How to Coach
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Uma voz bem irritante em sua mente havia dito meses atrás: isso é uma péssima ideia. Tipo, a pior de todas. Mas ele era Yuri Plisetsky, ganhador de quatro títulos mundiais e cinco ouros no Grand Prix. Ele não escutaria sua consciência aleatória.
Como ele gostaria de tê-la ouvido agora.
Porque Yuri simplesmente não sabia lidar com pessoas chorando. Ainda mais adolescentes com transtornos de ansiedade. E adivinhem: Yuuri Katsuki era um adolescente com transtornos de ansiedade. Ótimo.
Ele já devia esperar isso. Quando conversou com o antigo treinador de Yuuri, Celestino Cialdini, ele mencionara o problema.
"— Yuuri é muito inseguro. — o italiano explicara — E isso prejudica suas performances. Mas ele tem talento."
Disso ele já sabia, foi justamente a participação dele na Final do Grand Prix Júnior que chamou sua atenção. Um programa curto perfeito. Ou melhor, quase perfeito. A técnica poderia ser melhorada, mas a apresentação era estonteante. Yuuri Katsuki tinha o poder de conquistar todos com sua dança e expressividade nos movimentos. Era maravilhoso. Por mais que odiasse admitir, ele era muito melhor no quesito "performance" do que Yuri com a mesma idade. Era uma pena que Victor já estivesse na categoria sênior, o loiro iria amar vê-lo perdendo para um desconhecido no mundo da patinação. Talvez resolvesse um pouco daquele egocentrismo do garoto.
Então veio o programa livre e tudo deu errado. Yuuri errou todos os saltos, perdeu o ritmo na dança e movimentou-se como um robô quebrado. Péssimo. Yuri não ficou com pena, ficou com raiva. Como alguém tão bom poderia descer o nível tão rapidamente? Ele tinha que descobrir. Melhor, consertaria aquilo com as próprias mãos.
Para resumir a história, agora Yuri era o técnico de Yuuri na categoria sênior. E as coisas estavam indo muito bem, na verdade. Yuuri obedecia a tudo que ele mandava, aprendia rápido e tinha uma resistência física invejável. Mas havia uma falha. Uma bem pequenininha, que de vez em quando crescia e virava um monstro. A ansiedade.
E ela resolvera atacar agora, pouco antes de Yuuri entrar no gelo para o programa livre na Copa da China.
Como muitas coisas em sua vida, Yuri queria culpar Victor. Sempre é o Victor, ele pensou com a mão sobre os olhos. O garoto parecia dedicar sua vida à arte de irritar o mais velho, sinceramente. Mas não era realmente culpa dele, tinha que admitir.
Isso é o que aconteceu: ele e Yuuri estavam no estacionamento esperando Yuuri ser chamado. O japonês precisava de um pouco de silêncio, por isso o lugar afastado. Então vieram os aplausos ensurdecedores da plateia. Victor Nikiforov acabara de quebrar mais um recorde, com apenas 17 anos. E Yuuri? Bem, ele entrou em pânico.
— E-Eu nunca vou conseguir ganhar de Victor. — o japonês disse com a voz trêmula — C-Como eu pude ser tão estúpido?! Não tem como ganhar dele, não tem como eu chegar aos pés dele.
Plisetsky era um consolador horrível.
— Ei, ei, calma aí. Yuuri. Yuuri, não é assim. — ele disse fazendo o outro se sentar e segurando seu ombros — Relaxa, ok? Vai ficar tudo bem, você só precisa...
— Não tem como! Ele tem pelo menos três quads no programa, eu mal consigo fazer um triplo! — ele estava chorando agora.
Merda, Yuri pensou engolindo em seco. Merda, merda, merda...
— Só idiotas precisam de quads pra vencer, Yuuri. Você não é um deles. — ele disse sério.
— Todos na divisão sênior usam quads! Eu não devia estar aqui, Yuri-sensei. Eu devia estar na divisão Júnior ainda. Eu...eu deveria ter parado de uma vez. — soluços e mais soluços, lágrimas rolando livremente pelas bochechas avermelhadas.
E Yuri queria explodir.
Como resolveria aquilo? Tinha vontade de gritar, mas só pioraria a situação. Yuuri era sensível, não podia lidar com a agressividade do russo agora. Ele precisava de um adulto. Certo, ele era um adulto, mas ele precisava de um adulto mais adulto. Ugh, se ao menos pudesse ligar para Yakov, mas isso seria um golpe muito baixo em seu orgulho. Então ele fez a coisa mais estupidamente lógica no momento.
Ele abraçou Yuuri, murmurando no tom de voz mais doce que conseguia:
— Você é o melhor patinador que eu conheço, Katsuki. Porque você não depende de saltos difíceis pra ganhar o jogo. Você consegue isso com a sua dança, conquistando o público. Isso é patinação artística. E você é ótimo no que faz.
— Mas Victor...
— Foda-se o Victor, Yuuri! — ele disse mais alto do que deveria, segurando o rosto do garoto e olhando em seus, agora assustados, olhos castanhos — Foda-se ele. Victor Nikiforov não é um deus como você vê e os outros mostram. Ele é apenas um garoto. Assim como você, Minami, Guang-Hong. Assim como eu fui. Não tem nada demais nele. E daí que ele conseguiu algumas medalhas? Eu consegui muito mais, e você pode também. Só precisa parar de colocar os outros acima de si. — era como retirar um peso dos ombros. Pronto, falei. Seu medo antes era de Yuuri subestimar Victor, mas aquela conversa era necessária agora.
E Katsuki parecia em choque.
— Yuri-sensei... — ele começou com a voz rouca — Victor não é como os outros. Ele é muito mais. Ele ganhou o Campeonato Mundial Júnior aos 13 anos. Fez um quad flip aos 14. Entrou para os sêniors aos 15 e ganhou. E depois...
O russo bufou e sentou no chão em frente ao mais novo.
— Muito bem, você quer falar sobre Victor Nikiforov? Então vamos falar sobre ele. Victor Mikhailovich Nikiforov é um pé no saco. É o cara mais irritante que já patinou na Rússia. Ele acha que pode fazer tudo que quiser com aquele cabelo perfeitinho de heroína shoujo. — Yuuri segurou a risada — Não, espera, agora você vai ouvir. Ele se acha o melhor patinador do mundo, com seus três quads nos programas. Quer saber de uma coisa? Eu ensinei pra ele os quads. Todos eles. E ele era simplesmente péssimo nos treinamentos. Caía com tudo no chão e ficava lá, parecendo uma massa de waffle.
Já viu galinhas tentando voar? Era Victor aprendendo o quad flip. O senso de equilíbrio era zero. Diz a lenda que se você recitar "Victor Chickenforov" no espelho três vezes, um adolescente dramático vai aparecer e te ameaçar com um spray capilar. É assustador, eu tentei uma vez e deu certo.
Yuuri não aguentava as risadas agora. O único resquício de choro eram as lágrimas secas em seu rosto.
— Pobre Victor...
— Pobre nada, ele é uma tortura. Ele ainda ouve N'Sync. Quem ouve N'Sync em 2015?! Victor. Quem tem medo dos clipes de My Chemical Romance? Victor. Quem tirou 6 na prova de Geografia porque citou Hannah Montana como um estado americano? Victor. — ele sentia muito prazer em enumerar todas as coisas idiotas que Victor havia feito. E estava dando certo, pois Yuuri parecia muito melhor agora.
Mais do que tudo, ele queria mostrar que seu colega de ringue era um cara normal, e não aquela escultura perfeita que Yuuri via.
— Nikiforov apenas tem mais facilidade em algumas coisas e é um grande perfeccionista. Isso garante umas vitórias de vez em quando. — ele concluiu limpando o resto das lágrimas no rosto de seu aluno — Você não precisar ser o Victor pra vencer. Você é perfeito como Yuuri. E foi o Yuuri que me conquistou no último Grand Prix.
Isso fez com que um leve rubor surgisse nas bochechas do moreno e ele desviou o olhar.
Yuri suspirou enquanto se levantava.
— Eu não vou te obrigar a ir lá, mas se há alguém em que eu confio para fazer Victor comer gelo, é você.
Yuuri ficou silencioso por um tempo. O técnico quase pensou que ele iria desistir, mas logo ele respirou fundo e ficou de pé, um olhar determinado de quem não iria cair sem uma luta.
— Vamos lá. — ele disse e começou a andar deixando Yuri para trás.
Ora, ora. Eles crescem tão rápido.
Chegaram a tempo para ver os últimos segundos da apresentação de Guang-Hong. Yuuri já havia retirado o casaco da federação japonesa, revelando o traje preto e carmim que Yuri escolhera.
Então surge Nikiforov das profundezas do inferno.
— Yuuri!~ — ele disse com um sorriso, praticamente flutuando até onde estavam, uma trança prendendo seus cabelos como se ele fosse alguma princesa medieval — Você viu minha apresentação? O que achou? Eu acho que o Biellmann poderia ter sido melhor, mas... — ele parou quando notou algo de estranho, franzindo o cenho — Está tudo bem? Seus olhos estão inchados. Yuuri, você estava...
— Ele está ótimo, Victor. Agora vaza. — Yuri disse entredentes praticamente servindo como um muro humano entre um Victor curioso e um Yuuri um tanto confuso — Yuuri, é com você. Vai lá e acaba com eles.
Yuuri arregalou os olhos.
— Acabar?
— É modo de dizer. — ele revirou olhos — Dê o seu melhor. Boa sorte.
— Oh. — ele pareceu mais confiante — Obrigado, Yuri-sensei. Eu vou destruí-los. — ele falou com um sorriso, levantando o punho.
— É disso que eu tô falando. — Yuri disse não escondendo seu sorriso ligeiramente maléfico — Vai lá.
Yuuri respirou fundo e partiu para o centro do ringue, acenando para a plateia.
— Yuuri, davai! — Victor gritou ao seu lado, fazendo o mais velho revirar os olhos — Yuuri sabe o que significa "davai"?
— Não faço ideia. — ele disse monótono. Na verdade Katsuki estava aprendendendo o básico de russo com ele, então sim, ele sabia o que era "davai". Mas não daria esse gostinho ao seu rival.
— Ele estava chorando. — Victor disse o óbvio — O que aconteceu?
— Por que o interesse, pirralho? Sempre ignorou seus concorrentes. O que te faz mudar de atitude agora? — perguntou arqueando uma sobrancelha.
— Nada, eu só fiquei preocupado. — ele fez um bico — Até que ele fica fofo sem óculos.
Oh, não.
— Certo, agora você pode ir embora. Yakov deve estar te procurando. — o loiro disse praticamente empurrando o garoto na direção em que viera.
— Não está, não. A propósito, posso convidar Yuuri para sair? Eu e Chris íamos provar as comidas locais. — ele parecia animado com a ideia.
Só por cima do meu cadáver.
— Não. — ele disse dividido entre prestar atenção em Yuuri e despachar Victor — Yuuri precisa dormir cedo, amanhã de manhã voltamos para o Japão.
— Você não é pai dele. — ele disse cruzando os braços — Vou convidar mesmo assim. Ele precisa de mais amigos do que um velho rabugento como você.
Agora entendia por que Yakov perdeu 60% de sua cobertura capilar.
— Vitenka, — seu tom era tão falsamente doce que ele quase se ofendeu consigo mesmo — faça-me um favor: evapore. E suma daqui. Eu tenho um campeão para vigiar.
— Seu Yuuri não será um campeão hoje, Yura. Um dia, quem sabe. — ele colocou um dedo sobre o queixo, aquele sorriso de coração irritante no rosto — Sabe, eu não beijo nada que não seja dourado. Mas por ele, talvez eu me contente com prata.
Alguém me mata.
— Victor! — que os deuses abençõem Yakov por salvá-lo tirando Victor dali. Salvar o mais novo, pois Yuri estava prestes a calar a boca dele com os protetores de patins.
A última coisa de que precisava era de Victor interessado em Yuuri. Primeiro, era uma distração para os treinos de seu aluno. Segundo, era Victor. Terceiro, era Victor, o cara que tem as mesmas capacidades empáticas de uma porta. Ele magoaria Yuuri, mais cedo ou mais tarde. E o japonês era sensível. Ter sua atenção captada por seu ídolo para depois ser jogado fora era cruel, ele demoraria meses para se recuperar.
Mas realmente, quem era ele para se intrometer? Era apenas um técnico.
Mais tarde, quando anunciaram a pontuação de Yuuri, Plisetsky gritou. De felicidade porque era um novo recorde pessoal. Depois de raiva porque precisavam de apenas um ponto para alcançarem Victor. Yuuri ficou com a prata.
Não era tão mau. Valia a pena se significava um sorriso de Yuuri no pódio ao lado de Victor e Phichit Chulanont. E Victor pareceu se comportar bem, não passando dos limites como fazia. Talvez Yuri não devesse se preocupar, afinal de contas.
Ser um técnico não era fácil, mas ele gostava mesmo assim.
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