.
Notas iniciais
Bem, se acontecer de você ler algo nesse capítulo e não entender, não se preocupe, no final tem uns avisos legais.
Quando cheguei até Alana, alguns pingos de chuva já caíam. Abri um guarda-chuva e fomos andando. No caminho ela esticava um dos braços e pegava os pingos de chuva na palma da mão, ela parecia gostar daquilo, assim como de pisar em poças de lama. Eu estava muito ocupada pensando no acontecido para pedir que ela parasse. O quão louca uma pessoa poderia ser a ponto de bater num desconhecido, e pior, dar-lhe um beijo em seguida? Procurei na bolsa o celular apenas para checar se não o havia deixado no silencioso. Depois, me peguei olhando-o com expectativa a cada dois passos que dava, como uma boba.
Ao chegar em casa, após checar o celular uma última vez, tive uma certa dificuldade em abrir a porta sem que as chaves e o guarda chuva caíssem. Lembro-me de ter deixado cair o molho* duas... ou cinco vezes, sem obter qualquer ajuda para pegá-lo de volta. Alana continuava distraída.
– Lana, você pode me ajudar a abrir a porta? Eu não consigo fazer as duas coisas ao mesmo te- – disse quebrando o silêncio, e em tom agudo, que diminuiu gradativamente até parar.
– Diga Ali, quem você estava beijando lá no parque? – perguntou interrompendo-me, sem me olhar nos olhos.
No momento fiquei sem palavras. Estava tão surpresa quanto jamais estive, não pensei que ela pudesse ter visto já que estava tão concentrada em observar seus patos e tartarugas. Com o choque, deixei o guarda-chuva cair, e em poucos segundos estávamos razoavelmente encharcadas, se é que posso usar ambos os termos juntos. De qualquer forma, estar com uma das mãos desocupada tornava mais fácil manejar as chaves e abrir a porta, por isso apressei-me a fazê-lo sem dar atenção a aquela pergunta.
Quando entramos, tratei de buscar toalhas e sentá-la no sofá. Só então, enquanto enxugava os cabelos da minha irmãzinha foi que refleti, e enfim, respondi à Alana:
– Pensei que você não tivesse visto. Ele é meu amigo... – disse sorrindo, em meio a risos. Ela soltou um suspiro. – Oh, não faça assim, você é que deveria estar olhando os peixes e tartarugas.
– PATOS e tartarugas. – ela disse, e parecia irritada – Só que eles eu posso ver sempre que vamos ao parque, já você beijando alguém...
– Ah, então você gosta de coisas incomuns? – apertei-lhe o nariz e ela riu.
– É, eu acho que sim.
Depois disso, os minutos de riso se tornaram poucos perto do tempo que Alana se fez de zangada: ela não queria arrumar as malas – e isso tornava ainda mais difícil o trabalho. Passamos a tarde ali, parte por termos que organizar as roupas e parte por termos adormecido de cansaço.
***
O pôr do sol tingia o céu num tom escarlate quando eu abri os olhos. Tirei o braço que apoiava Alana que ainda dormia e fui até a janela. A chuva tinha parado, e mamãe estava lá fora retirando as folhas que caíam do pessegueiro. Ela era tão gentil quanto uma pessoa poderia ser, paciente e amorosa. Ainda me intriga a sensação de haver, apesar de felicidade, dor naqueles olhos. Que imagine ela por si mesmo, a figura mais materna que conseguir, a mais afável que puder... Porque eu simplesmente não consigo descrevê-la tanto quanto gostaria.
Naquela noite de sexta ofereci ajuda para preparar o jantar, mas fui expulsa da cozinha porque mamãe conhecia os meus horríveis dotes culinários. Não importa, pensei, sou mesmo melhor fazendo companhia à Alana. Uma ajuda pouco útil, ela já não precisava de tanta atenção. Mas mesmo assim, para contar pontos de boa filha, fui até a varanda e me sentei numa cadeira próxima a ela. Fiquei por um tempo com o notebook pousado no colo, limpando alguns arquivos de estudo e, vez ou outra, olhando para os legos que minha irmã tentava montar sentada no chão.
– Tente juntar cor com cor, Lana. Assim não vai dar certo – disse com propriedade, enquanto ela encaixou uma azul na vermelha, olhando pra mim.
– Assim tá bom. – ela me respondeu me desviando o olhar.
Também desviei o olhar, me aconchegando na cadeira e pensando em como seria bom se o jantar se apressasse. Foi então que bem de longe escutei meu celular tocar, e saí apressada rumo ao som. Senti olhos em mim enquanto passava pela sala e subia as escadas um tanto depressa, quase correndo. Ao chegar agarrei o celular e atendi. Era Mitchel.
– Alô? – disse primeiramente.
– Ei! – ele tinha uma voz divertida – Escute, preciso do seu perfil no Itch!. Você tem, não tem?
– Hã? – indaguei confusa, eu não usava aquela rede social há muito tempo.
Corri o olhar para Alana como se pedisse socorro, ela correspondeu o olhar com espanto como se soubesse de quem se tratava.
– Anda logo! – exclamou pouco mais baixo que a frase anterior.
– Certo, certo... te mando por um sms. – ri, pensando em como talvez pudesse me arrepender de fazer aquilo.
Desliguei depressa e mandei o torpedo. Ora, quando o mistério é muito impressionante a gente não ousa desobedecer. Fiquei esperando que ele me ligasse de novo ou que mandasse algum torpedo, mas nada. Nada por um grande tempo. Até que por impulso, nervosa pela espera, eu mesma pus-me a retornar a ligação.
– Olá Mitchel, aqui é a Alice você pode responder o meu torpedo? – questionei ironicamente.
– Oh, então esse é seu nome? Pude perceber pelo perfil... – disse ignorando o restante. Ele mostrava um tom distraído e longínquo*.
– Que conversa agradável... – suspirei.
– É, não é?
Eu não respondi. Minutos se passavam e o quase-silêncio me incomodava: permaneci ouvindo apenas respiração dele do outro lado da linha, exceto entre as pequenas pausas que fiz para explicar à Alana o quê estava havendo na esperança que ela se acalmasse – aquele olhar de espanto me deixava tensa.
– Bom, eu te vejo mais tarde Alice. – enfim disse, e aquilo não fazia sentido nenhum.
– O quê?!
Ele tinha desligado. Deixei escapar um gemido de raiva e levei a mão esquerda até a testa, e depois até os cabelos, penteando-os com os dedos. Lana ainda olhava para mim.
– O que ele disse Ali? – perguntou com expectativa.
– “Te vejo mais tarde”, qual é?! Acontece que já é tarde. – falei inconformada, olhando os pontos de luz na escuridão do céu.
– Ali... Isso quer dizer que mesmo tarde, ele ainda vem? – Alana perguntou depois de se levantar e apoiar os cotovelos no meu colo.
– Ah, não. Ele não sabe onde a gente mora... – falei calmamente, refletindo sobre o assunto. Segundos depois me arrepiei porque, percebi, ele poderia ter acesso a tal informação no Itch!. Mudei involuntariamente o tom. – AH MEU DEUS ALANA! AH MEU DEUS... ELE SABE SIM!
“Se você está se sentindo estranhamento ansioso e feliz, das duas, uma: ou está apaixonado ou está louco. No fundo, não faz muita diferença.” Autor Desconhecido.
Notas finais
MOLHO* = Coletivo de chave. Ex. Quase perdi meu molho de chaves no feriado.
LONGÍNQUO* = Que se encontra a grande distância no espaço ou no tempo; afastado, distante, remoto.
Ah, e Itch! é uma abreviação de It chat!. Que, embora vocês já saibam, é uma rede social fictícia que criei para a história.
Se você for esperto, viu que eu citei O Pequeno Príncipe na história. Só avisando aqui, para os mods não me darem uma advertência.
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