How To Save Two Lives
7 Capitulo 6: Illuminated
Notas iniciais
"É um outro tempo, é um outro dia
Os números são novos, mas está tudo igual
Correndo de você mesmo, isso nunca mudará"
–Give Us a Little Love (Fallulah)
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Elsa deixou Anna voltar para os braços de Kristoff, após a prova do vestido, não havia motivos para segura-la por mais tempo ali e se o fizesse, provavelmente voltaria a chorar.
Não pensou muito para onde ia. Estava perturbada e não era para menos, quando finalmente começava a se adaptar a falta que Anna faria quando saísse em lua-de-mel, Brienne a avisava que também partiria e não podia simplesmente deixar o reino para passar uma semana ou mais junto à Olaf em seu castelo de gelo, por mais que essa fosse a sua vontade. Pensou que talvez fosse hora de achar outras damas de companhia que não fosse a bretã, mas quantas delas teriam tanta confiança para ficar junto da rainha?
Continuou com esses pensamentos na cabeça até estar de frente para a porta da biblioteca. Não sabia o que fora fazer ali, mas não queria trabalhar, nem tinha o hábito de caminhar pelos arredores ou ajudar os jovens cavaleiros a treinar como Brienne, de fato a jovem era bastante útil quando se tratava de ajudar a tocar um reino, mas Elsa tinha quase certeza de que ela não ficava lá apenas por gostar de esgrima ou para “ser útil”.
No corredor ao lado havia uma grande janela que dava para o mar e avistou, ao longe, várias velas brancas com diversos sinais, vindas de todos os parceiros econômicos do país, mas não prestou atenção. Voltou-se para a porta e a abriu com as duas mãos nos trincos.
A sala estava vazia como queria, nem sinal de Hans ou Wanda, no fim, havia uma vantagem em deixa-lo livre pelo andar. Caminhou até uma das estantes altas nos cantos da sala e correu os dedos pelas capas de couro que recobriam os volumes, lendo nomes e autores dos mais diversos.
Ficou com tão dispersa em sua atividade contemplativa que não percebeu o som da pesada porta de madeira se movendo sobre o chão, Hans também não prestou muita atenção para o caso de alguém estar lá com eles.
O príncipe se aproximou da janela mais distante da porta, havia se apegado aquela janela e a estante, principalmente por serem as mais distantes da sala.
— Rainha Elsa — disse ele com a maior cortesia que poderia ter, mas não deixou nem que um pouco de vergonha chegasse aos olhos, não iria se intimidar por causa dela — Não sabia que estava aqui.
Elsa abriu a boca algumas vezes, mas já estava no mesmo jogo e não o deixaria ver que se sentia incomodada com sua presença — Eu já estou de saída. — respondeu pegando um livro qualquer na estante, sem ao menos olhar o título ou o autor e saiu com a cabeça erguida, mas ao passar pelo príncipe ele a agarrou pelo braço com delicadeza e perguntou em um sussurro que a fez se arrepiar.
— Você tem medo de mim?
— Não! — respondeu com simplicidade e calma dissimuladas — Medo eu tenho de mim, medo eu tenho de que algo aconteça com minha irmã ou com meu reino — e então voltou a encarar os olhos verdes de igual para igual — De você eu tenho apenas nojo.
Ele pensou em rebater enquanto apertava com mais força os dedos em torno do braço fino e branco da rainha, mas então lembrou-se do que Brienne lhe dissera e a soltou de repente e ajeitou as roupas que a governanta havia lhe conseguido, não eram roupas pomposas como estava acostumado, mas serviam. Suavizou a expressão de desgosto no rosto então falou.
— De qualquer forma — respirou fundo antes de tocar o rosto frio a sua frente — Eu só queria que soubesse que agradeço por me tirar daquele inferno congelado — ele acariciou a bochecha e então completou — Não sei ainda se acredito em redenção, mas se um dia eu puder ser um homem melhor — decidira se focar em algo que não fosse os olhos azuis e acusadores e passou os olhos para os lábios vermelhos — Saiba que a culpa é sua.
Ele sorriu e viu o peito dela se erguer alguns centímetros quando aspirou o ar e depois soltou.
— Ficou feliz em saber — disse por fim, antes que as trombetas soassem do lado de fora, indicando que algo importante estava acontecendo — Licença.
Ele não respondeu e tinha certeza que ela não ouvira se o fizesse, mas a observou passar com a saia balançando de um lado para o outro em um passo muito mais confiante e apressado que o natural e deixava-o feliz que havia mexido com a rainha daquele modo.
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A viagem das Ilhas do Sul até Arendelle havia sido muito mais tranquila. Toda a calmaria e as tempestades que atingiram a tripulação do Olhos Brancos, o barco da rainha, não passaram nem próximo ao barco que pegou apenas bons ventos no mar.
Embarcaram logo que foi decidido quem iria atá o país nortenho. Freya foi a primeira a embargar e contra todos os protestos de Rayne, foi sozinha, nenhuma serva, nenhuma ama, apenas a princesa e sua bengala de madeira batendo contra a madeira do barco.
Não podia negar que estava contende quando sentiu o barco parar de tremer. Lembrava-se vagamente do quanto gostava de velejar quando era menor, mas agora tudo o que sentia era ansiedade, medo e insegurança com o balançar do alto mar.
— Capitão! — falou Freya estendendo a mão trêmula e tocando a beirada de madeira — Eu acho que vou precisar de uma ajuda.
Ela não podia ver, mas sentiu que o homem se aproximava com passos fortes que ecoavam pelo convés e faziam o barco vibrar levemente em suas mãos.
— Aqui princesa — exclamou ele apoiando a mão dela sobre seu ombro e entregando um pedaço de madeira comprido que ela conhecia bem, sua amiga de sempre.
— Obrigada.
— Não há degraus — exclamou ele enquanto a conduzia pela rampa. Novamente não podia ver, mas pela forma clara que ouvia o canto dos pássaros e os murmúrios indistintos, sabia que todos a olhavam espantados. — Pronto, princesa, você quer ajuda para ir até lá? — perguntou o velho marujo.
— Não será necessário, eu acredito — respondeu com simplicidade — Mesmo assim obrigada.
— Qualquer coisa me chame. — disse ele.
— Não vou precisar — ela retrucou enquanto batia de leve com o pedaço de madeira pelos paralelepípedos do chão, para saber onde pisaria com firmeza.
Seus irmãos já estavam bem adiantados e nenhum deles lhe ofereceu o braço, mas isso era o de menos, já estava acostumada com eles e nem a afetava mais a forma como reagiam a sua deficiência. Engoliu em seco quando ouviu uma criança, não muito longe perguntar.
— O que ela tem nos olhos? Ela é uma bruxa?
— Não meu amor — ouviu a mãe ou qualquer outra mulher que fosse responsavel por ele — Ela é apenas cega.
— Não! — insistiu o menino — Ela tem uma coisa tapando os olhos, isso é para impedi-la de fazer magia.
— Você tem certeza? — perguntou uma terceira voz, que parecia bastante animada com a ideia — Mas ela é uma bruxa boa ou má?
— Se ela é bruxa, ela é má — respondeu um segundo menino, a essa altura parecia que a mãe já não queria mais se meter na discussão das crianças, pois se calara totalmente.
— A rainha Elsa não é má — respondeu a menina com uma voz chorona.
— Mas ela não é uma bruxa — respondeu o primeiro menino, um pouco grosso demais.
Freya parou no mesmo momento e estalou a língua nos dentes, até as crianças se calaram, era como se toda a Arandelle estivesse segurando a respiração, esperando o que a mulher iria fazer.
— Miriade, volta! — ela ouviu uma voz de mulher mais velha sussurrar e logo em seguida um puxão em suas saias.
— Miriade? — perguntou com um sorriso nos lábios grossos, mas a menina não respondeu — Esse é o seu nome? — perguntou, tentando encoraja-la a falar — Queria me fazer uma pergunta?
— O que você tem nos olhos? — perguntou a garota com uma coragem única e mesmo os pássaros se calaram.
— Isso? — perguntou a princesa apontando para a venda — Você sabia que eu sou uma princesa? — perguntou se abaixando e estendendo a mão na esperança de conseguir saber onde a menina estava e, após longos segundos, a menina se aproximou.
— Dá onde? — perguntou segurando uma das mãos da princesa.
— De um lugar conhecido como Ilhas do Sul — ela sentiu a menina recuar um pouco e sabia, mesmo sem ver, que tinha os olhos arregalados — Mas está tudo bem, eu vim buscar o príncipe Hans, eu sou irmã mais velha dele e vim dar uma bronca bem feia pelo que ele fez.
— Mas porque você tem isso nos olhos? — perguntou a menininha, tocando a venda de um amarelo claro.
— Quantos anos você tem? — ela não respondeu, mas soltou a mão da princesa, que soube que a menina estava mostrando com os dedos e riu da inocência enquanto tentava identificar quantos dedos ela tinha erguido — Seis? Sete?
— Seis — respondeu ela, mais animada.
— Eu acho que contei um dedo a mais — Eu também tinha seis anos e uma estava muito mal, mas uma fada apareceu no reino dos meus país e me curou, mas eu perdi a visão.
— Freya! — ela ouviu a voz da mãe ao longe e se levantou.
— Aquela mulher ali — ela disse apontando — Você a está vendo?
— Sim — respondeu a menina animada.
— E ela é bonita?
— Muito — respondeu ainda mais animada.
— Você pode me levar até ela? — perguntou mais uma vez e a garotinha a segurou pela mão e conduziu até onde a rainha Wanda se encontrava com os braços abertos.
— Você é louca minha filha — respondeu enquanto a filha corria os dedos pelo rosto da mãe — E obrigada… — disse a mulher olhando para a jovem.
— Miriade — completou a princesa.
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— Rainha Elsa — chamou o jovem na ponta do primeiro degrau da escada.
— O que houve Joram? — perguntou ela enquanto descia as escadas, com o livro ainda sob os braços — Onde está o seu pai?
— Recepcionando os príncipes das Ilhas do Sul que acabaram de chegar. — disse o rapaz — Ele me mandou atrás da senhorita para que pudesse recebe-los no salão de petições.
— Mas eles não chegariam apenas amanhã? — perguntou enquanto rumava a passos largos para o local que o jovem havia indicado.
— Segundo Kai — ele respondeu enquanto tentava acompanhar a rainha meio em vão — Eles devem ter pego ventos bons no caminho para cá e isso adiantou a viagem em um dia.
Ela suspirou — Eu definitivamente não estava pronta para isso — ela respondeu com as duas mãos na porta e antes de entrar falou para o jovem — Pelo menos Anna ficara feliz em adiantar o casamento, mesmo que em um dia.
Ele sorriu e ficou na porta, apenas observando. Elsa sentou-se em seu trono e viu que um dos homens se adiantou.
— Rainha Elsa — disse sem qualquer reverencia — Sou Manfred, o nono príncipe das Ilhas do Sul e o encarregado pelas cadeias das Ilhas e, principalmente, pela prisão de Hans.
— Uma prisão da qual não tomei consciência que seria passada para Arendelle — ela respondeu com a mesma insolência do homem, Wanda ficou surpresa com a reação de Elsa, que havia sido compreensiva com ela, mas agora tratava Manfred de cima — Ouvi falar de você. — ela ergueu a mão e Manfred pareceu um pouco relutante em pegar a mão pálida e beijar, mas o fez em sinal de respeito.
— Esses são meus irmãos, eles também estão encarregados do julgamento de Hans — disse casualmente, esperando que isso lhe diminuísse a culpa com a rainha — Alvan e Bjorn.
Os dois se aproximaram, Alvan queria demonstrar força e apenas acenou com a cabeça, mas Bjorn tinha a intenção de receber um premio maior. Aproximou-se da rainha e lhe pegou a mão.
— Imagino que não me conheça — disse com os olhos brilhando na expectativa de agradar a mulher — Mas estive aqui para buscar Hans depois daquele terrível incidente.
— Sim, eu o vi de longe — ela respondeu sem lhe dar qualquer atenção mais importante, Bjorn era o mais parecido com Hans entre os três e era impossível evitar a comparação quando estivera com o homem à tão pouco tempo e o cheiro dele ainda queimava em suas narinas. — E ela? — perguntou olhando a jovem com os olhos vendados.
Ela se aproximou com passos incertos enquanto batia, calmamente no piso enquanto o outro braço se apoiava na mãe — Eu sou Freya — disse com calma enquanto se curvava um pouco sem jeito — Décima segunda filha da rainha Wanda com o rei Bertram e única princesa das Ilhas do Sul.
Elsa se levantou e desceu até a jovem. Estava com muita vontade de perguntar sobre o que havia acontecido com os olhos da princesa, mas tinha medo de parecer muito rude, então apenas disse.
— Sejam todos bem-vindos. Teremos o casamento de minha irmã, a princesa Anna, amanhã pela manhã — disse em tom convidativo — Então fiquem a vontade para aproveitar. — Então se curvou ainda mais sem jeito que a princesa cega e disse — Se me dão licença, eu tenho coisas a resolver.
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— Brienne — a rainha chamou enquanto a jovem cuidava de algum cavaleiro novato ferido em uma briga de espadas, mais tarde se lembraria de perguntar com quem ele estava lutando que fora tão bruto, mas não tinha tempo para essas coisas agora. — Podemos conversar a sós? — perguntou quando a moça olhou para ela.
Brienne rolou os olhos e passou umas das pernas pelo banco, sussurrou algo para o jovem escudeiro e caminhou em direção a rainha.
— Qual o assunto? — perguntou quando as duas já se encontravam sozinhas no escritório da monarca.
— Freya — ela disse com simplicidade — Porque não me contou que a princesa era… — ela pareceu procurar as palavras certas, mas quando voltou a falar, sua voz saiu em um fio — Cega!
— Que diferença isso faria? — perguntou se sentando de frente para a amiga e soberana — Ela nem irá vir, Rayne nunca a deixaria sair das Ilhas do Sul.
— Você deveria passar mais tempo trancada em bibliotecas e menos machucando escudeiros apenas para tratar seus machucados — ela ergueu as sobrancelhas, mas não deixou o rubor subir as faces, nunca deixava. — Porque ela está aqui.
— Isso é impossível, Elsa — respondeu, só então corando. Não se importava de ser censurada por modos que aprendera com a mãe quando atingira uma certa idade, mas não admitia estar errada, por mais que estivesse — Não é possível — resmungou se levantando para pegar um dos mapas e analisa-lo — A viagem é muito longa, mesmo que tenham embargado quando a carta chegou, eles ainda demorariam mais um dia para chegar. — ela fez uma pausa enquanto corria os dedos pelo mar.
— Eles tiveram ótimos ventos — respondeu a rainha.
— Mesmo assim, Freya não viria — ela insistiu batendo com os dedos na mesa — Rayne nunca deixaria.
— Mas ela está — retrucou a rainha — Com uma venda amarela nos olhos.
— E qual o problema? — perguntou sem entender o drama que Elsa fazia pelo simples fato da jovem princesa ser cega.
— Eu não soube o que fazer — respondeu olhando para as mãos — Eu não sabia como perguntar o porque ela perdeu a visão.
— Só isso? — perguntou encarando a rainha com desconfiança — É uma história velha, eu escuto desde que nasci. — a rainha continuou a encara-la com incredulidade. — Se você quiser eu te conto, a um preço?
— Qual? — perguntou a loira.
— Quero saber como foi seu primeiro encontro com Hans — respondeu caminhando para trás da rainha, que ainda parecia receosa com a situação — Eu conheço muitas histórias e nasci com essa terrível… maldição — ela continuou colocando as duas mãos nos ombros de Elsa — Chamada curiosidade.
— Tá bom, você venceu — se rendeu levantando da cadeira — Eu conto.
O silêncio se formou e nesse espaço de tempo, Brienne ocupou uma das poltronas que ficavam próxima a lareira, até que a rainha percebeu que teria jeito, ela teria de contar primeiro e só depois a garota decidiria se valia ou não a pena contar o que ela queria ouvir.
— Tudo começou há alguns meses na minha coroação — Brienne ensaiou interrompe-la, mas decidiu-se por ficar calada e deixa-la prosseguir — Eu não queria receber ninguém nem para a coroação, menos ainda antes, mas ele insistiu com o duque que queria porque queria ver me ver e se eu negasse seria uma prova de que eu não tinha condições de governar — ela fez uma pausa e então continuou — Então eu aceitei recebe-lo, mas apenas ele, sem o duque. Foi estranho Brienne — ela exclamou olhando pela janela — Ele era tão radiante e galante que pensei que tinha vindo direto de um conto de fadas.
— Pois é, Anna pensou o mesmo — respondeu a outra, interrompendo a história.
— Sim, mas a diferença é que eu nunca me deixaria iludir por isso — ela respondeu — Eu nem o deixei se aproximar e Kai passou o tempo inteiro regulando a aproximação dele e é isso. — ela concluiu após uma pausa — Agora sua vez.
— Freya! — disse a bruxa depois de passar alguns segundos julgando se deveria pressionar Elsa para contar mais ou se seria invadir demais o espaço da rainha — Freya nasceu com alguma coisa, não sei o que foi, mas minha mãe estava em viagem pelas Ilhas do Sul e ajudou a rainha a salva-la, mas o feitiço teve um preço bastante caro para ela. — o rosto da bruxa se tornou sombrio quando abaixou os olhos, Elsa não sabia o que falar, mas ficou aliviada quando a outra retomou a história — Ela nunca mais foi para as Ilhas do Sul e eu nunca conheci, mas é bom saber que ela esta viva ainda.
— E que doença era essa? — perguntou Elsa curiosa.
— Isso eu não sei também. Sinto muito.
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"Nós estamos todos iluminados,
Luzes estão brilhando em nossas faces [cegando-nos].
Nós estamos, nós estamos cegos!"
–– Illuminated (Hurts)
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